vida urbana

Oito grandes filmes sobre o mal-estar da vida urbana

A cidade grande é o ambiente perfeito para histórias de pessoas solitárias, invisíveis, em busca de afeto. Histórias sobre impessoalidade, niilismo, dor, perda, sobre vidas contra a frieza ao redor. Na lista abaixo, a violência divide espaço com a tragédia familiar, o desejo de fugir com a fuga ao sexo. Grandes filmes sobre a vida moderna e seus espaços.

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A Turba, de King Vidor

No interior dos grandes prédios, homens em fila se assemelham a formigas. Nessa obra-prima de Vidor, o protagonista (James Murray) muda-se para a metrópole e encara o competitivo mercado de trabalho. Mais tarde, ele casa-se e tem filhos. As condições financeiras não mudam tanto. E, para piorar, sofre uma tragédia na família.

Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder

Os escritórios de Nova York foram inspirados nos espaços de A Turba. A esse mal-estar gerado pela arquitetura, Wilder acrescenta a vida de homens e mulheres em encontros corriqueiros, seres solitários que se esbarram apenas no elevador. Por ali, o protagonista (Jack Lemmon) aluga seu apartamento para encontros de amigos do trabalho.

São Paulo Sociedade Anônima, de Luís Sérgio Person

A trajetória de Carlos (Walmor Chagas), funcionário de uma grande empresa, pouco a pouco cansado de sua vida. No filme de Person, os sinais da grande cidade já podem ser vistos na incrível cena de abertura, com o reflexo dos prédios no vidro do apartamento, enquanto o casal briga em seu interior. Obra-prima do cinema nacional.

Playtime – Tempo de Diversão, de Jacques Tati

O senhor Hulot (Tati) mete-se em outra confusão, dessa vez entre prédios futuristas, no trânsito, em salas envidraçadas, um restaurante e um aeroporto. Acinzentado, o filme reproduz um universo de pessoas presas a pequenos quadrados, ou a girar em círculos, como se vê em uma das cenas finais. Apesar de cômico, a crítica é contundente.

Taxi Driver, de Martin Scorsese

Travis (Robert De Niro) vaga por dias e noites de Nova York em seu táxi. Esbarra em bandidos, cafetões, políticos influentes e uma prostituta que deseja salvar. Quando percebe que está sendo cercado por tudo o que há de pior nessa cidade, arma-se e parte para a luta. Marco dos anos 70, é o filme mais importante da carreira de Scorsese.

Os Terroristas, de Edward Yang

Diferentes personagens esbarram-se nesse grande filme taiwanês. Há, por exemplo, a mulher que sonha em escrever seu livro, seu marido que almeja um cargo melhor na empresa, ou mesmo o fotógrafo confinado em um quarto escuro, com suas fotos e, a certa altura, ao lado de uma fugitiva. A cidade é quadriculada, a vida tem frieza.

Naked, de Mike Leigh

Algumas horas na companhia de Johnny (David Thewlis), um homem que abusou de uma mulher, furtou um carro e mudou de cidade. Um homem desesperado, cujas palavras são armas contra os outros – e contra o espectador. De Manchester a Londres, ele encontra todo o tipo de gente. Como ele, os demais não encontram qualquer saída.

Shame, de Steve McQueen

O homem ao centro, na pele de Michael Fassbender, é viciado em sexo. Não consegue parar de consumi-lo – de maneira física ou visual. Em suas andanças, McQueen registra uma cidade impessoal, de pessoas em busca de prazeres e encontros momentâneos – embaladas pela canção “New York, New York”, na voz de Carey Mulligan.

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Os Terroristas, de Edward Yang

A ideia comum sobre terroristas é subvertida pelo cineasta taiwanês Edward Yang. Os cenários são repletos de frieza, há distância e, à frente, o quarto escuro serve ao confinamento de duas personagens, à sombra com suas fotografias.

Em Os Terroristas, diferentes histórias pouco a pouco se tocam. As personagens estão dispostas em uma cidade quadriculada, de cotidiano mecânico, sob o veludo estranho da vida confortável: o marido que almeja se tornar chefe em sua empresa, a esposa que busca escrever seu livro de contos e talvez ganhar um prêmio.

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O drama evidencia-se na situação desse casal. Estão à beira da ruptura. Ela, que não consegue escrever, acaba encontrando consolo em um antigo namorado; é sua forma de tocar o passado, de corrigir, quem sabe, algo que perdeu.

Ele, decidido a galgar alguns degraus na empresa, termina por entregar um amigo quando outro colega de trabalho morre de infarto. Torna-se candidato natural à vaga, ao mesmo tempo em que finge, entre amigos, estar em bom momento com a mulher.

Os Terroristas simula uma vida inexistente, de centros comerciais e propagandas, de prateleiras e vidros vazios, como no cenário em que a mulher encontra seu amante – espécie de espaço futurista, opressor, como saído de uma ficção científica.

As ruas são escuras. O terror vive no meio, mais que nas pessoas. A certa altura, compreende-se que os terroristas são aqueles que aceitaram viver ali, ou que condicionaram os outros a tal meio, com a cidade, Taipei, vista do alto, pelos prédios, com o som das sirenes, das balas de um confronto entre policiais e criminosos.

Desse confronto surge uma nova história, momento em que um jovem fotógrafo acompanha a ação policial: volta seu instrumento de trabalho, sua “arma”, a máquina fotográfica, à bela criminosa, à jovem de cabelos curtos que foge mancando pela viela.

A fotografia persegue-o, ainda que não fale sobre ela. O espectador entende quando ele deixa seu apartamento apenas com a máquina fotográfica, seu maior bem. O fotógrafo é atraído ao apartamento no qual estava a criminosa e fugitiva, mas antes à sua imagem, possivelmente refletida naqueles espaços. A fotografia desafoga-o.

Contra a vida estranha de prédios, de frieza, contra as pessoas que cruzam, de um lado para outro, uma ponte – enquanto ele flagra-as a distância, com sua lente.

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No apartamento, o garoto fecha-se no escuro. A foto da garota desconhecida ocupa quase toda a parede. Sobrevive a esse fechamento. Quando a janela é aberta, mais tarde, o vento bate em suas “partes”, em seus “recortes”, com o rosto que se desconstrói e retorna à integridade momento a momento.

A criminosa retorna ao imóvel. O rapaz convive com ela apenas algumas horas. Ele entende que não pode confiar na moça, que continua pelas ruas, a aplicar golpes – alguém autêntica se comparada às demais figuras em destaque. Para Yang, ela é produto do terror urbano, dessa vida moderna e descontrolada.

As personagens voltam a se tocar. A garota passa um trote na escritora, que passa a acreditar na possibilidade de o marido ter uma amante. A ligação telefônica também a leva a escrever, a encontrar o caminho para sua história. Refugia-se na ficção.

O marido passa a crer que a história escrita pela esposa pode explicar o divórcio. Ela insiste no oposto: é melhor não misturar ficção e realidade. Falta ao homem essa lucidez, preso como está àquela vida sem beleza, de silêncios e espaços gélidos.

(Kong bu fen zi, Edward Yang, 1986)

Nota: ★★★★☆

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