Viggo Mortensen

Um muro para chamar de seu: a vitória de Green Book no Oscar 2019

Os esperançosos acreditavam no bom senso e na ousadia, na escolha do melhor entre os indicados ao Oscar: Roma, de Alfonso Cuarón. Visualmente o mais belo, o mais pessoal e difícil, filme que pede ao espectador algum tempo para absorção em um mundo de imagens rápidas e guerras em CGI em uma certa Wakanda.

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Não teve jeito. No último envelope, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas mostrou que ainda se rende, e muito, ao comodismo, à facilidade, ao filme que traz situações fortes sob um polimento falso, ainda que, inegável, agradável ao público. Para rir e talvez chorar, para se deixar levar pela amizade entre opostos, o “bom entretenimento”.

Ninguém duvida que Green Book: O Guia tem qualidades. A começar pela dupla Viggo Mortensen e Mahershala Ali, a fórmula funciona bem. Pelo sul dos Estados Unidos, nos anos 60, o branco boçal, ítalo-americano, guia o negro culto para apresentações de piano em diferentes cidades. O primeiro é o motorista, o segundo é o músico renomado.

As situações esperadas estão ali: tanto o negro culto quanto o branco ignorante terão de se dobrar ao outro, aprender com o outro, química curiosa em tom cômico, não ácido, no reino que os acadêmicos adoram: um mundo em harmonia no qual as questões mais espinhosas logo são superadas ou apenas deixadas ao canto.

Filme feito para agradar, sem riscos, recheado de bom-mocismo e “mensagem” – no caso da última, o carimbo certo para se passar algo sem passar, para forjar a ideia de um livro lido a partir do resumo. O Oscar revela uma tendência: do divã americano de Gente como a Gente à gagueira da coroa britânica, melhor se manter no agridoce.

Para Roma, os prêmios de filme estrangeiro, fotografia e direção. Alguém perguntará: como pode ter a melhor direção e não ser o melhor filme? Fica a impressão de ranço, do acadêmico contra o ousado, do filme “universal” (a amizade, a questão racial, o road movie, a alta cultura no centro do gueto) contra o pessoal (a história de mulheres sozinhas em um mundo no qual homens covardes fogem para viver suas aventuras).

A ficha cai no instante seguinte à revelação do último ganhador da noite: Roma não cabe no Oscar. Touro Indomável e A Rede Social também não encontraram espaço ali. O prêmio reflete um votante conservador, pouco afeito ao estrangeiro, ou à dor profunda que nasce do preto e branco do grande Cuarón. O Oscar tem um muro para chamar de seu.

Veja também:
Roma, de Alfonso Cuarón

Green Book: O Guia, de Peter Farrelly

A pedra polida não deixa de ser o que é porque está no chão, entre rochas baratas, após cair da caixa na qual era vendida. A pequena situação, a certa altura de Green Book: O Guia, ajuda a explicar as personagens centrais, o motorista ítalo-americano e seu chefe, o pianista negro. Durante dois meses, eles viajam pelo sul dos Estados Unidos.

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No caso do músico, o paralelo com a pedra vendida é claro: entre brancos, ele não será como os outros, estará separado nesses tempos de segregação, nos anos 60; e não será quem deseja ser tampouco entre negros, que talvez julguem sua arte refinada demais.

O caso do motorista é mais curioso, pois nada parece destacá-lo da massa: é uma pedra velha, surrada, como outra qualquer. Alguém que se resolve à base da violência ou da malandragem, de linhagem feita aos gritos, ao som das famílias italianas patriarcais, guiadas pelo macho, as do homem branco que não se mistura com os negros.

Sequer se esforça para provar que pode estar do outro lado, que pode ter um pouco de humanidade – ou, no paralelo tomado, que pode ser uma pedra com valor. A personagem em questão, Tony Lip (Viggo Mortensen), move-se ao desgosto, à pequena escrotidão, aos atos que, mundanos, tanto aproximam quanto repelem.

O outro, Don Shirley (Mahershala Ali), fez-se ao tom da música clássica, da cultura erudita, e não só: é também um homem de classe, que não sabe comer frango frito com as mãos. Ninguém duvida que Tony ensiná-lo-á com facilidade, como jogar a comida gordurenta pela janela e deixar os restos para a natureza verde, à beira da estrada.

Shirley está em turnê pelo sul racista. Assiste da janela do carro as divisões. Seu motorista branco – ora ou outra segurança e até assessor, mais tarde um inevitável amigo – aceita o emprego apesar de reservas em relação aos negros. Logo no início, será visto jogando fora dois copos usados por homens negros em sua casa, pela manhã.

De Tony, espera-se a infiltração em tudo, o homem de todos: grande, desbocado, encontrando sempre a saída à vida fácil. Joga dados. Poderia ser o capanga de um mafioso. Prefere ganhar 125 dólares semanais para dirigir para um negro, que, não demora, será para ele “o maior pianista do mundo”. O outro não reclama do título.

Para Shirley, ser parte é mais difícil. Não demora a revelar o gênio isolado, o intransigente culto, a quem a palavra é insubstituível como veículo de força. Em tempos de conflitos raciais, ele não se conforma com os ambientes nos quais é colocado, com o fato de ser aceito para tocar em um clube para brancos, não para comer entre os convidados.

O diretor Peter Farrelly, outras vezes associado à comédia louca, aqui se reserva ao cômico em tom menor. Faz um road movie em que os diferentes expõem-se pelo esperado, e convence na maneira despretensiosa como conduz esse encontro entre seres que, se não de cara, certamente serão fascinantes com algum tempo em tela.

O filme é de Tony. A viagem ensina algo. As representações são fáceis, o jogo, em certa medida, é baixo: o homem racista voltará da jornada amigo de um negro. Das dificuldades que vivem – entre risos e problemas – sai-se com algo na bagagem. As pedras raras não se confundem aqui com rochas pisoteadas e sem valor.

(Green Book, Peter Farrelly, 2018)

Nota: ★★★☆☆

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Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi

Marcas da Violência, de David Cronenberg

O retorno de Tom Stall a Joey Cusack demora para se concretizar, ainda que, a certa altura de Marcas da Violência, fique claro que o primeiro já foi o segundo. Fala-se de retorno, mas talvez seja uma transformação: após tanto tempo na pele de Tom, pacato homem de família de uma pequena cidade americana, não há motivos para crer ser mais ninguém.

O que simboliza o retorno, ou a aceitação de suas raízes, está em uma das sequências finais do filme de David Cronenberg. É o momento em que o protagonista fica cara a cara com o irmão, o mafioso Richie Cusack (William Hurt), e encosta – não sem certa trava – a cabeça no outro, como se houvesse ali uma eterna ligação.

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O mero toque dá conta de resumir o que o público precisa saber sobre Tom, para encerrar de vez o mistério desse homem fechado, camaleônico: Joey é um demônio que o pai de família em questão tentou trancar em um porão, do qual diz ter se livrado após algum tempo no deserto, para depois vestir a máscara disponível, a de Tom.

Não tem jeito: em Cronenberg tudo retorna à carne, ao contato físico, ainda que o máquina seja aqui menos importante do que em outros filmes passados do diretor. Os carros e as armas estão por ali, mas incapazes de emergir com peso nessa pequena cidade americana, espaço que Tom escolheu para “matar” Joey, ainda que tenha falhado.

O outro retorna em momento-chave, quando Tom ataca dois criminosos que assaltam sua lanchonete, hora em que o comércio era fechado. Recorre, em reflexo, a Joey: golpeia a face de um bandido com a jarra de café, toma sua arma e atira no comparsa. Salva todos que estão por ali, funcionários e dois clientes. Torna-se herói.

A exposição à mídia faz com que os demônios de Tom retornem, a começar por Joey. Na mesma lanchonete, um mafioso de face desfigurada (Ed Harris) passa a chamá-lo pelo antigo nome. Falam em um “Joey louco”, alguém que gostava de matar. A lenda ataca o espectador, que assiste à súbita violência desse mesmo homem comum.

Em suma, os monstros retornam, como preconiza a filha do protagonista em sua primeira aparição, momento em que o público é lançado ao interior do lar da família: a menina de cachos louros acorda assustada e diz ter visto monstros em seu quarto. O pai é o primeiro a acolhê-la. Logo vem o outro filho (Ashton Holmes), também a mãe (Maria Bello).

A pequena cidade tem seu jeito acolhedor, seu policial velha guarda, seus garotos desbocados que vestem jaquetas do time de beisebol local. Tem a avenida na qual os jovens encontram-se para fazer coisa alguma, beber e tal. O filme reforça, sobretudo em ambientes fechados, o quanto essa velha América é idealizada: as luzes amarelas e o calor que transmitem oferecem um espaço quase irreal, contraponto à violência que vive da surpresa.

Pois antes de ser atacado pelos monstros do passado, Tom será pressionado pelo medo real, pela vida real que bate à porta de qualquer local, qualquer ponto de sua nação: não há uma cidade para se ver livre de tudo isso, dos criminosos, de suas armas, dessas pessoas que, diferentes de Tom, ou de Joey, não encontraram consciência alguma pelo deserto.

Marcas da Violência é um grande filme sobre aceitar o passado, as raízes, e perceber o quanto tudo isso, ora ou outra, expele o tampão sob o qual permaneceu guardado por algum tempo. Filme em que o desespero do homem ao revisitar seu monstro leva, em cena importante, ao sexo com a mulher na escada. A violência não está apenas do lado de fora, mas também na esfera íntima, na relação de amor entre o casal central.

Como Tom, ou Joey, ou ambos, Viggo Mortensen tem um grande momento. Sua insistência em negar o homem que deixou – que acreditava ter matado – não chega a ser mentira. Na verdade, tem a ver com crença. Ele apostou alto no lado bom das pessoas, na vida melhor, na paz, até o instante em que dois assassinos cruzam a porta de sua lanchonete.

(A History of Violence, David Cronenberg, 2005)

Nota: ★★★★☆

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A inspiração de Cronenberg

Oito bons filmes sobre famílias e sociedades alternativas

As personagens dos filmes abaixo decidiram viver à margem da sociedade, decidiram resistir aos sinais e às tentações de um meio conservador, capitalista e não raro nocivo. Algumas também se viram excluídas, simplesmente por não se encaixarem no sistema. E os filmes apresentam a luta para estar fora, contra os membros de dentro, ou mesmo os conflitos no interior dessas famílias e sociedades alternativas. Filmes para bons debates, com drama e até humor.

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Um Gosto de Mel, de Tony Richardson

Após se apaixonar por um marinheiro negro e se ver sozinha e grávida, uma garota (Rita Tushingham) passa a viver com um amigo homossexual. Em convivência diária, ambos desenvolvem grande afeto. O diretor Tony Richardson é um dos nomes centrais do novo cinema britânico e ganhou o Oscar por As Aventuras de Tom Jones.

Deixem-nos Viver, de Arthur Penn

O belo filme de Penn narra as andanças de Arlo Guthrie (o verdadeiro) e o universo dos hippies em sua sociedade alternativa. Realidade e ficção confundem-se o tempo todo. A comunidade fundada pelas personagens vive no interior de uma igreja abandonada e o ponto alto da obra é a cena de um casamento nada convencional. Uma beleza.

Os Idiotas, de Lars von Trier

Um grupo de amigos decide viver à margem da sociedade e funda uma comunidade em que todos podem se comportar como “idiotas”, ou seja, como seres sem qualquer compromisso com regras sociais. Esse filme à vezes radical faz parte do movimento Dogma, cujas regras incluem câmera na mão, luz natural e improvisação do elenco.

A Praia, de Danny Boyle

Em viagem pela Tailândia, a personagem de Leonardo DiCaprio descobre um paraíso perdido e de acesso restrito. Ali, encontra uma sociedade fechada formada por pessoas de diferentes países e comandada com mão de ferro por uma mulher (Tilda Swinton). Mas o que seria um bom exemplo de coletivismo aos poucos cai por terra.

E se Vivêssemos Todos Juntos?, de Stéphane Robelin

Para enfrentar os problemas que chegam com a idade, amigos de longa data têm uma ideia: e se passassem a viver todos juntos, em uma mesma casa? É o ponto de partida dessa bela comédia francesa. Entre um câncer e problemas de falta de memória, as personagens tentam não perder o bom humor e, claro, a unidade do grupo.

Tatuagem, de Hilton Lacerda

Filme libertário sobre um grupo de artistas em um cabaré anarquista, no Nordeste, durante a Ditadura Militar no Brasil. Em meio às apresentações que não escondem o desejo de escandalizar, nasce uma relação entre o líder do grupo (Irandhir Santos) e um jovem soldado (Jesuíta Barbosa). Uma obra sobre liberdade e resistência.

A Comunidade, de Thomas Vinterberg

O casal formado por Ulrich Thomsen e Trine Dyrholm decide abrir as portas de sua grande casa para mais pessoas e fundam ali uma comunidade libertária, na qual as decisões são feitas por votação. Os problemas começam quando ele resolve levar sua amante, também sua aluna, para dentro da casa. É quando a esposa entra em crise.

Capitão Fantástico, de Matt Ross

Viggo Mortensen é Ben, homem que cria os filhos longe da sociedade, com educação rígida e regada a senso crítico. Após a morte de sua mulher, ele segue em viagem à sociedade para tentar cumprir o último desejo da falecida, e contra as intenções de sua família conservadora: ser cremada e ter as cinzas lançadas em um vaso sanitário.

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Capitão Fantástico, de Matt Ross

A opressão confunde-se com liberdade em Capitão Fantástico. Ao dar aos filhos a oportunidade de viver em um mundo longe das amarras do sistema, Ben (Viggo Mortensen) termina por privá-los de experiências fundamentais para encarar a vida.

A família vive na mata. A casa é de madeira. O alimento é retirado da natureza. Os filhos são treinados para a sobrevivência e, no início, um ritual leva um deles, o mais velho, a matar um cervo e depois a comer seu coração. Selvagem e real.

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À frente, após sair em viagem, a família depara-se com dois frangos à mesa, na casa de parentes. Alguém logo pergunta como esses animais chegaram até ali. O filme de Matt Ross expõe a diferença entre viver na sociedade com seus problemas, com suas facilidades e vícios, e viver à margem, em suposta liberdade.

A mãe, ao se suicidar, obriga o pai e os filhos a saírem em viagem. Seguem ao funeral da mulher, levado à frente pela família cristã. A mulher desejava ser cremada em um ritual regado à festa, além de ter as cinzas lançadas em um vaso sanitário. O pai e os filhos pretendem cumprir a promessa, contra os planos da família tradicional.

O filme brilha a cada momento. O mundo ao redor, seja na floresta, seja na cidade, espelha o olhar do novo, a descoberta dos meninos, a experiência que, mesmo com seus problemas, traz algo grandioso: não se esconde, aqui, o viés cômico.

A divisão nem sempre é clara, e o filme nem sempre perde o sentido do drama e sua seriedade. As frases soltas, como as das crianças, ajudam no tom disfuncional da empreitada, com planos que incluem furtos e fingimentos, resgates e escolhas difíceis. O drama está no todo, na situação geral. A comédia parte de pequenos atos.

As crianças foram educadas pelo pai e pela mãe. Conhecem filósofos, grandes autores, conhecem a Constituição. Falta a elas a malícia (necessária) para se adaptar àquilo que, fora, logo se impõe: as descobertas da carne, o confronto com a sociedade hostil.

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O flerte com uma garota, a certa altura, deixa claro que esses filhos – nesse caso, o adolescente Bo (George MacKay) – não sabem nada (ou quase nada) sobre algumas experiências reais, sobre os obstáculos que, ora ou outra, serão colocados no caminho de todos. É inevitável enfrentar essas barreiras, ainda que o pai tente protegê-los.

Até o momento, perto do fim, que esse mesmo pai rende-se à necessidade de deixar que os filhos encontrem outra forma de proteção. A sociedade ao redor, de casas belas e supermercados, dispensa guerreiros imbuídos de missões. Depois que uma das filhas acidenta-se, Ben entende que seus ensinamentos perdem o sentido fora da floresta.

É quando decide se transformar, rejuvenescer: corta a barba, viaja sozinho (crê) e permite que os filhos, deixados para trás, encontrem o próprio caminho. Capitão Fantástico leva a pensar em uma liberdade quase sempre ilusória. Ser livre, Ben descobre, não significa abrir mão de alguns itens sedutores e comuns ao sistema.

(Captain Fantastic, Matt Ross, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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