Tom Hanks

O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg

O jogo oferecido, na superfície, parece injusto: oito vidas por uma. Outro jogo, ao qual Steven Spielberg entrega-se, a partir do roteiro de Robert Rodat, deixa ver ainda mais os extremos da situação: uma guerra por um homem. Do início ao fim, O Resgate do Soldado Ryan revela algo simbólico, ao qual a matemática escapa.

Os homens, em alguns casos, são meninos. Olhos assustados, gritos de dor. Algumas vidas em jogo para devolver uma, o menino Ryan que precisa voltar para casa. Bom americano, rapaz que não aceita deixar a missão, que não se abate como se espera ao ser avisado da morte dos irmãos – bom lembrar, são três. Ele mantém-se ali.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Injustiça, talvez, mas nunca sob a visão patriota de Spielberg, imbuído outra vez pela aura dos mestres do cinema clássico, pelo desejo de grandeza, de chegar ao épico, que os tomava com frequência. Spielberg não se contenta com a bela composição, a montagem excelente. Há de se buscar mensagens, linhas religiosas, a tragédia que não foge ao olhar.

Um homem por uma guerra, nesse cálculo maldito, ainda deixa ver algo bom: no início, o sobrevivente, já velho, caminha para encontrar o túmulo do salvador. Atrás dele, os descendentes. Todas essas vidas emanam do menino Ryan resgatado. Sob a grande mãe penetrada pelo sol, a bandeira americana, dá-se o gesto religioso.

Os três irmãos de Ryan, mortos na mesma guerra, fazem com que o Exército Americano coloque oito homens em missão de resgate. Pela França ocupada, de cidade em cidade, procuram pelo mesmo que insiste em se esconder. Não há acasos aqui. Os sinais do cinema clássico são, em momentos, quase borrados pela aparência realista.

Os homens à frente do resgate, guiados pelo correto e, até certa altura, anônimo capitão Miller (Tom Hanks), explicitam suas características. Há o judeu, o atirador cristão, o médico reflexivo, o jovem inexperiente que serve de tradutor. E há Miller, que chora escondido dos mais jovens, que esconde a identidade, talhado às curvas míticas.

O olhar do sobrevivente dá vez ao olhar do herói ao centro da história, ao início, à famosa e sangrenta invasão da praia de Omaha, na Normandia. Uma batalha por um homem: entre os mortos, no mar de sangue que vai e volta, entre peixes mortos, vê-se um cadáver com o nome Ryan. Tudo conspira à morte, tudo conspira à vida.

Após ser encontrado, Ryan (Matt Damon) questiona Miller sobre o motivo de tanta tristeza na música de Édith Piaf. O capitão diz que a cantora foi deixada pelo amante, mas “vê seu rosto onde quer que vá”. O garoto, à sombra das estruturas que quase não se aguentam na pequena cidade francesa, compreende. “Tem razão em sofrer.”

O filme todo é a passagem de um olhar a outro: o do salvo ao salvador, que evoca a história e o horror, que serve de guia ao público, mais tarde devolvendo a condução ao salvo. À luz da bandeira, a guerra pertence a todos, diz Spielberg: aos pais, aos filhos, aos netos, às vítimas que penetram a terra sob as cruzes ou estrelas brancas.

Sobretudo, todos são testemunhas do horror que passa pelo olho, que da carnificina e dos homens que caem como folha, resumidos a números e cartas, abundantes, confere uma mensagem que talvez se oponha ao massacre: dada a missão, os oito homens terão agora um motivo para salvar apenas um, sacrifício que não se explica senão pela religiosidade, a capacidade de se doar ao outro – não sem o heroísmo exacerbado, que só não é mais bobo porque os rapazes, em momentos, pouco crédito dão à empreitada.

Em um dos combates, o soldado inexperiente (Jeremy Davies) assiste aos tiros e explosões a distância. Ao espectador o conforto dura pouco: passada a névoa, mais um soldado surge abatido. Corpo ao chão, cravado de balas, cercado pelos outros. Momento doloroso em que a sujeira e o realismo têm espaço na guerra de mensagens e cartas marcadas de Spielberg.

(Saving Private Ryan, Steven Spielberg, 1998)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Império do Sol, de Steven Spielberg

The Post: A Guerra Secreta, de Steven Spielberg

São várias as “invasões” da mulher aos ambientes dominados por homens ao longo de The Post: A Guerra Secreta, de Steven Spielberg: no restaurante, na Bolsa de Valores ou em qualquer sala de decisões. Em cena, Katherine Graham aos poucos revela poder e liderança.

Mais interessante é o contraste entre os ambientes de Graham e os do editor do jornal que ela comanda, Ben Bradlee. De um lado, com ela, vê-se a bela casa de móveis opacos, de luz entre cortinas, quente e aparentemente protegida. O dele, no jornal, é frio, em certa medida impessoal. O filme é sobre como Graham migra ao espaço de Bradlee.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Diz-se muito sobre o filme como veículo para evidenciar, nos tempos de Trump, a importância da imprensa. É verdade. Está tudo lá. Por outro lado, é o choque entre universos – o masculino e o feminino – que nutre esse belo filme de ação em diálogos, de salas fechadas, do tempo em que o jornalismo ainda tinha certo charme.

O filme é de Graham (ou Meryl Streep), não de Bradlee (ou Tom Hanks). Ou sobre como ela, ao peitar o homem mais poderoso de seu país, o então presidente Richard Nixon, enfim será vista – no filme, ao menos – pelo espaço aparentemente impessoal da redação do jornal, no qual homens e mulheres servem-se de montanhas de papel, com som alto, feito do bater à máquina, para dar vida à linha de produção do periódico.

Ela, ao lado dele, será vista, ao fim, entre essa linha. É como se Spielberg dissesse que a dama, enfim, faz parte daquele meio de máquinas, metálico, aparentemente – ou quase sempre associado ao – masculino. Um filme sobre como a mulher luta para escapar à grande casa aconchegante e saltar ao ambiente de astutos como Bradlee.

O espectador, por isso, em momento algum ficará na zona de conforto: é a ela, não a ele, que resta a última palavra. Ao que parece, a mulher não será capaz de dar o “sim” tão desejado. E se dá, é contra as expectativas: suas mãos tremulam quando precisa autorizar a publicação.

O impasse entre os sexos, nesse jogo de poder, é interessante: Bradlee deixa suas certezas, mas nunca pode ir até o fim, ou mudar tudo; Graham, ao contrário, pode autorizar o lançamento das “bombas”, ainda que suas relações com homens de poder, em sua mesma casa de belo jardim, pareça sempre colocá-la um passo atrás.

E há, claro, a grande história em questão, o que move The Post em sua superfície: o vazamento dos conhecidos “papéis do Pentágono”, documentos que comprovam como diferentes líderes de Washington, por anos, souberam da fragilidade dos soldados no Vietnã, o que custou a vida de muitas pessoas na continuidade de uma guerra perdida.

Quem dá o furo é o jornal concorrente, o New York Times. O Post corre atrás do prejuízo: Bradlee logo entende a necessidade de publicar os mesmos documentos, ainda que a justiça americana tenha barrado a investida da imprensa. A luta fica mais difícil, envolve também os futuros negócios do mesmo Washington Post: levado ao capital aberto da Bolsa de Valores, com Graham na ponta da mesa repleta de homens às bordas, o jornal, segundo os novos investidores, deveria ter cuidado na publicação de matérias do tipo.

O dinheiro tem seu peso. O destino do jornal também. Parte do filme apresenta a movimentação dos jornalistas em busca da notícia; outra parte, a movimentação de Graham entre graúdos, entre seus advogados, entre todos os homens que, à exceção de Bradlee, tentam convencê-la a não publicar a matéria sobre os “papéis do Pentágono”.

Em vão. E não se trata aqui de revelar o desfecho. O filme de Spielberg vai além. Sua grandeza está na ambientação, na transformação e na força inesperada da personagem feminina, ao mesmo tempo na caracterização certeira de Streep. Fechada, presa ao espírito dos homens que a antecederam, alguém que não precisa de discursos calculados – como a Margaret Thatcher da mesma atriz – para expor força e coragem.

(The Post, Steven Spielberg, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Império do Sol, de Steven Spielberg

Seis filmes sobre a aids e seu impacto social

De forma geral, os filmes abaixo abordam questões sociais. Em todos estão a homossexualidade, o preconceito, a associação errônea entre o gay e a doença, como se outros grupos estivessem ilesos. Em todos os casos saltam, sobretudo, histórias humanas que esbarram na política, nos tribunais, que geram protestos. Ainda que a doença, hoje, não assuste como antes, as obras abaixo dão uma visão poderosa de determinada época em que reinaram a desinformação e o medo.

Meu Querido Companheiro, de Norman René

Nem o visual nem o elenco ajudam muito. Ainda assim, o filme é lembrado por ser um dos primeiros a abordar a presença da aids em uma comunidade gay. Bem ao espírito daquele momento, os anos 80, mostra a passagem da vida de liberdades e sucesso ao momento de relaxamento e medo. A doença ganhava espaço na mídia.

E a Vida Continua, de Roger Spottiswoode

Produção feita para a televisão e patrocinada pela HBO. Está cheia de nomes conhecidos, alguns em pequeníssimos papéis. Centra-se tanto na luta dos médicos para descobrir a doença e chegar ao vírus quanto na reação dos homossexuais, nas mortes, além do silêncio ensurdecedor do então presidente Ronald Reagan.

Filadélfia, de Jonathan Demme

A história do advogado que move um processo contra o escritório em que trabalhava, após ser demitido por ter contraído a aids. Hanks brilha no papel e leva seu primeiro Oscar. O filme teria sido uma resposta do diretor à comunidade gay, devido aos ataques que sofreu pelo anterior O Silêncio dos Inocentes, no qual o assassino é homossexual.

Clube de Compras Dallas, de Jean-Marc Vallée

Homofóbico, o protagonista é Ron Woodroof (Matthew McConaughey), eletricista que descobre ter aids e, mais tarde, a possibilidade de lucrar ao vender medicamentos aos doentes de seu país. Aborda também a briga para possibilitar o tratamento, em uma cruzada que faz nascer o herói da personagem errante e desagradável.

The Normal Heart, de Ryan Murphy

Outra produção da gigante HBO. Os Estados Unidos dos anos 80, das liberdades ao medo, com a luta da comunidade gay para forçar os políticos e a nação a olharem à devastação da doença. No elenco, Julia Roberts e Mark Ruffalo têm bons momentos. O destaque fica por conta de Matt Bomer, que ganhou o Globo de Ouro de ator coadjuvante.

120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo

As investidas do Act Up na França. O filme chama a atenção pela energia, pela velocidade, pelo desejo de mudança entre jovens. Em clima realista e montagem rápida, mostra das reuniões do grupo às ações em campo, das festas regadas à libertinagem à imposição do doença que, ora ou outra, faz novas vítimas. Grande Prêmio do Júri em Cannes.

Veja também:
Seis filmes contundentes que abordam a pedofilia

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O Círculo, de James Ponsoldt

À contramão do filme que aponta aos problemas de um mundo cada vez mais desnudado pelas redes sociais, Emma Watson parece ter saído de uma ficção científica adolescente. Em O Círculo, ela não funciona no centro de uma batalha contra homens malvados que traçam planos para colocar a raça humana sob seu poder – ou no interior de sua nuvem.

O título refere-se a uma empresa de tecnologia nunca bem explicada. Até o fim, o espectador não sabe ao certo como opera essa rede social. E esse talvez seja um problema de filmes sobre mundos virtuais: o que resta ao cineasta é sempre o que pode mostrar, e o que realmente interessa, no cinema, é o material humano.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

À exceção de Tom Hanks, tal material é aqui escasso. O problema ora ou outra se volta à heroína com pouco carisma e humanidade, à forma da adolescente deslumbrada com o emprego na empresa dos sonhos, depois a jovem desiludida e levada a comandar, nos momentos infantis que fecham o filme, a legião de “revolucionários” em busca de liberdade.

E o filme fica ainda mais problemático: sob a direção de James Ponsoldt, O Círculo não tem coragem de tocar na ferida, de mostrar uma personagem decidida a romper com o mal que a cerca. Ao contrário, a Mae de Watson ainda continuará a apoiar, em parte, o que a empresa prega: mostrar tudo, com câmeras, para se chegar a um mundo mais transparente.

Hanks é o rosto à frente da companhia, o aparente gênio com traços de Steve Jobs, o homem “legal” que fala “coisas certas” e é idolatrado pelos jovens da plateia. Ele lança pequenas brincadeiras enquanto expõe seus novos brinquedos tecnológicos e faz o mundo virtual parecer a única saída à tão sonhada democracia plena.

O espaço superior da empresa, em seus campos abertos, jardins, prédios futuristas, leva sempre a pensar no paraíso para adultos que não cresceram muito. A certa altura, contudo, Mae será convidada a conhecer o outro lado: os porões metálicos que servem – e continuarão servindo – para armazenar informações sobre pessoas conectadas à rede.

Não demora para que Mae cruze o caminho do líder. Em situação pouco convincente, ela resolve praticar canoagem à noite, sofre um acidente e é resgatada. Sua vida foi salva graças a alguma câmera ligada em algum lugar próximo a ela. Sua vida passa a servir de exemplo.

A empresa em questão prega as vantagens da vigilância absoluta: será possível salvar pessoas e localizar criminosos, em rede, com extrema facilidade, se todos estiverem dispostos a dividir suas vidas pessoais. Propõe o desejo macabro que, no fundo, já é realidade no mundo atual: grandes empresas de tecnologia faturam alto ao penetrar a vida de seus usuários. No círculo, todos conseguem enxergar todos – menos quem os controla.

(The Circle, James Ponsoldt, 2017)

Nota: ★☆☆☆☆

Veja também:
Sully: O Herói do Rio Hudson, de Clint Eastwood

Jonathan Demme (1944-2017)

Se existe alguém que lhe parece ter encontrado antes, que você tem certeza de conhecer, que não se assemelha nem um pouco com o padrão megalomaníaco de Hollywood, essa pessoa é Jonathan Demme. É fácil compreender por que tanta gente, desde atores como Michelle Pfeiffer e Tom Hanks a popstars como David Byrne e Peter Gabriel, adora Demme: ele tem em amplo estoque a calma, a paciência, a retidão de caráter que faltam a quase toda a indústria.

Talvez seja porque Demme, em suas próprias palavras, “tropeçou no cinema”, vindo de uma carreira cheia de falsos começos e pequenos atalhos, trabalhando como crítico de cinema, divulgador, assistente de produção e, enfim, fazendo um curso prático e intensivo com um dos maiores descobridores de talento de Hollywood – Roger Corman, o rei dos filmes B.

De Corman, Demme guardou a flexibilidade, a sensatez, a capacidade de colocar o projeto acima, adiante do ego. Nada mau para um vencedor do Oscar, adorado pela crítica, responsável por dois dos maiores sucessos de bilheteria dos últimos anos, O Silêncio dos Inocentes e Filadélfia, mas que, antes disso, já tinha pelo menos uma década de trabalho constante, quase sempre silencioso.

Ana Maria Bahiana, jornalista, em A Luz da Lente – Conversas com 12 Cineastas Contemporâneos (Editora Globo; pg. 81; o livro foi publicado em 1996). As considerações de Ana Maria antecedem sua entrevista.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Bastidores: O Silêncio dos Inocentes
Os 20 melhores ganhadores do Oscar