suspense

Baseado em Fatos Reais, de Roman Polanski

A primeira aproximação de Elle à escritora é como a de qualquer outro fã, repleta de admiração. Gesto de quem está de fora, a quem as palavras da autora servem para ver a si mesmo. É comum os outros falarem um pouco de si quando se aproximam para pedir um autógrafo: confessam, emocionados, o quanto aquele livro foi importante para suas vidas.

Nesse sentido, e ainda no desenrolar de Baseado em Fatos Reais, a realidade é mesclada à ficção. Os leitores procuram a si próprios na obra dos outros, pedaços de suas vidas, possíveis peças que evoquem um paralelo, ou um espelho. O filme de Roman Polanski brinca com a questão porque trata exatamente do oposto: uma escritora bem sucedida que não consegue – não quer – olhar para si mesma, e que por isso recorre a Elle.

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Quem é Elle, ou melhor, quem é Ela? A mulher projetada pela escritora, alguém que durante o filme inteiro só existe para a escritora, a amiga imaginária ou o duplo feito pela mesma escritora para tentar apontar o que ela, em seu labirinto, não consegue ver. Após a primeira aproximação, Elle estará cada vez mais presente, cada vez mais penetrada.

A autora em questão é Delphine Dayrieux (Emmanuelle Seigner), cujo livro mais recente, o qual autografa na abertura, leva à história de sua mãe, que teria cometido suicídio. Um livro que talvez tenha sido feito com as tintas de sua própria vida, ou com as de sua família. Mas não é certo que essa suposta “confissão”, em obra, seja real.

Vale pensar: as obras que se pretendem pessoais são sempre sinceras, reais, ou seriam, em muitos casos, projeções confortáveis das versões nas quais é melhor acreditar? Nesse caso, a história da mãe custa algumas dores de cabeça a Delphine, que passa a receber cartas que a acusam de usar a própria mãe para ganhar dinheiro.

Por outro lado, é válido pensar que todo escritor tem como matéria primeira o que lhe cerca, a realidade imposta, aquilo com o que ele lida em seu dia a dia – ou, como pode ser o caso de Delphine, exatamente aquilo com o que ele não deseja lidar. E é por isso que o filme, a partir do livro de Delphine de Vigan, com roteiro de Polanski e Olivier Assayas, revela-se tão interessante: a história de uma escritora que não deseja olhar a si mesma.

Para chegar a si, precisa de um espelho invertido, a mulher mais nova, propositalmente mais bela, a escritora que escreve sem ser reconhecida, a ghost writer. É, ao perdão da tradução, espécie de fantasma que precisa para escrever sua própria vida, o que nega, do que foge, e o que resulta, claro, em livro, este sim verdadeiro: Baseado em Fatos Reais.

Elle, interpretada por Eva Green, permite ser severa após invadir o apartamento – e a vida – da outra. De bondosa fã, a invasora transforma-se em figura destrutiva, que conta sua história para a escritora e a municia de elementos que servirão ao próximo livro. O jogo de espelhos é claro. Delphine sofre com Elle e precisa de Elle. O isolamento de ambas, ou de uma só, em uma casa de campo, é o caminho natural. É o local perfeito ao escritor enquanto busca as linhas de seu próximo trabalho, ambiente certo para a trama de suspense que se tece.

Delphine precisa de sua personagem, de seu duplo, Elle, para encarar o mundo externo: para saber o que suas obras são de verdade, para saber o que os outros dizem sobre ela nas redes sociais e, sobretudo, para entender que sua história – baseada em fatos reais – na verdade depende de um mergulho nada confortável por labirintos que colocam o escritor frente à sua própria fragilidade, envenenado ou atropelado.

Estranho universo em que é necessário um escritor fantasma para se entender a vida em questão, a figura fechada em seu mundo de ficção. De olhos arregalados, à caricatura que Eva Green faz bem, Elle é a terceira pessoa, o recurso mais fácil para se contar a própria história.

(D’après une histoire vraie, Roman Polanski, 2017)

Nota: ★★★☆☆

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Happy End, de Michael Haneke

O Amante Duplo, de François Ozon

Sabe-se que do olhar da protagonista vem algo incerto, labiríntico, obscuro, e que do ventre que dói poderá nascer alguma coisa que não pareça humana em O Amante Duplo. Uma vida, é certo, será expelida, como a de um alienígena ou um monstro.

Em um filme sobre um irmão rejeitado, também sobre o conflito de irmãos, essa vida estranha que brota do ventre, que perfura a carne, será a representação perfeita do outro que renasce para ocupar seu lugar de direito. Da delicada Chloé vem o outro que não nasceu porque foi devorado por ela quando ambos dividiam o ventre da mãe.

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As camadas são representadas por reflexos. Espelhos surgem a todo momento. A moça multiplica-se, à medida que seu escolhido amante – depois namorado, depois futuro marido – ganha um irmão gêmeo. Dois homens diferentes sob a forma de um só: um deles é psiquiatra, o outro psicanalista, cada um em seu espaço, com suas manias, enquanto a protagonista – em visita a eles – busca a resposta para sua dor no ventre.

O primeiro é Paul, o segundo é Louis. Ambos são interpretados por Jérémie Renier. O primeiro usa óculos, tem o cabelo lançado à testa, apaixona-se pela menina que deveria tratar. Quebra a conduta ética que sua profissão exige, mas antes diz à mesma que não pode continuar com as sessões de terapia frente a frente, olho no olho.

De Paul ela retira um caso de amor, o sexo sem emoção tingido às sombras, nas noites em que encara seu gato ao mesmo tempo em que o amante deita-se sobre seu corpo. O olhar da protagonista diz muito sobre sua situação, seu íntimo: ao que parece, não sente prazer; ao que parece, aguarda o outro, o gêmeo que possa levá-la ao gozo, romper sua frigidez.

O outro, claro, é Louis, o gêmeo sedutor sem óculos, de cabelo ao alto, moderninho, que agarra a moça por trás e desliza uma das mãos – sem sensibilidade – à sua vagina, à cata de algo um pouco animal. Desenha-se o outro lado do homem que pode – e deve ser – o outro lado da menina: o duplo do amante, Louis, nada mais é que o seu duplo, irmã ou irmão que perdeu e que agora aflora em seu corpo, que no ventre bate à porta.

Talvez seja um irmão, o que explica a opção pelo cabelo curto (em uma sociedade que explora sinais para diferenciar seus gêneros). E, na contramão do sexo comportado que antes praticava com Paul, ela resolve assumir, na relação, papel ativo, usando um vibrador para satisfazer o mesmo amante, que por sinal se deixa levar.

Para matar o outro que tenta tomar seu lugar, irmão que carrega no ventre, Chloé precisa matar um de seus amantes. Um fornece-lhe a relação esperada, o outro o sexo selvagem, o inesperado. Sem surpresas, boa parte do filme de François Ozon, a partir do livro de Joyce Carol Oates, é a representação do que ocorre na mente da protagonista, seus delírios e desejos. Suas passagens pelas exposições de arte, no museu em que trabalha, resumem seus estados, como os pilares brancos que se metamorfoseiam em troncos de árvore.

O filme de Ozon, já se disse, tem algo de Gêmeos – Mórbida Semelhança, de Cronenberg, no qual as personagens entram em processo de fusão. Em O Amante Duplo, a protagonista interpretada pela bela Marine Vacth procura uma médica para tentar se curar das dores no ventre. Em sequência curiosa, a imagem de sua vagina funde-se à de seu olho, movimento entre a invasão e a expulsão, entre o interno e o externo.

Vacth é misteriosa, um pouco frágil, nunca dominadora em excesso. Dá mais pistas do que no filme que fez antes com Ozon, Jovem e Bela, no qual interpretava uma prostituta. Ela encara seu gato ou a projeção do gêmeo do companheiro enquanto faz sexo. Seu olhar penetrante reproduz medo, incerteza, espera: é a causadora e a vítima dessa intriga, menina atacada pela gêmea(o) que ainda carrega, que a segue, que não se reduz ao feto.

(L’amant double, François Ozon, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Jovem e Bela, de François Ozon

Um Lugar Silencioso, de John Krasinski

Os pais pedem silêncio aos filhos. Os menores terão de aprender a viver – e crescer – nesse mundo que impõe, até certo ponto, a ausência do som, ou apenas do barulho. Do contrário, a morte. Os membros da família, em Um Lugar Silencioso, de John Krasinski, conversam por linguagem de sinais, caminham descalços, evitam o choque.

As bases do suspense estão prontas: o que vem em seguida, com o inevitável barulho, é o horror. Vive-se a expectativa. A espera tortura. Os monstros do lado de fora podem atacar a qualquer sinal de barulho, a qualquer tremedeira incomum, a qualquer grito. A família refugia-se em um casa afastada, não o suficiente para ter tranquilidade.

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Eis a primeira indagação: por que fugir? A vida longe da cidade não dá garantia de que seja possível escapar das bestas que atacam. O isolamento não traz tranquilidade. Por outro lado, controlar o silêncio, nesse ambiente, é mais fácil do que em um centro urbano – ou no que restou dele. A família escolhe fugir da imagem de um mundo em conflito, apocalíptico e, ao que parece, ensaia o que pode ser o novo começo.

Um filho pequeno morre logo no início, enquanto caminha à nova moradia. Atacado por um monstro, o pequeno desaparece ao emitir barulho com um brinquedo. A família segue em frente, adapta-se, a mãe logo está grávida de novo. E, sabe o espectador atento, o som da vida pode, nesse contexto, oferecer a morte: o choro do bebê.

O filme tem boas soluções no trato do suspense e, às vezes, do horror, do sangue, da dor que alguém, ora ou outra, terá de sentir. Não se escolhe viver às sombras, em silêncio, sem que se pague o preço: alguém deverá cometer um deslize, se render ao barulho e, sob dor intensa, gritar. Curiosamente, à tela, o grito gera ao mesmo tempo um sentimento de explosão de medo, ao mesmo tempo o de libertação, de alívio.

Nesse meio, os pequenos aprendem a viver sem o som alto, a não falar, a evitar quedas e passos firmes. O pai abre caminho: faz trilhas com areia para que a andança seja mais silenciosa e, em um porão, trabalha com a tecnologia a favor da sobrevivência, com câmeras e novos aparelhos de audição para a filha, que sofre de surdez.

O silêncio pode ser interpretado como representação da dificuldade de comunicação entre pais e filhos. Por sinal, a menina acredita que não é “ouvida”, que o pai, a ela, é indiferente.

Para proteger os filhos dos monstros do lado de fora, é necessário pedir silêncio – e silêncio, nesse caso, remete à obediência, à quietude, à necessidade de não gritar, de não impor a palavra que, no fundo, está presa e prestes a explodir.

Se o confronto é inevitável como o som, os humanos em questão terão de lutar, aceitar o barulho do mundo. Afinal, é como se Krasinski dissesse que a estridência é inerente a tudo e a todos. É possível sobreviver pela quietude, ainda que, em algum momento, a luta seja necessária – da tranquilidade em família à selvageria.

Krasinski faz o papel do pai justo, pensativo, cuja barba confere-lhe a forma do guia messiânico. A mãe, na pele de Emily Blunt, quase consegue esconder a beleza. E os filhos (os ótimos Millicent Simmonds e Noah Jupe) são o que se espera de crianças em filmes americanos do tipo, o que leva a pensar na fragilidade da obra.

Em “tiro curto”, o filme prefere a ação aos seres em cena – o que obriga o espectador a fazer o possível para, talvez, agarrar-se às pessoas. E por isso, ao nem sempre penetrar os humanos, ou ao preferir a luta contra os monstros, resta a ideia de um mundo selvagem, o grito como parte inevitável dessa trajetória agoniante.

(A Quiet Place, John Krasinski, 2018)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Frantz, de François Ozon

Garota Exemplar, de David Fincher

A frieza de Nick Dunne é o primeiro obstáculo ao espectador de Garota Exemplar. Sua maneira de lidar com a situação, ao não se emocionar, ao aparentar suposta indiferença: o espectador tem, até certo ponto, motivos para desconfiar dele. Do outro lado, as lembranças de sua mulher desaparecida oferecem o oposto: a impressão de se conhecê-la.

Outro engano nesse grande filme de David Fincher. Por sinal, um engano maior: Amy Dunne – molde para uma personagem infantil chamada “Incrível Amy” – declara, aos poucos, suas dores, medos, receios ao espectador. E este, ainda ingênuo, acredita que sabe muito sobre ela. Crê que pode, ao contrário de Nick, abrir seu crânio para sacar seu íntimo.

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Há filmes em que os espectadores sabem mais que as personagens. Há também aqueles em que ambos estão no mesmo ponto, ou seja, nos quais as descobertas são compartilhadas. Garota Exemplar coloca-se em um terceiro grupo, talvez mais raro: um filme em que suas personagens sabem mais que o espectador.

Nesse terceiro reino vê-se o inesperado, espaço perfeito para vilões ou anti-heróis, para esconderijos e uma falsa sociedade bela. Chega-se, por sua vez, à ideia de Fincher a partir do roteiro de Gillian Flynn, do seu próprio livro: uma sociedade moralista feita de belas meninas “incríveis”, seres graciosos que nasceram como personagens infantis.

Chega-se igualmente à sociedade de aparências, à praga da celebrização instantânea e das mudanças de papéis de acordo com o script ditado pela opinião pública: Nick pode passar do marido assassino ao pai formado, obrigado a declarar, em cadeia nacional, à lente da câmera, que será pai de um filho, que ama sua mulher. Serve à imagem e sobrevive.

Em um dia aparentemente tranquilo, Nick (Ben Affleck) retorna para casa e encontra móveis revirados. Amy (Rosamund Pike), sua mulher, desapareceu. Ele procura a polícia, revela uma série de imperfeições. Torna-se – inclusive ao espectador – o suspeito número um. O caso é perfeito para a imprensa sensacionalista. Câmeras tentam seguir cada novo capítulo dessa história. Nick não é confiável. Amy tampouco será a tal “garota exemplar”.

As camadas de falsidade começam pelo visual, depois pelas personagens. A fotografia de Jeff Cronenweth deixa ver a verdade, o simples, a cidade e os tipos comuns nos primeiros minutos: o homem que levanta cedo para colocar o lixo para fora, que observa o nada, comum e até banal. Fica entre o azul e o cinza; em ambientes fechados, em vários momentos, vê-se envolto por tons amarelados, algo frio, sem intensidade.

A pequena marca de sangue deixada por Amy, marca de sua suposta morte, chama a atenção: o vermelho serve aqui como peça rara. À frente, na sequência do assassinato, a cor não apenas explode com o excesso de sangue como também é despejada sobre o branco das roupas íntimas da moça e das roupas de sua nova vítima. É quando se entende que a violência pode, sim, ser justificada: Fincher tem a saída ideal ao exagero.

Quem engana, antes, são as cores: o universo de Garota Exemplar, aparentemente frio e sem vida, não parece dar conta de tantas histórias, tantas reviravoltas, a abrigar um dos vilões mais interessantes dos últimos anos. Amy, a tal “garota exemplar”, projeta o demônio possível à vida ordinária: é quem recorre à imagem acima de todas as coisas, que cabe às mesmas cores que parecem não indicar nada além da quietude.

Não estranha que Fincher, com a volta dela aos braços do marido, retorne ao plano geral da fachada da casa. A típica casa perfeita, grande, à qual, dirá a mídia, falta uma criança. Não se chega a tanto, nem poderia. Imaginar uma criança por ali é o que faz o filme doloroso em seu encerramento, com as lamentações do pai, Nick, que não poderá escapar mais à falsidade criada pela mulher, a “vítima perfeita”, a Amy nascida da ficção, dos livros infantis, talhada para seguir nesse meio em que tudo parte de um enredo.

Garota Exemplar é sobre a necessidade de criar outra história para essa sociedade – ao mesmo tempo em que o fundo deixa ver outros monstros, a história não oficial, o conto que não serve à mídia sensacionalista que vive da audiência do segundo seguinte e pouco inclinada às contradições da vida a dois, ou apenas à aproximação.

Um filme em que ninguém – nem Nick, nem Amy, nem aqueles que lucraram com o caso na mídia – escapa à dúvida. Não como benefício, mas como salvaguarda. Para confirmar o que se pensa dela, vale recordar uma frase dita para ele, no fim: “[Você] Me conhece até a medula”, diz, em mais uma de suas mentiras. Ela sabe jogar. Ele sabe que ela mente. Ambos seguem assim, nesse jogo, presos à redoma que criaram a si próprios.

(Gone Girl, David Fincher, 2014)

Nota: ★★★★☆

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