Tom Hiddleston

Mariposas ao redor da luz: uma análise das cores e das personagens de A Colina Escarlate

Ainda criança, a protagonista de A Colina Escarlate percorre um corredor escuro sob um sinal de aviso, o qual merece atenção: algumas mariposas circundam uma lâmpada. Ainda mais, atacam e se sentem atraídas pela cor (a luz) que emana dali: o amarelo. Nessa belo filme de Guillermo del Toro, o amarelo surgirá em outros momentos.

À frente, quando a mesma protagonista, já adulta, percorre outro corredor – em outra casa, outro país, agora sem a proteção do pai -, ela segue escuridão adentro com um castiçal em mãos: não bastam o cabelo louro e as roupas claras; é também a luz que define essa moça, Edith Cushing (Mia Wasikowska), simbolizada pela borboleta.

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O casal de irmãos que invade sua vida é representado pela mariposa. O filme todo é sobre como as mariposas circundam e tentam violar a vida da protagonista angelical, ao passo que ela transcende, transforma-se, tem sua violação representada pelo sangue que emerge da face, ou pelo fim de sua virgindade: ela será levada, como a lagarta que ganha asas e passa à forma da borboleta, a um novo estágio.

Os ambientes
A oposição entre a heroína e os vilões, entre a borboleta e as mariposas, será representada também pela oposição entre cores: de um lado o amarelo, do outro os tons avermelhados.

Necessário destacar a presença do amarelo no universo aparentemente envelhecido, como antiga fotografia, dos Estados Unidos em que Edith – jovem sonhadora com inclinação ao romance gótico – foi criada. Uma terra amarela da qual brotam, a começar pelo pai, homens decididos a subir na vida pelo trabalho duro.

A Inglaterra de terra vermelha será seu oposto, o lar dos irmãos parasitas que voam ao redor da luz – para retirar dali seu sustento. São eles: Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), por quem Edith apaixona-se, e sua sinistra irmã Lucille (Jessica Chastain). Chama a atenção a diferença das roupas utilizadas pelas mulheres e como o figurino ajuda a explicar a distância entre essas figuras em questão.

As formas de Edith revelam, além do branco e do amarelo, as curvas da borboleta, inseto devorado por formigas em uma das sequências simbólicas de A Colina Escarlate. Para a menina, Lucille dirá que as mariposas alimentam-se das borboletas e que o local em que vive só há a mariposa preta. Os figurinos da vilã não deixam mentir: é frequente o uso de roupas pretas, além do vestido vermelho de sua primeira aparição.

Cor sobre cor
Antes da invasão do vermelho, os visitantes continuam, como as mariposas do início, a gravitar em torno do amarelo. Sequência que demonstra bem essa necessidade é a da dança, quando o baronete britânico ensina as moças – neste caso, Edith – à prática que consiste no movimento dos corpos sem que uma vela seja apagada.

O vermelho que tinge o solo e o ambiente externo do castelo inglês ao qual a heroína é levada invadirá o meio amarelo em que ela vivia, nos Estados Unidos. A sequência que representa essa invasão é a mais violenta do filme, a da morte do pai. Del Toro não se limita apenas a apresentar o sangue sobre o chão amarelado, mas a água com sangue vazando da pia quebrada, como se o mal definitivamente transbordasse.

Nova indicação será dada pela chegada à grande casa em pedaços dos Sharpe: logo na primeira entrada, será possível ver o barro vermelho vazar entre os espaços da madeira, pelo chão. O vermelho representa, sobretudo, o rompimento: o fim da virgindade, o fim da vida, a verdade que brota do porão, onde os mortos foram escondidos sob o líquido vermelho. Isso, claro, sem falar do anel dado por Thomas a Edith.

Fantasmas
Como em A Espinha do Diabo, os fantasmas de A Colina Escarlate servem para indicar alguns problemas aos vivos. Basta lembrar do menino, o inocente assassinado do filme mexicano e anterior passado durante a Guerra Civil Espanhola, que retornava para alertar os outros garotos sobre a presença do vilão. O mesmo vale para A Colina.

No universo criativo de del Toro, os problemas residem principalmente entre os seres de carne e osso, nos quais, sob a capa da beleza, esconde-se pura maldade. Mergulhar nesse cinema criativo, de terror, é entender como alguns sinais explicam o universo em que residem as personagens, em que bons sentimentos dividem espaço com o mal.

(Crimson Peak, Guillermo del Toro, 2015)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Como os planos detalhe ajudam a compreender A Espinha do Diabo

Amantes Eternos, de Jim Jarmusch

O tempo passou e os vampiros de Jim Jarmusch ainda tentam encontrar graça na vida. Nem sempre conseguem. Esses vampiros vagam pela noite, dosam a quantidade de sangue que tomam, são impassíveis e brancos: poderiam ser como outros vampiros, de qualquer outro filme, caso se comportassem como eles.

Não são monstros, e talvez estejam mortos. Amantes Eternos retoma uma situação cara a Jarmusch, presente outras vezes em sua filmografia: personagens deslocadas buscam encontrar espaço no mundo, ou simplesmente uma raiz.

amantes eternos 1

O casal central, apaixonado, é formado pelo roqueiro Adam (Tom Hiddleston) e por Eve (Tilda Swinton). Como fica evidente, Adão e Eva, mas talvez ao contrário: com eles, o mundo não começa. Apenas continua, sem fim.

Vagam pela noite, às vezes ficam em casa – quase sempre às sombras. O filme todo se passa à noite, ou no escuro da casa, em interiores, ao som de velhos discos, de qualquer sinal que retire os vampiros desse mundo caótico, sem sentido.

Talvez o sentido esteja no amor. A vantagem de viver na eternidade, ou quase, é eternizar os sentimentos. Homem e mulher juntos, Adão e Eva, o que parece ser – para eles, pelo menos – o que há de belo na existência.

O filme de Jarmusch é sobre a dificuldade de se manter como sempre, sem ser refém do tempo, ou sem se deixar abalar pelos velhos hábitos: os amantes preferem a civilidade à carnificina. Por sinal, compram sangue e não perseguem ou atacam pessoas.

São, também, como parecem ser os vampiros: com dentes longos e amostras de prazer ao beber sangue, assim como frágeis à madeira cravada no coração.

Em seu próprio mundo, isolado, Adam recebe as visitas de Ian (Anton Yelchin), seu contato com as luzes, ou com o que vem do lado de fora da velha casa (quase um castelo). Ian oferece guitarras raras. Mais tarde, consegue atender ao pedido de Adam: fornece-lhe uma bala feita de madeira, perfeita para matar vampiros. Pedido sob medida a alguém como o protagonista, inclinado ao suicídio.

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Após passar um tempo em Tânger, no Marrocos, Eve retorna aos braços de Adam, que vive em Detroit. Há, nesses dois pontos, dois mundos: o primeiro, mais velho, é feito de vielas, de labirintos; o segundo, uma amostra do mundo moderno que não deu certo: esquecido, vazio, destruído como em um filme futurista.

O cotidiano de Adam sofre abalos com a chegada da irmã de Eve, Ava (Mia Wasikowska). A menina não foge às manias de sua espécie: gosta de ser vampira e, a certa altura, não resiste a um pescoço. Para o casal ao centro, a menina tem a jovialidade que não faz mais sentido, a alegria e o desejo de viver em um universo de sombras.

Ela contrasta o casal pacífico, às vezes mais vampiro do que antes. Jarmusch entrega seres melancólicos, perdidos, sem muito a dizer. Os ambientes e o clima construído – como se sempre estivessem perto do fim – chamam a atenção.

Quando Ava aparece, é como se os vampiros voltassem, em curto tempo, a ser o que se espera deles. Antes infantis ou caricatos, ou menos reais como o cinema sempre se empenhou em mostrar, eles mudaram: são mais humanos do que se pode esperar.

Nota: ★★★☆☆