Lancaster e Visconti

Em 1983, após uma sessão de Os Assassinos, de Robert Siodmak, o astro Burt Lancaster conversou com o público presente no Nuart Theatre em Los Angeles. Na ocasião, o ator falou, entre outras coisas, da experiência de ter trabalhado com o diretor Luchino Visconti em dois filmes: O Leopardo e Violência e Paixão. As declarações foram registradas por Philippe Garnier.

Nunca conheci equivalente de Visconti em Hollywood, apesar de ter trabalhado com grandes. Há uma cena de O Leopardo em que o príncipe tem uma grande fúria contra o sobrinho Tancredi, que quer se juntar aos aventureiros de Garibaldi. O príncipe manifesta enorme desprezo por sua própria classe, ao se dar conta de que os nobres sicilianos ou italianos são preguiçosos, ineficazes, sem vitalidade – ossificados, se se quiser. Mas sabe que nem por isso as coisas mudarão. Em suma, fica perturbado com a partida do sobrinho; e quando o rapaz – aquele belíssimo rapaz, como certamente era então Delon -, desatando a rir, beija o tio na bochecha e lhe diz “Tenho de partir”, o príncipe só lhe responde, num tom de impaciência: “Está bem, vai-te”. Mas é por fúria, está muito comovido, mas não quer mostrá-lo. Represento a cena para Visconti e ele diz: “Não, não está bem. Não gostei disso, não gostei disso… Traga o livro!”. Um assistente traz-lhe o livro, e ele mostra-me no romance de Lampedusa aquela passagem muito breve em que se lê: “O coração do príncipe apertou-se”. E Visconti diz-me no tom mais natural: “Queria ver isso”.

 

[Neste ponto, Lancaster detém os risos com um gesto peremptório] E o mais bonito é que eu sabia exatamente o que ele queria dizer. A sério. Precisamente um tipo de sugestão que inspira um ator. Repeti a cena e ele disse simplesmente: “está perfeito”. Mas foi a única vez que ele me dirigiu realmente, de maneira tão concreta.

 

(…)

 

Um ator tem de insistir sempre em certos truques; deve ser ele próprio, mas como a personagem. Nunca perder sua identidade, em nenhum caso, porque é a coisa mais preciosa que tem, e em qualquer altura pode ir lá esgravatar um truque que lhe serve de ajuda. Mas, no caso de O Leopardo, eu estava realmente muito longe de minhas águas, e tinha de me apoiar em Visconti, pelo menos em parte. Mais tarde, aprendi a conhecê-lo; sabia que o homem velho que eu representava em Violência e Paixão era o próprio Visconti; aliás, ele me disse: “É a minha vida, sou um homem muito só, nunca soube amar, nunca tive família”. Queria dizer que nunca tinha fundado família. E procurava as razões; mas há outros aspectos de sua vida que não admitia tocar, e creio que o filme teria beneficiado grandemente se ele pudesse fazê-lo.

As declarações de Lancaster estão no livro Luchino Visconti, de Alain Sanzio e Paul-Louis Thirard (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1988; tradução de Regina Louro; pgs. 199 e 200). Acima e abaixo, o ator em O Leopardo.

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