xenofobia

A Trama, de Laurent Cantet

Estimulados a criar uma história de ficção, os adolescentes não conseguem escapar à realidade – à deles, à do país em que vivem e, ainda mais, à do momento, com os ataques terroristas promovidos por radicais islâmicos. A roda jovem, por sinal, levanta discussões que passam do diálogo saudável a ânimos exaltados, à quase violência.

O diretor Laurent Cantet outra vez aposta no diálogo. Ou em sua dificuldade, nas palavras que se cruzam e nem sempre deixam entender. Fica a impressão – como em alguns momentos importantes de A Trama – do contraditório. Aos jovens em cena, nem sempre é possível sustentar uma ideia sem parecer um pouco radical.

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O jovem protagonista não será explicado com facilidade. À maioria dos espectadores, é provável que Antoine (Matthieu Lucci) seja presa fácil ao discurso político nacionalista que visa defender territórios e expulsar “estrangeiros” – mesmo quando este conceito, em um país tão miscigenado como a França, escape da definição fácil.

Cantet lança Antoine primeiro ao olhar do público, depois ao da professora à frente desses encontros entre jovens, em uma oficina voltada à criação literária. Ela, escritora, chama-se Olivia Dejazet (Marina Foïs), tem alguns livros no currículo e chama a atenção de Antoine. Ambos tentam se descobrir, quebrar a barreira que os separa.

Os adolescentes constroem juntos o que pode ser uma trama de assassinato, o início de um livro. Surgem sugestões: um corpo em um iate de luxo, um assassino cruel, árabes e franceses, o sentimento de rancor que migra da realidade em que vivem àquela suposta ficção que ganha tons políticos para além das voltas policialescas.

As ideias de Antoine assustam: o jovem sugere que o assassino deve ser árabe, a vítima um típico francês. Poderia, claro. Mas, no caso do garoto, a escolha revela um sentimento de ódio, o que alguns atos, aos olhos de Olivia, só confirmam: os vídeos que posta em uma rede social, com amigos, com arma à mão, com o rosto sujo de lama.

Impressiona, em A Trama, o que cerca as personagens, todas as diferenças que dão espaço a uma curiosa semelhança: o desejo por contar histórias. O que mais confronta Olivia talvez seja a qualidade dos textos de Antoine, seus detalhes, a delicadeza apesar do conteúdo, como o sangue que indica pelas palavras, e que gera repulsa nos outros adolescentes.

Correm por ali os restos da história da cidade em que vivem, fincada em rochas, tocada pelo oceano. A história que retorna em filmes antigos, quando, em La Ciotat, a crise de desemprego levou muitos trabalhadores à desgraça – ao suicídio, ao alcoolismo, ao drama de não se ter nada, como recorda um homem que serve de guia pelo mesmo estaleiro.

Do que restou dele, ainda com suas estruturas, com sua torre que pode ser vista de longe pelos mesmos jovens inclinados a pensar o tempo em que vivem, não o tempo passado. A grandeza desse filme de Cantet reside justamente nesse conflito entre tempos, na nova direita que se projeta no espaço de resistência dos trabalhadores, de passado não tão distante.

Em qualquer caso, na ficção de diálogos ásperos ou nas antigas filmagens da vida à sombra do estaleiro, a realidade pulsa no cinema de Cantet. Parte dela, das relações possíveis mas nem sempre prováveis, o olhar da professora ao aluno, do aluno à professora. Da intelectual e escritora ao jovem que pode ser mais um entre tantos a se fundir às fileiras do extremismo que visa fechar barreiras, de discurso totalitário.

A atração dela pelo menino reserva-se à ideia que o mesmo parece emitir, pela constatação do mal que representa – tão perto, tão verdadeiro. Ele, por sua vez, vê-se atraído pela mulher formada, pelas palavras de seu livro, pela vida distante e confortável que projeta. Tentar invadir a realidade do outro, para ambas as personagens, pode ser traumático.

(L’atelier, Laurent Cantet, 2017)

Nota: ★★★★☆

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O Outro Lado da Esperança, de Aki Kaurismäki

O mundo atual esconde-se sob a aparência da segurança e da justiça. Puro disfarce. Tal constatação, em O Outro Lado da Esperança, não é novidade no cinema de Aki Kaurismäki. Seus seres de faces petrificadas atestam esse mal-estar o tempo todo, em filmes anteriores, em jornadas que nem sempre levam a muito longe.

Cinema de personagens atoladas no que a Europa, hoje, parece ter se transformado: um disfarce, uma propaganda do bem-estar social. Essas pessoas não precisam da palavra, que em momento ou outro cai em desuso: elas apenas observam, tristes, ou apenas se locomovem para negar a morte. Uma das personagens de O Outro Lado da Esperança, a certa altura, resume bem a questão: “Morrer é fácil. Prefiro viver”.

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Nesse estado em que se desenha a falsidade, o imigrante precisa se disfarçar, usar outra identidade para viver ali; no restaurante em que passa a trabalhar, ele, outros funcionários e todo o ambiente são decorados com peças e figurinos japoneses para receber uma freguesia oriental. Disfarçam-se para sobreviver, para seguir em frente, diz o autor Kaurismäki.

Curiosa, por sinal, uma das primeiras cenas, quando o mesmo imigrante, um refugiado vindo da Síria, sai do meio do carvão, sujo da cabeça aos pés, para cair nas ruas da Finlândia. A chegada dá a exata ideia do tamanho do problema: ele nasce sob a sujeira, nasce para não conseguir se disfarçar, entregue como está à personagem que veste: ele não pode ser outra coisa senão um visitante sujo e sem nada.

Após tomar um banho, consegue chegar à delegacia. Tem nome, rosto, tem vida e passado. É Khaled (Sherwan Haji), protagonista acidental, perdido, mas firme, de palavras certeiras, descrente. A mulher que o interroga – após ter as digitais lidas, após ser marcado como número e levado a uma cela, como prisioneiro – pergunta se ele possui religião. O rapaz diz que não. Ela classifica-o como “ateu”. Ele diz que não é isso.

Ainda resta uma esperança, como parece dizer, ao fim, seu sorriso – apesar da situação lamentável em que se vê. À frente, uma muralha de fábricas ocupa sua visão, ou o impede que veja além: subida de chaminés, de construções antigas de um continente cuja humanidade deu vez às mesmas e velhas arquiteturas, a um passado incontornável, ao velho sonho daqueles que para lá partiam: encontrar emprego.

Khaled encontra. E, nele, esbarra em outra personagem importante. É o patrão, Wikström (Sakari Kuosmanen), aparentemente rude, sem coração, pronto para estender as garras – mas nem tanto – do capitalista explorador. Decide, a exemplo do refugiado, mudar de vida. Deixa a mulher, deixa o antigo emprego e, após vender seu estoque de camisas e ganhar dinheiro em jogos de roleta, compra o restaurante onde o sírio encontra emprego.

Como no anterior O Porto, Kaurismäki leva à proximidade entre europeus e refugiados. Retira de todos, de qualquer lado, a interpretação excessiva, o exagero. Prefere expressões leves, silêncios, pequenas indicações que, afinal, dizem tudo o que é necessário saber sobre essas pessoas. A elas somam-se seus conhecidos planos-detalhe, de objetos que também ajudam a compreender o drama e as figuras em cena.

Pelas ruas, xenófobos nacionalistas agem para tentar retirar a máscara dos perseguidos. Ou, ao contrário, para colocá-la de vez naqueles que são, não se nega, seres humanos: os criminosos atacam porque os outros pertencem a uma diferente nacionalidade ou país, porque estariam ali – na visão grosseira – para “furtar” o emprego dos locais.

O Homem Sem Passado, de 2002, é semelhante: Kaurismäki conta a história de um imigrante suíço que, ao chegar à Finlândia, é atacado por criminosos e perde a memória. Como o sírio que nasce – ou renasce – das cinzas, ele precisa criar uma máscara para si para viver nesse meio em que o dinheiro venceu, mas que ainda tem um pouco de humanismo.

(Toivon tuolla puolen, Aki Kaurismäki, 2017)

Nota: ★★★☆☆

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