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Bastidores: O Exorcista

Escolher alguém para o papel de Regan, a menina possuída, foi mais difícil. Na época em que Linda Blair foi entrevistada, tinha 12 anos. Friedkin queria ter certeza de que ela poderia enfrentar os elementos mais ousados do papel. Perguntou a Linda: “Você leu O Exorcista?”

“Li.”

“O livro é sobre o quê?”

“Sobre uma garotinha que é possuída pelo diabo e faz um monte de coisas ruins.”

“Que tipo de coisas ruins?”

“Ela empurra um cara de uma janela e se masturba com um crucifixo e…”

“E o que isso quer dizer?”

“É que nem tocar siririca, não é?”

“É sim. Você sabe o que é tocar siririca?”

“Claro que sim!”

“E você faz isso?”

“Claro! Você não toca punheta?”

Linda ficou com o papel.

Peter Biskind, escritor, em Como a Geração Sexo, Drogas e Rock and Roll Salvou Hollywood (Editora Intrínseca; pg. 209). O diálogo ocorreu entre o diretor William Friedkin e a jovem Linda Blair, ambos na foto abaixo.

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Bastidores: O Iluminado

O cinema novo taiwanês

Se houvesse duas, e apenas duas, palavras para definir a existência desse cinema, essas duas palavras teriam de ser “excelência” e “paradoxalidade”, pois o cinema que apareceu em Taiwan a partir dos anos 1980 é, ao mesmo tempo, decisivo e influente na cinematografia mundial e praticamente desconhecido fora do circuito dos festivais internacionais; é um conjunto de filmes mais conhecido e debatido ao redor do mundo do que dentro dos limites de seu próprio país; e, por fim, é um cinema de relativamente poucos filmes, de circulação bastante restrita, jamais transformando-se numa indústria sólida, ao passo que as décadas anteriores tinham uma produção enorme em termos quantitativos, mas sem muita projeção internacional, notoriedade ou reconhecimento crítico. O cinema novo de Taiwan é a história de uma aventura que já teve seu começo, seu meio e seu fim, mas que conseguiu consolidar definitivamente três nomes entre os principais autores do cinema contemporâneo: Hou Hsiao-hsien, Edward Yang e Tsai Ming-liang.

Ruy Gardnier, professor, pesquisador e crítico de cinema, em uma análise publicada no livro Cinema Mundial Contemporâneo (Taiwan: Nascimento Cinematográfico de uma Nação, Papirus Editora; organização de Mauro Baptista e Fernando Mascarello; pgs. 305 e 306). Abaixo, imagem de In Our Time, um dos filmes desse período, em quatro capítulos assinados por Tao Te-chen, Edward Yang, Ko I-Chen e Yi Chang.

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Senhorita Oyu, de Kenji Mizoguchi

Homem de ação

O nosso tempo está cheio de credos novos. Entre os seus inumeráveis pre­gadores, entretanto, poucos têm a profundidade e a inspiração de Groucho Marx. Por isto é que o grouchismo aí está, a conquistar adeptos dia a dia, numa evidente demonstração de vitalidade. A força do seu criador vem menos das prédicas que da ação. Groucho não tem um corpo de dou­trina organizado, nem tampouco o gosto da parábola. É agindo que dá o exemplo e arrasta os adeptos. Só usa da palavra como acompanhamento obediente das atitudes, porque, segundo ele, a ação é o princípio e o fim de tudo – concordando plenamente com a corrigenda do Doutor Fausto ao Evangelho de São João. Relegando, pois, o verbo para um plano secun­dário, Groucho desvenda a atividade em toda a sua plenitude, e é esta riqueza de realizações que dá um cunho tão convincente ao seu credo. É que ele compreendeu, melhor do que ninguém, que a crítica ao precon­ceito, assim como o estabelecimento de uma nova base para a conduta, não podem estar presos à justificação doutrinária – retórica, maçante e ineficiente. Compreendeu, além disto, que não pode haver fases distintas na transformação; que não se deve destruir para construir em seguida. O mesmo ritmo deve compreender no seu embalo a destruição e a recons­trução. Quando o tabu é derrubado, já deve estar nascendo de suas cinzas o novo tabuzinho, pronto e reluzente. É esta a sua profunda originalidade e a sua profunda divergência com os outros heróis deste século.

Antonio Candido, escritor e crítico literário, para a Revista Serrote (julho de 2009; leia aqui o texto completo), sobre o cômico Groucho Marx. No fim do texto, ele é apresentado da seguinte forma: “Antonio Candido é Antonio Candido”. Abaixo, Groucho em Uma Noite na Ópera.

um noite na ópera

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A comédia sem freios dos Irmãos Marx

Manoel de Oliveira (1908-2015)

A língua do universo é a compreensão. E o universo existe, somos nós e o mundo integrados em todo o espaço cósmico. Do mesmo modo como o universo se concentra num átomo. Até penso que se não fosse assim, a bomba atômica não teria explodido em Hiroshima. Tudo isso é, para mim, extraordinariamente complexo, e para expor todo esse enigma de modo artístico, em filme, só recuando a Georges Méliès e a Júlio Verne. Será mais fácil reduzir a coisa ao átomo. Nem juntas as obras de todos os artistas de cinema e de todas as outras artes seriam capazes de dar uma ideia precisa da complexidade do universo.

Manoel de Oliveira, em entrevista a Leon Cakoff, no livro Manoel de Oliveira (Cosac Naify). E, abaixo, um pequeno trecho de Poema Cinematográfico, escrito pelo diretor português em 1986 e publicado no mesmo livro.

O cinema não é fácil.
Porque a vida é complexa
e a arte indefinível,
indefinível será a vida
e a arte complicada.

manoel de oliveira1

Rossellini segundo Glauber Rocha

Diante do universo como um cão acuado, Rossellini se liberta lançando perguntas. Porque talvez já conheça bastante o âmago dos objetos, o detalhe das coisas, a miséria e a bondade das faces humanas – por causa destas verdades que despreza – Rossellini não aproxima a visão, não avança a câmera, despreza o close, abdica do particular pelo geral. É um panteísta às avessas, sempre sobre as ruínas da guerra, a névoa dos infernos italianos, a fumaça dos vulcões ou a poeira arqueológica.

Trecho retirado de O Século do Cinema, de Glauber Rocha (Editora Cosac Naify).

Abaixo, Ingrid Bergman com Rossellini.

roberto rossellini