vencedor do Oscar

Bastidores: Kramer vs. Kramer

A direção de [Robert] Benton deve primeiro ser elogiada por sua escolha de atores e sua colaboração com eles. Este é seu primeiro filme sério: anteriormente ele dirigiu Má Companhia e A Última Investigação, ambos fortemente cômicos. Aqui ele está lidando com mágoa, mesmo que seja vista através de um temperamento de comédia rápida, e sua mão é justa e correta. Ele se dá bem com o interior das cenas, o movimento dos atores e da câmera, os cortes internos. Minha única briga é com a edição geral, a junção de sequências. Sempre estou consciente de que ele está cortando as lacunas do tempo, começando com uma inserção precoce de caminhões de lixo – depois que Streep sai – para nos dizer que a noite passou. E muitas vezes, no final da seqüência, Benton corta ou desvanece para o preto. Este dispositivo, uma vez comum, é agora relativamente raro e deve permanecer raro. Ninguém quer ser sacudido para a consciência da própria tela enquanto assiste a um filme, a menos que aquele momento de preto, aquela consciência da existência da tela, seja ela própria parte do filme, como às vezes tem sido em Bergman.

Stanley Kauffmann, crítico de cinema, no site da revista The New Republic (a crítica é de dezembro de 1979 e pode ser lida aqui; a tradução é deste site). Abaixo, Dustin Hoffman e Meryl Streep durante as filmagens.

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Procurando Sugar Man, de Malik Bendjelloul

Não fosse verdadeira, a história de Sixto Rodriguez seria inverossímil. Dá para compreender. Músico com dois álbuns gravados nos Estados Unidos, ele terminou esquecido em sua nação e, sem se dar conta, transformou-se em grande sucesso na África do Sul, em plena época do regime de apartheid.

Essa trajetória curiosa – da lenda que caminhava entre sombras, que teria se suicidado ao colocar fogo no próprio corpo, ao homem pacato em sua pequena casa em Detroit, onde ainda vive – é contada em Procurando Sugar Man, de Malik Bendjelloul.

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No início, o mito, o homem que talvez tenha desaparecido. A começar pelo título, o documentário de Bendjelloul não esconde o mistério. Não vale revelar que Sixto está vivo, mas essa revelação não faz a obra perder fôlego.

A primeira parte é sobre a lenda que, a certa altura, o espectador acreditará inalcançável. O cantor de letras fortes em tom quase sempre leve seria descoberto e faria sucesso em outro continente. A segunda parte é sobre seu retorno.

O trabalho de Bendjelloul envolve os estranhos caminhos da sociedade do espetáculo, como se vê na irônica imagem de Sixto, mais velho, em sua casa em Detroit: no fundo, o sucesso não parece ter feito nada senão dizer que seria ouvido, e fazê-lo sorrir.

Não precisou desfrutar do dinheiro. O lucro com os discos vendidos na África do Sul tampouco é explicado. Provável que Sixto fosse indiferente a tudo isso. Quando o cineasta questiona-lhe sobre o sucesso, ele não escapa ao simplismo.

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Até a metade do filme, o mito parece ser maior que o homem – e o homem, a quem não conhece a história, parece ter se perdido. Não é difícil crer que tenha se suicidado quando se trata da indústria da música e sua cobrança por sucesso.

Depois, com a reaparição, o homem torna-se mais importante. Sixto não precisa se esforçar para parecer um pouco despreocupado com o rumo da vida: as imagens que o mostram caminhando entre a neve, na Detroit sem sol, fazem isso pelo músico.

Da América salta-se à África ao sol, aos homens que endeusam o artista. Nasce uma verdadeira investigação. Ele é encontrado e parte para a África do Sul, em 1998, na companhia das duas filhas, com recepção à altura de um Elvis Presley.

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E há quem garanta que tenha feito mais sucesso que Elvis no país de Nelson Mandela. Volta então às apresentações, quando muita gente ainda duvidava se tratar de Sixto. No palco, canta “I Wonder”, e o público vai ao delírio. O concerto está lotado.

Parte dessas imagens é de gravações amadoras, o que só ajuda a reafirmar a distância – sem ser proposital, mas importante ao resultado do filme. Como o público que talvez não acreditasse na presença de Sixto e procurava encontrar sua imagem no palco e entre luzes, o espectador procura por sua forma, como se esta lhe escapasse.

É, enfim, o mesmo homem: simples, suave, feliz, de emoções contidas, como sua música não deixa mentir. Melhor não ser invadido, compreende o documentarista.

Nota: ★★★☆☆

Argo, de Ben Affleck

A frase que define Argo é de Marx. Nesse caso, o pensador Karl, não o cômico Groucho, como questiona o produtor vivido por Alan Arkin.

A história dá-se primeiro como tragédia, depois como farsa. Ao longo do filme de Ben Affleck também se aplica o oposto: começa como farsa e termina em tragédia. Começa com a história do Irã narrada em quadrinhos, desenho, e termina com aquela moça iraniana, a criada da embaixada canadense, tendo de fugir para o Iraque.

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Se partisse de uma história fictícia, seria difícil crer em Argo. O fato de se basear em um caso real – sobre o resgate de seis americanos escondidos no Irã após a revolução de 1979 – não retira seus traços de falsidade, alimentados pela comédia.

O filme não tem limites ao misturar farsa e tragédia, ao mostrar os iranianos sempre como pessoas más – desconfiadas, tirânicas – ao passo que os ocidentais exploram nelas justamente o desejo pela ficção: elas adoram a farsa das velhas lendas traduzidas pelos filmes de Hollywood, à maneira de Guerra nas Estrelas.

Quando explodiu a Revolução dos Aiatolás, em 1979, os americanos tornaram-se o inimigo número um dos iranianos. A embaixada foi cercada, depois invadida. Affleck abre o filme com a bandeira dos Estados Unidos sendo queimada e fecha com a mesma, na porta da casa do herói, quando este retorna para a família.

Essas e outras manobras do roteiro, tão “perfeito” e calculado, não têm fim: os americanos sempre se comportam como esperado, com medo, com desconfiança, mas com bondade, com o rosto do próprio cineasta – também o protagonista – para lembrar como são as pessoas confiáveis. Tem aquele sorriso raso, quase natural.

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Ele é Tony Mendez, agente da CIA enviado ao Irã para resgatar seis americanos escondidos na embaixada do Canadá. Mendez precisa de uma ideia para ir ao país inimigo e voltar com seus conterrâneos.

Certo dia, o herói é iluminado pela ficção, por Hollywood, quando seu filho assiste um dos filmes da série Planeta dos Macacos. O que pode soar mais atraente aos aiatolás que doses de ficção? Guerra nas Estrelas é justamente sobre a batalha de rebeldes contra o império – ou de povos oprimidos contra os Estados Unidos.

A indústria do cinema é a saída para o plano do agente: Argo, com roteiro, produção e publicidade, é o filme que nunca existiu. É o instrumento de aproximação entre a Casa Branca e os estúdios de Los Angeles, em uma época em que filmes premiados não cansavam de agredir a política externa americana.

Os iranianos reclamavam da ocidentalização do país antes da chegada dos aiatolás ao poder. E é justamente isso que Mendez oferece para derrotá-los: em meio à emoção e ao infantilismo, eles descobrem a história do filme, ao fim, no aeroporto.

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Com seu roteiro “perfeito”, assinado por Chris Terrio, o filme oferece doses de emoção calculadas, com Affleck seguro na direção. Aposta em situações manjadas, como a do telefone que demora a ser atendido, como a dos inimigos que, na última hora, ainda tentam parar o avião antes de ele voar sobre o Irã – e de volta para casa.

Há sempre doses de enganação, como se o filme assumisse ser uma farsa – ainda que, ao fundo, a política dos aiatolás seja a tragédia inescapável. Ao longo de Argo, as ruas do Irã mostram o pior dos lugares para se viver: intermináveis conflitos, mulheres de véu e metralhadora nas mãos, guindastes com gente enforcada.

É o tipo de filme em que a diversão justifica a farsa, para esquecer a realidade, no qual a política corre por caminho estranho, e no qual vale lembrar Groucho, o líder dos Irmãos Marx. Em Hollywood, tudo termina em mentira, em graça.

(Idem, Ben Affleck, 2012)

Nota: ★★★☆☆

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A um Passo da Eternidade, de Fred Zinnemann

Alguns filmes tiveram mais impacto na época em que foram feitos. No caso de A um Passo da Eternidade, é possível compreender o sucesso e os suspiros que captou em 1953, quando foi lançado. Hoje, contudo, pode parecer até um pouco inocente.

Seu diretor, Fred Zinnemann, embarcou no roteiro de Daniel Taradash, a partir da obra de James Jones, para relatar a situação de um grupo de soldados nos dias anteriores à Segunda Guerra Mundial: o sentimento de um país próximo a cair no cinismo que a personagem de Burt Lancaster revela ao fim, ao mandar que retirem o corpo de seu amigo, um soldado americano morto pelo próprio exército, sem muito sentimento.

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É um passo à frente em relação a outro vencedor do Oscar, Os Melhores Anos de Nossas Vidas: a celebração o tempo anterior e, ao mesmo tempo, posterior à guerra. Um tempo de traições, de posições sociais e sexuais ambíguas. Um tempo em que os americanos pareciam o próprio inimigo e assumiam suas feições.

É, em essência, a história de cinco pessoas: um sargento linha dura, um soldado idealista, um ítalo-americano falador, uma mulher nada realizada em seu casamento e uma prostituta apaixonada por um soldado e em busca de uma vida digna.

A obra de Zinnemann move-se para demolir o sonho americano em um meio militar, naquela instituição de homens bravos, que deveriam ser honestos, cavalheiros, fiéis.

Há uma sequência em que um soldado ordena ao outro, o idealista Robert E. Lee Prewitt (Montgomery Clift), que gire o corpo, depois gire novamente, e depois mais uma vez. Poderia haver forma melhor de mostrá-lo preso, às voltas em um mesmo ambiente, a executar sempre a mesma coisa? Uma loucura.

Justamente por ser um idealista, Prewitt pagará caro. Torna-se saco de pancadas. O capitão do grupo, Dana Holmes (Philip Ober), deseja-o na equipe de boxe. O capitão importa-se mais com o boxe do que com a mulher, a bela Karen (Deborah Kerr). Tem diversos retratos de homens fortes em sua sala, na parede, para observar ali o máximo da potência masculina. É a forma de Zinnemann apresentar seu prazer por homens – opção corajosa e inteligente a partir do texto de Taradash.

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Karen, por sua vez, cederá aos encantos do durão Milton Warden (Burt Lancaster) e, na cidade, com camisa florida e longe da repressão, Prewitt também se deixará levar por outra beleza: a prostituta Alma (Donna Reed), conhecida em seu meio como Lorene.

O bordel é uma fuga. Mais: é um meio de liberdade e tolerância contra o intolerante exército de homens que giram no mesmo lugar, como pregos. O exército, para Zinnemann, é uma instituição de homens cegos na qual a vontade de justiça de Prewitt – sua forma de não se subordinar onde isso é uma obrigação – é uma revolta.

Portanto, um filme poderoso. Mas um filme que trabalha nos cantos, no que é sempre subliminar. Corajoso e um tanto rápido, às vezes até mesmo econômico na forma de comprimir tanto em tão pouco: uma história de muitas vidas que se esbarram a cada novo instante – até o momento final, único encontro entre as mulheres ao centro.

Simbólico por se passar poucos dias antes da Segunda Guerra Mundial, à qual os americanos seriam tragados. A morte do idealista é a chegada desse tempo nebuloso, de um cinismo que, é verdade, explode nesse filme de 1953.

00/00/1953. Film "From here to eternity" (Tant qu'il y aura des hommes) by Fred Zinnemann

O melhor amigo de Prewitt é Angelo Maggio (Frank Sinatra), garantia de alegria e, ao mesmo tempo, de desgraça em A um Passo da Eternidade. Essas características completam o homem de Clift, aparentemente vazio, de falas fortes e secas, com uma lágrima no rosto quando toca a corneta em um campo vazio, em um dia de luto.

É contido. Poderia ser mais lacrimoso e não é. Ainda bem. Zinnemann sabe que toda a tragédia já está por ali: no grito final do capitão, no rapaz sangrando pelo campo aberto, no beco em que Prewitt derruba o malvado Fatso (Ernest Borgnine) – grande, gordo e chegado à tortura, certamente para lembrar Mussolini.

O pior já estava entre eles: o exército. Cerca todos os lados, não deixa vazão. Quando Prewitt e seus companheiros recorrem à bebida, também ao bordel, o espectador deverá ficar aliviado. É a forma de escapar de toda aquela besteira, pela qual, como o bom americano que ainda tenta ser, deverá morrer. Uma porta à guerra. O resto é história.