Warner

Homem de si mesmo

Na época, o rei da bandidagem na Warner era Edward G. Robinson, com vastas lapelas, parecidas com as asas lanceoladas de um jato. Bogart, magro e faminto, era o Cássio para esse César. Torcíamos para Bogart porque, embora fosse subordinado, jamais dizia “sim, chefe” de modo subserviente. Não era homem de ninguém, exceto de si mesmo. E isso se estendia para sua relação com a plateia. Era preciso aceitá-lo em seus próprios termos. Ele jamais cedia a insinuações e, embora sua intimidação fosse sedosa, era também gelada. Na terminologia moderna, ele era “dirigido por força interior”, guiado por uma bússola privada que não dava atenção aos sinais de tempestade externos. Além disso, se a agulha o conduzia (como de costume) para uma saraivada de balas, morria com um dar de ombros: nenhuma queixa, nenhuma desculpa, nenhum ressentimento. Com efeito, raramente exibia sentimentos fortes de qualquer tipo. E isso, numa época em que se supunha que os astros e as estrelas deviam emocionar e ser vibrantes, era outra coisa que admirávamos. Era algo que refletia, em parte, o tato emocional de um homem que parecia genuinamente avesso ao sentimentalismo e, por outro lado, a segurança profissional de um ator que sabia muito bem que não precisava daquilo para fazer sucesso. De qualquer modo, era revolucionário e nós adorávamos.

Kenneth Tynan, crítico e escritor inglês, em ensaio sobre Humphrey Bogart publicado na revista Playboy em junho de 1966 e reproduzido no livro A Vida como Performance (Companhia das Letras; pgs. 213 e 214).

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Antifascismo em dois clássicos americanos

Com a distância de décadas, fica difícil aceitar a derrota de Humphrey Bogart na cerimônia do Oscar de março de 1944. O lendário anti-herói Rick Blaine era a síntese de seu tempo: o cínico que se revela herói, que deixa a mulher de sua vida para uma causa maior, íntimo ao espaço em que se misturam ladrões, resistentes e nazistas.

Na ocasião, a cobiçada estatueta dourada terminou nas mãos de Paul Lukas, pelo papel do alemão Kurt Muller no menos lembrado Horas de Tormenta. Interessante observar como as personagens de Bogart e Lukas distanciam-se e, ao mesmo tempo, ajudam a entender o clima da época, em filmes que atacavam diretamente o nazismo.

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Blaine esconde o herói desde o início, reluta a aceitar transformações, a aderir à causa, até se ver dobrado à mesma devido ao amor de mulher (Ingrid Bergman) – beldade que, certa noite, entre tantos bares do mundo, cruza a porta justamente do seu. Eles estão em Casablanca, no Marrocos, entre americanos, franceses, alemães e outros estrangeiros.

O ambiente ao qual segue o herói Muller é outro: está, já no início, na fronteira dos Estados Unidos, terra de sonhos àqueles que, em Casablanca, sonham com um salvo-condutas e a passagem de avião rumo à América. Muller tem em sua companhia a mulher (Bette Davis) e três filhos. É, desde 1933, membro da resistência antifascista.

São diferentes em tudo, exceto nos fins: ambos deverão lutar contra os inimigos, ambos com lados marcados. Blaine, no início, é instável, homem do mundo que tenta se estabelecer, não ligar para ninguém ou para uma bandeira, e apenas desfrutar o poder que lhe resta naquele bar em Casablanca, ponto de encontro aos fujões.

Muller, ao contrário, tem família, refúgio e alguns dólares – 30 mil – que carrega em uma bolsa com cadeado. E, em oposição a Blaine, é o herói esperado, que mais discursa do que fala, e cuja interpretação de Lukas, correta, ainda revela um coração para além da figura montada. Nesse ponto, Blaine é mais feliz: sua tentativa de esconder as emoções cai por terra pouco a pouco; o homem apaixonado bebe sozinho e sofre por amor.

Casablanca coloca o público em ambiente de desconforto, longe da América, entre inúmeras pessoas que não merecem confiança. É como se aquele bar, ou aquela cidade, ou aquele país estivesse próximo de explodir – à medida que Blaine serve-se do momento, transportado do cínico empresário à beira da roleta ao herói.

Na América em que Muller coloca os pés, a aparência é de segurança, a começar pela casa em que vai morar: estão ali os alicerces altos e brancos, pinturas que louvam antepassados brancos, criados negros sem muita voz, a senhora de língua afiada (sua sogra) que não conhece o mundo para fora dessa cidade, ou da mesma casa.

Como em Casablanca, surgem os nazistas, homens maus que se encontram na embaixada alemã para jogar cartas e tramar a divulgação de suas ideias. Muller combate-os sem dizer quase nada. Ao fim, quando atira contra um deles, desarmado, o filme enfim retira o espectador da zona de conforto: da peça de Lillian Hellman, com roteiro de Dashiell Hammett e direção de Herman Shumlin, Horas de Tormenta mostra como é possível se enganar sobre um filme aparentemente pequeno, sem clara ousadia, a afirmar, de novo, os valores americanos.

Quando perguntam a Muller qual a sua profissão, ele não hesita: é antifascista. Vive por uma causa, contra o mal que ataca o mundo naquele momento. Se necessário, deixará a família para lutar contra os inimigos. Será sempre – mesmo ao atirar em um homem desarmado – o herói honesto, ao qual sobram palavras de força.

Ao expor uma transformação, ou a aceitação do que sempre foi e escondeu, Blaine deixa ver outro material: é mais instigante, até mesmo cômico. É mais real, figura por quem as damas que frequentam seu bar se apaixonam – e o espectador entende o motivo. Arrisca tudo ao colocar a arma na direção do francês, depois contra o nazista. Permite que seu grande amor escape-lhe para servir à luta antifascista.

É compreensível que Lukas tenha ficado com o Oscar. Tem o papel correto, o do homem que renuncia à América para voltar ao confronto – contra o homem cujas falas permitem ver um pouco dos incorretos detetives do cinema noir. Bogart era feito de outro material, perfeito ao filme perfeito, não para um Oscar. Casablanca, por sua vez, levou os prêmios de filme e direção (de Michael Curtiz). Como Horas de Tormenta, foi produzido por Jack L. Warner e Hal B. Wallis. Ambos, apesar das diferenças, têm mensagens com endereço certo: a Alemanha à sombra do Führer.

(Idem, Michael Curtiz, 1942)
(Watch on the Rhine, Herman Shumlin, 1943)

Notas:
Casablanca:
★★★★★
Horas de Tormenta: ★★★☆☆

Foto 1: Casablanca
Foto 2: Horas de Tormenta

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Três perguntas sobre Casablanca

Há muitos mistérios ligados a Casablanca, o clássico de Michael Curtiz. É sobre alguns deles que fala o escritor Renzo Mora, autor do livro Casablanca – A Criação de uma Obra-Prima Involuntária do Cinema (Editora Estronho; saiba mais aqui), com exclusividade ao blog Palavras de Cinema. O que devia ser uma entre várias produções da época a atacar os inimigos, durante a Segunda Guerra, continuou viva para além da propaganda.

O anti-herói ao centro tem seu tempo para reencontrar a mulher que ama, também para buscar a redenção e colocar à frente os problemas do mundo; os coadjuvantes são perfeitos, cada um como peça privilegiada; as frases, tão lembradas, seriam revisitadas inúmeras vezes, sendo difícil imaginar a melhor, ou a mais importante.

humphrey bogart & dooley wilson - casablanca 1943

É sobre um pouco desse grande filme – no desafio das três perguntas – que fala Renzo, para provar que o clássico segue vivo.

Ao contrário de E o Vento Levou, Casablanca era mais uma entre as várias produções da Warner de 1942. O que fez dela um filme tão especial?

Isso ninguém sabe. É uma daquelas tempestades perfeitas, que se formam sem ninguém entender. Era para ser apenas um filme a mais e nenhum dos participantes imaginava que ele pudesse ser lembrado tanto tempo depois. Bogart e Bergman riam da bobagem da premissa de uma carta irrevogável para atravessar fronteiras. Bergman só queria fazer Por Quem os Sinos Dobram e sair daquela roubada. Mas valeu o “gênio do sistema de estúdios”, essa entidade sem nome ou rosto capaz de combinar talentos e produzir resultados maiores que a soma das partes.

Por que Casablanca pode ser considerado um filme de propaganda?

Ele surge no momento em que era necessário mobilizar os americanos a combaterem os nazistas – ideia que não convencia muito a população. Para eles, aquela era uma guerra europeia da qual eles queriam distância. Por coincidência, o roteiro do filme bate na Warner no dia exato do ataque de Pearl Harbor. Deste dia em diante, Hollywood se mobilizou fortemente para que seus filmes demonizassem os nazistas. Este confronto direto vinha sendo cuidadosamente evitado, até porque, no início, Hitler – antes de revelar seu lado psicopata – tinha fãs nos Estados Unidos, como o aviador herói Charles Lindbergh, conhecido antissemita.

Várias das frases do filme entraram para a história. Qual sua favorita?

Esse é um desafio. O roteiro todo está cheio de frases brilhantes. Escolher uma em particular é impossível. No final do meu livro listo uma relação de momentos brilhantes ditos pelas personagens. O filme todo é uma aula de roteiro, indispensável para apaixonados. Curiosamente, a frase mais famosa do filme, “Play It Again, Sam”, nunca é dita. Mais um mistério.

Renzo Mora, colaborador de revistas como VIP e Playboy e autor de Cinema Falado, Sinatra – o Homem e a Música e Casablanca – A Criação de uma Obra-Prima Involuntária do Cinema.

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