Toni Erdmann

Os dez melhores atores de 2017

Centrais
O motorista que vai ao encontro da poesia, cuja vida parece não reproduzir muita ação, é o exato oposto, entre os cinco homens abaixo, ao jovem que tenta retirar o irmão da cadeia e se envolve em muita ação durante uma única noite. Não faltariam ainda à seleção o homem que tenta reconstruir a vida, o que busca seus direitos e o que tenta se reaproximar da filha.

Adam Driver em Paterson

Casey Affleck em Manchester à Beira-Mar

Dave Johns em Eu, Daniel Blake

Peter Simonischek em Toni Erdmann

Robert Pattinson em Bom Comportamento

Outros que merecem destaque: Boguslaw Linda em Afterimage; Denzel Washington em Um Limite Entre Nós; Géza Morcsányi em Corpo e Alma; James McAvoy em Fragmentado; Joel Edgerton em Loving; Júlio Machado em Joaquim; Lewis MacDougall em Sete Minutos Depois da Meia-Noite; Oscar Martínez em O Cidadão Ilustre; Ryan Gosling em La La Land: Cantando Estações; Shahab Hosseini em O Apartamento; Vladimir Brichta em Bingo: O Rei das Manhãs.

Coadjuvantes
Um senhor rústico, isolado, surpreende o visitante francês, roteirista de cinema. Gera atração inexplicável, como o homossexual à beira da morte, em Cuba, ou o pai marrento do qual os filhos aproximam-se em bela comédia. Outro pai, não biológico, ajuda um menino a trilhar seus passos. Indesejado, um velho amigo ressurge na antiga cidade natal.

Christian Bouillette em Na Vertical

Dady Brieva em O Cidadão Ilustre

Dustin Hoffman em Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe

Jorge Martínez em Últimos Dias em Havana

Mahershala Ali em Moonlight: Sob a Luz do Luar

Outros que merecem destaque: Ben Foster em A Qualquer Custo; Garrett Hedlund em A Longa Caminhada de Billy Lynn; Harrison Ford em Blade Runner 2049; Jeff Bridges em A Qualquer Custo; Lucas Hedges em Manchester à Beira-Mar; Mark Rylance em Dunkirk; Pierre Niney em Frantz.

Veja também:
Paterson, de Jim Jarmusch
As dez melhores atrizes de 2017
Moonlight: Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins

As dez melhores atrizes de 2017

Centrais
As mulheres em destaque abaixo apoiam-se em diferentes máscaras: uma deles veste 13 personagens; outra, transexual, luta para ser apenas uma – contra os preconceituosos que não a aceitam. Há também uma mulher fechada, com dificuldade de amar, porém poetisa famosa; outra que perdeu seu amor e vaga sozinha, além da aparente liberal que termina sob as inesperadas investidas do pai descolado.

Cate Blanchett, em Manifesto

Cynthia Nixon em Além das Palavras

Daniela Vega em Uma Mulher Fantástica

Kim Min-hee em Na Praia à Noite Sozinha

Sandra Hüller em Toni Erdmann

Outras que merecem destaque: Alexandra Borbély em Corpo e Alma; Annette Bening em Mulheres do Século 20; Eili Harboe em Thelma; Emma Stone em La La Land: Cantando Estações; Florence Pugh em Lady Macbeth; Judith Chemla em A Vida de uma Mulher; Kate Winslet em Roda Gigante; Maria Ribeiro em Como Nossos Pais; Natalie Portman em Jackie; Patrícia Niedermeier em Guerra do Paraguay; Paula Beer em Frantz; Ruth Negga em Loving; Soria Zeroual em Fátima; Yuliya Vysotskaya em Paraíso.

Coadjuvantes
A mãe sofre e não larga o cigarro. Ao piano, tem em cena um momento tocante; outra, mais jovem, faz o possível para sustentar os filhos pequenos quando o Estado deixa de representá-la. Há também a mãe poderosa que mantém as rédeas da família, contra o marido descontrolado em conflito com o filho. Destaque ainda à criada que luta para ter voz e à moça de cabelo vermelho, em mundo à parte, que não raro rouba a cena.

Clarisse Abujamra em Como Nossos Pais

Greta Gerwig em Mulheres do Século 20

Hayley Squires em Eu, Daniel Blake

Naomi Ackie em Lady Macbeth

Viola Davis em Um Limite Entre Nós

Outras que merecem destaque: Emma Bell em Além das Palavras; Michelle Williams em Manchester à Beira-Mar; Naomie Harris em Moonlight: Sob a Luz do Luar; Raph em Mistério na Costa Chanel; Solène Rigot em Faces de uma Mulher; Tilda Swinton em Okja; Zita Hanrot em Fátima.

Veja também:
Manifesto, de Julian Rosefeldt
Toni Erdmann, de Maren Ade
Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio

As 50 melhores comédias do cinema nos últimos dez anos

Por muito tempo, comédias têm sido associadas apenas a filmes que fazem rir. Ou que fazem rir em excesso a partir de gestos físicos e piadas fáceis. Há também a ideia de que a comédia não pertence ao plano real: vale rir de tudo, claro, pois tudo é assumidamente falso. Tais ideias, em certa medida, ligam-se à forma americana de fazer comédia, que legou o pastelão, a screwball, a comédia física que não se faz mais.

Mas a comédia vai além: a constatação do absurdo, até o espectador corar, também é fazer comédia. Absurdo que tem inegável dívida com a realidade, e que pode ser tão cruel, tão estranhamente atual, que o espectador não tem gargalhadas, mas o leve sorriso de canto de boca. A constatação do sarcasmo. E talvez deixe o cinema até um pouco triste, em alguns casos com a certeza de ter assistido a um gênero nobre. (Observação: a lista abaixo é puramente pessoal.)

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50) Frank, de Lenny Abrahamson

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49) Trapaça, de David O. Russell

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48) O que Resta do Tempo, de Elia Suleiman

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47) Meia-Noite em Paris, de Woody Allen

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46) O Palácio Francês, de Bertrand Tavernier

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45) Além do Arco-Íris, de Agnès Jaoui

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44) Casamento Silencioso, de Horatiu Malaele

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43) Soul Kitchen, de Fatih Akin

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42) Minhas Tardes com Margueritte, de Jean Becker

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41) Contos da Era Dourada, de vários diretores

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40) Tangerina, de Sean Baker

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39) Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, de Helena Ignez e Ícaro C. Martins

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38) Mistress America, de Noah Baumbach

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37) Moonrise Kingdom, de Wes Anderson

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36) Tudo Pode dar Certo, de Woody Allen

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35) Eu, Mamãe e os Meninos, de Guillaume Gallienne

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34) Vocês, os Vivos, de Roy Andersson

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33) Nebraska, de Alexander Payne

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32) Rainha & País, de John Boorman

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31) Dois Caras Legais, de Shane Black

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30) Um Conto Chinês, de Sebastián Borensztein

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29) Marguerite, de Xavier Giannoli

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28) Na Mira do Chefe, de Martin McDonagh

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27) Café Society, de Woody Allen

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26) Queime Depois de Ler, de Ethan Coen e Joel Coen

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25) O Lagosta, de Yorgos Lanthimos

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24) O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson

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23) Ela, de Spike Jonze

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22) Um Amor a Cada Esquina, de Peter Bogdanovich

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21) Vício Inerente, de Paul Thomas Anderson

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20) O Novíssimo Testamento, de Jaco Van Dormael

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19) A Grande Aposta, de Adam McKay

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18) O Porto, de Aki Kaurismäki

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17) Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

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16) Em Outro País, de Hong Sang-soo

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15) Frances Ha, de Noah Baumbach

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14) Blue Jasmine, de Woody Allen

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13) Amor & Amizade, de Whit Stillman

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12) Relatos Selvagens, de Damián Szifrón

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11) Ervas Daninhas, de Alain Resnais

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10) O Artista, de Michel Hazanavicius

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9) Força Maior, de Ruben Östlund

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8) Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência, de Roy Andersson

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7) Toni Erdmann, de Maren Ade

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6) Chatô, O Rei do Brasil, de Guilherme Fontes

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5) O Pequeno Quinquin, de Bruno Dumont

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4) O Homem ao Lado, de Mariano Cohn e Gastón Duprat

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3) Sieranevada, de Cristi Puiu

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2) O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese

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1) Habemus Papam, de Nanni Moretti

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Veja também:
Oito crianças que brilharam no cinema de 2016

Toni Erdmann, de Maren Ade

Não são raras as vezes em que Sandra Hüller fixa-se no tempo, sem nada a não ser o pensamento. Na pele de Ines Conradi, ela tenta entender – ou apenas lamenta – por que o pai comporta-se como criança, ou por que vive em universo tão distante.

São esses tempos mortos que comprovam o talento da atriz e, sobretudo, o da diretora Maren Ade: a maneira como Toni Erdmann desenha-se como comédia, não como drama, porque esses mesmos tempos atestam o absurdo, a perplexidade.

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É como se Ines não tivesse saída senão a da idiotice que a ronda, a que explode nas faces do pai, em sua proposital interpretação fácil e grotesca, menos naquelas que se escondem sob o rosto dos belos engravatados que lutam para fechar um grande negócio.

A mulher alemã está na Romênia, onde boa parte do filme é ambientada. Ao que parece, a relação com o pai, Winfried (Peter Simonischek), é distante. Cresceu em outro universo, o do mundo dos negócios, enquanto ele deixa evidente, ainda cedo, o polo ao qual pertence: está entre crianças, ao piano, em uma apresentação de canto.

Depois de perder seu cão, o homem sai atrás da filha: viaja à Romênia para um encontro surpresa. O que se desenrola são momentos diversos de incômodo da parte dela, das maneiras como ele servirá sua máscara para chocar todos com facilidade.

Pode parecer fácil, mas não é: ser Winfried, ou Toni Erdmann, nesse meio que louva a etiqueta, é o mais difícil. Viver sob uma personagem não é fácil. Para o pai, que assume outra identidade, a de Toni, será natural até certo ponto. Para a filha, presa à sua comum interpretação – a da mulher no mundo dos negócios globalizados –, é um martírio.

Tão imersa nessa máscara, ela demorará a ver o quanto o pai, mesmo caricato, é natural. Toni Erdmann é sobre essa relação de incômodo e estranheza, sobre descobrir que a interpretação assumida pode ser a única legítima entre tantas pessoas que aprenderam a viver sob o signo dos bons modos, sob a parca distância entre o elogio e o insulto (como o momento em que Ines é chamada de “animal” pelo chefe).

Os filmes anteriores de Ade também abordavam a dificuldade de se ver incluído e, por isso mesmo, a verdade explodia à câmera. Tal papel cabe aqui ao pai, ao homem de peruca e dente postiço, cujos absurdos levados ao cotidiano o aproximam de uma personagem de Roy Anderson, o diretor da Trilogia do Ser Humano.

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O absurdo torna-se natural porque nunca deixou de ser. Em A Floresta para Árvores, uma professora recém-chegada à escola não consegue fazer amizades e domar seus alunos. Tenta, assim, aproximar-se de uma vizinha. Em Todos os Outros, uma mulher não consegue fazer parte da vida de seu namorado quando saem em viagem.

O mal-estar gerado por essa aparente segregação explora o cotidiano dos “diferentes” e o quanto eles, levados aos mesmos tempos mortos da diretora, pouco a pouco parecem “normais”, incluídos, donos de um meio próprio, de uma língua própria.

Ade nunca precisou de tanto tempo para mesclar personagens. Aos poucos, Ines entra no jogo de Winfried e observa toda a fauna ao redor por outra perspectiva. Seria, em outro caso, um ponto de partida a qualquer história banal e manjada sobre pais e filhos separados, sobre famílias disfuncionais – sem a mesma ousadia e naturalidade.

O segredo de Ade é fazer tudo realista, ao passo que a couraça de Ines será movida enquanto tenta retirar um vestido, enquanto, é possível, sente-se envelopada e deseja escapar. Despe-se enquanto espera seus companheiros para uma festa. Alguns saem chocados, expulsos. Outros aceitam o jogo e também tiram a roupa.

Não teria o mesmo efeito em menor metragem. As personagens de Ade absorvem o mundo ao redor com calma. Cada instante é valioso, à medida que a inegável comédia também abre espaço ao drama de pessoas que tentam parecer “normais”.

(Idem, Maren Ade, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A Floresta para Árvores, de Maren Ade