Taipei

História de Taipei, de Edward Yang

Ainda que o particular chame a atenção, em História de Taipei ganha vez o coletivo, o entrelaçamento, com calma, das personagens em cena. Uma mulher aluga um apartamento, seu amigo acaba de retornar dos Estados Unidos, um engenheiro pensa em deixar a mulher, jovens guiam suas motos pela cidade grande, à noite.

O passado está presente, foi convocado. Vive nos rostos das pessoas, homens e mulheres que talvez ainda se sintam jovens, ou crianças: o filme de Edward Yang é sobre o vazio, sobre o espaço que não pode ser ocupado, pois ocupá-lo fisicamente não basta. Essas pessoas sofrem com a vida que não deu certo, presas à urbanização.

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O clima de mudança, o que parece o fim da linha, passa por muitos filmes do chamado cinema novo taiwanês, cujas obras, nos anos 80, tomaram o mundo de assalto. Yang faria, depois, Os Terroristas, que segue – um pouco mais fugaz – o ritmo dessas pessoas. Nos anos 90, Tsai Ming-liang faria Rebeldes do Deus Neón. O mal-estar é evidente.

É possível esperar qualquer coisa dessas pessoas. À primeira aparência, não dão profundidade. Não se deixam ver. Espelham, no fim, a cidade. Morrem à beira da sarjeta, ao lado de móveis e eletroeletrônicos, como se nada fossem, enquanto policiais e socorristas conversam. Outro dia de trabalho. Outra tragada. O som da cidade.

Esse cinema exala crueldade sem negar a beleza, a profundidade que a mise-en-scéne deixa ver. Os anônimos ascenderam socialmente, financeiramente, e não se permitem tocar. O que retrata esse filme é a dificuldade de lidar com o nada, com o físico, com o ruído da cidade.

Talvez isso explique os “terroristas” do filme seguinte. Ou, de olho no passado, Yang ajuda a entender as personagens de História de Taipei ao realizar, mais tarde, sua obra-prima, Um Dia Quente de Verão, que retrata a paixão contida – esta sim verdadeira, ora ou outra explosiva – dos adolescentes que descobrem a violência e o primeiro amor.

As gangues do passado, na Taiwan que evolui à sombra dos problemas sociais, desembocam na aparente seguridade da vida urbanizada, da arquitetura opulenta, do país que não quer ser como antes. Difícil explicar a beleza desse grande filme de curvas monótonas, de liberdade à vista, de jovens que dançam músicas americanas freneticamente enquanto a câmera, a distância, limita-se a captar reações momentâneas, sem se preocupar em fazê-las belas.

E quando são lançados à escuridão, eles brincam com parcas luzes, com seus isqueiros, nada a ver com a escuridão à qual se viram presos, antes, em Um Dia Quente de Verão: da penumbra, em uma luta entre gangues, emergem o horror e a morte. Curioso que Yang tenha se preocupado primeiro em retratar o tempo em que vivia, depois o passado.

Um homem e uma mulher ganham espaço em História de Taipei. Não são casados, tampouco namoram. São amigos de infância, ou de juventude. No primeiro quadro, eles são presos à forma do apartamento, no plano médio que indica o que se pode esperar desse grande filme: às personagens resta observar, com alguma lentidão, o sentido das linhas retas desse novo mundo, da janela do apartamento que a mulher está prestes a alugar.

De óculos escuros, poucas vezes às risadas, ela é Chin (Tsai Chin). Aluga o apartamento e logo perde o emprego. Seu amigo é Lung, interpretado pelo grande cineasta Hou Hsiao-Hsien, também coautor do roteiro. O filme às vezes se volta ao encontro de ambos, às vezes prefere mantê-los distantes. Todo o drama abarca a estranha tentativa de aproximação do casal, além de seus sonhos, suas necessidades de fuga.

A fuga, por sua vez, será chamada por Lung de “cura”. O que pode ser traduzido pelo sonho do casamento, da vida em outro país. E que será definido pela mesma personagem em momento dramático e não menos belo: a busca pela “cura” é “apenas uma esperança fugaz”. E arremata, em seguida: “A ilusão de que se pode começar de novo”.

O cinema de Hsiao-Hsien também está ali. O filme deve muito ao seu texto, à sua presença. A certa altura, sua personagem diz que briga para se defender – o que, em uma obra de relações frias e ações incalculadas, de contradições, não causa espanto. Enquanto seres como Lung tentam escapar ou buscam a “cura”, terminam vítimas de uma doença invisível. Voltam à cidade, ao movimento, às aglomerações. Enxergam quase nada.

(Qing mei zhu ma, Edward Yang, 1985)

Nota: ★★★★★

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Os Terroristas, de Edward Yang

A ideia comum sobre terroristas é subvertida pelo cineasta taiwanês Edward Yang. Os cenários são repletos de frieza, há distância e, à frente, o quarto escuro serve ao confinamento de duas personagens, à sombra com suas fotografias.

Em Os Terroristas, diferentes histórias pouco a pouco se tocam. As personagens estão dispostas em uma cidade quadriculada, de cotidiano mecânico, sob o veludo estranho da vida confortável: o marido que almeja se tornar chefe em sua empresa, a esposa que busca escrever seu livro de contos e talvez ganhar um prêmio.

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O drama evidencia-se na situação desse casal. Estão à beira da ruptura. Ela, que não consegue escrever, acaba encontrando consolo em um antigo namorado; é sua forma de tocar o passado, de corrigir, quem sabe, algo que perdeu.

Ele, decidido a galgar alguns degraus na empresa, termina por entregar um amigo quando outro colega de trabalho morre de infarto. Torna-se candidato natural à vaga, ao mesmo tempo em que finge, entre amigos, estar em bom momento com a mulher.

Os Terroristas simula uma vida inexistente, de centros comerciais e propagandas, de prateleiras e vidros vazios, como no cenário em que a mulher encontra seu amante – espécie de espaço futurista, opressor, como saído de uma ficção científica.

As ruas são escuras. O terror vive no meio, mais que nas pessoas. A certa altura, compreende-se que os terroristas são aqueles que aceitaram viver ali, ou que condicionaram os outros a tal meio, com a cidade, Taipei, vista do alto, pelos prédios, com o som das sirenes, das balas de um confronto entre policiais e criminosos.

Desse confronto surge uma nova história, momento em que um jovem fotógrafo acompanha a ação policial: volta seu instrumento de trabalho, sua “arma”, a máquina fotográfica, à bela criminosa, à jovem de cabelos curtos que foge mancando pela viela.

A fotografia persegue-o, ainda que não fale sobre ela. O espectador entende quando ele deixa seu apartamento apenas com a máquina fotográfica, seu maior bem. O fotógrafo é atraído ao apartamento no qual estava a criminosa e fugitiva, mas antes à sua imagem, possivelmente refletida naqueles espaços. A fotografia desafoga-o.

Contra a vida estranha de prédios, de frieza, contra as pessoas que cruzam, de um lado para outro, uma ponte – enquanto ele flagra-as a distância, com sua lente.

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No apartamento, o garoto fecha-se no escuro. A foto da garota desconhecida ocupa quase toda a parede. Sobrevive a esse fechamento. Quando a janela é aberta, mais tarde, o vento bate em suas “partes”, em seus “recortes”, com o rosto que se desconstrói e retorna à integridade momento a momento.

A criminosa retorna ao imóvel. O rapaz convive com ela apenas algumas horas. Ele entende que não pode confiar na moça, que continua pelas ruas, a aplicar golpes – alguém autêntica se comparada às demais figuras em destaque. Para Yang, ela é produto do terror urbano, dessa vida moderna e descontrolada.

As personagens voltam a se tocar. A garota passa um trote na escritora, que passa a acreditar na possibilidade de o marido ter uma amante. A ligação telefônica também a leva a escrever, a encontrar o caminho para sua história. Refugia-se na ficção.

O marido passa a crer que a história escrita pela esposa pode explicar o divórcio. Ela insiste no oposto: é melhor não misturar ficção e realidade. Falta ao homem essa lucidez, preso como está àquela vida sem beleza, de silêncios e espaços gélidos.

(Kong bu fen zi, Edward Yang, 1986)

Nota: ★★★★☆

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