Taxi Driver

Seven: Os Sete Crimes Capitais, de David Fincher

Os detetives interpretados por Morgan Freeman e Brad Pitt, Somerset e Mills, perseguem um assassino em série que crê na purificação da sociedade. Matar os pecadores, aqueles que forjam um mundo podre: os gulosos, os avarentos, os preguiçosos, os irados, assim por diante.

É como se todo o decorrer de Seven: Os Sete Crimes Capitais – talvez à exceção da sequência final – fosse visto pelo olhar do criminoso. O olhar de um deus malvado que castiga os pecadores, que não precisa ter um nome e, pela necessidade de assumir um em tal sociedade corrompida, escolhe o do Zé Ninguém, John Doe.

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É o nome de uma personagem que não existe no clássico Adorável Vagabundo, de Frank Capra, no qual um tal John Doe promete suicídio, em pleno Natal, em protesto contra a corrupção e a pobreza. No filme de David Fincher, com roteiro engenhoso de Andrew Kevin Walker, o Zé Ninguém retorna para pregar o fim.

Como lembra o astuto Somerset – um homem do qual não se vê pecado, apenas retidão –, o assassino é um pregador. Alguém que pretende purificar pela aplicação do mal. E seu olhar voltado à cidade, ou aos policiais, ou, mais ainda, às vítimas, traz também a escuridão, os ambientes degradados, a chuva.

Eis outro efeito desse olhar – e, por consequência, das escolhas certeiras da direção e do roteiro. A chuva é o elemento que leva a pensar na purificação. Como diz a personagem de Robert De Niro em Taxi Driver, “um dia uma chuva de verdade virá e lavará toda essa escória para fora da rua”. Por outro lado, a chuva termina por cegar, por fragilizar os detetives; fica sempre a impressão de fraqueza, de instabilidade.

Para lançar seu jogo, e para ter o fim que deseja, nada melhor ao assassino que dois homens tão diferentes: o já citado astuto, inteligente, que pensa antes de atirar; e o enérgico por quem as mocinhas belas do interior terminam apaixonadas, também honesto mas disposto a puxar o gatilho para “fazer justiça”.

A essa dicotomia o jogo antecipa-se: tão importante quanto a imposição dos crimes é essa relação entre homens, o jogo antes do jogo, as construção de personagens que ao mesmo tempo se aproximam e se repelem: o jovem belo, branco, casado, que acaba de assumir a cadeira do mais velho, negro, solitário, leitor noturno.

É como se o deus malvado percebesse essas diferenças e as usasse a seu favor. Move suas peças para ter à frente da ação o enérgico, enquanto ao fundo, sobre as papeladas, resta o pensativo, pronto a dar as respostas, a fazer avançar a investigação. Chegam à porta do apartamento de John Doe, por sinal, graças a essa cabeça pensante.

Outra peça importante, a esposa perfeita (Gwyneth Paltrow) percebe o mal que recai sobre a cidade: confessa não ao marido, mas ao parceiro dele, que odeia o local. O trem faz sua casa tremer, a chuva amedronta. Não é o melhor dos mundos para ter um filho. E confessa a Somerset que está grávida antes mesmo de dar a surpresa ao marido.

Não se duvida da presença do amor na relação do casal. Mas o homem negro, aqui, servirá de confidente, alguém compreensivo, acima da energia e da ação do outro, alguém capaz de perceber todo aquele mal e, por ver as coisas por outro ângulo, dar a ela o conselho certo. A alma do filme é Somerset.

Quando assume um rosto, o de Kevin Spacey, John Doe não foge ao esperado: parece fraco e sabe usar as palavras como ninguém. Quando começa a falar, não para mais. Explica-se como alguém tomado por uma missão, a personificação de uma necessidade, a essa altura distante da chuva, em um ambiente árido fora da cidade.

É quando o filme demole expectativas: a essa altura, a ausência da chuva e da umidade não reserva conforto. Pelo contrário. O que se vê em seguida é a aproximação final entre John Doe, Somerset e o detentor do último pecado capital, o homem armado e previsível em expressões e gestos, Mills. Puxará o gatilho, ninguém duvida.

(Se7en, David Fincher, 1995)

Nota: ★★★★☆

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Oito grandes filmes sobre o mal-estar da vida urbana

A cidade grande é o ambiente perfeito para histórias de pessoas solitárias, invisíveis, em busca de afeto. Histórias sobre impessoalidade, niilismo, dor, perda, sobre vidas contra a frieza ao redor. Na lista abaixo, a violência divide espaço com a tragédia familiar, o desejo de fugir com a fuga ao sexo. Grandes filmes sobre a vida moderna e seus espaços.

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A Turba, de King Vidor

No interior dos grandes prédios, homens em fila se assemelham a formigas. Nessa obra-prima de Vidor, o protagonista (James Murray) muda-se para a metrópole e encara o competitivo mercado de trabalho. Mais tarde, ele casa-se e tem filhos. As condições financeiras não mudam tanto. E, para piorar, sofre uma tragédia na família.

Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder

Os escritórios de Nova York foram inspirados nos espaços de A Turba. A esse mal-estar gerado pela arquitetura, Wilder acrescenta a vida de homens e mulheres em encontros corriqueiros, seres solitários que se esbarram apenas no elevador. Por ali, o protagonista (Jack Lemmon) aluga seu apartamento para encontros de amigos do trabalho.

São Paulo Sociedade Anônima, de Luís Sérgio Person

A trajetória de Carlos (Walmor Chagas), funcionário de uma grande empresa, pouco a pouco cansado de sua vida. No filme de Person, os sinais da grande cidade já podem ser vistos na incrível cena de abertura, com o reflexo dos prédios no vidro do apartamento, enquanto o casal briga em seu interior. Obra-prima do cinema nacional.

Playtime – Tempo de Diversão, de Jacques Tati

O senhor Hulot (Tati) mete-se em outra confusão, dessa vez entre prédios futuristas, no trânsito, em salas envidraçadas, um restaurante e um aeroporto. Acinzentado, o filme reproduz um universo de pessoas presas a pequenos quadrados, ou a girar em círculos, como se vê em uma das cenas finais. Apesar de cômico, a crítica é contundente.

Taxi Driver, de Martin Scorsese

Travis (Robert De Niro) vaga por dias e noites de Nova York em seu táxi. Esbarra em bandidos, cafetões, políticos influentes e uma prostituta que deseja salvar. Quando percebe que está sendo cercado por tudo o que há de pior nessa cidade, arma-se e parte para a luta. Marco dos anos 70, é o filme mais importante da carreira de Scorsese.

Os Terroristas, de Edward Yang

Diferentes personagens esbarram-se nesse grande filme taiwanês. Há, por exemplo, a mulher que sonha em escrever seu livro, seu marido que almeja um cargo melhor na empresa, ou mesmo o fotógrafo confinado em um quarto escuro, com suas fotos e, a certa altura, ao lado de uma fugitiva. A cidade é quadriculada, a vida tem frieza.

Naked, de Mike Leigh

Algumas horas na companhia de Johnny (David Thewlis), um homem que abusou de uma mulher, furtou um carro e mudou de cidade. Um homem desesperado, cujas palavras são armas contra os outros – e contra o espectador. De Manchester a Londres, ele encontra todo o tipo de gente. Como ele, os demais não encontram qualquer saída.

Shame, de Steve McQueen

O homem ao centro, na pele de Michael Fassbender, é viciado em sexo. Não consegue parar de consumi-lo – de maneira física ou visual. Em suas andanças, McQueen registra uma cidade impessoal, de pessoas em busca de prazeres e encontros momentâneos – embaladas pela canção “New York, New York”, na voz de Carey Mulligan.

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O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca

Ao entregar uma arma ao protagonista de O Homem do Ano, o vendedor compara o poder do objeto ao poder da coroa. A citação faz sentido em um filme sobre relações de poder.

Pior é imaginá-lo nas mãos de uma personagem alienada, à qual é dado o poder de matar, o próprio direito ao poder. É ela o “homem do ano” que não esperava ser, mas convertida a tal a golpes do acaso.

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O protagonista é Máiquel (Murilo Benício), misto entre o desavisado dos faroestes e o brasileiro que quer pertencer a algo, sentir-se incluído. É o tipo possível aos tempos em que a irracionalidade das grandes cidades soma-se à falta de consciência social.

Máiquel é o “mal necessário”, desprovido de papel e que fica, curiosamente, com o papel principal: é o homem levado pela multidão. O que ele deverá fazer é tomar essas rédeas, como se domasse um cavalo enlouquecido.

O jovem assassino pinta o cabelo, torna-se louro no início de O Homem do Ano. O processo de coloração passa do ponto enquanto ele faz sexo com a cabeleireira, depois transformada em sua mulher (Cláudia Abreu). Como o cabelo, tudo sempre ultrapassa o ponto desejado, sai do controle.

Ele observa seu reflexo no espelho e se reconhece novo. Passa a sentir orgulho de si próprio. E segue em sua saga de matanças: primeiro por pura raiva, fruto de algumas risadas e ofensas; depois, a mando de poderosos que o utilizarão como massa de manobra.

Os contratantes agem às escondidas, falam em patriotismo e utilizam alienados como Máiquel, cuja história leva a um jovem sem consciência e posição. Curioso notar o ainda pingo de dor, simplismo e pena no interior do protagonista. Enquanto não sente qualquer remorso em matar, ele entra em crise quando sua mulher sacrifica seu porco de estimação e o coloca à mesa, para um banquete.

O Homem do Ano estabelece uma estranha ligação entre esse homem, a massa suína guiada pelos poderosos e a nulidade do animal entre todos, que come, dorme e permite a seu dono louro um rastro – ainda pequeno – de humanidade.

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O enigma do filme talvez esteja mesmo em encontrar humanidade em Máiquel, primo distante de personagens conhecidas do cinema, como o Travis de Taxi Driver e, mais tarde, o jovem que se torna líder de uma prisão em O Profeta.

Não se trata de um filme sobre o confronto do homem com a lei, mas sobre a consciência do indivíduo, os sinais de seu cotidiano e a busca pela sobrevivência. O diretor José Henrique Fonseca leva às descobertas da personagem, aos seus conflitos de identidade.

Ela quer trabalhar honestamente, mas sempre termina a matar mais; não quer viver uma vida de casado, mas é tragada àquele clima de sonho expresso pelo dia do casamento: o bolo que fica na espátula, a bela noiva sorridente e todos os amigos que o cercam.

Aos poucos, a violência é institucionalizada. Matar é parte de um trabalho. Nasce uma empresa e Máiquel, o desajeitado louro armado da periferia, ganha um terno e uma mala. Passa a trabalhar, a bater de comércio em comércio. Evidente que não se reconhecerá nesse novo papel social, o que, de novo, faz pensar na busca por identidade.

Durante todo o decorrer de O Homem do Ano, o desafio de Máiquel é se tornar algo, descobrir-se. O cabelo louro é uma livre representação de falsidade, de algo barato, como era a peruca loura de Barbara Stanwyck no grande Pacto de Sangue.

(Idem, José Henrique Fonseca, 2003)

Nota: ★★★☆☆

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