western

O Homem dos Olhos Frios, de Anthony Mann

O dono dos olhos frios ao qual o título brasileiro refere-se – outra amostra de certas escolhas curiosas dos distribuidores locais, a desviar e muito do original – é certamente o pistoleiro de Henry Fonda. Sua frieza deve-se ao seu passado, ou, mais ainda, à sua aura mítica: é o caubói que chega à cidade sozinho, experiente, que logo faz amizade com uma criança.

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Tipo de herói estranho – nem tão herói assim, na verdade – que pede para não ser visto, mas que nunca passará incólume nessa história, como se imagina. A criança, como em Os Brutos Também Amam, lançado alguns anos antes, serve para humanizá-lo, para ser os olhos da plateia: de baixo para cima, para não se ter dúvida da grandeza.

O passo seguinte, no extraordinário O Homem dos Olhos Frios, é estabelecer a personagem que confrontará o recém-chegado. O papel cai no colo do também ótimo Anthony Perkins, o jovem xerife da cidade, alguém que, ao contrário do outro, ainda não se deixou desiludir pelas chamadas “coisas do mundo”, à contramão da lei.

O filme de Anthony Mann sequer tem vilão. Os homens lutam contra seus destinos, contra um espaço de injustiça; tentam afastar a barbárie da civilização. Sedimentar o caminho para a segunda, quase tomada pela primeira, é o desafio posto para o xerife, que passa a contar com a companhia do recém-chegado, no fundo alguém honesto.

O xerife Ben Owens (Perkins) tem a lei, a insígnia, ainda que lhe falte a prática de matutos como Morgan Hickman (Fonda). Seu aprendizado não exclui – nem poderia – a intimidade com a pistola – o giro, o tiro, talvez o acerto. Seu crescimento é paralelo à aproximação do outro (cada vez maior) ao público, que ganha uma nova família.

Na pequena cidade, Morgan surge com um homem morto sobre seu segundo cavalo. Como os outros o definem, é um caçador de recompensas. Já foi xerife, perdeu a família e resolveu cair no mundo – não antes de abandonar a insígnia, símbolo maior da validade da lei em uma certa civilização nascente, atacada por alguns seres sujos e violentos.

Curiosamente, a civilização pertence mais aos ingênuos e, como se prevê, aos sonhadores detentores de símbolos e títulos. De certo, ainda que não totalmente, alguém como Morgan foi atraído à barbárie, à vida de caçador de recompensas, paradoxalmente alimentada pela lei.

Não estranha que os outros falem de sua condição como se fosse a de um bandido qualquer, tão bandido quanto aquele que carrega no lombo de seu segundo animal. O espectador, como a criança, logo o reconhece: por trás da forma livremente triste, esculpida a histórias que dispensam contação, eis um companheiro, talvez um herói.

Ao homem de Perkins fica, primeiro, o vacilo, a inexperiência, maneira desavergonhada como corre atrás do outro para tê-lo como professor. O público entende a segurança que representa. O Homem dos Olhos Frios é uma espécie de “faroeste social” sobre a relação dessas figuras contra parte da sociedade que prefere a ausência da lei, homens que, apesar das diferenças, precisam trocar algo para que o bem prevaleça.

Do homem de Perkins retira-se a figura que se encanta com facilidade, a de um garoto virgem sob as saias da mãe, incapaz de sustentar o peso da arma – o que explica a escolha para viver, pouco depois, o Norman Bates de Psicose. Sua dubiedade nunca o faz infantil demais; é o adolescente indeciso, figura imatura àquele reino de homens de pedra.

A fotografia em preto e branco realça o bruto que o cerca, também os contornos do homem que envelheceu cedo demais: Fonda. Leva ao público realismo, sombras que recobrem essas mesmas personagens do oeste. Do interior da sala do xerife, de janelas altas, o mundo externo insinua-se perigoso, sempre à vista, a perturbar.

(The Tin Star, Anthony Mann, 1957)

Nota: ★★★★☆

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O Dia da Desforra, de Sergio Sollima

Almas em Fúria, de Anthony Mann

Os negócios prosperam enquanto pai e filha vivem lado a lado. Depois da morte da mãe, a moça não acredita que os espaços ao redor – o quarto da falecida, a fazenda, sobretudo o coração do patriarca – possam ser ocupados por outra mulher. Mas o inesperado ocorre: o velho tem nova companhia. A filha, em segundo plano, enfurece.

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A história da mulher que ama o pai, em luta para ocupar o lugar da mãe, é a melhor forma de resumir Almas em Fúria, de Anthony Mann. Os negócios da fazenda são importantes, ajudam a mover a história. Por outro lado, o pai desregrado, torto e espalhafatoso não se atentou à questão central: o amor da filha é igualmente destrutivo.

Por ele, ela estará disposta a tomar tudo. Só por ele. Nesse sentido, os negócios são uma desculpa, impalpáveis como as cédulas feitas para aquela fazenda – sob o carimbo do próprio homem, o pai, a moeda para servir ao pagamento dos mexicanos pobres e explorados, forma de poder paralelo. O dinheiro, ali, não vale nada.

A moça em questão, protagonista absoluta, é Vance Jeffords. Ninguém melhor para vivê-la: Barbara Stanwyck. A certa altura, pede um tapa, depois um beijo. Pede ao homem que talvez ame em menor medida, usado – como outro, um mexicano com quem cresceu – para tentar apagar da vista o soberano, o pai falastrão de Walter Huston.

Uma das delícias do filme é tentar compreender como uma mulher tão forte pode amar tal homem. A explicação reduz-se ao laço de sangue, à posição que cada um ocupa, à medida que resta à filha, ao olhar aparentemente indiferente do pai, o vestido da mãe morta, para com ele postar-se ao alto da escadaria, em seu pequeno palácio de tijolinhos.

Outra estranheza: esse reino feito ao (e pelo) pai, à sombra de uma estátua de Napoleão estrategicamente ao lado da mesa do escritório, é tão frágil quanto a moeda confeccionada para circular ali. Nada resiste muito. Do lado de fora, Mann insiste na aparência pobre, na falta de luz, no chão de terra que consome a paisagem.

Do lado de dentro, a profundidade de campo possibilita a profusão de camadas, entre cômodos, como no momento em que a filha – para atacar o pai sem o uso das palavras, mas com jeito atraente – convida para a dança justamente um velho inimigo da família, homem de outra estirpe, chegado a jogos de roleta e lucros bancários.

O pai até ensaia um gesto de ódio ao assistir ao encontro. Logo se recolhe, prefere deixar a filha ir embora, na charrete, com o indesejado. Por curioso que pareça, ela deixar-se-á levar pelo invasor, pelo outro, nesse filme extraordinário em que ninguém se revela herói ou vilão. Tudo gravita em torno das relações entre terra, sangue e negócios.

No momento mais forte, Vance lança a tesoura no olho da nova companheira do pai, interpretada por Judith Anderson. Em seguida, desce as escadas para ir embora, em movimento triunfal: é quando Mann expõe o amor por caminho estranho, em comunhão com o todo, na filha que precisa tirar do caminho quem lhe tirou o pai.

Vai embora, esconde-se entre os mexicanos. O patriarca corre atrás. Depois de muita luta, alguns tiros e pedras lançadas montanha abaixo, o pai manda enforcar um dos invasores de terra, justamente o melhor amigo – também amante – da protagonista. Resta a ela outra tentativa para se vingar do velho homem: comprar sua fazenda e assim possuí-lo.

À época, os faroestes ainda eram dominados por machos em velhos espaços de terra seca, entre pedras, para compor o impensável: as relações de amor entre pessoas isoladas ou aprisionadas, criadas para ter medo do outro e do lado de fora, para se manter no limite das cercas que os recobriam. As filhas amam os pais, os filhos as mães, as irmãs os irmãos. A violência era o passo seguinte, inevitável nessa confusão de sentimentos.

(The Furies, Anthony Mann, 1950)

Nota: ★★★★☆

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Rio Vermelho, de Howard Hawks

O confronto entre as personagens de John Wayne e Montgomery Clift é inevitável. A segunda, já adulta, observa a primeira sabendo de seus problemas, de suas mudanças de humor. Reconhece no velho homem do mundo o carrasco, e ainda assim aguarda a hora para confrontá-lo, para, de filho para pai, levantar-se em revolta.

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Brigam na primeira vez em que se encontram. O menino Matt Garth saca uma arma e leva uma bofetada do outro, que acabou de perder sua companheira, morta pelos índios em Rio Vermelho. Sem pressa, o diretor Howard Hawks desenvolve a história a partir da relação desses homens com alguns outros, a partir de suas diferenças.

O filme, um dos maiores faroestes do cinema, apoia-se nesse reino masculino de encaradas e intenções silenciosas – descrito, por Pauline Kael, como uma versão a cavalo de O Grande Motim. Assim, Thomas Dunson (Wayne) passa à posição do Capitão Bligh, o tirano imortalizado por Charles Laughton na versão clássica de 1935.

Segundo Kael, Borden Chase, autor da história e um dos roteiristas, confirmou a relação de proximidade com O Grande Motim. Nesse sentido, ousa dar a Bligh, aqui na pele de Wayne, um passado, ou um motivo para sua insanidade. Faz-se o carrasco sem perder algum princípio, a quem não escapará a missão de guiar a boiada.

No momento da saída, em mar bovino que toma a tela, Hawks move a câmera em panorâmica, revela o tamanho da encrenca, da aventura. Dunson pede que Matt conduza os homens e os animais; o rapaz dá o grito inicial, à medida que se corta para a alegria de todos aqueles seres envolvidos na empreitada, com rostos de felicidade.

Pela transformação de Matt, da criança ao adulto, do menino de frases fortes ao rapaz de dubiedade sexual, corre o tempo de maturação – e de mistério – da loucura do outro, Dunson, cujos cabelos escorridos para trás alimentam seu aspecto intocado, um pouco fantasmagórico. A frieza que Wayne leva à personagem ajuda nesse aspecto.

Rio Vermelho, contudo, é um filme de Hawks. Isso explica por que os socos e o confronto final podem dar vez à graça: diferente de outros cineastas que reservavam ao faroeste o espaço de seres que nunca se curvam, Hawks não descarta a leveza da comédia, a história que se guia sem enredo claro, fincada em personagens.

Os camaradas – pai e filho – podem rir ao fim sem que fique a impressão de que traíram o público. O entendimento entre homens, às gargalhadas, é possível. A culpa resta à mulher, que teria “enfeitiçado” Dunson com seu amor antes de ser morta pelos índios, dama a quem o mesmo deu a pulseira de sua mãe, objeto encontrado no punho do estranho.

Matt é verdadeiro, é diferente de Dunson. Enquanto Clift carrega outro tipo de interpretação, Wayne reserva a aparência petrificada, a certeza do mal, a promessa de que vai encontrar todos que o traíram, caçá-los. Não se duvida – fantasmagórico como é. Clift, o jovem em ascensão, atira como se brincasse, troca de armas com outro rapaz, vivido por John Ireland, em interessante subtexto gay, outra das brincadeiras de Hawks.

O diretor força o gênero, como se o reinventasse pela leveza desses atos, pela impossibilidade (a muitos) de dois homens sentirem-se atraídos naquele meio. Aproxima a aventura da vida comum e, ao colocar a câmera no interior da carroça enquanto atravessa o rio Vermelho, põe todos na mesma jornada real desses homens entre gado.

Importante não se confundir: apesar das concessões, é um clássico faroeste que tem ao centro o maior dos atores do gênero, um galã da geração de Marlon Brando, alguns homens tipicamente caipiras e sujos, uma dama a apimentar a situação, além dos gritos de cada um, como eco, enquanto guiam a boiada à água, para cortar o rio e algum estado.

(Red River, Howard Hawks, 1948)

Nota: ★★★★★

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Os 20 melhores filmes de 2018

O ano termina com um saldo bom: se até a metade 2018 parecia pouco promissor, os seis meses seguintes trouxeram filmes interessantes, alguns na Netflix, como A Balada de Buster Scruggs, Lazzaro Felice, Roma e o ressuscitado O Outro Lado do Vento, do mestre Orson Welles.

Filmes variados, de países e autores diversos, ganham espaço na lista abaixo: três brasileiros (além de duas coproduções), dois coreanos e, entre outros, uma beleza vinda de Portugal. Dos 20, quatro possuem mulheres na direção ou codireção. E, a exemplo de outras listas, não é possível abarcar tudo. Ausências são sentidas, como o já citado filme dos Coen, ou os ótimos Projeto Flórida e Uma Noite de 12 anos.

20) Hannah, de Andrea Pallaoro

Charlotte Rampling envelheceu bem. Nesse filme denso, ela é uma mulher que perde o chão sem explodir, pelos caminhos de uma cidade que nunca a acolhe, que tenta se aproximar do filho que não a quer.

19) As Boas Maneiras, de Marco Dutra e Juliana Rojas

Filme brasileiro com toques fantásticos que esbarra no social, sobre uma empregada que fica com o filho lobisomem da patroa e, passados os anos, aprende a amar o menino que precisa de carne vermelha.

18) Três Anúncios Para um Crime, de Martin McDonagh

Não é sobre uma mãe atrás do assassino da filha, nem sobre um protesto. É sobre uma pequena cidade americana ocupada por seres tortos, microcosmo de certa América ressentida, cheia de cicatrizes.

17) Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans

Esse belo filme brasileiro mergulha na vida de um trabalhador marginalizado – como tantos outros – que pega a estrada para viver. Peão, aparentemente pequeno, descobre-se pelas palavras que narra.

16) Lazzaro Felice, de Alice Rohrwacher

A personagem-título é explorada sem saber, sofre um acidente e, em salto no tempo, vê-se no mundo urbano. Em tom de fábula, sem perder o realismo, a talentosa Rohrwacher outra vez se volta à Itália rural.

15) Western, de Valeska Grisebach

Em local isolado, homem trava embates com colegas de trabalho ao mesmo tempo em que se relaciona com a população de uma pequena cidade. Uma obra em que a secura converte-se em sensibilidade.

14) Amante por um Dia, de Philippe Garrel

Cineasta de amores inconstantes, das relações em crise, Garrel é um dos filhos – um dos últimos – da nouvelle vague. Em cena, uma garota termina o namoro e descobre que o pai tem uma amante mais jovem.

13) O Dia Depois, de Hong Sang-soo

O diretor tem traço próprio e a cada filme repete um pouco do anterior – sem que isso soe um demérito. Pelo contrário. Em preto e branco, aborda os problemas de uma garota em seu primeiro dia de trabalho.

12) A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho

Com três horas de duração, o filme registra ora com realismo, ora com certas liberdades (como o número musical), a vida dura de operários portugueses que assumem o controle de uma fábrica falida.

11) Custódia, de Xavier Legrand

O garoto não quer ver o pai. Por ordem judicial, será obrigado a passar alguns dias com ele. Os problemas aumentam quando o homem tenta se reaproximar da família, em conflitos que beiram o insuportável.

10) Em Chamas, de Lee Chang-dong

Elogiado pela crítica desde a estreia em Cannes, o novo filme do diretor coreano narra a relação de um jovem com uma amiga – e amante – do passado, além dos encontros com um rapaz rico com quem ela envolve-se.

9) Zama, de Lucrecia Martel

Martel tornou-se um nome respeitado no cinema mundial após o maravilhoso O Pântano. Com Zama, sobre os dias de espera e dor da personagem-título, na América Latina, faz seu filme mais arriscado.

8) Benzinho, de Gustavo Pizzi

O melhor filme brasileiro de 2018 leva às relações conflituosas de uma família, tratadas de maneira sempre delicada pelo diretor. Ao centro, a mãe sofre ao perceber que o filho está cada vez mais fora de casa.

7) Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson

A relação de amor e obsessão entre um estilista e sua nova companheira, mulher, amante, ajudante e musa. O diretor de Sangue Negro volta a unir forças com o astro Daniel Day-Lewis nessa obra poderosa.

6) The Square: A Arte da Discórdia, de Ruben Östlund

Östlund é o realizador do ótimo Força Maior. Com The Square, apresenta as relações de pessoas que orbitam galerias de arte, a partir da história de um curador que enfrenta vários problemas após ter a carteira furtada.

5) O Outro Lado do Vento, de Orson Welles

A ressurreição do filme de Welles foi o acontecimento cinematográfico do ano. Em cena, um cineasta experiente (John Huston) recebe convidados para seu aniversário e mostra a todos seu novo trabalho.

4) Me Chame pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino

Vai além da história de amor. É sobre a descoberta da sexualidade, do garoto perdido, atingido como que por um raio ao conhecer o belo aluno de seu pai, louro alto e experiente que passa uma temporada com ele.

3) 120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo

Retrato poderoso do grupo Act Up, nos anos 90, na França, em luta contra a epidemia de Aids que atingia a sociedade, em investidas para conscientizar as pessoas – entre atos de violência e gestos de amor.

2) Sem Amor, de Andrey Zvyagintsev

Um filme sobre a ausência. Do amor, da família, da empatia. O estopim é o desaparecimento de um garoto. Perto do fim, quando sua mãe cai em lágrimas, o espectador percebe a tamanha complexidade do drama.

1) Roma, de Alfonso Cuarón

A história de uma empregada mexicana, nos anos 70, na Cidade do México, permitiu que Cuarón retornasse ao próprio passado em um filme tocante. Da fotografia ao elenco, tudo funciona nessa obra magistral.

Dez menções honrosas: Projeto Flórida, de Sean Baker; Você Nunca Esteve Realmente Aqui, de Lynne Ramsay; Uma Noite de 12 anos, de Álvaro Brechner; A Forma da Água, de Guillermo del Toro; A Balada de Buster Scruggs, de Ethan e Joel Coen; 1945, de Ferenc Török; A Câmera de Claire, de Hong Sang-soo; The Post: A Guerra Secreta, de Steven Spielberg; O Amante Duplo, de François Ozon; e Utøya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega, de Erik Poppe

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