Uma Confusão Confuciana

As Coisas Simples da Vida, de Edward Yang

Um professor, personagem pequena em As Coisas Simples da Vida, pede licença à moça que assiste à briga no interior do apartamento e em seguida fecha a porta. Ele volta-se à câmera, ao espectador, e impede que se veja tudo. A menina, do lado de fora do apartamento, permanece ali, paralisada, ouvindo a briga no interior do mesmo espaço.

A sequência, realizada com grande habilidade pelo mestre Edward Yang, é uma das várias em que o espectador não é convidado a ver toda a ação – nesse caso, é convidado apenas a ver a metade: a menina que permanece do lado de fora do apartamento.

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A garota leva o espectador a esse ponto de vista, ao mesmo tempo ao impedimento, ao cinema de grandes mestres que Yang persegue: a possibilidade de ver muito quando apenas se vê a metade, a importância desse impedimento para que o próprio espectador construa – a distância – a totalidade do espaço e da ação.

É necessário fazer escolhas, diz Yang – como também diziam mestres do minimalismo, dos retratos da vida cotidiana, como é o caso de Yasujiro Ozu. Inevitável citá-lo aqui.

Como Ozu, Yang chega ao equilíbrio perfeito em seu último filme, obra sobre vidas paralelas, sobre familiares, vizinhos, pessoas que se esbarram na grande Taipei, entre prédios e escolas, casamentos e funerais. Gente ao mesmo tempo conhecida de longa data, ao mesmo tempo reclusa em seus afazeres e características.

Situa o espectador no espaço, nas pessoas, por meio de ambientes conhecidos. A eles volta várias vezes. E a ideia do coletivo vem à tona como crônica, permite tons cômicos, como se nada fosse suficientemente dramático para ser considerado “questão de vida ou morte”. Mas, ao mesmo tempo, não deixa de ser: os mais velhos morrem enquanto são vistos pelos mais novos, que se confessam, que tentam entender o mundo ao redor.

A começar pelo pequeno Yang-Yang (Jonathan Chang), que questiona o pai sobre a possibilidade de compreender tudo à volta quando se vê apenas a metade; ou sua irmã, Ting-Ting (Kelly Lee), a menina que fica do lado de fora do apartamento e, como outros, que encontra na avó em coma alguém para dizer o que não diz aos demais.

Vida e morte, lado a lado, em uma história graciosa sobre pessoas diferentes, ao contrário do que se viu antes em Uma Confusão Confuciana, com sua comédia de tropeços, ou ainda antes em Um Dia Quente de Verão, cujo olhar ao passado – o do próprio Yang – explora a intensidade dos conflitos entre adolescentes.

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Toda obra de Yang reflete questões sociais de Taiwan a partir do olhar pessoal, a partir de personagens que deixam ver apenas suas metades – ou de um cinema que se escora nessa proposital limitação para paradoxalmente tudo revelar. Não por acaso, Yang-Yang fotografa a nuca das pessoas para que estas possam ver o oposto.

O crítico Inácio Araújo lembra que o filme representa um cinema que busca refletir a própria vida e, por isso, e para muitos, não acolhe o espetáculo esperado. Por que ir ao cinema ver o que se vê na vida cotidiana? Inácio responde: “Todos, ou quase, vivenciamos a morte da mãe, por exemplo. O fato de essa experiência ser universal não a torna banal. Mostrar isso é fácil. Bem mais complexo é criar a teia que une a infância à adolescência, essa à maturidade e essa ainda à velhice – como faz Yang com desenvoltura espantosa”. O desafio é mostrar o que há de profundo na simplicidade.

Há o cinema banal, sim, que passa longe de Yang – como passava de Ozu. No caso desses mestres, o que importa é legar dramas individuais à teia do coletivo. O sentido está nas relações, na maneira como os jovens têm sentido maior enquanto circulam a avó em coma, ou o pai que reencontra seu grande amor de juventude.

Pontos que se tocam o tempo todo. Se a exposição da vida moderna dava vez ao vazio em Uma Confusão Confuciana, em As Coisas Simples da Vida Yang parece ter retomada a fé nas pessoas. A beleza está acima do que há de melhor e pior nessas personagens. Elogio ao que há de belo em todas as “coisas simples”.

(Yi yi, Edward Yang, 2000)

Nota: ★★★★★

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Uma Confusão Confuciana, de Edward Yang

As personagens de Uma Confusão Confuciana tentam ser mais que cópias. Tentam ser autênticas na cidade grande em que tudo é um pouco parecido, na qual impera a moda, a busca pelo amor constante – e rápido – por ruas cheias e restaurantes iluminados.

Vida um pouco padronizada. Mulheres semelhantes, homens idem. A impressão é a de se andar muito sem sair do lugar. Um filme brilhante em que o melhor está nas pequenas reações, na constatação de que o foco é a natureza humana, seus tropeços e jogos de aparência. O diretor Edward Yang não leva a um enredo definido.

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Alguns grandes cineastas ousaram filmar a sociedade, o grupo, a forma aparentemente comportada dos relacionamentos, dos encontros e desencontros, em palavras que logo são negadas. Vem à mente Robert Altman e seu incrível Short Cuts – Cenas da Vida.

É às cenas da vida que Yang desloca-se: personagens que declaram amor a outras e que logo estão em novas companhias, em busca de novidades nessa grande Taipei em que quase tudo parece fruto de acidentes, em que tudo depende do inesperado.

O roteiro é livre. Yang não julga as personagens e trabalha com segurança no campo da comédia, sem apelar ao riso fácil. Leva à graça de um jogo em que os adultos parecem crianças, de um lado para outro, noites em claro, sem saber o que fazer.

E esses adultos representam um estágio final na sociedade apresentada por Yang em diferentes filmes – em filmografia pequena, porém sólida. Diferentes dos amantes de Os Terroristas, ou dos jovens apaixonados e engajados de Um Dia Quente de Verão.

Uma personagem, ainda nos primeiros minutos, tem uma frase interessante para definir o espírito do filme e de seus seres: “A emoção não apenas se tornou uma desculpa, ela pode ser falsificada”. Em outro momento, outra observação esclarecedora: “A emoção é um investimento, talvez um produto, e o amor é seu retorno”.

O que todos buscam, ou vivem, é a emoção. Uma Confusão Confuciana apresenta esse jogo de corridas e retornos, o cruzamento entre todas as personagens. Há, por exemplo, a bela Qiqi (Shiang-chyi Chen), que namora Ming (Wei-Ming Wang) e, mais tarde, que termina se aproximando de um escritor recluso recém-separado da irmã de Molly (Shu-Chun Ni), que vem a ser a chefe de Qiqi e que, em outro momento, perto do fim, tem uma relação rápida com Ming.

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A primeira frase, após a citação de um diálogo entre Confúcio e seus súditos, dá ideia do que trata esse filme curioso: “Entre a vida e o teatro, qual a diferença?”, questiona o artista Birdy (Ye-Ming Wang), andando de patins em um de seus cenários.

O meio taiwanês apresentado é o da modernidade, das misturas, do artista que pretende fazer teatro popular para chegar à grande massa: a arte, diz ele, deve ser um pouco como a política em seu poder de comunicação – pois talvez não haja grande diferença entre o artista e o político nessa sociedade supostamente democrática.

Ao passo que tentam instituir o fim das diferenças e a emoção como produto necessário, curiosamente essas personagens ainda seguem vítimas de seus instintos, pouco ou nada resolvidas no plano pessoal. Vivem de relações fast-food.

Yang estabelece um contraponto entre contradições sociais e relacionamentos velozes, entre o fundo – nos grandes prédios, nas famílias separadas, no trabalho, no trânsito – e a frente – as várias personagens que formam esse painel.

A protagonista possível é Qiqi, moça sensível e que, na última cena, retorna para lembrar o outro cinema de Yang: o momento em que se vê o afeto, algo raro em um filme sobre o vazio dos relacionamentos na grande cidade, na vida moderna.

(Du li shi dai, Edward Yang, 1994)

Nota: ★★★★☆

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Bastidores: Um Dia Quente de Verão

Mesmo antes de Os Terroristas, Edward já estava interessado em fazer Um Dia Quente de Verão, e em muitos aspectos os dois filmes têm importantes paralelos temáticos – particularmente essa ideia de uma sociedade matando seu próprio povo. Os Terroristas era sobre um momento contemporâneo na década de 1980, e você pode dizer que Um Dia Quente de Verão vai para trás e imagina como esses “terroristas” cresceram. Edward queria entender como essa instabilidade social e medo se apoderaram, e como essas pessoas vieram a ser quem eram.

Na década de 1980, houve um caso infame envolvendo um jovem aborígene taiwanês chamado Tang Yingshen, que tinha vindo para a cidade para trabalhar, foi abusado e explorado, e acabou matando seu chefe e a família de seu chefe. Na época, muitas pessoas saíram em seu apoio, mas ele terminou condenado à morte. Edward seguiu de perto o caso e, embora nunca tenha dito isso claramente, acho que as lembranças que isso despertou nele serviram como um ponto de partida para o filme.

(…)

Quando Edward Yang começou a fazer Um Dia Quente de Verão, ele e Hou Hsiao-Hsien já haviam conquistado grandes prêmios em festivais de cinema europeus. O público não taiwanês foi algo que você ou ele pensou enquanto escrevia o roteiro?

Nós realmente nunca discutimos isso durante o processo de realização do roteiro, mas não acho que Edward realmente se importava com isso – caso contrário ele não teria feito o enredo tão complicado. Não é que Edward estivesse ignorando audiências estrangeiras em particular; é que ele apenas não estava realmente preocupado com qualquer espectador que não fosse ele próprio. Se você pensa em Uma Confusão Confuciana, é tão cheio de diálogo que um espectador estrangeiro mal seria capaz de acompanhar as legendas.

Em Um Dia Quente de Verão, ele não se preocupa em explicar as diferentes gangues e seus antecedentes; ele simplesmente usa as expressões dos atores para sugerir que alguns são filhos de famílias militares e alguns são filhos de funcionários públicos. Essa é uma distinção que o público estrangeiro e mesmo os espectadores taiwaneses que não viveram aquela era teriam dificuldade para averiguar. Mas não era nosso objetivo dar ao espectador uma explicação completa de cada personagem; enquanto eles foram atraentes, isso foi o suficiente para nós.

Hung Hung, roteirista, sobre o processo de realização de Um Dia Quente de Verão, que escreveu ao lado do diretor, Edward Yang, e de Mingtang Lai e Alex Yang. A entrevista foi concedida a Andrew Chan e está publicada no site da distribuidora Criterion (veja aqui; a tradução é deste blog). Abaixo, Edward Yang (de boné vermelho) durante as filmagens de Um Dia Quente de Verão.

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