Vittorio Taviani

Vittorio Taviani (1929–2018)

Nunca pensamos que para falar da realidade que nos cerca seja obrigatório realizar obras ancoradas no presente. Não é preciso estar no contexto da crônica diária para refletir sobre a realidade. O equívoco surge da confusão que muitas vezes se faz entre a trama e o sentido de um filme. Não é na trama e em sua ambientação – uma série de acontecimentos que move uma série de personagens – que encontramos a verdade de um filme: a verdade está no sentido, nos sentimentos, nas reações que aqueles acontecimentos provocam no espectador: enfim, está justamente naquela lasca de sentido que um autor procura extrair do caos da vida que experimenta na convivência com os demais.

Vittorio Taviani, cineasta, em entrevista contida no livro Cinema Político Italiano – anos 60 e 70, de Angela Prudenzi e Elisa Resegotti (pg. 112; Cosac Naify). Com o irmão Paolo, Vittorio realizou grandes filmes como Pai Patrão, A Noite de São Lourenço e Kaos. Abaixo, à direita, ao lado de Paolo, nas filmagens de César Deve Morrer.

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13 grandes filmes sobre o teatro

Alguns filmes da lista abaixo não deixam ver o limite entre cinema e teatro. Talvez uma arte deva tanto à outra que o melhor é se adaptar à confusão. Essa mescla deixa sempre certa riqueza: os atores podem estar vivendo ou interpretando. Nem sempre se sabe. E, seja qual for o caso, fazem cinema de qualidade.

Em seus primeiros passos, a sétima arte foi acusada de ser “teatro filmado”. Por isso, acusada de “arte menor”. A história e as experiências com a câmera provaram o contrário: o cinema tinha vida e forma próprias. Ainda assim, não deixou de retornar ao palco, seja como espaço ao drama das personagens ou fusão entre artes. Abaixo, o cinema encontra o teatro para evocar obras inesquecíveis, de grandes diretores.

Crisântemos Tardios, de Kenji Mizoguchi

O drama de um filho que deixa a casa, o pai, para viver como artista na estrada, para mais tarde provar seu talento, e talvez receber sua aguardada ovação.

crisantemos tardios

Ser ou Não Ser, de Ernst Lubitsch

Na Polônia à beira da Segunda Guerra Mundial, uma trupe de atores prepara a encenação de Hamlet e tenta sobreviver ao totalitarismo de Hitler – à base da comédia.

ser ou não ser

O Boulevard do Crime, de Marcel Carné

Ninguém esquece as personagens, seus laços, suas voltas e o tempo a persegui-las: a amada Garance, o mímico Baptiste, o inconfiável Frédérick Lemaître.

o boulevard do crime

A Carruagem de Ouro, de Jean Renoir

Em uma América Latina ainda sob o domínio espanhol, uma trupe de teatro prepara sua apresentação. Em cena, na vida e no palco, está a explosiva Anna Magnani.

a carruagem de ouro

Dá-Me um Beijo, de George Sidney

Curiosa e original mescla de cinema e teatro, com toques tipicamente hollywoodianos, a partir de uma adaptação de A Megera Domada, de William Shakespeare.

dá-me um beijo

Paris Nos Pertence, de Jacques Rivette

A jovem protagonista é tomada por questionamentos após seu vizinho de apartamento, um espanhol, suicidar-se. Ao mesmo tempo, ela envolve-se com um grupo de atores.

paris nos pertence

A Viagem dos Comediantes, de Theodoros Angelopoulos

Parte da história grega é contada na viagem de uma trupe de atores por pequenas cidades, entre guerras, bandeiras, crueldade. Pelos cantos, a arte (quase) incólume.

a viagem dos comediantes

O Fiel Camareiro, de Peter Yates

Albert Finney e Tom Courtney estão memoráveis nesse drama de bastidores, sobre a relação de um grande ator à beira da morte com seu fiel assistente.

o fiel camareiro

O Meu Caso, de Manoel de Oliveira

Começa quase como teatro filmado e depois migra para o cinema – mas sem esquecer o palco. Essa experiência radical questiona o espectador sobre o caso de todos: a arte.

o meu caso

Jesus de Montreal, de Denys Arcand

Após sofrer um acidente em uma apresentação de A Paixão de Cristo, um ator passa a acreditar que é o próprio filho de Deus. Ao fim, consegue fazer seu “milagre”.

jesus de montreal

Tio Vanya em Nova York, de Louis Malle

A partir de uma adaptação da consagrada obra de Anton Chekhov, Malle, com um texto de David Mamet, questiona o que é realidade e representação.

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Vocês Ainda Não Viram Nada!, de Alain Resnais

Após a morte, um famoso dramaturgo convida os amigos atores para assistir à gravação de uma peça em que todos trabalharam, dessa vez encenada por atores mais jovens.

vocês ainda não viram nada

César Deve Morrer, de Paolo Taviani e Vittorio Taviani

Verdadeiros presidiários montam uma versão de Júlio César, de Shakespeare, tanto no palco quanto nos espaços da cadeia. A partir da experiência, questionam a própria vida.

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César Deve Morrer, de Paolo e Vittorio Taviani

Interessa, aos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, o ensaio. A apresentação teatral é como parece ser: teatro filmado, em ambiente realista, um resultado. O ensaio é maior: para dentro da prisão, encurralados por paredes, muros, celas, grades, corredores envelhecidos, os presos transformam-se nas personagens de Júlio César, de William Shakespeare, em César Deve Morrer. Os Taviani contam essa história que não parece bem uma história convencional. Pouco se sabe sobre os presos e mais sobre a peça, a conhecida peça levada outras vezes ao cinema, nem sempre de forma tão original.

Shakespeare toca o poder o tempo todo. Os Taviani transformam a prisão – como a coragem de alguns homens – em um canal para contornar a condição do preso – condenado a anos de clausura ou mesmo à prisão perpétua. Ao confinado, apenas à luz do sol, resta a arte como resposta. A arte liberta. “Desde que conheci a arte, esta cela se transformou em uma prisão”, narra Cosimo Rega, ao deixar sua personagem da peça, Cássio, após a apresentação da abertura.

Cosimo foi condenado à prisão perpétua, por homicídio. A informação chega quando seu rosto, à tela, é banhado ao preto e branco. Tal como outros, ele foi levado à ficção, ao passo que os Taviani permitem uma feliz mistura entre arte e vida, entre o que parece ser documentário e o que deixa de ser. O resultado é uma preparação para Júlio César em puro cinema, ao preto e branco, diferente do mero teatro filmado, proposital na abertura e no fechamento.

Os irmãos diretores não estão preocupados em fazer o público entender a realidade, mas em fazer valer a arte. O que sempre fica é a expressão, o produto, o humano revelado aos poucos e às beiradas. Econômicos, os diretores mostram controle: levam o espectador aos homens pela peça conhecida, não às vidas particulares, às histórias passadas. Os homens só são homens de verdade – ou voltam a ser – quando mergulhados na arte. O crime e a realidade não compensam: ficam para fora.

Ora ou outra, claro, a realidade é presente. Ora ou outra esses homens saem das personagens, sentam, pensam, entristecem-se e simplesmente – pela condição de presidiários – voltam a ser quem realmente são. A tristeza não pode ser evitada e as portas metálicas das celas são mostradas em cores, pois a arte, aqui, chega pelo preto e branco. O ensaio é transformação, vivência, passagem. A apresentação é o resultado final, junção, no palco que nada lembra a verdadeira prisão.

César Deve Morrer poderia ser irreal caso não fosse o oposto. Seu significado vai além da mera preparação de um grupo de atores. Em certo ponto, eles passam às personagens, a ouvir – como o espectador – o que antes era exclusivo ao texto e, ainda mais, à imaginação. Em um dos vários momentos fortes, Antonio Frasca, como Marco Antônio, fala à suposta população, próximo ao corpo de César. Leva todos ao ódio. Outros presidiários escutam o companheiro a partir de suas janelas. Pulam e se debatem.

Diferente de Marlon Brando, na pele de Marco Antônio na famosa versão de Júlio César de 1953, Frasca tem atrás de si apenas uma parede. Uma parede alta. É como se os Taviani – mesmo pelo fundo, não pela frente – lembrassem o público constantemente daquela condição. Não é Shakespeare por inteiro, tampouco real por inteiro. Longe da Hollywood de Brando, não há uma escadaria, não há um cenário recriado. Fica o discurso inflamado, ao preto e branco, à base da arte que liberta e do cinema que funde tudo: nada é real ou ficcional por completo. Tudo se confunde em ensaios sobre o poder, o sonho do poder, da força, da redenção. A arte confronta o pior dos sons, o som da cela que se fecha, contemplada pelos Taviani como algo sem qualquer graça, morto, ironicamente em cores.