Wim Wenders

O Homem do Oeste, de Anthony Mann

O herói demora para ganhar força – ou tomar a arma – e assumir sua velha máscara. O tio barbudo, mais velho, fala de alguém que assaltava e até explodia a cabeça dos outros. Difícil pensar em alguém assim ao se deparar com Cary Cooper – ou, fosse o caso, com James Stewart, protagonista de outros vários faroestes de Anthony Mann.

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O homem que aqui representa o Oeste – um gênero, o espaço mítico, a forma esperada para o pistoleiro que habita esse ambiente – é o que vacila, que não quer olhar para trás, que, à forma que Cooper sabia fazer como ninguém, aparentemente fraco demais para vencer os sujos e matutos que se impõem, não quer estar ali.

O primeiro obstáculo a ser vencido por Mann – o mais difícil – é fazer o homem de antes tornar-se o deslocado da vez, bondoso, que se sacode pela estranheza do movimento do trem. O grande meio de transporte, representação da prosperidade, faz pensar também no homem que evoluiu, que precisa ser outro para seguir em frente.

Personagem que, em O Homem do Oeste, resiste às pressões, o quanto pode, do passado. O que antes viveu surge-lhe ao acaso, ou nem tanto. Não há coincidências aqui: Mann, habilidoso, filho do cinema clássico americano, opera no reino das representações, levando o suposto herói àquilo que o oeste no fundo significa: a violação.

Isso possibilita entender por que o herói e seus algozes não encontrarão riqueza alguma na pequena cidade que serviria de abrigo a um banco. O local não tem nada além do vazio e uma senhora mexicana armada, de olho nos homens brancos que por ali aportam. O tempo passou. Os brancos foram embora com suas riquezas para locais mais seguros.

Os pistoleiros que sequestram Link Jones (Cooper) ainda vivem no velho espaço em que basta invadir para tomar, em que era possível aplicar, em pequeno bando, o grande golpe. A começar por Dock Tobin (Lee J. Cobb), ao que parece eles ficaram muito tempo presos a uma cabana no meio do nada, à espera de algo para retirá-los dali.

Após assistir ao assalto do trem que o levava, Link termina fora do veículo na companhia do apostador Sam (Arthur O’Connell) e da bela cantora Billie Ellis (Julie London). Sem caminho, em lugar algum, Link leva-os ao covil dos bandidos e antigos comparsas. O retorno é inevitável: representa sua própria impotência perante o passado.

Enquanto prova ter mudado, o herói ganha o coração da mulher, talvez uma prostituta sob disfarce. Como ele, portanto: alguém que se esconde, que quer amar, que rejeita as ordens de cães que gritam e salivam, que ameaçam seu novo companheiro caso ela não retire suas peças de roupa. Alheio, ao mesmo tempo dominador, Dock às vezes interfere.

O faroeste leva invariavelmente ao selvagem: na primeira oportunidade, Link mostra aos vilões que ainda guarda algo animal. Luta com um dos pistoleiros enquanto Mann aposta em seus pequenos movimentos, dificuldades, tropeços, suor e sangue – e poucas vezes uma sequência de briga pareceu ao mesmo tempo tão enrolada e palpável.

O mal-estar pelo tempo, ou a beleza pela contemplação do Oeste expandido pelas lentes de um mestre: o espaço do mito que retorna às armas e aos cavalos, que cresce como herói e sai para matar bandidos, é igualmente o espaço da selvageria nunca ocultada, do sentimento de que o sangue sobre a terra, de homens barbados, prevalece.

Cooper, esse homem do oeste, cavalga para se eternizar, nem parece velho demais. Ganha pelo charme. Nos momentos finais, quando se descobre amado, qualquer palavra vinda da mulher soará possível: ama-se antes o que ele representa, sem que se tenha o homem por inteiro, em profundidade. Seu passado – ou o que fica entre a vida de bandido e o surgimento do herói deslocado – é incerto. Revelá-lo não faz sentido.

O cineasta Wim Wenders declarou ter aprendido a arte de fazer cinema vendo um ciclo de filmes de Anthony Mann na Cinemateca Francesa, em especial O Homem do Oeste. A perfeita alternância dos planos, os movimentos e a direção que comprime o vasto espaço americano são, como percebeu o alemão, amostras de um cinema maior.

(Man of the West, Anthony Mann, 1958)

Nota: ★★★★★

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O filme que ensinou Wim Wenders a fazer cinema

Foi com esse filme, O Homem do Oeste, que de repente eu entendi como os filmes são feitos. Eu era finalmente capaz de ler toda aquela arquitetura. Claro que poderia ter acontecido com outros filmes – mas, não por coincidência, aconteceu com os de Anthony Mann. Ali, eu percebi como uma cena era construída com planos abertos – Mann fazia planos abertos fantásticos. Só outro mestre, John Ford, alcançava a perfeição de seus planos, planos médios, closes, planos gerais, planos em movimento e steadicam. Claro que você pode aprender isso em qualquer filme, mas eu aprendi a arte de fazer cinema com uma série de filmes de Anthony Mann exibida na Cinemateca [Francesa] – e especialmente com O Homem do Oeste. (…) Em O Homem do Oeste, entendi como um cineasta pode guiar seu olhar, te deixar confortável e te colocar no meio da cena. Entender isso foi um longo passo para mim, quase uma revelação.

Wim Wenders, cineasta, em depoimento ao ciclo Os Filmes da Minha Vida, da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, publicado no livro Os Filmes da Minha Vida 3 (Imprensa Oficial; pg. 21). Abaixo, Gary Cooper em O Homem do Oeste.

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Bruno Ganz (1941-2019)

(…) como ator, como Bruno Ganz, às vezes tive a sensação de que estava fazendo algo extraordinário e, em certos momentos, até celestial. Mas o que mais me tocou foi que durante vários meses depois do lançamento do filme, quando as pessoas – especialmente mulheres – me reconheceram, em Berlim ou em outro lugar, os olhos arregalavam e eles diziam: “É o anjo da guarda”. Na verdade, [o papel] me levou para um anjo. E as pessoas nos aviões disseram: “Ah, não precisa ter medo, porque, com você aqui, nada pode acontecer. Agora estamos a salvo”. Ou uma mãe disse ao filho: “Olha, tem o seu anjo da guarda”. Eles não estavam brincando. É claro que eles sabiam que somos homens e mulheres reais, mas de alguma forma … É estranho. Eu não sei o que realmente aconteceu. Essa foi uma sensação incrível. Eu amei isso. Porque isso significa muito mais do que as pessoas dizendo: “Você é um ator muito bom” ou “Adoro o seu trabalho”. Se eles disserem: “Oh, você é um anjo”, é como um milagre. De alguma forma eu me tornei um anjo, e quem, exceto eu, experimentou isso em vida?

Bruno Ganz, ator, sobre sua experiência com Asas do Desejo, no qual interpreta o anjo Damiel, em A Danish Journal of Film Studies (número 8, dezembro de 1999; pg. 50; veja aqui em PDF; a tradução é deste site). Abaixo, Ganz em Asas do Desejo.

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Bastidores: Era Uma Vez em Tóquio

(…) no começo da década de 70, quando eu estava em Nova York pela primeira vez e já tinha feito dois ou três filmes, um dia um amigo me perguntou se já tinha visto os filmes de certo diretor japonês. Seu nome era impronunciável e eu nunca tinha ouvido falar dele. Mas meu amigo insistiu e me disse: “você vai gostar dele”. Então eu fui a uma sessão vespertina de um filme chamado Era Uma Vez em Tóquio. Este é o filme da minha vida. Claro que não esperava muito, mas a partir da primeira cena, fui atingido como nunca antes numa sala de cinema. Sentei-me com os olhos abertos, a boca escancarada, e chorei durante a maior parte do filme – mas nem percebi. Não conseguia acreditar no que via. Ali estava a história mais simples que tinha visto na vida. A história de uma família: um pai, uma mãe, seus filhos crescidos e netos. Havia ali casamentos e funerais; eles trabalhavam, comiam, conversavam, caminhavam. Nada espetacular, nada que nem de longe lembrasse uma história. Mas era mais cativante que as melhores aventuras que tinha visto até então. Fiquei ali, sentado, até o fim da última sessão do dia. Vi aquele filme quatro vezes seguidas, e ao final, eu sabia bem o nome do cineasta e tinha certeza de que não me esqueceria dele pelo resto da minha vida: Yasujiro Ozu. Ele me mostrou o que eu nem sabia que poderia existir. Algo como um paraíso perdido no cinema, onde as coisas finalmente são nada mais que elas próprias. Onde não existe medo algum, apenas a vida como ela é.

Wim Wenders, cineasta, em depoimento ao ciclo Os Filmes da Minha Vida, da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, publicado no livro Os Filmes da Minha Vida 3 (Imprensa Oficial; pgs. 24 e 25). Abaixo, a atriz Setsuko Hara é dirigida por Ozu nas filmagens de Era Uma Vez em Tóquio.

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Harry Dean Stanton (1926–2017)

O cineasta alemão Wim Wenders planejava um road movie nos EUA. Um filme escrito por Sam Shepard, sobre um derrotado que parte com o filho em busca da mulher. No imaginário de Wenders, Paris, Texas seria uma variação da Odisseia. O pai ausente. O filho Telêmaco. O filme recebeu a Palma de Ouro em Cannes, fez sucesso de público e crítica em todo o mundo. De repente, aos 58 anos, Harry Dean Stanton virou cult. Iniciou-se outra carreira e, entre outros títulos de prestígio, participou de Twin Peaks e Império dos Sonhos, ambos de David Lynch.

Luiz Carlos Merten, crítico de cinema, no jornal O Estado de S. Paulo (leia o texto aqui). Abaixo, Dean Stanton em Paris, Texas.

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