trem

Conspiração, de Anthony Mann

A emoção está nos espaços, no deslocamento, na maneira como Anthony Mann lança sua personagem por corredores intermináveis, entre idas e retornos. O homem, policial sem insígnia, precisa descobrir a rede de conspiradores que tramam a morte do então presidente Abraham Lincoln em uma nação à beira da guerra civil.

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É fácil apontar sua fragilidade: a história é diferente, Lincoln não foi assassinado durante a viagem que o levaria a Washington, após vencer as eleições. Bom ir com calma: em Conspiração, Mann não está interessado no destino final da locomotiva. Destacam-se os esconderijos, as máscaras que escondem os conspiradores.

E desse meio de máscaras vê-se um pouco – ou muito – de um país. Ou apenas uma dissimulação, pessoas que fingem cavalheirismo, que mentem o destino que pretendem tomar: deveriam descer em uma estação, mas descem em outra. O trem – com suas separações, sua gente rica, seus criados, seus militares como soldadinhos de chumbo – é um belo resumo de uma nação ainda não unificada, de demônios à vista.

Restam não os fins. Fica o espaço em que corre a ação, pelo qual Mann, outra vez, prova gigante talento. Do plano inicial quase nasce outro filme: a calma como compõe a chegada da locomotiva, sem trilha sonora, à medida que sobem os créditos, faz parecer um filme mais longo. E ainda que a metragem seja curta, Mann não acelera.

Assume-se aqui o filme histórico pequeno, não mais que uma fita policial – e que não chega a ser um noir. Seu herói nada tem de anti-herói: em Dick Powell, como John Kennedy, vê-se o tipo perfeito ao cinema clássico, ao qual o mesmo serviu bem e em muitos filmes. Faz tudo para revelar quem são os homens que pretendem matar o presidente.

Algumas situações – grandes ou pequenas – correm ao lado, sem que ele veja. Sinais chegam primeiro ao público. Na primeira estação, por exemplo, Lincoln é demonizado por um jornal. A vitória do presidente ainda não é aceita por alguns grupos ligados ao poder. Os diálogos não escondem o ranço dos supostos civilizados.

Alguns momentos beiram o suspense hitchcockiano, como a sequência em que o vilão avisa o comparsa sobre a presença do presidente ao escrever no vidro da janela. O outro só consegue enxergar a mensagem quando a lê através de um reflexo. A sequência, de tão cinematográfica e engenhosa, é de difícil descrição.

Talvez resuma o próprio filme de Mann: é de mensagens escondidas, para se ler não sem dificuldade, que é feito. As pessoas que correm ali – o policial honesto, o militar cínico, o rapaz usado como massa de manobra pelos conspiradores, a escrava consciente de sua posição inferior, além das pequenas personagens, como o funcionário que tenta colocar ordem no trem e é incapaz de enxergar o problema – são velhas conhecidas.

A câmera registra o movimento de Kennedy, de uma extremidade a outra do vagão, sem sair do mesmo eixo, em movimento panorâmico. O uso dos espaços aprofunda o suspense, depois a ação, a agonia da espera. Com a chegada do trem à cidade, os assassinos revelam seus planos à medida que o universo externo é mostrado, incluindo a janela na qual o atirador estará posicionado para matar o novo presidente dos Estados Unidos.

Nada está fora do lugar em Conspiração. Nem o presidente, real, mítico, guardado em uma das cabines não invadidas, de olho no futuro. É um filme político, nada ingênuo, um recorte sem respostas claras composto por homens determinados, forma como se imagina alguns heróis do passado. O que inclui um destemido policial do cinema clássico.

(The Tall Target, Anthony Mann, 1951)

Nota: ★★★★☆

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Café Lumière, de Hou Hsiao-Hsien

Comuns os momentos em que a menina, a protagonista, perde-se entre a multidão. Deixa de ser a parte mais importante e, à câmera, integra-se a tudo o que a cerca. Aos poucos esse cinema revela-se: está além do pequeno drama dela, quase inexistente, e se fixa no todo, no conjunto, na paisagem em movimento.

Os trens de Tóquio, as estações, as pessoas, o cotidiano. Por algum motivo, ela, a parte, destaca-se, segue a ambientes fechados com a câmera junto. A câmera de Hou Hsiao-Hsien parece desejá-la tanto quanto desprezá-la, ou permite, em Café Lumière, que a mesma seja parte de um jogo de aproximação e distância. Será assim o filme inteiro.

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As incontáveis resenhas apontam à relação com Ozu e, outras tantas, à com os pioneiros Lumière. O que se vê, sobretudo, é a poética de um cinema moderno que retira algo desses mesmos cineastas – do japonês, o apreço pelo cotidiano, pelos pequenos dramas que atingem a família e, invariavelmente, detonam esse célula importante da sociedade, com pais e filhos que se separam; dos franceses, o registro, o movimento dos corpos, os afazeres diários.

Há quem tenha encontrado nas imagens de Lumière o verdadeiro germe do cinema de ficção, como Thierry Frémaux, o que tornaria válida a aproximação a histórias como as de Ozu. Talvez Hsiao-Hsien estivesse pensando na metamorfose de ambos para dar vez àquilo que o cinema parece ser, entre o real e o fictício, nem totalmente um ou outro.

Desde o título, Café Lumière oferece o casamento entre o cinema e o cotidiano, entre os espaços da conversa, da confraternização, e os da pulsação cinematográfica: tudo o que é possível esperar do cinema está aí, do lado de fora, nas ruas, nas estações de trem, nos bares ou cafés, está para ser tocado, ou registrado pela câmera, como faz.

E é à estação que ele retorna, ao ponto inicial, como observa o crítico Ruy Gardnier: “Em Café Lumière, Hou Hsiao-hsien parece nos dizer que toda a progressão cronológica do cinema, sua transformação em ficção, sua complexidade crescente de produção, de roteiros, de histórias, de star system, equipe de filmagem, que tudo isso só serviu para obscurecer a virtude principal da máquina cinematográfica, esse dispositivo maravilhoso que serve para simplesmente registrar a passagem dos seres humanos pela vida”.

A garota, Yôko (Yo Hitoto), vive em Tóquio e às vezes – como explica aos outros – viaja para Taiwan. Ao interior do Japão ela segue para visitar seus pais. Por ali, conta que está grávida, para a surpresa de ambos. Diz que não se casará, que o pai da criança, de Taiwan, é dono de uma fábrica de guarda-chuvas e que não quer fazer parte da família dele.

Na cidade grande, passa por uma livraria, na qual mantém laços de amizade – talvez algo mais – com seu proprietário, o tranquilo Hajime (Tadanobu Asano). Ambos circulam pelos trens, pela cidade, nas linhas que cortam o espaço urbano. Todo o filme é sobre esse movimento, ou sobre esses cortes pelas linhas, possíveis encontros.

A certa altura, o rapaz mostra à moça um desenho que criou em seu computador. A imagem apresenta uma pessoa rodeada por vagões de trem. A figura ao centro é ele, destinado, com seu gravador, a captar o som das locomotivas, dos trilhos, o barulho do mundo que, naquelas estações, dão um bom resumo do mundo moderno no qual o cinema nasceu.

A imagem permite outra interpretação: a pessoa ao centro pode ser um feto, o bebê que a mesma Yôko carrega, filho desse mundo em movimento no qual o homem faz-se cercado por máquinas. Mundo captado pelos Lumière, por Ozu, agora por Hsiao-Hsien – no caso do último, sem que copie os anteriores, cinema com assinatura própria.

(Kôhî jikô, Hou Hsiao-Hsien, 2003)

Nota: ★★★★☆

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Quando Explode a Vingança, de Sergio Leone

O bandido mexicano Juan Miranda (Rod Steiger) torna-se guerrilheiro por acidente. Tenta escapar da Revolução Mexicana, dos escudeiros maltrapilhos de Pancho Villa, e termina saudado, carregado pela multidão armada e não tão diferente dele.

Convertido em herói pela ótica do cineasta Sergio Leone, em Quando Explode a Vingança ele será o responsável por resumir o que é uma revolução. Como lembra, trata-se de homens que sabem ler guiando pobres a uma suposta liberdade. Depois, os homens que sabem ler engordam, enquanto os pobres continuam como antes.

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A visão amarga tem sua consequência: o parceiro e melhor amigo de Juan, John (James Coburn), joga na lama um livro sobre patriotismo. Especialista em bombas, o companheiro irlandês também tem seus motivos para desconfiar do conflito.

A revolução de Leone dá voz a esses seres amargos, desiludidos, que sorriem enquanto dizimam um pelotão de soldados mexicanos. A música de Ennio Morricone completa a ideia: o melódico encontra um estranho e possível casamento com a violência extrema.

O resto é resto, Leone faz o público acreditar. A vida, nessa revolução, ou guerra, não vale nada: homens são encurralados e mortos em buracos, enquanto o trem, ao fundo, emite a imagem da modernidade. O trem é a representação do progresso.

Não por acaso, o filme anterior do genial cineasta abordava justamente a construção da linha férrea. Progresso e modernidade – ao olhar da prostituta interpretada por Claudia Cardinale – vêm acompanhados de sangue, de conflitos, de homens sujos.

Com Era Uma Vez no Oeste e, mais tarde, Era Uma Vez na América, Quando Explode a Vingança forma uma trilogia curiosa. É a parte do meio, lançada em 1971, na transição de gêneros: começa como faroeste, termina como filme de guerra.

Os maltrapilhos – incluindo a família de Juan – queriam roubar diligências e bancos. São bandidos assumidos, divertem-se com seus instintos animais. É o que permite, até certo ponto, ver o faroeste: eles desejam apenas o conflito local, o ouro do banco, enquanto oram à beira de um altar improvisado, em busca de riquezas.

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Terminar na revolução é inevitável: é o momento em que o filme ganha conotação política. É, por isso, o passo seguinte da colonização apresentada em Era Uma Vez no Oeste: não é mais um conflito limitado a uma região, muito menos movido por vingança pessoal. Era Uma Vez na América, depois, expõe a criminalidade como instituição: é sobre a transformação de jovens amigos em mafiosos.

No caso de Juan, sobra um rosto triste, sem quase nada senão a revolução em curso: sem a família, sem o melhor amigo. É a última das mutações em Quando Explode a Vingança, em seu plano final. Deixa espaço ao filme seguinte, mais frio, com o mafioso que recorre ao ópio para lembrar – ou criar – a história de sua vida.

São filmes feitos pela força da direção. Às vezes o roteiro nem mesmo convence. Em Quando Explode a Vingança, algumas passagens encurtam distâncias, soam inverossímeis. A comédia encontra assim seu espaço: no momento em que Juan solta seu sorriso, atirando sem parar, o espectador entende do que é feito esse terreno.

Tem todas as características de Leone, seu gosto pela grandiosidade. Nada soa pequeno ou banal. Homens são enfileirados, mortos e empilhados. A carnificina poucas vezes encontrou grandeza semelhante e música tão bela para lhe amparar.

(Giù la testa, Sergio Leone, 1971)

Nota: ★★★★☆

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Estilo western

Naturalmente, o estilo western existiu antes do cinema. Estou convencido de que a história real das velhas civilizações europeias se desenvolveu largamente num estilo próximo ao do chamado filme de arte, e que a história da construção da América moderna durante o século 19 foi feita num estilo western. As lutas pela conquista do Texas, a febre do ouro, a conquista do território através das grandes planícies, a organização dos meios de transportes, a diligência, o trem, o telégrafo, a guerra civil, as grandes criações de gado, o complemento da ocupação do território pelo massacre dos índios, tudo é western, tudo, antes do aparecimento do cinema já estava estilizado pelo folclore, pelo mito, pela literatura. Quando no começo do século nasceu o cinema, a América, que já estava contando para si própria sua história recente, não tardou em lançar mão do novo meio de contar histórias. Como nessa mesma ocasião ela se tornava a primeira produtora de ferro e de carvão do mundo, logo começou, e não cessou mais, de contar para todo mundo a sua história, cinematograficamente, e em estilo western.

Paulo Emílio Sales Gomes, crítico, professor e fundador da Cinemateca Brasileira, na Revista de Cinema, em 1955. O texto integral, “A ópera de cavalo e do pobre”, foi publicado em dois livros, Revista de Cinema – Volume 1 (Editora Azougue; pg. 265) e O Cinema do Século (Companhia das Letras; pgs. 548 e 549), que reúne textos de Paulo Emílio. Abaixo, uma imagem de O Cavalo de Ferro, épico mudo de John Ford.

o cavalo de ferro

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Alguns itens inesquecíveis de dez filmes de Alfred Hitchcock

Ao manipular o espectador e guiá-lo ao suspense, Alfred Hitchcock entregou ao público detalhes marcantes e até passageiros. Alguns ajudam a entender o termo McGuffin, provavelmente criado pelo mestre do suspense.

Ou seja, o que é vital para as personagens, mas que não serve de combustível à trama e às necessidades do espectador – como a estatueta de Intriga Internacional e talvez o dinheiro roubado pela Marion Crane de Psicose. Na lista abaixo, há ainda outros detalhes levados à frente por Hitchcock e inesquecíveis ao olhar de qualquer cinéfilo.

O pincel de barbear (O Homem que Sabia Demais)

Um homem simples é avisado de que algo importante está escondido em um pincel de barbear, no banheiro do hotel. É apenas o início de um caso de intriga e sequestro.

o homem que sabia demais

Os rolos de filme e o pacote com a bomba (Sabotagem)

O próprio diretor lamentou a explosão da bomba. Nessa obra estranha, ele mostra os últimos momentos da vida de uma criança: sua passagem por ruas lotadas e com a bomba no ônibus.

sabotagem

O nome da desaparecida (Froy) no vidro do trem (A Dama Oculta)

A protagonista não entende o nome de uma senhora simpática, devido ao barulho do trem. É quando resolve escrevê-lo no vidro – mais tarde, o sinal para saber que não enlouqueceu.

a dama oculta

O copo de leite (Suspeita)

Estranho ver Cary Grant como vilão, levando um copo de leite para a mulher, talvez para matá-la. É o momento mais famoso do filme, no qual Hitchcock colocou uma luz dentro do copo.

suspeita

O anel de esmeralda (Sombra de uma Dúvida)

A menina ingênua ganha um anel de seu tio assassino. A inscrição no objeto, feita com iniciais, ajuda a heroína a descobrir a verdadeira face do homem estranho, em passagem por sua casa.

sombra de uma dúvida

A chave em poder de Alicia (Interlúdio)

O vilão nazista esconde urânio em sua adega, em sua casa na Argentina. Nesse covil de bandidos, a bela moça tem de pegar a chave da adega e conduzir o herói ao sucesso.

interlúdio

Os sapatos que se esbarram (Pacto Sinistro)

Antes de aceitarem cometer crimes trocados, os homens esbarram seus sapatos no interior de um trem, momento sutil em que a relação deles sugere mais que acordos verbais.

pacto sinistro

O cabelo preso de Madeleine (Um Corpo que Cai)

O protagonista, vivido por James Stewart, compara o cabelo de sua perseguida à imagem de um quadro, em um museu. A imagem também remete à espiral de seus pesadelos, à sua vertigem.

um corpo que cai

A estatueta comprada no leilão (Intriga Internacional)

De novo, o vilão esconde planos secretos no interior de um objeto e, de novo, um homem simples envolve-se com perigosos espiões em tempos de Guerra Fria.

intriga internacional

O jornal com o dinheiro escondido (Psicose)

Antes de o assassino levar o jornal, Hitchcock trabalha o suspense como poucos: ele observa o quarto, limpa cada espaço, dá fim ao cadáver da mulher. E não deixa o jornal por ali.

psicose