Tomboy

Cinco filmes recentes que abordam identidade de gênero

Bons exemplos de cinema, os filmes abaixo também podem – e devem – ser discutidos em outras esferas. Retratam, sob o olhar de cineastas distintos, a questão de gênero e a diversidade sexual a partir de histórias humanas. As obras foram lançadas entre 2007 e 2016.

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XXY, de Lucía Puenzo

O delicado filme de Puenzo leva à história de um intersexual, uma hermafrodita, Alex (Inés Efron), que foi criada como menina pelos pais em região à beira-mar do Uruguai. Mais tarde, Alex decide parar de tomar hormônios e parece se identificar como homem, ou mesmo não apresenta definição. A obra aborda não apenas o drama da personagem, mas também da família, sem saber como lidar com a questão.

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Tomboy, de Céline Sciamma

O cotidiano da menina Laure (Zoé Héran), que passa a se apresentar aos vizinhos como Michaël, é o centro do trabalho de Sciamma. A questão de gênero é aqui levada à infância e pré-adolescência, com brincadeiras e relações entre jovens em um bairro de classe média francês. A direção busca sempre o rosto da (ou do) protagonista e consegue, sem grande esforço, levar o espectador ao centro de suas tensões.

tomboy

Laurence Anyways, de Xavier Dolan

Quando o professor Laurence (Melvil Poupaud) começa a se vestir com roupas de mulher, seus alunos e outros professores não entendem. Ficam chocados. Além da questão, o filme aborda sua relação, aqui central, com a namorada (Suzanne Clément), cujo amor pelo protagonista faz com que continue ao seu lado, com o passar dos anos. O diretor Dolan também abordou a diversidade sexual em outros filmes.

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A Garota Dinamarquesa, de Tom Hooper

Com os contornos típicos do “drama de Oscar”, o trabalho de Hooper segue os passos de Einar (Eddie Redmayne) e como se transformou em Lili Elbe. O que poderia ser apenas uma provocação nas festas dos anos 20, com roupas femininas e a companhia da mulher (Alicia Vikander), torna-se questão de vida para Lili. O próximo passo é se tornar a primeira pessoa a se submeter à cirurgia de mudança de sexo.

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Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert

O novo trabalho da cineasta começa com uma cena que explica tudo, ou quase: o protagonista (Naomi Nero) faz sexo com uma menina, no banheiro, usando roupas íntimas femininas. Esse grito de contestação à sociedade heteronormativa vem acompanhado de uma história sobre bebês furtados na maternidade. Por consequência, com a mudança de família, o menino encontrará a abertura para afirmar suas escolhas.

mãe só há uma

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A Garota Dinamarquesa, de Tom Hooper
Dez filmes que questionam regras sociais e religiosas

Dez filmes que questionam regras sociais e religiosas

Ao longo de sua ainda curta história, o cinema sempre explorou alguns temas tabus. E após décadas de seus lançamentos, alguns filmes ainda incomodam ao colocar o dedo na ferida, ao questionar as regras impostas pela sociedade, também pela Igreja – e por todos os patrocinadores dos bons modos, em nome “de Deus e da família”, para não se esquecer de discursos recentes. É cinema em sua função: causar questionamentos.

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Os filmes abaixo foram escolhidos pela temática, não pela estética – ainda que ambas estejam quase sempre relacionadas. A ideia é ampliar o debate e, claro, fazer pensar.

Meu Passado me Condena, de Basil Dearden

Homossexualidade – Os homossexuais demoraram a conquistar direitos ao redor do mundo (e ainda hoje a prática é crime em alguns países). Nesse grande drama de Dearden, um promissor advogado é chantageado por ser homossexual. O filme foi lançado em 1961, quando relações com pessoas do mesmo sexo ainda eram crime na Inglaterra. O assunto seria retomado mais tarde em O Jogo da Imitação.

meu passado me condena

Esse Mundo é dos Loucos, de Philippe de Broca

Antibelicismo – Outros filmes trataram da questão como comédia, entre eles o incrível Doutor Fantástico, de Stanley Kubrick. Mas o que torna o filme de Philippe de Broca tão original é o fato de ser protagonizado por personagens saídas de um hospício. Situa-se na Primeira Guerra Mundial, em uma pequena cidade francesa recém-desabitada. Libertados, os loucos ficam por ali, interpretando papéis nessa nova sociedade. E quando os alemães invadem o local, a obra questiona quem são os loucos da história.

esse mundo é dos loucos

Sopro no Coração, de Louis Malle

Incesto – O diretor francês trata a questão com delicadeza e dá vida a um filme inesquecível. Ao descobrir que seu filho tem sopro no coração, uma mãe isola-se com o menino em um clube de campo. Na fase adolescente, o garoto faz as primeiras descobertas sexuais, ao mesmo tempo em que observa a beleza da mãe – uma estonteante Lea Massari. A exemplo de Amor Estranho Amor, de Walter Hugo Khouri, a mãe é a porta para a descoberta sexual do filho.

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O Medo Devora a Alma, de Rainer Werner Fassbinder

Relação inter-racial – Outra questão tabu em tempos não tão distantes. A obra de Fassbinder explora a relação entre um imigrante negro marroquino (El Hedi ben Salem) e uma viúva alemã de 60 anos (Brigitte Mira). O casal terá de enfrentar o preconceito da sociedade. É uma homenagem do cineasta a Tudo o que o Céu Permite, de Douglas Sirk, sobre o relacionamento de um jardineiro com uma mulher mais velha.

o medo devora a alma

Crash – Estranhos Prazeres, de David Cronenberg

A tecnologia e a deformação como fetiches – As personagens de Cronenberg sentem prazer ao reconstituir famosos acidentes de carro. Algumas fazem sexo nesses veículos enquanto correm riscos. O diretor, a partir do livro de J.G. Ballard, discute a adoração à máquina, também às deformações do corpo – temas recorrentes em sua filmografia. O desejo pela deformação é também abordado em A Tortura do Medo.

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Os Idiotas, de Lars von Trier

Comportamento e organização social – Um grupo de amigos resolve se isolar em uma casa e dar vez ao “idiota” interno de cada um. Para tanto, essas personagens vivem momentos de liberdade intensa, sem as amarras e os bons modos da sociedade. O diretor von Trier constrói um filme forte dentro do movimento Dogma, com improvisação e aparente registro documental. Cumpre, em muitos momentos, sua principal função: incomodar o espectador.

os idiotas

O Lenhador, de Nicole Kassell

O lado humano do pedófilo – Não é fácil digerir o protagonista desse drama, um pedófilo (Kevin Bacon) que acabou de deixar a prisão. Trata de seu difícil retorno à sociedade e, pior, de seu olhar compartilhado com o espectador: a maneira como se sente atraído por uma menina, ou a repulsa que sente por si próprio ao ver as ações de outro pedófilo, na escola infantil em frente ao pequeno apartamento em que passa a morar.

o lenhador

Mar Adentro, de Alejandro Amenábar

A opção pela eutanásia – Ainda que utilize alguns efeitos para dramatizar – como o voo da personagem, em sua imaginação, até o mar –, o filme de Amenábar consegue bons resultados ao discutir a eutanásia. Em cena, a luta de Ramón Sampedro (Javier Bardem): após sofrer um acidente e ficar tetraplégico, ele deseja conquistar na Justiça o direto de morrer. Isso lhe traz problemas com a igreja e com a sociedade em geral.

mar adentro

Tomboy, de Céline Sciamma

Identidade de gênero – O que define um homem ou uma mulher? Trata-se apenas de uma questão anatômica? É o que pretende discutir esse belo drama da cineasta Sciamma, sobre uma menina de dez anos, Laure (Zoé Héran), que passa a se apresentar aos vizinhos como Michaël. Questão que se impõe: já que a personagem identifica-se como menino, não seria correto evitar o termo “menina” na sinopse? A obra vai muito além da rasteira dualidade religiosa.

tomboy

Olmo e a Gaivota, de Petra Costa e Lea Glob

Negação da maternidade – A atriz ao centro (Olivia Corsini) passa de seu papel anterior, na peça A Gaivota, de Tchekhov, a um novo e difícil papel: ser mãe. E o filme de Costa e Glob confronta a ideia de que a maternidade é sempre um momento de felicidade plena. Não há registro de outro filme que encare a questão dessa maneira – não, pelo menos, fora do gênero terror, como em O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski. Ao trabalhar em registro documental, em um apartamento que serve como prisão, torna a experiência ainda mais interessante.

olmo e a gaivota

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Seis filmes contundentes que abordam a pedofilia

Os 25 melhores filmes sobre a infância

Esse doce período da vida, no cinema, nem sempre foi fácil. Jovens esbofeteados, marginalizados, largados pelos pais – às vezes com tudo ao mesmo tempo. Os filmes abaixo captam a infância como ela é: longe dos contornos belos que Hollywood tentou perpetrar em alguns clássicos, distante da eterna bondade à qual os pequeninos sempre são associados. Veja qualquer um deles e encontre um grande filme. À lista.

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25) Tomboy, de Céline Sciamma

tomboy

24) Minha Vida de Cachorro, de Lasse Hallstrom

minha vida de cachorro

23) O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro

o labirinto do fauno

22) Filhos do Paraíso, de Majid Majidi

filhos do paraíso

21) O Garoto da Bicicleta, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

o garoto da bicicleta

20) Vítimas da Tormenta, de Vittorio De Sica

vítimas da tormenta

19) Alemanha, Ano Zero, de Roberto Rossellini

alemanha ano zero

18) A Infância de Ivan, de Andrei Tarkovski

IVAN'S CHILDHOOD

17) Brinquedo Proibido, de René Clement

brinquedo proibido

16) Adeus, Meninos, de Louis Malle

adeus meninos

15) Meu Amigo Totoro, de Hayao Miyazaki

meu amigo totoro

14) O Pequeno Fugitivo, de Ray Ashley, Morris Engel e Ruth Orkin

o pequeno fugitivo

13) Cria Cuervos, de Carlos Saura

cria cuervos

12) Zero em Comportamento, de Jean Vigo

zero em comportamento

11) Onde Fica a Casa de Meu Amigo?, de Abbas Kiarostami

onde fica a casa do meu amigo

10) Infância Nua, de Maurice Pialat

infância nua

9) Corvos, de Dorota Kedzierzawska

corvos

8) Eu Nasci, Mas…, de Yasujiro Ozu

eu nasci mas

7) Os Esquecidos, de Luis Buñuel

os esquecidos

6) O Balão Vermelho, de Albert Lamorisse

o balão vermelho

5) Kes, de Ken Loach

kes

4) O Espírito da Colmeia, de Víctor Erice

o espírito da colmeia

3) Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco

pixote

2) Os Incompreendidos, de François Truffaut

os incompreendidos

1) A Canção da Estrada, de Satyajit Ray

a canção da estrada

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