Tuio Becker

As ilhas de John Boorman

Meus filmes revelam, efetivamente, que a natureza é feita de uma mistura de beleza e crueldade; e eu creio que me liguei sempre em meus filmes de maneira que a intriga resulte ao mesmo tempo familiar e estranha, um pouco à maneira de um pesadelo. Ao mesmo tempo recorri muitas vezes ao tema ou ao símbolo da ilha, depois de meu primeiro filme, Catch Us If You Can, onde a ilha era o objeto de busca dos personagens, passando por À Queima Roupa, com não somente a ilha/prisão de Alcatraz, mas também Los Angeles, no seio da qual as pessoas estão muito isoladas, por Inferno no Pacífico, evidentemente, já que se tratava de um cenário único, e por Príncipe sem Palácio, com um bairro de Londres isolado do resto da cidade e a casa que pertence a um branco, que é como um ilhéu no bairro negro. Em Amargo Pesadelo, o rio constitui a seu modo um universo à parte, onde a civilização se transforma em qualquer coisa distante.

John Boorman, cineasta, sobre seus filmes, em trecho destacado do ensaio de Tuio Becker sobre o realizador (Zero Hora, 11 de março de 1973; o ensaio está no livro Sublime Obsessão, Editora da Unisc; pgs. 91 e 92). Abaixo, Boorman, com Burt Reynolds, nas filmagens de Amargo Pesadelo.

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Bastidores: Nashville

Ao final de Nashville, quando toda a tensão acumulada explode em tiros e sangue, a câmera, num movimento vertical, vai descobrir pela primeira vez o céu (um buraco branco e vazio), onde nada parece existir, nem mesmo a palavra “fim” (the end). Nashville é um filme a prosseguir, um esboço (rápido) de um momento da civilização americana, na passagem de seus duzentos anos. Um documento para a posteridade.

Tuio Becker, crítico de cinema, na Folha da Manhã (novembro de 1976). A crítica está reproduzida no livro Sublime Obsessão (Unidade Editorial; pg. 253). Abaixo, o diretor Robert Altman, na câmera, durante as filmagens de Nashville, lançado em 1975.

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A matéria do grotesco

Falam que meu cinema é social. Certo. Eu não quero saber da glória e do dinheiro; o que conta é o impacto de minha obra. No meu próximo filme gostaria de falar de amor, de todos os amores. Parece que o amor só toca os seres bonitos, bem feitos, os playboys. Se escolho outros, deformados pela vida, vão me taxar de sádico. O que busco é a realidade. Não durmo e penso nisto. O roteiro para um cineasta não é nada. Importante é amadurecer o tema. A matéria é a rua, o bar, as pessoas. É preciso saber olhar.

Marco Ferreri. A citação está no texto Marco Ferreri: o Poeta do Grotesco, de Tuio Becker (Zero Hora, março de 1974). Abaixo, o diretor durante as filmagens de Ciao Maschio, de 1978.

marco ferreri