Victor Sjöström

Sem Fôlego, de Todd Haynes

Há muitos caminhos e pouca coerência em Sem Fôlego. A aparência de novidade não vai além de alguns momentos inspirados. Sua narrativa leva a duas trajetórias, às cores e ao preto e branco, aos anos 20 (no fim da era muda do cinema) e aos 70 (com a exposição de novos comportamentos), tudo na companhia de duas crianças graciosas.

Não se pode negar, contudo, a ousadia de Todd Haynes, criador incomum a um tempo de banalidades, decidido a seguir o espírito da frase que surge logo no início do filme, em um papel pregado ao lado da cama do protagonista: “Estamos na sarjeta, mas alguns de nós estão olhando para as estrelas”. Vencem as estrelas, claro.

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Não por acaso, e sem revelar muito, as personagens terminam com os olhos pregados no céu escuro de pontos brilhantes, na estrela que cruza esse espaço – à contramão do apagão que recai à cidade, da escuridão em outra forma, do barulho das sirenes da polícia que invade a metrópole, a Nova York imunda dos anos 70, do lado de fora.

Sem Fôlego, ao traçar um paralelo entre duas crianças de dois tempos, separadas por 50 anos, estabelece a proximidade entre os anseios dos puros. Ao contrário do que se pensa, e bem como aqui se prova, há mais em comum entre elas do que se pensa: decidiram se aventurar, mirar as estrelas, sair de suas casas e do comodismo. Ambas seguem para Nova York, uma em busca do pai, outra atrás de uma atriz famosa.

Para explicar esse filme, ou mesmo tentar, é preciso reparar no tempo: primeiro, na montagem paralela que situa a transformação à qual as pequenas personagens são lançadas, seja a do cinema que se transforma (do mudo ao falado, em 1927), seja a da cidade e seus novos tipos, ou seja, a das transformações sociais, a da realidade dos anos 70.

Depois, no espaço em que o tempo para, ou no qual os universos paralelos encontram-se: o museu. É ali que se conserva o tempo, onde a reprodução dos animais na parede continua a mesma depois de décadas, a observar os visitantes com a mesma fúria, com a mesma estranheza, com o mesmo tamanho que se espera dessa eternidade representada.

O abismo é menor quando se observa as similaridades entre crianças. Ambas são surdo-mudas e, em certa medida, estão presas a um mundo silencioso. A primeira delas é o pequeno Ben (Oakes Fegley), que perdeu a mãe e sonha descobrir quem é seu pai; a segunda é Rose (Millicent Simmonds), que não se entende com o pai e foge não raro ao espaço das estrelas, ou seja, o cinema. É pelo tempo paralelo que elas tocam-se.

Ben perde a audição após um raio atingir a casa em que vivia com a mãe, durante uma tempestade. Na história anterior, em preto e branco, Rose assiste a um filme que remete aos clássicos mudos de mestres como Victor Sjöström e King Vidor. A mulher em cena (Julianne Moore) tenta sobreviver a uma tempestade e vê sua casa ser feita aos pedaços. A relação com o cinema, a partir do livro e do roteiro de Brian Selznick, vai além das referências óbvias: as crianças, ao se lançarem à aventura, descobrem que o mundo é menor do que imaginavam.

Nesse filme que não chega a ser uma fábula e tampouco almeja o realismo, os pequenos aventureiros descobrem que é preciso cavar conexões secretas, possibilidades que beiram a mágica e, sobretudo, que é preciso ver o mundo por outro ponto de vista. Podem viver na sarjeta, ainda que com os olhos pregados no alto, espaço das estrelas.

(Wonderstruck, Todd Haynes, 2017)

Nota: ★★★☆☆

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A Carruagem Fantasma, de Victor Sjöström

À rua ou por cômodos pobres, as personagens trocam de roupas como trocam de estados: um figurino esfarrapado logo indica toda a podridão do universo em destaque em A Carruagem Fantasma, obra-prima de Victor Sjöström. Quando nega a ajuda de uma salvacionista, a personagem principal apela justamente ao figurino: rasga-o com alegria.

Das roupas esfarrapadas – ou dos esfarrapados, mendigos alcoólatras – segue-se ao espírito. Do realismo à mágica, não de um ao outro, mas juntos, unidos. As fusões de imagens, nessa história de idas e vindas no tempo, passada em noites de ano novo, cercada de mistério e tons místicos, levam ao encontro de humanos com fantasmas.

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Ao centro há um homem bêbado que foi preso, que perdeu a mulher e as filhas pequenas, que perdeu, sobretudo, a consciência e a bondade. Pode parecer piegas. O cinema muda retira tal peso, a suposta vulgaridade conferida ao drama, ou ao dramalhão. O crítico e historiador Georges Sadoul não considera A Carruagem Fantasma o melhor feito de Sjöström. Aponta “sua predicação moralizante, salvadora e antialcoólica”.

Sadoul, sobre o Sjöström ator, diz que “assemelha-se aos filmes que realizou: um pouco pesado e talvez desajeitado, mas profundo, possante, viril, impregnado de uma profunda e diversificada humanidade”. Difícil discordar. O peso, nesse caso, não é demérito. Sjöström deixa senti-lo no homem errante, embriagado, gozador, alguém mau.

Ele é deixado pela mulher comum, correta, forte. Alguém boa demais para alguém transformado, possuído pelo inexplicável. Inclinado à selvageria da qual sofre o casal de outro grande filme do cineasta, O Fora-da- Lei e sua Mulher, em seu encerramento. O frio, o isolamento, a pobreza – os problemas repetem-se à sombra da carruagem que se aproxima.

É quando o cineasta sueco lança-se ao mágico: a carruagem tem a função de buscar o espírito dos mortos e é guiada pela própria Morte. Na verdade, o espírito de um homem converte-se nesse ser de foice e corpo coberto pelo tecido, de rosto escondido. Espírito que morre à meia-noite de ano novo e, a partir de então, passa um ano no ofício.

A história é relembrada pelo próprio protagonista, David Holm, interpretado por Sjöström. Os acontecimentos concentram-se naquela noite de ano novo, enquanto Holm conta a história do ano anterior, quando um amigo morreu, o mesmo que lhe relatou a lenda da carruagem. Nada é por acaso. As peças logo se encontram. O terror tem humanismo.

Holm não precisa ser explicado. O espectador não precisa vê-lo sendo preso, mas apenas encarcerado. Não precisa do momento de seu primeiro gole, ao se deixar levar pela bebida. Ou mesmo o problema de seu irmão, que, também alcoólatra, matou um homem. O universo de Holm esfarela à medida que, relembrada pela Morte, sua história avança.

Como adiantam as primeiras cenas, há uma figura feminina importante. Jovem santificada pelas imagens de Sjöström e pela ausência de maldade. Nesse meio de imperfeições, ela (Astrid Holm) adoece depois de conhecer Holm, por quem está apaixonada. Pobre menina bondosa que amou o homem errado e está disposta a salvá-lo, capaz de tentar uni-lo, mais tarde, à antiga mulher, que fugiu do campo à cidade.

A mesma moça costurou a roupa de Holm, deu-lhe abrigo. A surgir nos momentos problemáticos e dar ao ambiente algum equilíbrio, alguém a dialogar com a morte. Ela, quase um fantasma, deixa o próprio corpo; e Holm, destinado a se tornar o próximo na fila da carruagem, mas ainda obrigado a encará-la, revê a vida de tropeços.

A Carruagem Fantasma fica entre o social e o fantasmagórico, e por isso é difícil de definir. É também uma história de amor impossível, sobre seres que só podem se tocar – e se compreender, e ver a bondade e o erro – quando convertidos em espírito, ou Morte.

(Körkarlen, Victor Sjöström, 1921)

Nota: ★★★★★

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O Fora-da-Lei e sua Mulher, de Victor Sjöström

Procurado pelo furto de uma ovelha, o estranho logo conquista a dona de uma fazenda, a viúva, e ambos fogem para viver nas montanhas. Só podem viver assim, um pouco como animais, entre rochas, cachoeiras, sob o risco de uma visita inesperada.

São as linhas gerais de O Fora-da-Lei e sua Mulher, de Victor Sjöström. Sua história de amor, em tons líricos e naturalistas, evolui de uma vida estável (a dela) para uma vida em risco (a dois), mais tarde para uma vida em que os amantes chegam perto de se odiar quando passam fome em meio à neve, isolados, próximos da morte.

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O estranho é interpretado pelo próprio Sjöström. Caminha entre montanhas quando assiste a um crime semelhante ao seu: um homem furta a lã de dois carneiros de uma fazenda. O criminoso investe contra o estranho, que ainda será capaz de perdoá-lo. Apenas pede a indicação de uma fazenda nas redondezas, um local para trabalhar.

Termina no espaço de Halla (Edith Erastoff), às vezes mais velha do que representa, às vezes mais nova do que parece. Halla oferece trabalho ao estranho. Encanta-se. Mas tem outro pretendente, sobre o qual não esboça emoções: seu cunhado, o xerife Björn (Nils Aréhn), que descobre o passado do estranho e passa a persegui-lo.

As linhas gerais, a aparência comum, logo dão vez a um filme grandioso: Sjöström não trata a câmera apenas como portadora do registro e suas imagens estão longe do efeito teatral. O cineasta filma em ambientes reais, investe em faces de medo e descoberta, dá vida a sequências pulsantes nas quais as personagens degradam-se.

É sobre uma sociedade que se desfaz em suas próprias leis, em sua perseguição. Curioso notar que uma das sequências-chave ocorre justamente na Igreja, quando um homem reconhece o estranho como criminoso e revela seu nome verdadeiro ao delegado.

Quando a identidade atrapalha o amor entre ele e Halla, o passado do protagonista vem à tona: com frio e uma família com fome, teve de roubar a ovelha de um pastor. O crime choca-se com a necessidade física, com a miséria. Logo, a organização social é questionada: seria o homem ao centro realmente um criminoso?

Halla sucumbe ao amor, deixa a fazenda e foge com o estranho. O filme fica ainda melhor. O casal organiza-se, por anos, e encontra uma vida em equilíbrio. É o que indicam algumas poucas imagens desse pequeno grande filme em sete capítulos. O casal também passa a viver à beira de um abismo, resumo do que vem pela frente.

A certa altura, retorna o homem que o estranho encontrou no início, o ladrão de lã. Passa alguns dias com o casal nas montanhas. Ele, Arnes (John Ekman), é outro que não resiste à beleza dela, à forma física que expõe enquanto lava roupas, e se deixa levar pelos desejos. O visitante tenta beijá-la e é repelido.

Ela explica ao visitante o que a levou até ali, o que a levou a se sujeitar àquela vida distante, entre montanhas: “Eu dei tudo para meu marido, até minha consciência”. O amor sobrepõe-se às leis, às organizações, ao passo que esses criminosos e pecadores encontram outra forma de vida. “Nossa lei é o amor”, ela declara, ao fim.

O casal descobre que, mesmo distante e em aparente equilíbrio, continua vítima dos desejos e necessidades físicas. Justamente por isso, talvez. Eles podem se aproximar dos animais, podem questionar o amor que os une. Após perderem a filha e confrontarem o delegado e seus homens, terminam em outra casa, à noite, sob a neve forte.

Sjöström antecipa a morte pela composição do ambiente, pela escuridão. Como no grande Aurora, de Murnau, as personagens projetam o mal em seus corpos, em suas ações, no desejo e, claro, na loucura. Algo inexplicável, e com o qual não podem lidar.

(Berg-Ejvind och hans hustru, Victor Sjöström, 1918)

Nota: ★★★★★

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O Fora-da-Lei e sua Mulher, um dos favoritos de Ingmar Bergman

O Fora-da-Lei e sua Mulher, um dos favoritos de Ingmar Bergman

O cineasta sueco Ingmar Bergman fez uma lista com seus filmes favoritos. São, ao todo, 35 títulos. O mais antigo é O Fora-da-Lei e sua Mulher, de Victor Sjöström. Lançada em 1918, a obra ficou desaparecida por décadas, foi redescoberta e restaurada mais tarde e tem pouco mais de uma hora de duração. Narra o amor entre um criminoso – que roubou uma ovelha para matar a fome – e uma rica dona de terras.

Para Bergman, Sjöström protagonizou Morangos Silvestres. Eram amigos. Ao pupilo, conforme o mesmo relata em Lanterna Mágica, daria algumas dicas: “Trabalhe de forma mais simples. Fotografe os atores de frente, eles gostam, fica melhor assim. Não brigue tão ferozmente com todo mundo, eles só ficam zangados e fazem um trabalho pior. Não faça de tudo coisas essenciais, você sufoca o público”.

Por sinal, a história de amor de O Fora-da-Lei e sua Mulher é narrada de maneira direta, com abundância de planos médios, com atores de frente, sem psicologismo em excesso. Sjöström ajudou na evolução do cinema da época no tratamento dos espaços e no uso da câmera como veículo do lirismo. Segundo Jean Tulard, no Dicionário de Cineastas, o diretor acabou com o domínio teatral que pesava sobre a arte cinematográfica.

O filme de Sjöström é grande. Além dele, Bergman escolheu outro trabalho do diretor para entrar em sua lista de melhores filmes, entre outras pérolas: A Carruagem Fantasma, de 1921. Aos interessados, a lista de Bergman está no Mubi e pode ser acessada aqui.

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