Tim Robbins

Bird Box, de Susanne Bier

Basta olhar para ser punido e, em seguida, dar fim à própria vida. As personagens – pequenas ou grandes – lutam para não olhar, cobrem os olhos, aprendem a viver em um reino de cegos ora ou outra simbolizado pelo tecido à face, contra a câmera, que ocupa a tela. Sem ver, as pessoas ainda tentam resistir enquanto são perseguidas pelo mal oculto.

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O vilão não tem forma em Bird Box. A certa altura, um homem louco colocará sobre uma mesa as possíveis faces – várias – do mal, tentando encontrar, na pintura, a maneira de representá-la. Seria uma praga religiosa? Seria uma doença típica a uma sociedade que decidiu ver demais sem ver o básico, sem reconhecer o necessário?

Se por um lado o filme de Susanne Bier não responde algumas questões, por outro peca no excesso de diálogos. Fica a impressão de que as personagens – a começar pela protagonista interpretada por Sandra Bullock – conversam com o espectador, explicam, enquanto falam com seus pares em cena, novos colegas ou amores.

O mundo de Malorie (Bullock) reproduz as consequências do que a mulher expressa em sua pintura, ainda no início: a praga que leva ao suicídio talvez seja produto da distância – apesar da proximidade física – entre pessoas. “A solidão é incidental. É sobre a inabilidade delas em se conectar”, explica a protagonista, em relação ao quadro.

De olhos vendados ou trancados para conseguir enxergar, os homens aproximam-se para sobreviver. É no limite que se valoriza a conexão, saída possível para se reafirmar, ainda que de olhos tapados, a sanidade do mundo. A praga tentará agarrá-los, seduzi-los, convencê-los a retirar a venda e ver o que está do lado de fora: o mal.

A heroína, não à toa, está grávida. A gravidez é uma expressão de amor que não depende da visão. “Eu sei que é difícil amar alguém que não conhecemos”, diz a médica. Malorie, fica claro desde o início, vive uma gravidez indesejada. Bird Box é a jornada de uma mulher para aceitar o filho – ou os filhos – que, por correntezas, terá de carregar.

A pretensão, a certa altura, é enorme. Do livro de Josh Malerman, o filme de Bier apresenta a mulher e as crianças, pelo rio bravo e escuro, entre densa neblina, por horas, como o futuro de uma raça que aprimorou sua visão para ver o mal. E momento algum explica isso tão bem quanto o do diálogo entre Malorie e o boçal vivido por John Malkovich.

Refugiada em uma casa com outras pessoas, a mulher descobre uma briga entre vizinhos. A personagem de Malkovich está processando o homem da residência ao lado, um homossexual, porque este decidiu construir paredes de vidro. Ele busca a punição porque o outro o teria “obrigado” a ver demais, ou a ver o que não quer.

O problema de ver, ou de aceitar as diferenças, assistir a elas com naturalidade, a poucos metros, na casa ao lado. O mundo louco de Bird Box despenca ao peso dessa impossibilidade. O homem de Malkovich – tipo vivido por Tim Robbins em Guerra dos Mundos – arma-se para o apocalipse e bebe para celebrar o caos. Segundo ele, o fim do mundo será “grande de novo”, em clara referência ao slogan de Donald Trump.

Bullock, improvável artista liberal que rejeita a gravidez, torna-se condutora das crianças, do futuro, contra os demônios da floresta. Sua jornada, entre presente e passado, é cansativa, produto de uma direção frouxa e um roteiro com diálogos excessivos.

Nessa terra de cegos, só sobrevivem à praga os que aceitam sua beleza, loucos que vagam pelo mundo como zumbis. A possível beleza da insanidade obriga o espectador a comparar a pintura de Malorie à do psicopata que finge bondade, e que pinta a face do mal. Ao contrário da heroína, o vilão precisou de muitos desenhos para representá-la.

(Idem, Susanne Bier, 2018)

Nota: ★☆☆☆☆

Veja também:
Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg

Um Dia Perfeito, de Fernando León de Aranoa

Os dois homens experientes de Um Dia Perfeito ainda conseguem se surpreender durante algumas horas com os companheiros de trabalho. Eles fazem parte de uma equipe de trabalho humanitário, em alguma região em guerra, nos Bálcãs.

Ambos, interpretados por Benicio Del Toro e Tim Robbins, resgatam cadáveres, negociam com homens armados, deparam-se com minas terrestres, mas se surpreendem com a frieza entre os vivos, ou com o reflexo das diferenças culturais.

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Pelo caminho da personagem de Del Toro, Mambrú, passa um menino em busca de uma bola. O desejo do garoto chama sua atenção: é um resquício de humanidade e inocência em uma região em guerra, na qual falta até mesmo água.

No início, Mambrú tenta retirar um cadáver lançado em um poço. Moradores rodeiam o local, esperam a ação; a corda não aguenta o peso do corpo, rompe, e toda a ação seguinte – nesse “dia perfeito” – envolve a reposição desse material.

E outra corda não será fornecida devido a questões sem importância ao olhar do outro agente humanitário, chamado apenas de B (Robbins). Em determinado momento, um comerciante se nega a vender o produto porque acredita que não se deve mexer no cadáver; em outro, um soldado evita remover a corda que serve para manter sua bandeira hasteada. Retirá-la, diz ele, pode dar início a um conflito.

Inclinado à graça constante, para quebrar o clima desagradável, B entende-se com Mambrú. São calejados. O que vivem, no fundo, é uma situação como muitas, aqui tratada com proximidade e emoção pelo diretor Fernando León de Aranoa.

Se não existem “dias perfeitos”, muito menos serão vistos na região em que o filme é ambientado. A ironia não se restringe ao título: mesmo com os supostos parceiros será difícil conseguir avanços. Eles enfrentam protocolos, regras nem sempre justas.

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Lidam com um menino órfão, com a nova agente entre eles (Mélanie Thierry) e a ex-namorada de Mambrú (Olga Kurylenko), no mesmo trabalho. Ela viajou ao local para avaliar a possibilidade de encerrar a missão. A moça afirma que a paz está próxima.

Por outro lado, a viagem do grupo é interrompida por vacas mortas, deixadas na estrada. Os animais sinalizam a presença de bombas. Essa guerra vive do horror silencioso e, é verdade, cotidiano, com uma emoção pouco a pouco crescente, feita da exploração do tempo. Não há qualquer explosão ou conflito armado.

O que se vê – em paredes perfuradas, casas destruídas, vacas vivas usadas como guias em áreas de minas terrestres – é o que se produz para além do cinema: a guerra nunca termina como espetáculo, ou como um drama de perdas constantes.

É fria, de estradas fechadas, de homens enfileirados, distantes, sabe-se lá para qual finalidade. Quando B diz que não gostaria de estar entre eles, o espectador compreende que o conflito está longe da paz sonhada pela ex-namorada de seu companheiro.

Na antiga casa em que vivia o garoto órfão, os móveis, as bagagens que nunca foram colocadas no carro e a antiga fotografia contam uma história. Mambrú observa o local tentando desvendá-lo. Está ali em busca de uma corda e uma bola. Seu dia de trabalho, como muitos outros, beira o insuportável.

(A Perfect Day, Fernando León de Aranoa, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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