Thierry Frémaux

Café Lumière, de Hou Hsiao-Hsien

Comuns os momentos em que a menina, a protagonista, perde-se entre a multidão. Deixa de ser a parte mais importante e, à câmera, integra-se a tudo o que a cerca. Aos poucos esse cinema revela-se: está além do pequeno drama dela, quase inexistente, e se fixa no todo, no conjunto, na paisagem em movimento.

Os trens de Tóquio, as estações, as pessoas, o cotidiano. Por algum motivo, ela, a parte, destaca-se, segue a ambientes fechados com a câmera junto. A câmera de Hou Hsiao-Hsien parece desejá-la tanto quanto desprezá-la, ou permite, em Café Lumière, que a mesma seja parte de um jogo de aproximação e distância. Será assim o filme inteiro.

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As incontáveis resenhas apontam à relação com Ozu e, outras tantas, à com os pioneiros Lumière. O que se vê, sobretudo, é a poética de um cinema moderno que retira algo desses mesmos cineastas – do japonês, o apreço pelo cotidiano, pelos pequenos dramas que atingem a família e, invariavelmente, detonam esse célula importante da sociedade, com pais e filhos que se separam; dos franceses, o registro, o movimento dos corpos, os afazeres diários.

Há quem tenha encontrado nas imagens de Lumière o verdadeiro germe do cinema de ficção, como Thierry Frémaux, o que tornaria válida a aproximação a histórias como as de Ozu. Talvez Hsiao-Hsien estivesse pensando na metamorfose de ambos para dar vez àquilo que o cinema parece ser, entre o real e o fictício, nem totalmente um ou outro.

Desde o título, Café Lumière oferece o casamento entre o cinema e o cotidiano, entre os espaços da conversa, da confraternização, e os da pulsação cinematográfica: tudo o que é possível esperar do cinema está aí, do lado de fora, nas ruas, nas estações de trem, nos bares ou cafés, está para ser tocado, ou registrado pela câmera, como faz.

E é à estação que ele retorna, ao ponto inicial, como observa o crítico Ruy Gardnier: “Em Café Lumière, Hou Hsiao-hsien parece nos dizer que toda a progressão cronológica do cinema, sua transformação em ficção, sua complexidade crescente de produção, de roteiros, de histórias, de star system, equipe de filmagem, que tudo isso só serviu para obscurecer a virtude principal da máquina cinematográfica, esse dispositivo maravilhoso que serve para simplesmente registrar a passagem dos seres humanos pela vida”.

A garota, Yôko (Yo Hitoto), vive em Tóquio e às vezes – como explica aos outros – viaja para Taiwan. Ao interior do Japão ela segue para visitar seus pais. Por ali, conta que está grávida, para a surpresa de ambos. Diz que não se casará, que o pai da criança, de Taiwan, é dono de uma fábrica de guarda-chuvas e que não quer fazer parte da família dele.

Na cidade grande, passa por uma livraria, na qual mantém laços de amizade – talvez algo mais – com seu proprietário, o tranquilo Hajime (Tadanobu Asano). Ambos circulam pelos trens, pela cidade, nas linhas que cortam o espaço urbano. Todo o filme é sobre esse movimento, ou sobre esses cortes pelas linhas, possíveis encontros.

A certa altura, o rapaz mostra à moça um desenho que criou em seu computador. A imagem apresenta uma pessoa rodeada por vagões de trem. A figura ao centro é ele, destinado, com seu gravador, a captar o som das locomotivas, dos trilhos, o barulho do mundo que, naquelas estações, dão um bom resumo do mundo moderno no qual o cinema nasceu.

A imagem permite outra interpretação: a pessoa ao centro pode ser um feto, o bebê que a mesma Yôko carrega, filho desse mundo em movimento no qual o homem faz-se cercado por máquinas. Mundo captado pelos Lumière, por Ozu, agora por Hsiao-Hsien – no caso do último, sem que copie os anteriores, cinema com assinatura própria.

(Kôhî jikô, Hou Hsiao-Hsien, 2003)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Rebeldes e solitários de Taiwan (os primeiros filmes de Tsai Ming-liang)

Lumière! A Aventura Começa, de Louis e Auguste Lumière e Thierry Frémaux

Os filmes dos irmãos Louis e Auguste Lumière, com menos de um minuto cada, colocam à prova o poder de sensibilização do cinema. Aos dois pioneiros é dada, em diferentes fontes, a paternidade do primeiro filme projetado a um público pagante, em 1895, o conhecido A Chegada do Trem à Estação de Ciotat, mas não só.

Outros filmes teriam sido exibidos naquele dia. Algumas pessoas, não mais que 40, teriam acompanhado a sessão. A todos que se assustaram com o trem, ou que se deixaram levar pelas novidades dessa “invenção sem futuro”, como teria dito o próprio Louis, o clima era de emoção, de invenção, de exposição de algo jamais visto.

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A novidade entraria com força no século seguinte e passaria do aspecto documental à ficção, das ruas aos estúdios, do mudo ao sonoro, da trucagem à revolução digital. A sensibilização seria agarrada. A “aventura” citada no título do apanhado de filmes dos Lumière, sob a narração de Thierry Frémaux, é a palavra certa para descrever a relação das pessoas com esses primeiros filmes curtos.

À prova do tempo a situação é outra. Teriam, na atualidade, ainda o poder de comover? A narração e a música que acompanham Lumière! A Aventura Começa são fundamentais ao resultado final, mas é também evidente o quanto havia de força nesses pequenos filmes realizados pelos irmãos franceses – com detalhes à espera da descoberta.

É sobre os detalhes que Frémaux debruça-se, análise com paixão e pingos de humor, exame interessante de uma obra que, para muitos, era (e seria) mera reprodução do dia a dia, o documentário. O argumento de que os irmãos embrenharam-se também na ficção coloca um pouco da história oficial do cinema em inflexão, a ser contestada.

Há mistério em toda essa análise, inclusive quando se pensa no primeiro filme realizado e no primeiro projetado. Passar por livros sobre cinema leva a crer na inexatidão. É comum apontar 28 de dezembro de 1895, no Grand Café, Boulevard des Capucines, em Paris, como o ponto inicial dessa aventura, ainda que não seja.

A Chegada do Trem à Estação de Ciotat pode ser, por muitos motivos, a peça “ideal” para essa abertura: o filme, a exibição, a descoberta de uma invenção que ainda engatinhava. Além de conter a locomotiva, o invento que cortava a tela como o progresso mecânico cortava a vida de todos: era também o anúncio de uma nova era.

Cai bem acreditar que tenha sido o primeiro, ainda que A Saída dos Operários das Usinas Lumière, argumenta Frémaux, seja o inaugural. A imagem ali ganhava movimento, os trabalhadores passavam pelo portão e iam para casa em trajes típicos da época, aglomerado com vida mas sem destaque para uma ou outra pessoa. A primeira personagem do cinema, por isso, pode ser o grupo, o movimento, ou mesmo a fábrica.

Comum, ao longo da história do cinema, creditar os Lumière como pais do documentário, enquanto fica ao mágico Méliès a paternidade da ficção. O trabalho de Frémaux, no entanto, explora o lado ficcional dos irmãos franceses, os vários momentos em que é nítida a interpretação das pessoas à frente da câmera.

O realizador que une esses pequenos filmes e os narra entrega-se à magia por trás dos quadros aparentemente secos e sem vida, do movimento quase sempre exibicionista, além do belo retrato de uma época – em diferentes países, faces, arquiteturas, costumes. A aventura do cinema é, parece dizer Frémaux, o mistério da imagem: os pequenos filmes dos Lumière escondem mais do que se imagina e expõem a inclinação constante do inventor ao artista, dos anônimos às personagens que, à mira da câmera, aceitam interpretar.

(Lumière!, Louis Lumière, Auguste Lumière, Thierry Frémaux, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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