Tim Burton

O Lar das Crianças Peculiares, de Tim Burton

O adjetivo “peculiar” serve às crianças com poderes especiais, também àquelas com tendência ao isolamento. Um tipo comum nos filmes de Tim Burton: o herói improvável, o estranho que não se conecta, que parece ter nascido para o fracasso.

Em O Lar das Crianças Peculiares, o protagonista percebe que existe um espaço para jovens como ele, no qual pode, inclusive, ser o protagonista de um universo, seu herói. E no qual os frequentadores podem viver do absurdo sem que pareçam idiotas.

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Tipos como Jake (Asa Butterfield) são comuns à obra de Burton. Seus filmes oferecem magia em dose alta, entre fagulhas de realidade: a possibilidade de fugir a um mundo mágico serve de resposta à vida real, opaca e sem sentido.

As pequenas doses de horror, para o cineasta, são um contraponto à ingenuidade dos seres em cena, em uma grande casa, sob o comando da senhora Alma LeFay Peregrine (Eva Green), bela, sedutora, de contornos místicos, à forma de Burton.

O protagonista descobre o lar dos peculiares após o avô (Terence Stamp) ser assassinato. O orfanato (a fuga) só será conquistado com uma passagem secreta, em uma caverna, e ainda assim será necessário viajar a uma ilha no País de Gales. O deslocamento e a transformação abrem um novo mundo para Jake.

Pela passagem, ele volta a 1943, a um dia repetido à exaustão, quando uma bomba foi jogada sobre o orfanato. Estava em curso a Segunda Guerra Mundial. Para sobreviverem ao ataque, os peculiares precisam recorrer à magia: mergulham, pelos poderes místicos de Peregrine, em uma fenda no tempo, no passado.

É o que necessita a personagem reclusa, ao centro, levada ao ambiente perfeito: ali, os “estranhos” ganham poderes, destacam-se, com características que poderiam, em outro caso, torná-los vítimas de preconceito. Eles enfrentam o tempo, e a própria morte.

Ainda assim, algo não funciona: viver o mesmo dia – mesmo quando se é jovem para sempre – não é bem o que se espera. E viver nessa prisão fantasiosa não parece o mais atrativo. Para todos, Jake será o convite aos problemas e à libertação, a possibilidade de atravessar a fenda e retornar – ainda que temporariamente – à realidade.

Para Burton, a partir do roteiro de Jane Goldman, adaptado do livro de Ransom Riggs, é preciso ficar entre as duas esferas. De novo, seu herói é o deslocado, o magricela com problemas familiares, com dificuldade para se aproximar da garota que ama, ao fim, quando precisa dar ao público o último gesto do herói então formado.

Enfrentar o vilão (Samuel L. Jackson), no encerramento, é tão inevitável à aventura juvenil do tipo quanto ter de se adaptar ao mundo externo. Sem muita aptidão aos confrontos, essas crianças seguem aos tropeços, entre terror e graça.

(Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children, Tim Burton, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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12 diferentes fetiches explorados pelo cinema

O cinema é o espaço perfeito para o voyeur. O espaço para explorar o proibido, o íntimo e impenetrável – ou quase isso. Os filmes abaixo apresentam desejos de pessoas ou grupos, em alguns casos divididos apenas com o espectador, seu cúmplice. Obras de diferentes cineastas e épocas, com os mais variados fetiches.

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Atração por pés (podolatria) – O Alucinado

No início dessa grande obra de Luis Buñuel, seu protagonista, um obsessivo, observa os pés das mulheres no interior da igreja – justamente quando o padre lava os pés dos frequentadores, durante uma cerimônia. É ali que ele atenta-se a uma mulher entre várias, sua desejada e futura esposa. Um filme sobre ciúme e perseguição.

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Atração por deformidades (teratofilia) – A Tortura do Medo

O melhor exemplo do cinema sobre o desejo pela deformação. Esse estranho fetiche vai sendo revelado aos poucos e, a certa altura, o espectador descobre que o protagonista gosta de matar mulheres vendo seus rostos distorcidos no espelho. Em uma cena específica, ele fica deslumbrado por uma prostituta com o lábio deformado.

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Atração por criminosos – Marnie, Confissões de uma Ladra

O marido, vivido por Sean Connery, estuda zoologia e tenta entender a mulher, Marnie (Tippi Hedren), a ladra platinada. O desejo do homem a certa altura fica evidente (e seria confirmado pelo diretor Alfred Hitchcock): ele deseja fazer sexo com ela quando está prestas a cometer seu crime. A saber: ela é uma ladra compulsiva.

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Atração por sujeira ou fezes (coprofilia) – A Bela da Tarde

O mestre Buñuel foi o rei da exploração de fetiches no cinema. Eis outro exemplo famoso: o momento em que Séverine (Catherine Deneuve), amarrada, tem lama lançada contra seu corpo pelo amigo do marido. Trata-se de desejos ocultos divididos apenas com o espectador. Ela torna-se prostituta em um bordel para tentar realizá-los.

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Atração pela monstruosidade – Possessão

O filme mais famoso do grande diretor polonês traz Isabelle Adjani como Anna, que passa a apresentar comportamentos estranhos e é seguida pelo marido, Mark (Sam Neill). O que ele descobre é assustador: a companheira mantém relações sexuais com uma criatura monstruosa. Outro caso de teratofilia, aqui com doses de surrealismo.

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Ser tratado como criança (autonepiofilia) – Veludo Azul

O rapaz (Kyle MacLachlan) está escondido no armário e assiste à sessão de sadismo de Frank Booth (Dennis Hopper), quando este investe contra a frágil Dorothy (Isabella Rossellini). Ele rasteja às suas partes íntimas, cheira gás e, aparentemente dopado, faz-se um bebê em busca de sexo com a representação da mãe. Obra-prima de David Lynch.

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Vestir-se de mulher – Ed Wood

Mais conhecido como “o pior diretor de todos os tempos”, Ed Wood ganha vida na pele de Johnny Depp nesse filme de Tim Burton. Uma das manias do excêntrico diretor – sempre tratado com certa inocência por Burton – era se vestir de mulher. Apesar de cômica e nostálgica, a obra não deixa de ser um retrato triste de artistas à margem.

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Atração por máquinas e acidentes – Crash – Estranhos Prazeres

Obra-prima de David Cronenberg sobre um grupo de fetichistas ligado às máquinas, ao sexo, também ao cinema. Eles excitam-se nos veículos, exploram o desejo pela deformidade gerada por colisões e chegam a reproduzir acidentes que tiraram a vida de figuras famosas como James Dean. Perfeito retrato da busca pelo prazer na era moderna.

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Ouvir histórias eróticas – Ondas do Destino

Feito ainda no período do Dogma 95, época em que Lars von Trier apostava em uma câmera livre, de imagens “imperfeitas”, aqui a tratar de uma moça ingênua (Emily Watson) que se vê obrigada a procurar outros parceiros quando o marido sofre um acidente. Preso à cama, ele deseja ouvir os relatos de suas aventuras sexuais.

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Atração pelo sangue – Desejo e Obsessão

Há também toques de canibalismo nesse trabalho perturbador de Claire Denis, discípula de Jacques Rivette. Um homem recém-casado (Vincent Gallo) está em lua de mel em Paris e tenta resistir a seu desejo por sangue. Em paralelo, o espectador conhece uma mulher (Béatrice Dalle) aprisionada, que mata homens para realizar seus desejos sexuais.

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Masoquismo – A Professora de Piano

Pianista reclusa, aparentemente fria, a protagonista (Isabelle Huppert) sai em busca de excitação quando não está dando aulas. Frequenta cinemas pornográficos e ambientes de perversão. A história dá uma guinada quando ela passa a manter uma estranha relação com um de seus alunos (Benoît Magimel), o que inclui jogos perversos.

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Atração por cadáveres (necrofilia) – Beleza Adormecida

A protagonista (Emily Browning) é uma prostituta que divide seu tempo entre fisgar homens em um bar e servir às perversões de frequentadores de um castelo afastado. Ela aceita dormir nua, sob o efeito de remédio, sem saber o que se passa no quarto. Os clientes, por sua vez, devem respeitar as regras da casa e não fazer sexo com ela.

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Seis filmes ruins e recentes dirigidos por grandes cineastas

A História do Cinema mostrou, em diferentes momentos, que mesmo alguns grandes mestres podem fazer filmes sofríveis. No caso de alguns cineastas, isso felizmente não é – ou não foi – muito comum. Em seus tropeços, realizadores de carreiras consolidadas fazem o público desanimar ainda mais: como é possível algo desprezível de um Polanski ou um Woody Allen? É bom lembrar: existem bons diretores e grandes diretores. A lista abaixo traz seis grandes nomes em momentos menores, até esquecíveis.

Deus da Carnificina, de Roman Polanski

Não é a primeira vez que Polanski isola algumas personagens em um único ambiente e constrói situações dramáticas e até absurdas a partir de suas relações. Isso pode ser visto, por exemplo, em A Faca na Água e A Pele de Vênus. Em Deus da Carnificina, adaptado da peça de Yasmina Reza, sobre dois casais que se encontram para discutir o problema dos filhos, a explosão de temperamentos das personagens não funciona. São seres irritados, artificiais, levados ao exagero e até mesmo com direito a vômito.

deus da carnificina

Sombras da Noite, de Tim Burton

Pode-se não amar Tim Burton. Ainda assim, é inegável que se trata de um autor. Sombras da Noite tem sua marca: seres fantásticos em uma mistura de comédia e terror. E tem Johnny Depp. As piadas não têm qualquer graça e o diretor, a certa altura, mostra estar no piloto automático. Não tem a mínima ousadia e, pior, tem pouca ou nenhuma graça. Depp interpreta um vampiro abobalhado que retorna ao mundo dos vivos após 200 anos de aprisionamento.

sombras da noite

Para Roma, com Amor, de Woody Allen

Em suas viagens pela Europa, Allen parou na Itália e fez ali seu pior filme em anos, a rivalizar com O Escorpião de Jade, de 2001. Como se sabe, Allen é um apaixonado por Fellini. Em Roma, ele novamente explora algumas vidas que se cruzam, com figuras conhecidas: um amontoado de histórias nada marcantes, entre seres desagradáveis, como Roberto Benigni, e outros que servem de mero medalhão, como a voluptuosa Penélope Cruz – para lembrar musas como Sofia Loren.

para roma

3 Corações, de Benoît Jacquot

Entre dois belos filmes, Adeus, Minha Rainha e O Diário de uma Camareira, o francês Jacquot apostou nessa história sem profundidade sobre um homem que se apaixona por uma mulher e termina casado com a irmã dela. Além do roteiro ralo, o filme tem o ator errado para o protagonista. É difícil esperar algum conflito, ou alguma profundidade que a personagem exige, em Benoît Poelvoorde. Melhor permanecer nos filmes cômicos. Para piorar, não há qualquer química entre ele e as mulheres em cena.

três corações

Êxodo: Deuses e Reis, de Ridley Scott

É difícil acreditar que o diretor de Os Duelistas e Blade Runner faria, mais tarde, bombas como Êxodo: Deuses e Reis e o recente Perdido em Marte. E Êxodo consegue ser pior que o seguinte, encabeçado por Matt Damon. A trama geral é conhecida: Moisés (Christian Bale) volta-se contra o irmão de criação, Ramsés (Joel Edgerton), vai embora de seu reino e guia os escravos à libertação. A sequência de abertura do Mar Vermelho impressiona, mas não salva a obra do fracasso.

aexodo

Tudo Vai Ficar Bem, de Wim Wenders

Outro caso a lamentar: em Tudo Vai Ficar Bem, o diretor de O Amigo Americano e Paris, Texas tem um de seus piores momentos. Leva ao drama de um escritor interpretado por James Franco, com o semblante sonolento, ligado à mãe de uma criança que atropelou. Anos mais tarde, ele é procurado pelo irmão da vítima. A beleza é oca, o filme não tem qualquer profundidade. A câmera apela a movimentos desnecessários, o que faz parecer puro exibicionismo do cineasta.

tudo vai ficar bem

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Dez filmes de 2015 que prometem muito e entregam pouco

Há filmes que não prometem nada e revelam boas surpresas. Houve casos assim em 2015, como Kingsman: Serviço Secreto e A Colina Escarlate – apenas para citar dois.

Há também aqueles que geram expectativas, muitas vezes embalados por uma velha grife de sucesso, e chegam ao fim da corrida sem fôlego. Entregam pouco, quase nada. Houve vários casos assim em 2015. Abaixo, os dez mais gritantes – a partir de uma escolha pessoal, pois há na lista filmes elogiados pela crítica e pelo público.

10) Corações de Ferro, de David Ayer

O astro Brad Pitt é um militar à frente de um tanque de guerra nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, em um filme que não escapa aos manjados atos de bravura.

Wardaddy (Brad Pitt) with Norman (Logan Lerman) in Columbia Pictures' FURY.

9) Chappie, de Neill Blomkamp

Com bons efeitos e sequências de ação, o badalado diretor de Distrito 9 de novo volta suas garras às grandes corporações, à luta entre opressores e oprimidos.

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8) A Dama Dourada, de Simon Curtis

Uma entre tantas produções sobre o nazismo e em busca de um caminho original. Ao que parece, tenta repetir a fórmula de Philomena, mas sem o mesmo êxito.

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7) Peter Pan, de Joe Wright

Carregado de maquiagem e na pele do pirata Barba Negra, Hugh Jackman não coloca medo em ninguém nesse filme sobre o início da história do jovem herói.

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6) Samba, de Olivier Nakache e Eric Toledano

Os diretores realizaram antes o agradável Intocáveis. Na nova produção, abordam a imigração na França atual e erram na abordagem do drama e da comédia.

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5) Selma: Uma Luta pela Igualdade, de Ava DuVernay

O típico drama quadrado, feito na medida para o Oscar, cheio de momentos edificantes. O fim não seria diferente: é Martin Luther King discursando na porta da Casa Branca.

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4) Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros, de Colin Trevorrow

Das partes anteriores, apenas a primeira vela a lembrança. Por isso, esperava-se um retorna às origens. Resta ao fim apenas a aventura juvenil com monstros gigantes.

jurassic world

3) Grandes Olhos, de Tim Burton

Os erros do diretor são evidentes: fora de seu universo mágico, ele não sustenta a história real, apelando às figuras caricatas, às velhas reviravoltas dramáticas.

grandes olhos

2) A Travessia, de Robert Zemeckis

O diretor de Forrest Gump consegue apenas a profundidade visual, com boa recriação das Torres Gêmeas. Faltou a profundidade humana.

a travessia

1) Perdido em Marte, de Ridley Scott

O ponto de partida é incrível: astronauta deixado em Marte busca meios para sobreviver. Com todos os vícios do cinemão americano – como os aplausos constantes dos cientistas da Nasa, o bom humor do astronauta isolado, as explicações do roteiro preguiçoso –, o filme de Scott não é mais que entretenimento passageiro.

perdido em marte

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Christopher Lee (1922–2015)

A morte de Christopher Lee fez retornar a imagem do ator em suas personagens mais populares, em filmes de Tim Burton, Peter Jackson e George Lucas, além de sua famosa caracterização de Drácula. Abaixo, a imagem de um trabalho nem sempre lembrado, o curioso O Chicote e o Corpo, de Mario Bava, no qual Lee retorna como espírito para atormentar sua amante.

o chicote e o corpo