Tom Cruise

Bastidores: Magnólia

A principal característica de Magnólia é que o filme tem três horas. Esse é o tempo normalmente reservado para filmes de guerra ou dramas sobre temas sociais importantes. Eu queria fazer um filme que fosse grande,  que dissesse “Sou um épico”. Mas eu queria tratar de assuntos reais na vida de pessoas reais – será que meu pai falará comigo, será que me apaixonarei, posso ir ao banheiro? Isso merece três horas.

Paul Thomas Anderson, diretor de Magnólia, em declaração reproduzida pelo crítico de cinema Christian Peterman na revista SET (maio de 2000; pg. 26). Abaixo, o cineasta dirige Tom Cruise (ao fundo).

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Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg

Sem perceber, os terráqueos são mais perigosos que os alienígenas. São eles que expelem o corpo estranho encravado no planeta Terra, visitantes que estavam por aqui, talvez há milênios, à espera da hora certa para atacar. Em um dia como qualquer outro, em Guerra dos Mundos, eles dão vez ao levante. Contra o pai de família, contra todos.

Há correria, explosões, ataques, raios e os veículos com três pernas guiados pelos mesmos alienígenas, sobre cidades e campos, detonando o que há pela frente. Os terráqueos, ainda assim, contam com uma natureza que não aceita o corpo estranho, que sofre por algum tempo e depois o cospe: os homens são uma doença silenciosa.

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Pois os alienígenas desejam tirar algo da Terra. Alimentam-se de pessoas e usam o sangue para irrigar a natureza, a nova vegetação que depois esfarela. Algo dá errado. Os visitantes perdem a vez, saem de cena. Os humanos, após alguns dias, terminam vencedores. Derrotam o outro graças à genética que não permite ao visitante sobreviver aqui.

Steven Spielberg, a partir do roteiro de Josh Friedman e David Koepp, da obra de H.G. Wells, fez um filme, para muitos, incompreendido. Difícil aceitar a ausência de clímax, de uma resolução em que o homem precisa derrotar esse “corpo estranho” pela força bruta, pelo heroísmo, não exatamente pelo que lhe é intrínseco.

Não se trata de encontrar o ponto fraco, de injetar um vírus na nave inimiga e atacar, com todo aparato bélico à disposição, os alienígenas. Não se trata, tampouco, de entender o outro. Boa parte de Guerra dos Mundos acertadamente se dá a distância, pelo olhar do protagonista, o pai, homem comum que corre com os filhos para sobreviver.

Essa corrida deixa ver o que ele tem de pior: sua natureza estampa a imaturidade de alguém ainda um pouco jovem, que gosta de carros turbinados, beisebol, com boné e jaqueta, que perdeu a mulher e os filhos e viu a família cair na mão de outro homem, o americano sério e adulto, pai de família esperado, imagem de segurança.

À frente está Ray Ferrier, interpretado por Tom Cruise. É outra aposta acertada: na tela como na vida, o astro recusa-se a envelhecer. É, na tela, feito da natureza que não recusa seus vínculos, suas necessidades, sua busca por proteção aos filhos. Corre ao mesmo tempo para protegê-los e levá-los de volta à mãe. É como se quisesse devolvê-los logo à mulher, o ponto final em que estarão salvos, e assim retornar à independência.

Em outra batalha alienígena, Spielberg não deposita fé nos humanos. Os visitantes não cabem nos nativos. Acordaram para pouco reinado, para sobreviver por alguns dias. O primeiro em cena, na primeira parte do filme, brota do asfalto. A rachadura corre entre as pernas de Ray. Chega aos prédios. Chega à igreja cujo cume despenca. O mal repousava ali, talvez por séculos, abaixo do símbolo religioso, sem ninguém perceber.

O vilão brota para atacar os homens. Sem preferência, atira contra todos, e todos na sua mira se convertem em pó. Não deixam sequer ver o sangue. A religião, salvaguarda, abrigava sob seus pilares, seu prédio, o inimigo implacável, desconhecido, apontado por alguns como qualquer coisa para ser explicado – o iraquiano, o invasor, ou apenas o outro.

Guerra dos Mundos é um grande filme sobre vagar às cegas. O que salva é o que não pode ser visto, o que não se explica por orações ou qualquer força que, dizem as lendas, moveriam montanhas. Ao mesmo tempo, os homens revelam repugnância ao derramar o fanatismo que enxergam nos outros – ou nos visitantes, ou nos iraquianos.

A vida na Terra pode ser letal em suas pequenas partes, em gotículas, em células. Spielberg celebra a ciência contra as respostas fáceis da religião, contra o esperado confronto final. Os alienígenas não são mais bondosos, tampouco os vilões de rosto definido. Na filmografia do cineasta, aproximam-se do monstro com garras que emerge do fundo do mar contra os homens da superfície: indiferentes à humanidade, essas criaturas deixam ver o inesperado – para o bem ou para o mal – naqueles que resolvem enfrentá-las.

(War of the Worlds, Steven Spielberg, 2005)

Nota: ★★★★☆

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Rock em Cabul, de Barry Levinson

A possibilidade de uma grande cantora estar escondida em uma caverna, em um vilarejo no meio do deserto afegão, é quase remota. Ainda que apareça apenas na metade de Rock em Cabul, de Barry Levinson, a moça (Leem Lubany) dá outra rota ao protagonista, o produtor musical Richie Lanz (Bill Murray).

Disposto a ganhar dinheiro fora dos Estados Unidos, ele é um dos vários americanos a explorar a guerra no Oriente Médio, com uma cantora para se apresentar aos soldados.

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rock em cabul

Seu rostinho bonito (Zooey Deschanel) logo vai embora. Para piorar, leva o passaporte do produtor e o deixa sozinho entre mercenários, comerciantes de armas, nativos mal encarados e taxistas amantes da cultura ocidental. Com anos de experiência, Richie sabe como vender sonhos: conta para todos, mais de uma vez, como descobriu Madonna.

E suas mentiras, ou apenas o jeito malandro de ser, terminam por salvá-lo: trata-se de mais um filme sobre a infiltração da cultura ocidental no Oriente, ou, mais ainda, sobre como tudo termina (sempre) com a afirmação do poder dessa indústria cultural.

O diretor Levinson volta a passear por terreno que conhece. Em seu primeiro filme, o extraordinário Quando os Jovens se Tornam Adultos, as personagens personificam a cultura norte-americana, os receios adolescentes, as transformações.

Mais tarde, com Rain Man, um belo aproveitador (Tom Cruise) descobre que o pai deixou a herança para um irmão que ele não sabia ter, autista, vivido na medida por Dustin Hoffman. Para ganhar algo, ele logo utiliza o irmão – com incrível dom para cálculos – para faturar alto nos cassinos de Las Vegas.

Com os americanos no Oriente Médio, Levinson realiza Mera Coincidência, sobre como Hollywood inventou uma guerra para encobrir um escândalo sexual. Rock em Cabul retoma o poder do espetáculo.

O ponto baixo de seu novo filme é apostar no potencial salvador da cultura americana. Não demora nada para os afegãos – da aldeia perdida no deserto – transformarem-se em “gente do bem”. A mudança de Richie é a consequência, prova de que Murray funciona melhor como anti-herói beberrão, malandro, não como o salvador da pátria.

(Rock the Kasbah, Barry Levinson, 2015)

Nota: ★★☆☆☆

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Bastidores: De Olhos Bem Fechados

A normalidade é quebrada pelo desejo de uma mulher que irrompe assim, inexplicável e indomável, cortando com faca o amor conjugal do sexo. Assustada e culpada, Alice confessa ao marido o objeto de seu tormento, que emergira numa troca de olhares com um desconhecido. A irrupção do desejo tem um efeito devastador; na magistral sequência da confissão, Kubrick nos faz ver o que Hölderlin já notara: que as palavras têm o poder de ferir, de matar. Atingido em cheio por uma revelação que o interpela como homem e transforma sua mulher num enigma, William sai em busca da experiência que lhe permita conservar seu amor. E, como ocorre com Leonore, na ópera de Beethoven, a senha para salvar seu casamento é transformar-se em Fidelio e arriscar-se nos subterrâneos do poder.

(…)

O filme traz à tona aquilo que a aliança do cristianismo com o capitalismo, vale dizer o seu “espírito”, quer ocultar por ser a base mesma sobre a qual a sociedade se institui: a negação ou a satanização do desejo e a sua sublimação através da culpa.

Laymert Garcia dos Santos, sociólogo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na Folha de S. Paulo (5 de setembro de 1999; leia aqui), na ocasião do lançamento do filme de Stanley Kubrick no Brasil.

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de olhos bem fechados

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