Um Método Perigoso

Os dez melhores filmes de David Cronenberg

Com a aproximação da estreia do ótimo Mapa para as Estrelas, vale relembrar os melhores filmes de um cineasta genial, David Cronenberg. Das estranhezas da primeira fase, sempre mesclando carne e máquina, à brilhante visão da loucura americana em Marcas da Violência, sua carreira tem mais altos do que baixos. Ou talvez nenhum baixo digno de nota. O melhor dele, na visão do blogueiro, segue abaixo.

10) Scanners – Sua Mente Pode Destruir

Obra cheia de caminhos, sobre cabeças que explodem e sobre um homem em busca da verdade em sua sociedade vigiada, o que o diretor voltaria a abordar.

scanners

9) Senhores do Crime

Basta a sequência da luta na sauna para ter ideia da grandeza da obra, que dá a Viggo Mortensen talvez sua melhor atuação no cinema.

senhores do crime

8) eXistenZ

O jogo dentro do jogo, sem dar pistas sobre o que é real e o que não é. O objeto que faz jogar é feito de carne, move-se, e invade a mente dos jogadores.

eXistenZ

7) A Mosca

Sucesso de bilheteria, o filme colocou Cronenberg às portas do cinemão, com Jeff Goldblum fazendo um físico que se transforma em monstrengo.

a mosca

6) Um Método Perigoso

Freud e Jung têm seus momentos tensos, também de admiração, nessa obra apaixonante: o encontro de grandes pensadores em um mundo à beira do colapso.

2011, A DANGEROUS METHOD

5) Marcas da Violência

A vida interiorana, perdida, não durará muito: o homem, aqui, sempre é aterrorizado pelos demônios que retornam, e tem de revelar sua verdadeira identidade.

marcas da violência

4) Gêmeos – Mórbida Semelhança

Envolve medicina, sexo, diferentes personalidades, com um mergulho poderoso na relação dos irmãos vividos por Jeremy Irons.

gêmeos

3) Mistérios e Paixões

O vendedor pode ser um agente secreto, e tem em sua máquina um monstro que lhe entrega as missões. Poderosa adaptação da obra de Burroughs.

mistérios e paixões

2) Videodrome – A Síndrome Do Vídeo

Mais do que sobre a era do vídeo, é sobre a televisão. Sobre manipulação, com as doses de sexo típicas do diretor, e, de quebra, com as insinuações de Deborah Harry.

videodrome

1) Crash – Estranhos Prazeres

Obra-prima dos anos 90, sobre um grupo de pessoas que recria famosos acidentes de carro e se deixa envolver em relações perigosas.

crash

Entrevista: José Geraldo Couto

Abaixo de cada comentário feito no blog de José Geraldo Couto, no site do Instituto Moreira Salles, estão mensagens que indicam a atenção e a sutileza do autor dos textos. Em quase todas, começa com “caro” ou “cara”, ao se dirigir aos seus leitores. Está no terreno do diálogo, do debate, o da crítica de cinema, o que José Geraldo – ou apenas Zé – encarna tão bem.

Seus textos revelam amor pelo cinema, críticas sobre obras em cartaz nas grandes salas que lutam para sobreviver. Ou mesmo sobre cineastas contemporâneos, dos mais variados nomes, nacionalidades e momentos históricos. Quem acompanha sua coluna na revista Carta Capital, entende que o leque de referências que o autor traz à tona é variado.

No começo de 2011, Zé celebrou o lançamento de A Mãe e a Puta em DVD, filme de um tal Jean Eustache. “Jean quem?”, deverá perguntar o leitor desavisado, ou o digno membro de um grupo (cada vez maior) que não se interessa pelo passado, por aquilo que há de bom no cinema – e que Zé, como outros (talvez poucos), tenta recuperar. É um pouco do que diz na entrevista abaixo, exclusiva ao Cinema Velho. “Há leitores/espectadores que se fecham a qualquer informação ou opinião que vá contra seu gosto ou suas ideias estabelecidas. Prefere o conforto do que já pensa e sente.”

O crítico de cinema nasceu em Jaú, em 1957, mas nunca morou lá. Viveu em São Paulo até o final de 1999, quando se mudou para Florianópolis. Tem um filho de 21 anos.

“Sempre gostei de escrever, desde o jornalzinho do colégio, mas só me tornei jornalista profissional com 27 anos, depois de ter até um livro publicado”, conta ele, que diz não ter um filme de cabeceira, “nem tampouco um livro”. Trabalhou para a Folha de S. Paulo por mais de 20 anos, também na revista Set entre 1987 e 1990. Colabora regularmente com as revistas Carta Capital e Bravo!, além de manter a coluna de cinema no blog do IMS. Não bastasse, faz também tradução de livros, especialmente para as editoras Companhia das Letras e Carta Capital e de artigos e ensaios para as revistas Serrote, Piauí e Zum. Confira abaixo a entrevista completa com o craque.

Sabemos que no cinema sempre há um conflito sobre o que é filme “de arte” e o que é entretenimento. E se uma determinada obra pode ser as duas coisas. Existe alguma contradição entre os dois lados? Um filme de Bergman como, por exemplo, Persona, pode ser também entretenimento ou é puramente arte?

Não existe, em princípio, uma contradição entre arte e entretenimento. Mas é evidente que certos filmes esteticamente mais exigentes e sem concessões ao gosto corrente terão mais dificuldade de entreter um público amplo. Alguns cineastas altamente originais e de valor artístico inegável, como por exemplo Hitchcock, Kurosawa e Fellini (para citar três muito diferentes entre si) conquistaram grandes plateias com seu cinema. Outros, como Jean-Marie Straub ou Agnès Varda, ou ainda o brasileiro Julio Bressane, optaram por linguagens mais áridas do ponto de vista do chamado “espectador comum”. Mas quem é esse espectador? Hoje prevalece a ideia de que não existe um único “público”, essa entidade abstrata, mas diferentes plateias, ou antes diferentes espectadores, cada um com seus próprios gostos e preferências. Quanto mais amplo for o repertório cultural desse espectador, provavelmente também será maior a sua exigência em termos de sofisticação de linguagem, de seriedade de tratamento etc. Seu entretenimento será diferente daquele de um espectador mais ingênuo, desinformado ou imaturo.

Por falar em nessa diferença, fico com a impressão de que a maior parte dos filmes em listas de críticos são os ditos “de arte”, enquanto o público que vai ao cinema em shoppings quer mesmo, em sua maior parte, entretenimento. Não acha que crítica e público caminham em diferentes sintonias?

Esse aparente descompasso está, de certa forma, ligado ao que foi dito na resposta anterior. O crítico em geral tem, ou deveria ter, um olhar educado, aguçado, que lhe permite ver o que passa batido por um espectador que não tem a mesma formação e o mesmo treinamento. Seu papel, a meu ver, é o de fornecer subsídios ao espectador para que este também tenha uma percepção mais ampla e profunda dos filmes. O crítico não deve, por um lado, ignorar seu interlocutor, o leitor/espectador, mas também não deve de modo algum, por outro lado, fazer média com ele, tentar agradá-lo, tentar antecipar-se a seu gosto e dizer aquilo que julga que ele quer ouvir. Há leitores/espectadores que se fecham a qualquer informação ou opinião que vá contra seu gosto ou suas ideias estabelecidas. Prefere o conforto do que já pensa e sente. Mas há também os que gostam de ser instigados, provocados, desafiados. É para estes últimos, em última instância, que o crítico escreve. É com eles que procura conversar. Pois com os outros, os acomodados, ele não tem muito o que dizer. Eles continuarão a gostar das mesmas coisas e a resistir às mesmas coisas.

Há também uma impressão de que, no terreno do cinema clássico, um filme pode ser “arte” e entretenimento ao mesmo tempo – como no caso dos filmes dos Irmãos Marx e mesmo de Chaplin. Não acha que, com o surgimento do cinema moderno, as coisas ficaram um pouco mais polarizadas?

É possível que sim. Houve também, impossível negar, uma massificação extrema do gosto e um rebaixamento do repertório cultural e da atitude crítica, o que ajudou a aumentar a cisão entre a fruição descompromissada dos filmes e o pensamento em torno deles. Isso não aconteceu só com o cinema, mas também com a música popular, por exemplo. Houve um tempo em que uma produção de enorme qualidade artística (por exemplo, Luiz Gonzaga, Noel Rosa ou Dorival Caymmi) alcançava grande popularidade. Hoje os artistas de maior apelo comercial são de uma pobreza atroz (nem é necessário citar nomes). O papel da crítica não é “se adaptar aos tempos”, dizendo que Michel Teló é genial, e sim talvez tentar entender por que ele faz tanto sucesso – e tentar ajudar o ouvinte a perceber que existe coisa melhor, muito melhor.

Antes de começar a escrever sobre cinema você já era um cinéfilo? Como foi sua formação como crítico e qual os filmes que, digamos assim, o “iluminaram”?

Sempre gostei de cinema, desde a infância, mas digamos que me tornei cinéfilo no final do colégio e início da faculdade, ou na passagem da adolescência para a idade adulta. Não estudei cinema, e sim História e, depois, Jornalismo. Só passei a escrever profissionalmente sobre cinema tardiamente, por volta dos 25, 26 anos, primeiro como free lancer, depois na revista Set, quando esta estava começando, e finalmente na Folha de S. Paulo, já nos anos 90. Mas desde a época da faculdade de História eu procurava ver tudo o que havia de disponível (em cineclubes e mesmo no circuito comercial, que era bem mais generoso), fossem filmes importantes para a história do cinema ou apenas divertidos. Comecei a ler também sobre história do cinema, sobre cineastas, correntes estéticas, interpretações, interpenetrações do cinema com outros meios e disciplinas. Foi tudo muito assistemático, mas feito com muita paixão. Aliás, esse aprendizado continua até hoje.

Em uma lista que você publicou sobre seus filmes prediletos da última década consta A Fita Branca, do Haneke. Por que está cada vez mais difícil surgir cineastas com certo traço e atitude como é o caso de Haneke?

Difícil dizer. Talvez porque a pressão da indústria seja maior, ou porque o mercado esteja mais fechado a experiências radicais de expressão. Veja que mesmo cineastas que já mostraram grande vigor inventivo no passado (como Resnais, ou Coppola) hoje estão mais acomodados ou, no mínimo, menos inquietos e audaciosos.

Com a facilidade das câmeras leves e do compartilhamento pela internet, é possível que a forma de recepção de filmes mude e que as salas de cinema deixem de existir em um futuro não muito distante?

Essa mudança já é visível a olho nu. Mas acredito que as salas de cinema continuarão a existir por um bom tempo, seja apelando para o 3-D ou simplesmente para o mero atrativo do ritual de ver filmes na sala escura, acompanhado de uma massa anônima. Talvez, com o tempo, esse ritual se torne uma coisa de uma minoria nostálgica, uma atividade de igrejinhas, uma excentricidade semelhante aos dos colecionadores de antiguidades. Mas não sei. Sou péssimo para fazer previsões.

Abro um parêntese para citar duas suposições: você vai assistir um filme em um dia ruim, em um dia em que está com problemas, dores de cabeça, etc. E, um dia depois, vai assistir outro filme, mas no qual a história fala de algo que lhe é comum, ou que viveu na sua vida. Não acha que, em qualquer um dos dois casos, você pode não ser tão isento como deveria em sua análise da obra e deixar as coisas partirem até mesmo para um lado pessoal? Ou acha que o crítico tem total direito de deixar que seu estado no dia da análise interfira no resultado dela?

Você tem toda razão Citou casos extremos, mas mesmo em condições mais “normais”, o crítico nunca está totalmente isento. Penso que o melhor que ele tem a fazer é identificar justamente os pontos em que a questão pessoal possa aflorar e, na medida do possível, deixar isso claro para o leitor. Acima de tudo, acho saudável que o crítico deixe claro que sua apreciação de um filme é instável e provisória e que ele não pretende dar conta da totalidade do filme em questão.

Lembra de um filme que, por tratar de algo próximo a você, fez com que gostasse dele ou mesmo sentisse repulsa? Ou mesmo de uma cena que tem a ver com sua vida ou sua forma de ver o mundo?

As situações são tantas que seria impossível citá-las. Vou me limitar a um único caso: como perdi meu pai quando tinha 7 anos de idade, sei que sou particularmente vulnerável a filmes sobre orfandade precoce, sobre relação pai-filho etc.

Tem uma frase famosa de Luis Buñuel em que ele diz que “o acaso é o senhor de todas as coisas”. Acha que um grande filme pode ser obra do acaso?

Há alguns exemplos de acasos felizes que ajudaram na realização e no resultado final de certos filmes. Mas um grande filme nunca será simplesmente obra do acaso, pois sua grandeza depende da confluência de talentos e competências de uma porção de gente.

Nos últimos tempos você tem mudado bastante de endereço virtual. Primeiro, era blogueiro da Folha, depois esteve em um endereço pessoal e, agora, no site do Instituto Moreira Salles. Há algum motivo para tantas mudanças?

Os motivos foram alheios à minha vontade. Eu tinha um blog na Folha On-line porque trabalhava para a Folha de S. Paulo (o jornal impresso) e me convidaram para ter um blog. Quando fui demitido da Folha, saí também da Folha On-line e mantive meu blog de modo independente, até ser convidado pelo Instituto Moreira Salles para fazer uma coluna de cinema no blog deles, que aliás eu considero muito bom.

Você chegou a dizer, na Folha, que o filme Crash, de David Cronenberg, representava a “tara de uma época”. Se tivesse de citar um filme que representa a “tara” de nossa época, qual citaria?

Puxa, que pergunta difícil. Do ponto de vista do “conteúdo” explícito, penso que A Rede Social é um filme totalmente sintonizado com nosso tempo, por tratar de um universo cada vez mais predominante em nossas vidas, o universo da internet. Mas não sei. Teria que pensar melhor no assunto.

E, por falar em Cronenberg, em seu último filme, Um Método Perigoso, ele mudou um pouco o estilo e deixou a violência extremada e as transformações do corpo de lado. Essas mudanças de estilo e temas que alguns cineastas resolvem experimentar não lhe incomodam?

Não, muito pelo contrário. Desde que não sejam frutos de viradas oportunistas, para aderir a alguma moda ou tendência, e sim buscas pessoais, essas mudanças são saudáveis e estimulantes. O próprio Cronenberg já havia explorado as entranhas da mente em Spider. Estou curiosíssimo para ver como ele aborda essa relação de Freud e Jung com os paradoxos humanos e científicos da psicanálise (na ocasião da entrevista, o filme de Cronenberg ainda não havia estreado no Brasil).

Leia aqui a crítica de A Mãe e a Puta, por José Geraldo Couto

Rafael Amaral (11/04/2012)

Entrevista: Marcelo Hessel

O crítico de cinema e jornalista Marcelo Hessel é direto quando se trata de cinema e, aos 31 anos, demonstra grande sobriedade nos textos que escreve para o site Omelete. Na entrevista abaixo, ele fala sobre o não entendimento do público sobre o trabalho do crítico (“O trabalho não é ver filmes, o trabalho é escrever sobre filmes”), sobre a invasão dos filmes dublados (“Quem se importa com legendas é uma minoria”) e sobre o que lhe impressionou no cinema no último ano.

Marcelo é nascido em São Paulo, integrou a APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), colaborou em veículos como a revista Bizz, é autor do Almanaque do Cinema (Ediouro) e atualmente edita o Omelete. Abaixo, a entrevista completa.

A impressão de quem não conhece um crítico de cinema é a de que ele assiste filmes todos os dias, de tudo um pouco. Como é em seu caso? Você tem algum controle, de quantos assiste por semana, por mês? Você seleciona o que vê ou vê de tudo, o que pintar pela frente?

Eu queria ter um controle do que eu assisto, fichas mesmo, mas não mantive isso no começo e acho difícil começar agora. Vez ou outra entro no Mubi pra ranquear umas coisas e favoritar outras, mas nada com método. Tento ver pelo menos um filme por dia e equilibrar entre exigências (estreias no cinema, filmes relacionados com pautas em que estou trabalhando) e filmes que me interessam independente do ofício.

As pessoas entendem bem o trabalho do crítico de cinema, hoje, ou ainda existe algum preconceito, de que o trabalho não é trabalho, mas diversão?

Nem os próprios críticos entendem bem o trabalho… Quanto às pessoas, não acho que seja preconceito, mas uma má compreensão. O trabalho não é ver filmes, o trabalho é escrever sobre filmes, e isso traz uma série de compromissos que muitos não entendem, aceitam ou não se dão o trabalho de entender.

O público que gosta de ler críticas de cinema tem migrado dos jornais para a internet? Quem lê suas críticas é mais jovem que o leitor de jornal?

Não sei dizer. Acho que todo leitor, de críticas ou de qualquer outra coisa, está deixando os jornais.

Nos últimos anos, estamos vendo um número cada vez maior de filmes dublados nas salas de cinema. Também na tevê a cabo. Qual o motivo desse aumento? Acha que tem algo a ver com o poder aquisitivo da “nova” classe C?

Os números de audiência da tevê a cabo são maiores nos canais dublados. Já no cinema acho que isso está ligado à predominância dos filmes infantis. Talvez a “nova” classe C amplifique isso, mas a impressão que eu tenho é que o público médio em qualquer lugar do mundo prefere o áudio na sua língua nativa, se estiver disponível. Quem se importa com legendas é uma minoria.

Os cineclubes são boas opções para ver filmes antigos em tela grande? Tenho a impressão, às vezes, que muitos deles se tornaram agremiações políticas, assim como festivais de cinema pelo Brasil. Estou enganado?

Não acho que a política domine cineclubes como domina festivais. Me parece que espaços como o CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) são os mais democráticos que se poderia desejar.

O cinema nacional passou por grandes mudanças. Antes havia mais atitude, ao que parece, em nomes como Joaquim Pedro de Andrade e Nelson Pereira dos Santos. Não falta uma veia mais autoral aos cineastas atuais?

A produção de cinema no Brasil é enorme, mas a exibição pública desses filmes é muito problemática. Não dá pra quantificar, mas eu acho que há mais cineastas hoje no Brasil com algo a dizer do que havia na época do cinema novo – o problema é que eles não encontram meios de levar isso a mais pessoas.

Você concorda com a teoria do autor, cunhada pelos Cahiers? Ou acha que cinema é fruto de grandes colaborações, um trabalho feito a várias mãos?

A política dos autores é muito cômoda pra quem escreve sobre filmes, porque cria um viés de aproximação com os filmes que é sempre permissível, mas já era limitada desde aquela época. Em Hollywood a figura do produtor sempre teve importância equiparável à do diretor, alguns até hoje são mais “cineastas” do que os próprios diretores, e estamos vendo isso na produção de tevê americana.

Filmes para pensar, como O Espião que Sabia Demais, parecem hoje desafiadores se comparados com os blockbusters que chegam a cada nova temporada. A indústria confia na inteligência do público de cinema?

Não acho que O Espião que Sabia Demais seja um “filme pra pensar”. Essa expressão carrega uma carga muito negativa, como se apenas um grupo de iluminados fosse capaz de assimilá-lo. É um filme que exige atenção do espectador para acompanhar a trama, o que é totalmente diferente. A indústria não confia em nada; a indústria tenta atirar em tudo pra não correr o risco de errar. Já quem conta histórias não precisa pensar nisso, porque sempre vai haver um produtor ou um executivo que só se preocupa com isso, no lugar dele.

Acha que, com o fortalecimento de nossa indústria de cinema nacional, com o fenômeno Tropa de Elite, o cinema pode voltar a ser a arte popular que um dia já foi?

O cinema é uma arte popular no Brasil. Desde sempre nossas comédias levaram pessoas ao cinema e elas continuam levando.

A televisão e, depois, a internet sepultaram essas esperanças?

A televisão e a internet são rivais da indústria, não do cinema.

Não tem dias em que você cansa de ver filmes tão cerebrais, como O Espião que Sabia Demais, e simplesmente quer ver algo como Legalmente Loira? Ainda dá para se surpreender com os blockbusters de verão?

Eu pego todo filme com a esperança de ser surpreendido. Entrar com pré-julgamentos inviabiliza o trabalho e a experiência do filme.

Dos filmes que viu no último ano, qual o surpreendeu mais?

Um Método Perigoso (leia aqui a crítica de Marcelo).

Rafael Amaral (23/02/2012)