Timothee Chalamet

Os dez melhores atores de 2018

Centrais
O estilista em busca da perfeição, metódico, divide espaço na lista com um homem preso à espera, perdido na América Latina bela e hostil, também com um cartunista tetraplégico e alcoólatra. Há espaço ainda para dois jovens – um em luta contra a Aids, o outro descobrindo seus desejos.

Daniel Day-Lewis em Trama Fantasma

Daniel Giménez Cacho em Zama

Joaquin Phoenix em A Pé Ele Não Vai Longe

Nahuel Pérez Biscayart em 120 Batimentos por Minuto

Timothée Chalamet em Me Chame pelo Seu Nome

Outros destaques: Adel Karam em O Insulto; Adriano Tardiolo em Lazzaro Felice; Bradley Cooper em Nasce uma Estrela; Claes Bang em The Square: A Arte da Discórdia; Denis Ménochet em Custódia; Denzel Washington em Roman J. Israel, Esq.; Gael García Bernal em Museu; Gary Oldman em O Destino de uma Nação; Joaquin Phoenix em Você Nunca Esteve Realmente Aqui; John Huston em O Outro Lado do Vento; Meinhard Neumann em Western; Nakhane Touré em Os Iniciados; Tom Hanks em The Post: A Guerra Secreta; Vincent Cassel em Gauguin: Viagem ao Taiti.

Coadjuvantes
O adolescente que invade a vida de uma família é tão desagradável quanto um senhor rico e abastado. Há também o homem de argumentos duvidosos, acusado de assassinato, o cozinheiro homossexual e o estranho médico que aparece na festa de um velho cineasta.

Barry Keoghan em O Sacrifício do Cervo Sagrado

Dan Tobin em O Outro Lado do Vento

Irandhir Santos em O Animal Cordial

Jean-Louis Trintignant em Happy End

Kôji Yakusho em O Terceiro Assassinato

Outros destaques: Alfonso Tort em Uma Noite de 12 anos; Armie Hammer em Me Chame pelo Seu Nome; Christopher Plummer em Todo o Dinheiro do Mundo; Johannes Krisch em Em Pedaços; Jonah Hill em A Pé Ele Não Vai Longe; Kamel El Basha em O Insulto; Niza Jay em Os Iniciados; Otávio Müller em Benzinho; Richard Jenkins em A Forma da Água; Sam Elliott em Nasce uma Estrela; Sam Rockwell em Três Anúncios Para um Crime; Thomas Gioria em Custódia; Willem Dafoe em Projeto Flórida; Woody Harrelson em Três Anúncios Para um Crime.

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As personagens enjauladas de Luca Guadagnino

As mulheres de Tilda Swinton vivem situações opostas em Um Sonho de Amor e Um Mergulho no Passado: enquanto a primeira foi moldada à forma da mãe pacata, obediente, e apenas depois resolve se libertar, a outra passou da vida desregrada feita de festas e drogas ao relacionamento estável com um homem mais novo.

A primeira não é mais que uma mãe, personagem de roupas caras e rosto fechado, figura chique, em um casarão que abre ao público no inverno e depois, com sua mudança, com seu movimento à liberdade por meio da relação adúltera com um rapaz mais novo, um chef de cozinha, muda para o verão. O segundo mantém-se, à exceção das lembranças, sempre na mesma estação quente, em local isolado, à beira da piscina.

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Somados a Me Chame pelo Seu Nome, esses filmes Luca Guadagnino encontram na oposição entre estações do ano um dos pontos para explicar a mudança das personagens, o deslocamento à liberdade ou ao seu oposto. São mulheres ou homens enjaulados, mais ou menos, confrontados por outras pessoas, amantes ou não, que vivem de outra forma.

Tais amantes, em novos ou velhos tempos, convidam a escapar da jaula, ao terreno desconhecido, ao passo arriscado. À Emma (Swinton) de Um Sonho de Amor, o mundo em questão passa por mudanças: a venda do negócio da família, a filha revelada homossexual, o amante jovem que inesperadamente corta seu caminho.

À pop star de Um Mergulho no Passado, o paraíso em que vive os dias retratados, na Itália seca e paradisíaca à beira-mar, não dá conta de afugentar as lembranças, de lançá-la apenas ao novo, ou àquele momento – à base do sexo na piscina e do relaxamento. Chega ao local o velho amante, pequeno demônio agitado encarnado por Ralph Fiennes.

O paraíso é então colocado de cabeça para baixo. Com o homem vem também a filha, a ninfeta de olhar indecifrável, a qual parece sempre debochar – ou manter segura distância – daqueles seres que viveram muito e cujas histórias – a música, a tentativa de suicídio – pouco a pouco ganham espaço. Não querem enfrentá-las, ainda que nada possam fazer.

A famosa Marianne Lane, protagonista de Um Mergulho no Passado, passou por uma cirurgia e perdeu a voz. Comunica-se por sussurros ou pelo olhar. Em sua condição, a da mulher que se recusa a viver como antes, a ausência da voz dá ideia maior das linhas de sua jaula: sem a fala, passa a impressão de estar presa a si mesma, a explodir.

Em Me Chame pelo Seu Nome, chega-se à situação mais curiosa e curiosamente a que menos depende de arroubos dramáticos. Nesse belo filme, Guadagnino prefere tom menor, o amor fincado em detalhes, a relação dissolvida no medo do avanço, depois no avanço estranho e sem jeito. Constrói um encontro entre opostos e seus mistérios.

O protagonista é Elio (Timothée Chalamet). Sua jaula é evidente, mesmo que não pareça estar preso. O que o segura não é a família ou a dúvida sobre a sexualidade: ele sabe de suas liberdades, e sabe que pode desejar meninos e meninas sem que se veja em dúvida. Sua jaula é feita pelo desconhecimento do outro, no ponto em que é colocado pelo outro – o homem mais velho com quem se relaciona e de quem toma certa distância.

Sua prisão consiste na posição de observador, a do jovem obrigado – na intimidade dividida, nos toques ao próprio corpo que, para Guadagnino, representam momentos de sensibilidade extrema – a se virar como pode para penetrar o espaço do outro. Esse amor de verão é estranho, faz-se de opostos: o adolescente raquítico contra o louro alto e de músculos salientes, o belo que invade o cotidiano do primeiro e deixa flertes no ar.

A fuga da protagonista de Um Sonho de Amor, no encerramento, contrasta a solidão e o isolamento do menino que, em Me Chame pelo Seu Nome, descobriu o amor por outro homem. A primeira termina ao sol, o segundo fecha-se no inverno, com neve do lado de fora, de olho nas chamas da lareira. Nem sempre é possível escapar da prisão em que correm os sentimentos, ainda que, dela, as personagens nunca saem indiferentes.

Foto: Um Mergulho no Passado

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Me Chame pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino

Se o novo casal movimenta-se, em momentos, como se brincasse, é porque tal relação termina com alguma desconfiança, algum impedimento: tanto o mais novo quanto o mais velho têm seus motivos para não avançar. Brincam, riem, dão voltas, dançam ou fazem sexo com outras mulheres – um pouco para se evitarem.

Primeiro, em Me Chame pelo Seu Nome, vê-se o menino que brinca, na fase quente da adolescência, ao subir nas costas do homem que visita sua casa, ou na maneira como tenta a todo o momento se aproximar, descobrir o outro, como a criança que admira o adulto estranho, novidade de férias na bela casa de seus pais.

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Depois, o outro, o visitante, homem formado, louro, alto, belo, perfeitinho demais – algo como o boneco Ken, parceiro da Barbie. Natural que chame a atenção não apenas do garoto, mas das meninas que circundam: destoa dos magricelas e pequenos, uma bela estátua a emergir do oceano ou fincada em algum templo de cidades históricas.

O menino fornece o real, algo penetrável, o olhar abobalhado que só muda no encerramento, no último quadro, quando o inverno bate à porta: o olhar, então, retém o mundo adulto, rebate na lareira para retornar à mesma personagem, agora um homem. Descobriu um pouco do que é ser adulto no verão, em tórrida paixão pelo visitante.

Me Chame pelo Seu Nome trabalha de novo com os opostos. São personagens aparentemente distantes em tudo. O jogo é conhecido, o espaço também. Passa-se nos anos 80, ainda sob as formas do universo analógico, dos bilhetes de papel, da alegria dos círculos de jovens à grama ou mesmo nos bailes regados aos hits dançantes daquele momento.

Pelo olhar curioso do garoto, pelo toque como algo não calculado (a massagem no menino, o abraço por trás como brincadeira), Luca Guadagnino move-se no terreno da espera, do cálculo, da concisão. Sabe-se tudo, ou quase, com muito pouco: o menino não se sente culpado, não tem medo dos impulsos. Quer avançar e não sabe como. Sua espera fornece a tônica dessa história que não se desvia do alvo senão às aparências.

Pois é aí que reside a grandeza do filme: nada escapa ao essencial, à história de amor, ainda que as figuras – no drama destilado sempre com cuidado e naturalidade por Guadagnino, com total domínio da narrativa – lutem para desviar. Fala, antes, da natureza da qual não se escapa. E apenas isso dá conta do obstáculo que o filme impõe.

O conflito inicia e se encerra nesse obstáculo: como avançar sem conhecer o outro, sem, no fundo, conhecer o mesmo sexo que se explora pelo toque, sozinho? A resposta é dada pela troca dos nomes que os amantes propõem: um chamará o outro pelo seu nome, não porque precisam ocultar algo, mas porque passam a ser o outro, a senti-lo, a vivê-lo.

Um filme que exige paciência não por ser lento. Exige que o público entenda as nuances da relação forjada ao estranhamento, ao medo de pisar no espaço errado, ou de parecer algo meramente carnal – ainda que a carne seja importante, ainda que o sexo revele-se libertador. Na sequência mais bela, o menino está “sujo” com o sumo do pêssego quando, após o avanço do amante a seu corpo, cai em lágrimas.

São momentos como esse que permitem a migração do desejo ao amor com tamanha naturalidade e fazem o filme funcionar à perfeição. O menino, menos equilibrado, precisa lidar com as inconstâncias, entre o sentimento e a carne, seguido por uma garota de cabelo armado com quem deixa ver sua virilidade, com quem o sexo é igualmente prazeroso.

Quer dizer, o problema não chega a ser a carne. É por ela canalizado. A carne fornece algo único, ainda assim: o jeito como a personagem central perde-se em suas investidas, ou como se encontra graças a elas. Interpretado por Timothée Chalamet, o menino Elio tem algo blasé, é em momentos arrogante, adolescente que se confessa pelo trançar das pernas, pelo silêncio do dia seguinte.

Em oposto, como o estudante que passa as férias na casa do garoto para estudar com seu pai, Armie Hammer nunca é bruto demais, nunca é sensível em excesso. Sua posição diz muito sobre amantes idealizados. Quando pensa e deixa ver seus receios, o público pouco a pouco sabe mais sobre o mesmo, e o amor entre ambos fica maior.

Guadagnino diz ser bertolucciano. Se não chega à agressividade (no bom sentido) do mestre italiano, ao menos esbarra em sua sensibilidade, na aparência do quadro improvisado. E o efeito sensível começa pelo roteiro, com a assinatura do consagrado cineasta James Ivory, responsável, nos anos 80, pelo tocante Maurice, a história de um homossexual na conservadora Inglaterra do início do século 20.

Diferente do britânico, Me Chame pelo Seu Nome dispensa a abordagem do preconceito e da inaceitação familiar. Algumas questões foram superadas. Reserva-se ao espaço dos sentimentos, à natureza que vez ou outra ocupa o quadro, ao pessegueiro ou à piscina entre pedras que os amantes espreitam enquanto fingem se evitar.

(Call Me by Your Name, Luca Guadagnino, 2017)

Nota: ★★★★☆

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Bastidores: Me Chame pelo Seu Nome

Um dia, sentamos [James] Ivory e eu na cozinha da minha casa e vimos que a melhor forma de verter aquele livro do [André] Aciman para as telas seria buscar o nosso ponto de vista mais particular. Não posso te definir tecnicamente essa perspectiva, porque a descoberta de um filme é uma operação intuitiva. As referências e alusões são claras.

(…)

Sou diretor bertolucciano, inspirado pelo legado visual de Bernardo Bertolucci, e nós [ele e o diretor de fotografia Sayombhu Mukdeeprom] buscamos deixar traços desse mestre nessa recriação de um cinema europeu de tônus mais clássico.

Luca Guadagnino, cineasta. As declarações foram dadas ao site Omelete no Festival de Berlim (leia a matéria aqui). Abaixo, ele dirige os atores Timothee Chalamet e Armie Hammer.

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