Walter Brennan

Meu Filho é Meu Rival, de Howard Hawks e William Wyler

O problema do protagonista de Meu Filho é Meu Rival, cuja direção é assinada por Howard Hawks e William Wyler, é não se despregar do passado. Ele tenta e sempre fracassa.

Ao fim, em um instante pequeno, à maneira do cinema clássico, fica clara sua “volta por cima”, quando a personagem busca se redimir. É o momento em que Barney Glasgow (Edward Arnold) bate o sino de sua empresa, em uma festa, como se estivesse na fazenda. Misto de industrialização e selvageria. O homem grita sem parar e avisa a todos que, se não vierem comer, o alimento será dado aos cães.

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O mundo em questão é dividido entre o pai, tragado ao passado, e seu filho, sempre de olho no futuro. Ambos se apaixonam pela mesma mulher, ou pela mesma imagem. Barney um dia amou a cantora de bares Lotta (Frances Farmer). No entanto, preferiu deixá-la para se casar com a filha de um poderoso homem de negócios.

O mundo dá voltas. Chega Richard (Joel McCrea), o filho, a modernização em pessoa. Ele apaixona-se por Lotta, filha da cantora de mesmo nome. Se na época do pai belas mulheres cantavam sobre balcões, as novas querem progredir, têm ambição.

Tão importante à história, a dama é interpretada nos dois tempos pela mesma atriz. No bar do passado, ela canta “Aura Lee”, e os homens param para ouvi-la – e vê-la. Caem como cairiam, depois, aos encantos de Marilyn Monroe em qualquer um de seus filmes de palco, bares e plateias – com selvagens à espreita.

Farmer não deixa curvas ou sexo à mostra. É mais contida, tem olhar penetrante, exala desejo. Dá para entender por que pai e filho começam a guerrear. De tempos diferentes, não resistem à mesma mulher.

Hawks teria feito a maior parte do filme, brigou com o produtor Samuel Goldwyn e deixou a produção. Wyler, outro grande cineasta, assumiu a empreitada. A sequência mais interessante, sem dúvida, é a dor bar, quando Arnold, Farmer e o sempre coadjuvante Walter Brennan (ganhador do Oscar pelo papel) brigam com um bando de homens, lançando bandejas contra vidros e contra tudo ao redor.

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Com fotografia de Rudolph Maté e Gregg Toland, Farmer é filmada em contra-plongée (de cima para baixo), com os homens em posição inferior a ela, no mesmo bar. Trata-se de um plano não muito comum aos tempos de cinema clássico, quando não se revelava o teto dos ambientes em que a história ocorria.

Pouco depois, Toland teria posição de destaque nos créditos finais de Cidadão Kane, de Orson Welles, também com sequências em que se vê o teto dos ambientes. Difícil pensar em dois diretores de fotografia tão bons em um filme como Meu Filho é Meu Rival, hoje quase esquecido. Maté havia trabalhado com Carl Theodor Dreyer na obra-prima O Martírio de Joana D’Arc e faria A Dama de Shangai, mais tarde, justamente com Welles – dessa vez no terreno do noir.

Nem sempre a reunião de gênios resulta em grandes obras. Restam alguns bons momentos, talvez grandes. E um deles, sem dúvida, está na virada final, no sorriso ao mesmo tempo cínico e explicativo do protagonista. Representa a derrota de alguém como Glasgow, figura inseparável da América, do meio dos poderosos, como seria Charles Foster Kane.

(Come and Get It, Howard Hawks e William Wyler, 1936)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Minha Rainha, de Erich von Stroheim

Grandes coadjuvantes do cinema clássico

Os atores abaixo foram secundários e marcantes. Alguns, inesquecíveis. E o fato de não terem ganhado um papel central para entrar na memória não fez com que caíssem no esquecimento. Eles são parte indissociável do efeito especial, da magia do cinema clássico. Viveram coadjuvantes de peso, às vezes para dizer besteiras que não podiam ser ditas pelo herói, ou para servirem de vítima ou vilão.

Charles Coburn

Perfeito como o velho bobo e endinheirado, que se deixa levar pelo encanto de belas mulheres – como se viu no divertido Os Homens Preferem as Loiras.

os homens preferem as loiras

Donald Crisp

Em Como Era Verde Meu Vale, que lhe valeu o Oscar, viveu o chefe da família Morgan. Ainda antes, esteve em O Grande Motim e O Nascimento de uma Nação.

o grande motim

Edward Everett Horton

Alguns de seus melhores momentos ocorreram ao lado de Fred Astaire, em musicais. Não sabia dançar, o que não impedia de fazer graça na pele do amigo efeminado.

o picolino

Louis Calhern

Servia bem ao vilão cínico e cafajeste, o que desempenhou em O Segredo das Joias. Teve destaque ainda em Interlúdio e, antes, no delicioso Diabo a Quatro.

o segredo das joias

Sydney Greenstreet

Os poucos filmes não o impediram de deixar sua marca: era misterioso, sob medida ao cinema noir, distante e inconfiável. Ainda assim, surpreendeu em O Intrépido General Custer.

o falcão maltês

Thomas Mitchell

Em 1939, considerado o melhor ano para o cinema, esteve em E o Vento Levou, A Mulher Faz o Homem, O Paraíso Infernal e No Tempo das Diligências. O último lhe rendeu o Oscar.

a mulher faz o homem

Walter Brennan

Amigo beberrão e falador de Bogart ou John Wayne, lembrado pelos filmes de Hawks. Ganhou o Oscar três vezes como coadjuvante, o que o torna um recordista.

onde começa o inferno

Ward Bond

Coadjuvante de ouro de John Ford, Bond esteve em várias produções do cineasta, como Rastros de Ódio e Paixão dos Fortes. Também foi dirigido por Capra e Huston, entre outros.

rastros de ódio