Victor Hugo

A História de Adèle H., de François Truffaut

O amor de Adèle Hugo (Isabelle Adjani) carrega hipnose. Levada por ele, a moça está disposta até a morrer pelo homem que ama. É sua ideia de amor: a possibilidade de se lançar às águas, se for preciso, para terminar ao lado do companheiro.

Não às águas, mas à guerra, em seu caso. A guerra à qual o amado lançou-se, o homem fardado que a ignora, que vê nela o que é salientado ao espectador e explorado pelo cineasta François Truffaut, o que é impossível driblar: a loucura.

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a história de adèle h

Mas, em A História de Adèle H., talvez o amado enxergue apenas uma moça mimada. Mas moças mimadas não atravessam continentes para conquistar homens. No caso de Adèle, não se duvida do amor, em terreno perfeito ao cinema de Truffaut.

Adèle sai da Europa, onde vivia com o pai, o grande escritor Victor Hugo, para tentar reencontrar o homem que ama, o tenente Albert Pinson (Bruce Robinson). Seu destino é Halifax, no Canadá, em plena guerra no novo mundo, em 1863.

Hospeda-se na casa de uma senhora de bons conselhos, amável, à frente ignorada por Adèle quando não há dinheiro para pagar a hospedagem. A moça é capaz de tudo para lutar pelo amor não correspondido: mentir aos outros, ao próprio pai, a si mesma.

Conta à mesma mulher a história de sua irmã, morta por afogamento e ao lado do homem que ama. Passa a ser a ideia de amor para Adèle, e talvez a irmã seja ela própria. Perdida de amor, ainda que autêntica, Adèle não consegue dizer a verdade.

A certa altura, veste-se como homem para estar próxima ao amado e, quando o encontra, declara seus sentimentos em meio a um cemitério. O filme de Truffaut contrapõe esses sentimentos ao ambiente hostil, de pouco sol, à neve, ou mesmo de fundo e paredes escuras – da bela fotografia de Néstor Almendros.

De olhos amolecidos, avermelhados, pele branca e lábios rachados, a moça deixa frases fortes, sempre com exagero. “Eu tenho a religião do amor” é uma delas. Não à toa, faz um pequeno altar para pregar a foto do amado. Passa a adorá-lo, apenas a persegui-lo.

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É possível viver apenas para amar, e ser consumido pelo amor sem perceber? Adèle, de outro tempo, parece dizer que sim: o amor pode ser tão destrutivo quanto seu oposto, ou mesmo se confundir com ódio, com dor, ao passo que se mesclam.

Em momento esclarecedor, Adèle assiste a um espetáculo de hipnose. O mágico do palco – na verdade, um charlatão – faz as pessoas adormecerem. O público acaba acreditando em seus feitos. Adèle deseja saber como aquilo é possível e, ao descobrir que se trata de algo combinado, desaponta-se e vai embora.

Não consegue perceber o quanto a cegueira daquele público assemelha-se à dela; não pode deixar de perseguir quem ama. Por isso, será capaz de deixar Halifax e ir para Barbados, terminar na rua, cega, mesmo cara a cara com Pinson. O homem desaparece. Fica apenas o vazio. Ela termina hipnotizada, presa à sua personagem sem alma.

Em Beijos Proibidos, é provável que o protagonista não ame tanto as mulheres porque ama demais a vida. É outro amor. Depois, em Duas Inglesas e o Amor, as personagens amam-se, mas terminam separadas por questões que escapam à explicação fácil.

A situação de Adèle é, ao mesmo tempo, a mais conhecida e a mais desconhecida: é o amor como parece ser – entrega, obsessão – e o que não deve ser, ou o que não se vê habitualmente. É estar pronto para morrer, pouco a pouco, e não enxergar mais.

(L’histoire d’Adèle H., François Truffaut, 1975)

Nota: ★★★★☆

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À época, em 1975, um filme como Tubarão poderia parecer estranho. Mais tarde, seria quase regra. Tornar-se-ia, então, a maior bilheteria de seu ano, o primeiro filme a ultrapassar 100 milhões de dólares em ingressos nos Estados Unidos. Algo mudava.

Spielberg apontou ao retorno das grandes produções, o cinemão de entretenimento. Apenas dois anos depois viria Guerra nas Estrelas. A história seguinte é conhecida. Em 1975, Tubarão dividia espaço com outros grandes filmes, de autores já com carreira consolidada, como John Huston, e outros próximos de grande sucesso, como Milos Forman. Ano de filmes extraordinários, inesquecíveis, como provam os 20 abaixo.

20) O Homem que Queria Ser Rei, de John Huston

Bela aventura de Huston com uma dupla incrível à frente, Michael Caine e Sean Connery, exploradores que desejam se dar bem em terras distantes.

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19) Dersu Uzala, de Akira Kurosawa

História de amizade entre um militar e um homem da tribo Goldi. Depois de tentar o suicídio, Kurosawa foi convidado pelos soviéticos para fazer esse belo filme.

dersu uzala

18) A História de Adèle H., de François Truffaut

Amor e sofrimento, com a mulher, Adèle, filha de Victor Hugo, em busca do homem que ama, em meio à guerra, com a extraordinária direção do francês Truffaut.

a história de adele h

17) O Importante é Amar, de Andrzej Zulawski

Começa com uma filmagem, quando a atriz (Romy Schneider) fica paralisada em cena e não consegue dizer “eu te amo”. Zulawski explora a relação entre arte e vida real.

o importante é amar

16) Xala, de Ousmane Sembene

Crítica aos novos poderosos na África independente (ou nem tanto), com um encerramento bizarro e a personagem que crê estar impotente após o terceiro casamento.

xala

15) Pasqualino Sete Belezas, de Lina Wertmüller

A trajetória de um fraco mafioso, Pasqualino, que termina em um campo de concentração, sob as ordens de uma líder alemã gorda e que o trata como um rato.

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14) Um Lance no Escuro, de Arthur Penn

O cinema com mistério, em seu lado marginal, sobre dublês e estrelas decadentes, enquanto Gene Hackman é o detetive em busca de uma ninfeta desaparecida.

um lance no escuro

13) Picnic na Montanha Misteriosa, de Peter Weir

Outra bela produção cheia de mistério, a comprovar o então bom momento do cinema australiano. Aborda o desaparecimento de algumas garotas em uma montanha.

picnic na montanha misteriosa

12) Tubarão, de Steven Spielberg

Após alguns filmes originais, entre eles o incrível Encurralado, Spielberg entrega esse arrasa-quarteirão. Nenhum filme sobre tubarão, depois, conseguiria o mesmo resultado.

tubarão

11) Um Dia de Cão, de Sidney Lumet

Entre comédia e tragédia, Lumet oferece esse belo retrato da sociedade da época, na qual assaltantes humanizados dão corpo às imagens que a mídia tanto deseja.

um dia de cão

10) A Honra Perdida de Katharina Blum, de Volker Schlöndorff e Margarethe von Trotta

Poderosa crítica à imprensa, que persegue a protagonista, a estranha e distante Katharina Blum. Ela está apaixonada por um suspeito de terrorismo procurado pela polícia.

a honra perdida de katharina blum

9) Lilian M: Relatório Confidencial, de Carlos Reichenbach

Uma história marginal com uma protagonista impensável: em suas andanças, Maria torna-se Lilian, passa do campo à cidade, e revela um país de cabeça para baixo.

lilian m

8) Jeanne Dielman, de Chantal Akerman

A impressão é de que nada ocorre. Por algum tempo, vê-se apenas a mulher em seu espaço: na cozinha, fazendo comida, ou trabalhando, recebendo homens por ali.

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7) Barry Lyndon, de Stanley Kubrick

Épico frio, extraordinário, que começa com um embate de armas, com o aventureiro a quem tudo dá errado para dar certo. Depois, o oposto: tudo dá certo para dar errado.

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6) Saló ou Os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini

Obra de choque, testamento de seu autor, assassinado por um garoto de programa pouco antes de o filme estrear. Mescla tortura, jovens inocentes e fascistas.

saló ou os 120 dias de sodoma

5) O Espelho, de Andrei Tarkovski

A mulher espera pelo marido, fora de casa, sobre a cerca. Tarkovski consegue uma das mais belas imagens do cinema, com as lembranças de um homem sobre a infância.

o espelho

4) Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

O diretor italiano explora novamente a identidade, com o repórter que vê a oportunidade de mudar de vida ao assumir o nome de um homem morto, em um hotel distante.

profissão repórter

3) Um Estranho no Ninho, de Milos Forman

Texto afiado, com Jack Nicholson explosivo e um ambiente nem sempre fácil de abordar: o hospital psiquiátrico. É mais trágico que engraçado, e pode levar às lágrimas.

um estranho no ninho

2) A Viagem dos Comediantes, de Theodoros Angelopoulos

Obra grande em diferentes sentidos, com Angelopoulos a abordar a história da Grécia. Tem alguns dos planos-sequência mais extraordinários do cinema moderno.

a viagem dos comediantes

1) Nashville, de Robert Altman

O típico filme-coral de Altman, com mais de 20 personagens, com uma cidade em festa, com a política ao fundo e ecos de tempos passados: o assassinato em local público.

nashville

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Dez grandes filmes sobre amor obsessivo

O amor tem diferentes faces. No cinema, há ternura e loucura, com pertencimento ou repelência. Em exagero, o amor pode ser destrutivo. Alguns amantes, como se vê nos filmes abaixo, estão dispostos a morrer pelo outro, ou mesmo a amar um espírito. Estão à beira da loucura, às vezes sem caminho, às vezes sem respostas. Abaixo, dez exemplos de grandes filmes nos quais o amor é colocado de cabeça para baixo. Contudo, continua por ali, ainda que difícil de enxergar.

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O Morro dos Ventos Uivantes, de William Wyler

Apesar de tanto amor, o filme de Wyler tem pitadas de vingança – com Laurence Olivier como o pobretão que retorna rico para tomar seu grande amor. Um clássico sobre amores e fantasmas, sobre eternidade.

o morro dos ventos uivantes

O Retrato de Jennie, de William Dieterle

Mais do que sobre amor, é sobre um homem obcecado pela beleza, pela mulher de outro tempo que aparece para ele e por quem se vê apaixonado. De encerramento delirante, foi elogiado por Luis Buñuel.

o retrato de jennie

Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock

A história de uma mulher obcecada por um quadro, de um homem obcecado por ela e pelo medo de altura. Os caminhos inusitados dão vez a uma grande história de amor. Com a linda Kim Novak.

um corpo que cai

Lolita, de Stanley Kubrick

O homem mais velho faz de tudo para estar perto da adolescente, antes sua enteada e depois sua amante. À época, no começo dos anos 60, Kubrick tratou o romance até com certa leveza para driblar a censura.

lolita

A História de Adèle H., de François Truffaut

O amor em suas últimas consequências. A personagem-título, filha do escritor Victor Hugo, sai da Europa e vai para o Canadá tentar encontrar seu grande amor. É quando começa a jornada de sofrimento.

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O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima

Considerado pornográfico, é um dos filmes mais corajosos e controversos da história do cinema. Oshima funde amor à loucura e leva os amantes à tragédia, forma de possuir o outro por inteiro.

império dos sentidos

Esse Obscuro Objeto de Desejo, de Luis Buñuel

Como no poderoso e anterior O Alucinado, o diretor narra a vida de um homem impotente, em desespero e dominado por uma mulher. Buñuel utiliza duas atrizes diferentes para a mesma personagem.

esse obscuro objeto de desejo

A Garota de Trieste, de Pasquale Festa Campanile

Pintor solitário presencia o resgate de uma garota, retirada da água quase morta. Mais tarde obcecado, ele passa a perseguir a jovem (a bela Ornella Mutti) que, com frequência, mostra-se descontrolada.

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Ondas do Destino, de Lars Von Trier

Uma mulher aceita sair com outros homens apenas para satisfazer os desejos do marido tetraplégico, que depois ouve seus relatos. Os limites do amor e a hipocrisia religiosa fazem parte desse grande filme.

ondas do destino

Fale com Ela, de Pedro Almodóvar

Enfermeiro efeminado e amante da arte apaixona-se por sua paciente. O problema é que ela encontra-se presa a uma cama, em coma. Isso não o impede de lhe contar histórias. O melhor filme de Almodóvar.

fale com ela

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Os Miseráveis, de Tom Hooper

Ainda é possível encontrar espaço para o amor puro e verdadeiro e, de quebra, fazer com que o público acredite nisso? A acrescentar, doses de religiosidade com os conflitos políticos e sociais. Ao que parece, é o que deseja questionar Tom Hooper com sua versão de Os Miseráveis – com seu Jean Valjean, seu Javert, sua Fantine e sua Cosette. Um pacote com embrulho, com algumas sequências até ousadas, com algumas belas músicas cantadas por jovens de peitos cheios e a gritar.

Ou cantar. O que se vê, ou o que se ouve, é um apelo à pureza, à individualidade, enquanto os atores centrais – Valjean e Fantine – têm seus rostos transformados. Como se, a partir da obra de Victor Hugo, ainda fosse possível falar de transformações, de fidelidade, de reviravoltas e, claro, de amor sem soar exagerado. Ou sem soar otimista demais. Talvez a música deixe tudo aceitável: faz os músculos relaxarem, tal como a paciência de gente pouco conectada ao “amor verdadeiro”.

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Hooper devolve o tempo das cartas pregadas no portão, dos jovens revolucionários cheiros de amor (viviam dele) e das frases de efeito perdidas entre canções na medida. Enfim, do idealismo confundido com paixão: uma confusão perfeita ao espetáculo de emoções, com efeitos especiais, com doses de bom cuidado estético, a servir Hooper – da aparente história menor, de um príncipe sem voz, à amostra de que gosta de tocar o que se revela maior, como este Os Miseráveis.

O diretor põe-se às claras: faz um filme grande, às vezes estranho porque nunca soa natural e, cantado, nunca deverá ser assim. Quando as coisas não parecem mais fazer sentido, ainda que a história não esconda qualquer complexidade, volta-se à música – retorno incansável do diretor. Em uma das principais sequências de Os Miseráveis, o grupo de jovens revolucionários perde a unidade, parece fraco. É então que uma criança sobre uma barricada de entulhos solta a voz. Todos se unem pela luta, à luz controlada centímetro a centímetro, à falsa escuridão.

Falsa porque o mal é um ensaio, uma amostra, uma dor que – dentro dos acertos de Hooper – consegue ainda convencer. Algumas de suas personagens transmitem dor. Outras não. Irônico, por isso, que em um filme tão chegado à grandiosidade, às sequências épicas, a melhor parte chegue pelo rosto de Anne Hathaway, boa escolha para viver Fantine. Ainda que de passagem, ela é a peça que coloca tudo a mover, a quem Hooper deverá se ajoelhar. A mulher, a vítima, a mãe sem a filha e com os cabelos cortados – forma comum para se apontar à dor da mulher no cinema.

Há Hugh Jackman, um bom Valjean, da raiva das primeiras cenas àquela ordem do homem educado visto mais tarde. A brutalidade toca Fantine, vítima do mundo do qual Valjean libertou-se e próximo a aprisioná-la. O primeiro para um lado, a segunda para outro. Fantine sucumbe às fragilidades do mundo e à sua escória, sinais presentes em Os Miseráveis do início ao fim: nas ruas, nos becos, nas armas, nos móveis quebrados, naquela roupa rasgada da apaixonada Éponine (Samantha Barks).

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Outra peça fundamental é o Javert de Russell Crowe, o homem condenado a ser sempre o mesmo, sempre no alto dos prédios – de onde deverá cair. Javert ainda tenta se transformar para estar entre seus inimigos, mas é impedido com sua máscara frágil. Não pode ser ninguém senão ele mesmo: o que, aqui, tem certa simbologia, já que todas as personagens são vítimas das transformações impostas pelo mundo, com sua força irracional, material, à contramão dos sentimentos verdadeiros.

Assim, o jeito é voltar à pergunta de Hooper e, talvez, tentar respondê-la: vale crer no amor verdadeiro e puro? Quando o material é o cinema, talvez valha, ainda que a resposta dependa sempre do filme em análise. Os Miseráveis é belo mas frouxo, econômico mas quase sempre cansativo em seu grito à liberdade dos oprimidos. Um espetáculo que segue a cartilha de algumas produções recentes, na busca incansável em saciar o desejo pela beleza, pelo bom e velho amor impossível.

Isso não quer dizer que a pureza esteja perdida no cinema. O problema – mesmo na ficção, na tragédia de Hugo – está na opção por personagens tão planas e sem muito tempo a oferecer em um filme longo. Curioso e comum paradoxo em tempos de espetáculos banhados à digitalização.