Um Dia Quente de Verão

História de Taipei, de Edward Yang

Ainda que o particular chame a atenção, em História de Taipei ganha vez o coletivo, o entrelaçamento, com calma, das personagens em cena. Uma mulher aluga um apartamento, seu amigo acaba de retornar dos Estados Unidos, um engenheiro pensa em deixar a mulher, jovens guiam suas motos pela cidade grande, à noite.

O passado está presente, foi convocado. Vive nos rostos das pessoas, homens e mulheres que talvez ainda se sintam jovens, ou crianças: o filme de Edward Yang é sobre o vazio, sobre o espaço que não pode ser ocupado, pois ocupá-lo fisicamente não basta. Essas pessoas sofrem com a vida que não deu certo, presas à urbanização.

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O clima de mudança, o que parece o fim da linha, passa por muitos filmes do chamado cinema novo taiwanês, cujas obras, nos anos 80, tomaram o mundo de assalto. Yang faria, depois, Os Terroristas, que segue – um pouco mais fugaz – o ritmo dessas pessoas. Nos anos 90, Tsai Ming-liang faria Rebeldes do Deus Neón. O mal-estar é evidente.

É possível esperar qualquer coisa dessas pessoas. À primeira aparência, não dão profundidade. Não se deixam ver. Espelham, no fim, a cidade. Morrem à beira da sarjeta, ao lado de móveis e eletroeletrônicos, como se nada fossem, enquanto policiais e socorristas conversam. Outro dia de trabalho. Outra tragada. O som da cidade.

Esse cinema exala crueldade sem negar a beleza, a profundidade que a mise-en-scéne deixa ver. Os anônimos ascenderam socialmente, financeiramente, e não se permitem tocar. O que retrata esse filme é a dificuldade de lidar com o nada, com o físico, com o ruído da cidade.

Talvez isso explique os “terroristas” do filme seguinte. Ou, de olho no passado, Yang ajuda a entender as personagens de História de Taipei ao realizar, mais tarde, sua obra-prima, Um Dia Quente de Verão, que retrata a paixão contida – esta sim verdadeira, ora ou outra explosiva – dos adolescentes que descobrem a violência e o primeiro amor.

As gangues do passado, na Taiwan que evolui à sombra dos problemas sociais, desembocam na aparente seguridade da vida urbanizada, da arquitetura opulenta, do país que não quer ser como antes. Difícil explicar a beleza desse grande filme de curvas monótonas, de liberdade à vista, de jovens que dançam músicas americanas freneticamente enquanto a câmera, a distância, limita-se a captar reações momentâneas, sem se preocupar em fazê-las belas.

E quando são lançados à escuridão, eles brincam com parcas luzes, com seus isqueiros, nada a ver com a escuridão à qual se viram presos, antes, em Um Dia Quente de Verão: da penumbra, em uma luta entre gangues, emergem o horror e a morte. Curioso que Yang tenha se preocupado primeiro em retratar o tempo em que vivia, depois o passado.

Um homem e uma mulher ganham espaço em História de Taipei. Não são casados, tampouco namoram. São amigos de infância, ou de juventude. No primeiro quadro, eles são presos à forma do apartamento, no plano médio que indica o que se pode esperar desse grande filme: às personagens resta observar, com alguma lentidão, o sentido das linhas retas desse novo mundo, da janela do apartamento que a mulher está prestes a alugar.

De óculos escuros, poucas vezes às risadas, ela é Chin (Tsai Chin). Aluga o apartamento e logo perde o emprego. Seu amigo é Lung, interpretado pelo grande cineasta Hou Hsiao-Hsien, também coautor do roteiro. O filme às vezes se volta ao encontro de ambos, às vezes prefere mantê-los distantes. Todo o drama abarca a estranha tentativa de aproximação do casal, além de seus sonhos, suas necessidades de fuga.

A fuga, por sua vez, será chamada por Lung de “cura”. O que pode ser traduzido pelo sonho do casamento, da vida em outro país. E que será definido pela mesma personagem em momento dramático e não menos belo: a busca pela “cura” é “apenas uma esperança fugaz”. E arremata, em seguida: “A ilusão de que se pode começar de novo”.

O cinema de Hsiao-Hsien também está ali. O filme deve muito ao seu texto, à sua presença. A certa altura, sua personagem diz que briga para se defender – o que, em uma obra de relações frias e ações incalculadas, de contradições, não causa espanto. Enquanto seres como Lung tentam escapar ou buscam a “cura”, terminam vítimas de uma doença invisível. Voltam à cidade, ao movimento, às aglomerações. Enxergam quase nada.

(Qing mei zhu ma, Edward Yang, 1985)

Nota: ★★★★★

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Os 100 melhores filmes dos anos 90

Há um filme ou mesmo uma cena capaz de definir uma década? Nos anos 90, há Pulp Fiction e a sequência de dança de John Travolta e Uma Thurman. Ou uma cadeira de rodas em chamas, a circular o Cristo invertido, em plena Guerra da Bósnia, em Underground – Mentiras de Guerra. Ou a chuva sobre Tim Robbins, enfim livre, em Um Sonho de Liberdade. Ou um homem com a perna levantada, prestes a dar um passo, ultrapassar uma fronteira, em O Passo Suspenso da Cegonha.

Há, ao longo de dez anos, uma coleção de momentos marcantes. Nos anos 90 não é diferente: é a década de Tarantino, do retorno triunfal de Robert Altman e Terrence Malick, da revelação do cinema iraniano ao mundo todo, como também a do mestre polonês Kieslowski (que logo morreria). A década do movimento Dogma 95 e da revelação dos orientais Tsai Ming-liang, Jia Zhangke e Naomi Kawase. Não restam dúvidas sobre a grandeza da década, como confirma a lista abaixo.

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100) Temporada de Caça, de Paul Schrader

99) Amateur, de Hal Hartley

98) Contato, de Robert Zemeckis

97) O Paciente Inglês, de Anthony Minghella

96) Uma Garota Solitária, de Benoît Jacquot

95) Despedida em Las Vegas, de Mike Figgis

94) Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick

93) Depois da Vida, de Hirokazu Kore-eda

92) Bom Trabalho, de Claire Denis

91) Magnólia, de Paul Thomas Anderson

90) Baraka, de Ron Fricke

89) Ghost in the Shell: O Fantasma do Futuro, de Mamoru Oshii

88) E a Vida Continua, de Abbas Kiarostami

87) Medo e Delírio, de Terry Gilliam

86) Dois Córregos – Verdades Submersas no Tempo, de Carlos Reichenbach

85) Xiao Wu – Um Artista Batedor de Carteira, de Jia Zhangke

84) A Estrada Perdida, de David Lynch

83) O Ferrão da Morte, de Kôhei Oguri

82) Quando Tudo Começa, de Bertrand Tavernier

81) Cidade das Sombras, de Alex Proyas

80) Maridos e Esposas, de Woody Allen

79) O Passo Suspenso da Cegonha, de Theodoros Angelopoulos

78) Mal do Século, de Todd Haynes

77) Videogramas de uma Revolução, de Harun Farocki e Andrei Ujica

76) Exótica, de Atom Egoyan

75) A Isca, de Bertrand Tavernier

74) Leolo, de Jean-Claude Lauzon

73) O Sucesso a Qualquer Preço, de James Foley

72) eXistenZ, de David Cronenberg

71) O Vício, de Abel Ferrara

70) Festa de Família, de Thomas Vinterberg

69) Na Companhia de Homens, de Neil LaBute

68) Fogo Contra Fogo, de Michael Mann

67) A Igualdade é Branca, de Krzysztof Kieslowski

66) Felicidade, de Todd Solondz

65) Violência Gratuita, de Michael Haneke

64) Vive L’Amour, de Tsai Ming-liang

63) Violento e Profano, de Gary Oldman

62) Sonatine, de Takeshi Kitano

61) De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick

60) Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami

59) Um Homem Com Duas Vidas, de Jaco Van Dormael

58) Mistérios e Paixões, de David Cronenberg

57) Suzaku, de Naomi Kawase

56) Central do Brasil, de Walter Salles

55) À Beira da Loucura, de John Carpenter

54) Conto de Inverno, de Eric Rohmer

53) Alma Corsária, de Carlos Reichenbach

52) Forrest Gump – O Contador de Histórias, de Robert Zemeckis

51) Todas as Coisas São Belas, de Bo Widerberg

50) A Eternidade e um Dia, de Theodoros Angelopoulos

49) Segredos e Mentiras, de Mike Leigh

48) JFK – A Pergunta que Não Quer Calar, de Oliver Stone

47) Água Fria, de Olivier Assayas

46) Tudo Sobre Minha Mãe, de Pedro Almodóvar

45) Vale Abraão, de Manoel de Oliveira

44) O Processo do Desejo, de Marco Bellocchio

43) O Espelho, de Jafar Panahi

42) O Pagamento Final, de Brian De Palma

41) Felizes Juntos, de Wong Kar-Wai

40) Los Angeles – Cidade Proibida, de Curtis Hanson

39) A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforo, de Aki Kaurismäki

38) Corvos, de Dorota Kedzierzawska

37) Flores de Xangai, de Hou Hsiao-Hsien

36) Rosetta, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

35) Mulheres Diabólicas, de Claude Chabrol

34) O Sonho Azul, de Tian Zhuangzhuang

33) Os Imorais, de Stephen Frears

32) Lanternas Vermelhas, de Zhang Yimou

31) Um Sonho de Liberdade, de Frank Darabont

30) O Rei de Nova York, de Abel Ferrara

29) Fargo, de Joel Coen

28) Ondas do Destino, de Lars Von Trier

27) Adeus ao Sul, de Hou Hsiao-Hsien

26) Vício Frenético, de Abel Ferrara

25) Basquete Blues, de Steve James

24) A Liberdade é Azul, de Krzysztof Kieslowski

23) A Lista de Schindler, de Steven Spielberg

22) Sátántangó, de Béla Tarr

21) O Tempo Redescoberto, de Raoul Ruiz

20) Um Olhar a Cada Dia, de Theodoros Angelopoulos

19) Naked, de Mike Leigh

18) A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski

17) O Fim de um Longo Dia, de Terence Davies

16) Amores Expressos, de Wong Kar-Wai

15) Underground – Mentiras de Guerra, de Emir Kusturica

14) O Jogador, de Robert Altman

13) Van Gogh, de Maurice Pialat

12) O Piano, de Jane Campion

11) Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood

10) O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme

A jovem Clarice Starling é colocada para investigar os ataques de um assassino em série e, para solucionar o caso, vê-se envolvida com outro assassino, o temido Hannibal Lecter. Assustador e hipnótico, quase não deixa retomar o fôlego. Vencedor de cinco Oscar.

9) Close-Up, de Abbas Kiarostami

Homem passa-se por um diretor de cinema, o conhecido Mohsen Makhmalbaf, em história baseada em caso real. O mestre Kiarostami convida o verdadeiro impostor a reviver o caso, em mais um grande filme iraniano que retorna o foco para o próprio cinema.

8) Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino

Cães de Aluguel foi apenas a antessala para esse filme explosivo e original, que valeu a seu jovem diretor – cuja trajetória mítica ora ou outra aponta ao balconista de vídeo-locadora – a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Violento, rápido e embalado por uma narrativa não linear.

7) A Fraternidade é Vermelha, de Krzysztof Kieslowski

A terceira e melhor parte da incrível Trilogia das Cores. É também o último filme de seu diretor, que morreria pouco depois. Na trama, uma modelo atropela um cão. Em sua busca pelo dono, ela termina na casa de um juiz ranzinza que tem o hábito de espionar os próprios vizinhos.

6) Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese

Talvez seja a última obra-prima de Scorsese. Um de seus filmes mais completos, no qual se lança em terreno que conhece bem: a máfia. Tem Ray Liotta no papel do jovem apaixonado pelo mundo do crime, De Niro à vontade como um chefão e assassino, além do demoníaco Joe Pesci.

5) Um Dia Quente de Verão, de Edward Yang

Um filme sobre a memória, sobre um grupo de jovens envolvidos com gangues, mas também descobrindo o primeiro amor. Yang faz um belo retrato da juventude sem esquecer as dores familiares. Um dos pontos altos é a sequência da chacina noturna, filmada com pouca luz.

4) A Bela Intrigante, de Jacques Rivette

O que procura todo artista? A obra perfeita? A necessidade de dividi-la com o público? Rivette questiona tudo isso na relação de um pintor com sua musa. É também um filme sobre o corpo, sobre a criação artística, com longas cenas nas quais a câmera limita-se a captar o tempo.

3) Short Cuts – Cenas da Vida, de Robert Altman

Mais uma vez debruçado sobre uma penca de personagens, Altman entrega um filme com vidas cruzadas. Começa com helicópteros fazendo uma pulverização sobre Los Angeles e termina com um terremoto. Mistura comédia à tragédia a partir das histórias de Raymond Carver.

2) Através das Oliveiras, de Abbas Kiarostami

O terceiro filme de uma trilogia iniciada com Onde Fica a Casa do Meu Amigo? e cuja parte do meio é E a Vida Continua. Em cena, um rapaz tenta se declarar e se aproximar da mulher que ama durante a realização de um filme. É a única oportunidade para revelar seus sentimentos.

1) Crash – Estranhos Prazeres, de David Cronenberg

Pode-se esperar qualquer coisa de Cronenberg, menos um universo de pessoas normais, ou próximas a isso. Em Crash, sua obra-prima, ele une com perfeição o universo do desejo carnal à tara pela velocidade, pelo risco, pela morte. Em cena, um rapaz vê-se enredado a um grupo que tem como prazer a reconstituição de famosos acidentes de carro e o risco que oferecem. Carne e máquina, ao gosto de Cronenberg.

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As Coisas Simples da Vida, de Edward Yang

Um professor, personagem pequena em As Coisas Simples da Vida, pede licença à moça que assiste à briga no interior do apartamento e em seguida fecha a porta. Ele volta-se à câmera, ao espectador, e impede que se veja tudo. A menina, do lado de fora do apartamento, permanece ali, paralisada, ouvindo a briga no interior do mesmo espaço.

A sequência, realizada com grande habilidade pelo mestre Edward Yang, é uma das várias em que o espectador não é convidado a ver toda a ação – nesse caso, é convidado apenas a ver a metade: a menina que permanece do lado de fora do apartamento.

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A garota leva o espectador a esse ponto de vista, ao mesmo tempo ao impedimento, ao cinema de grandes mestres que Yang persegue: a possibilidade de ver muito quando apenas se vê a metade, a importância desse impedimento para que o próprio espectador construa – a distância – a totalidade do espaço e da ação.

É necessário fazer escolhas, diz Yang – como também diziam mestres do minimalismo, dos retratos da vida cotidiana, como é o caso de Yasujiro Ozu. Inevitável citá-lo aqui.

Como Ozu, Yang chega ao equilíbrio perfeito em seu último filme, obra sobre vidas paralelas, sobre familiares, vizinhos, pessoas que se esbarram na grande Taipei, entre prédios e escolas, casamentos e funerais. Gente ao mesmo tempo conhecida de longa data, ao mesmo tempo reclusa em seus afazeres e características.

Situa o espectador no espaço, nas pessoas, por meio de ambientes conhecidos. A eles volta várias vezes. E a ideia do coletivo vem à tona como crônica, permite tons cômicos, como se nada fosse suficientemente dramático para ser considerado “questão de vida ou morte”. Mas, ao mesmo tempo, não deixa de ser: os mais velhos morrem enquanto são vistos pelos mais novos, que se confessam, que tentam entender o mundo ao redor.

A começar pelo pequeno Yang-Yang (Jonathan Chang), que questiona o pai sobre a possibilidade de compreender tudo à volta quando se vê apenas a metade; ou sua irmã, Ting-Ting (Kelly Lee), a menina que fica do lado de fora do apartamento e, como outros, que encontra na avó em coma alguém para dizer o que não diz aos demais.

Vida e morte, lado a lado, em uma história graciosa sobre pessoas diferentes, ao contrário do que se viu antes em Uma Confusão Confuciana, com sua comédia de tropeços, ou ainda antes em Um Dia Quente de Verão, cujo olhar ao passado – o do próprio Yang – explora a intensidade dos conflitos entre adolescentes.

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Toda obra de Yang reflete questões sociais de Taiwan a partir do olhar pessoal, a partir de personagens que deixam ver apenas suas metades – ou de um cinema que se escora nessa proposital limitação para paradoxalmente tudo revelar. Não por acaso, Yang-Yang fotografa a nuca das pessoas para que estas possam ver o oposto.

O crítico Inácio Araújo lembra que o filme representa um cinema que busca refletir a própria vida e, por isso, e para muitos, não acolhe o espetáculo esperado. Por que ir ao cinema ver o que se vê na vida cotidiana? Inácio responde: “Todos, ou quase, vivenciamos a morte da mãe, por exemplo. O fato de essa experiência ser universal não a torna banal. Mostrar isso é fácil. Bem mais complexo é criar a teia que une a infância à adolescência, essa à maturidade e essa ainda à velhice – como faz Yang com desenvoltura espantosa”. O desafio é mostrar o que há de profundo na simplicidade.

Há o cinema banal, sim, que passa longe de Yang – como passava de Ozu. No caso desses mestres, o que importa é legar dramas individuais à teia do coletivo. O sentido está nas relações, na maneira como os jovens têm sentido maior enquanto circulam a avó em coma, ou o pai que reencontra seu grande amor de juventude.

Pontos que se tocam o tempo todo. Se a exposição da vida moderna dava vez ao vazio em Uma Confusão Confuciana, em As Coisas Simples da Vida Yang parece ter retomada a fé nas pessoas. A beleza está acima do que há de melhor e pior nessas personagens. Elogio ao que há de belo em todas as “coisas simples”.

(Yi yi, Edward Yang, 2000)

Nota: ★★★★★

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Nossa Irmã Mais Nova, de Hirokazu Kore-eda

Uma Confusão Confuciana, de Edward Yang

As personagens de Uma Confusão Confuciana tentam ser mais que cópias. Tentam ser autênticas na cidade grande em que tudo é um pouco parecido, na qual impera a moda, a busca pelo amor constante – e rápido – por ruas cheias e restaurantes iluminados.

Vida um pouco padronizada. Mulheres semelhantes, homens idem. A impressão é a de se andar muito sem sair do lugar. Um filme brilhante em que o melhor está nas pequenas reações, na constatação de que o foco é a natureza humana, seus tropeços e jogos de aparência. O diretor Edward Yang não leva a um enredo definido.

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Alguns grandes cineastas ousaram filmar a sociedade, o grupo, a forma aparentemente comportada dos relacionamentos, dos encontros e desencontros, em palavras que logo são negadas. Vem à mente Robert Altman e seu incrível Short Cuts – Cenas da Vida.

É às cenas da vida que Yang desloca-se: personagens que declaram amor a outras e que logo estão em novas companhias, em busca de novidades nessa grande Taipei em que quase tudo parece fruto de acidentes, em que tudo depende do inesperado.

O roteiro é livre. Yang não julga as personagens e trabalha com segurança no campo da comédia, sem apelar ao riso fácil. Leva à graça de um jogo em que os adultos parecem crianças, de um lado para outro, noites em claro, sem saber o que fazer.

E esses adultos representam um estágio final na sociedade apresentada por Yang em diferentes filmes – em filmografia pequena, porém sólida. Diferentes dos amantes de Os Terroristas, ou dos jovens apaixonados e engajados de Um Dia Quente de Verão.

Uma personagem, ainda nos primeiros minutos, tem uma frase interessante para definir o espírito do filme e de seus seres: “A emoção não apenas se tornou uma desculpa, ela pode ser falsificada”. Em outro momento, outra observação esclarecedora: “A emoção é um investimento, talvez um produto, e o amor é seu retorno”.

O que todos buscam, ou vivem, é a emoção. Uma Confusão Confuciana apresenta esse jogo de corridas e retornos, o cruzamento entre todas as personagens. Há, por exemplo, a bela Qiqi (Shiang-chyi Chen), que namora Ming (Wei-Ming Wang) e, mais tarde, que termina se aproximando de um escritor recluso recém-separado da irmã de Molly (Shu-Chun Ni), que vem a ser a chefe de Qiqi e que, em outro momento, perto do fim, tem uma relação rápida com Ming.

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A primeira frase, após a citação de um diálogo entre Confúcio e seus súditos, dá ideia do que trata esse filme curioso: “Entre a vida e o teatro, qual a diferença?”, questiona o artista Birdy (Ye-Ming Wang), andando de patins em um de seus cenários.

O meio taiwanês apresentado é o da modernidade, das misturas, do artista que pretende fazer teatro popular para chegar à grande massa: a arte, diz ele, deve ser um pouco como a política em seu poder de comunicação – pois talvez não haja grande diferença entre o artista e o político nessa sociedade supostamente democrática.

Ao passo que tentam instituir o fim das diferenças e a emoção como produto necessário, curiosamente essas personagens ainda seguem vítimas de seus instintos, pouco ou nada resolvidas no plano pessoal. Vivem de relações fast-food.

Yang estabelece um contraponto entre contradições sociais e relacionamentos velozes, entre o fundo – nos grandes prédios, nas famílias separadas, no trabalho, no trânsito – e a frente – as várias personagens que formam esse painel.

A protagonista possível é Qiqi, moça sensível e que, na última cena, retorna para lembrar o outro cinema de Yang: o momento em que se vê o afeto, algo raro em um filme sobre o vazio dos relacionamentos na grande cidade, na vida moderna.

(Du li shi dai, Edward Yang, 1994)

Nota: ★★★★☆

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Um Dia Quente de Verão, de Edward Yang

Os jovens revelam certa infantilidade quando se reúnem em gangues. A princípio, não são levados a sério. Mais parecem adolescentes tentando se afirmar em Um Dia Quente de Verão, de Edward Yang.

A violência, intrusa, emerge nessa obra-prima. Até mesmo os gestos brutos, como a tragédia final, possuem doses de sensibilidade. O que ocorre é sério, e é uma das abordagens dessa história comovente. Culmina na sequência da chacina noturna, momento em que um dos grupos ataca o inimigo para vingar a morte de um líder.

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Como outros filmes vindos da nova onda do cinema taiwanês, o painel impõe-se, com várias personagens e o paralelo entre questões sociais e humanas, entre grupos e histórias menores, com a câmera voltada, por exemplo, ao menino com sua lanterna roubada, com seu diário sobre o qual lança passagens da própria vida.

Nesse sentido, a violência não é apenas o contraponto: é a parte estranha, deslocada, ou mesmo a parte que vive nesse garoto – revelada ao fim. Ele, Xiao Si’r (Chen Chang), divide o tempo entre os amigos, sua gangue, e a menina que passou a amar.

Um Dia Quente de Verão é sua história. Os outros passam por ele. São indissociáveis. Ao diretor Yang, servem também para explicá-lo, como o pai intelectual e perseguido pelo governo nacionalista, a mãe que se considera ocidentalizada, o irmão que ora ou outra se envolve com criminosos, a irmã cristã que tenta levá-lo à igreja e, claro, a moça que ama e que já teve casos com outros meninos, incluindo os amigos.

Ainda que não ocupe grande espaço, o questionamento de Si’r sobre o sentido da vida faz-se sentir: a impressão é que ele desistiu de seguir regras, o que, mais uma vez, leva-o à violência. O resultado é sua expulsão da escola e o final dramático.

A menina, Ming (Lisa Yang), tem o rosto achatado, cabelos lisos e curtos, de aparência sempre distante: pode dizer coisas profundas e, em seguida, surpreender o espectador. Não é possível saber o que sente ou o que deseja. Ao dar as respostas que Si’r não esperava encontrar, ao fim, sobre o que esperar dos outros, faz o companheiro desabar.

O filme trata da juventude sempre inconstante, nunca bestial ou caricata. Yang evita a aproximação desnecessária, tenta resolver o drama sempre com planos longos sem cortes entre cenas. Resulta em rara beleza.

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O tempo é tratado com respeito. Por consequência, o drama. São quase quatro horas que não se deixam sentir: é singelo, leve, no qual nem a violência impede reações impensáveis, transformações, como o momento em que o protagonista resolve largar a pedra que lançaria contra um homem para em seguida socorrê-lo.

Painel real de indefinições, entre a escuridão e a luz que surge de repente. Não por acaso, a primeira imagem mostra uma mão apagando a lâmpada. E quando Si’r revolta-se, na escola, é uma lâmpada que ele estoura para mostrar sua fúria.

Na noite da chacina, a luz vai e volta. Noite de tempestade, de apagão, quando uma das gangues veste chapéus e capas de chuva, em suas bicicletas, como velhos samurais com espadas em busca de vingança. Atacam os outros. A câmera de Yang não busca mostrar tudo. Ao contrário: o que se vê são flashes rápidos entre a escuridão, gritos de dor.

O horror encontra-se entre tanta beleza. Yang questiona a partir de extremos, dessa sociedade de tipos diferentes. Nela, a pequena brincadeira divide espaço com o que há de mais brutal, como no momento em que Ming diverte-se com uma arma de fogo e acaba atirando na direção do companheiro, para o susto de todos.

O cansaço da escola – ou do mundo real – leva os meninos ao estúdio de cinema. Refugiam-se ali, assistem às filmagens. Yang foca o movimento da juventude, a beleza inexplicável, a distância das relações e dos gestos, a lágrima perdida que não é fruto de interpretação. Os jovens, aqui, são sempre verdadeiros.

(Gu ling jie shao nian sha ren shi jian, Edward Yang, 1991)

Nota: ★★★★★

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