Suspeita

Os sinais de Alfred Hitchcock em O Gato de Nove Caudas

A exemplo de Brian De Palma, Dario Argento seguiu os passos de Alfred Hitchcock. Desde seu primeiro filme, O Pássaro das Plumas de Cristal, o cineasta italiano soube como mobilizar a atenção do espectador e causar medo. Assassinos em câmera subjetiva, personagens mentalmente perturbadas, ligações familiares mal resolvidas e o uso de diferentes recursos visuais levam a pensar no mestre Hitchcock.

Em seu segundo filme, O Gato de Nove Caudas (a segunda parte da Trilogia dos Bichos, encerrada com Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza), essa influência fica ainda mais clara, como se vê abaixo.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A espiral (Um Corpo que Cai)

A imagem da escada, vista em plongée em Um Corpo que Cai, será repetida por Argento em O Gato, mas em oposto, ou seja, em contra-plongée (como se vê abaixo). É o momento em que o homem cego vivido por Karl Malden desce das escadas do prédio, após conversar com uma das futuras vítimas do assassino.

Para Hitchcock, a espiral reproduz a vertigem da personagem central (James Stewart). Mas não só: é também a representação de seu mergulho no universo da personagem feminina, o mergulho em seu redemoinho, sua aproximação à morte. Em outro momento, a mulher vivida por Kim Novak reproduzirá a espiral também em seu cabelo.

Em Argento, a espiral pode representar o esmagamento, a estrutura (aqui captada com lente grande angular) de um universo maior que a personagem, que ainda ousa atravessá-lo. Também funciona como a representação do caminho oposto àquele que leva ao paraíso, à luz vista no alto da imagem.

O copo de leite (Suspeita)

Em uma das cenas mais famosas criadas por Hitchcock, Johnnie (Cary Grant) leva leite para sua amada, a protagonista de Suspeita (Joan Fontaine). O leite em questão talvez esteja envenenado. O espectador assiste ao movimento de Grant pela escada e o copo é iluminado a partir de seu interior, ganhando destaque.

Em O Gato, o espectador já sabe que o leite está envenenado. No momento em que o protagonista (James Franciscus) leva a bebida para a companheira (Catherine Spaak), Argento aproxima a câmera dos dois copos, com foco curto, dando destaque aos objetos. É uma clara referência ao filme do mestre inglês.

A face da vítima (Psicose)

Após levar diversas facadas, naquela que talvez seja a sequência mais conhecida da carreira de Hitchcock (e do cinema), Marion Crane (Janet Leigh) permanece caída no chão do banheiro. Em Psicose, a câmera aproxima-se de sua face, de seu olho.

Uma das vítimas do assassino agoniza pouco antes de morrer enforcada em O Gato. Argento capta o desespero dessa mulher, Bianca (Rada Rassimov), com sua saliva e seus últimos suspiros enquanto mantém a face colada ao chão. Ainda que as câmeras sejam colocadas em diferentes posições, difícil não enxergar semelhanças entre o filme de Hitchcock e o de Argento. Outro encontro entre mestre e pupilo.

Veja também:
Alguns itens inesquecíveis de dez filmes de Alfred Hitchcock

Alguns itens inesquecíveis de dez filmes de Alfred Hitchcock

Ao manipular o espectador e guiá-lo ao suspense, Alfred Hitchcock entregou ao público detalhes marcantes e até passageiros. Alguns ajudam a entender o termo McGuffin, provavelmente criado pelo mestre do suspense.

Ou seja, o que é vital para as personagens, mas que não serve de combustível à trama e às necessidades do espectador – como a estatueta de Intriga Internacional e talvez o dinheiro roubado pela Marion Crane de Psicose. Na lista abaixo, há ainda outros detalhes levados à frente por Hitchcock e inesquecíveis ao olhar de qualquer cinéfilo.

O pincel de barbear (O Homem que Sabia Demais)

Um homem simples é avisado de que algo importante está escondido em um pincel de barbear, no banheiro do hotel. É apenas o início de um caso de intriga e sequestro.

o homem que sabia demais

Os rolos de filme e o pacote com a bomba (Sabotagem)

O próprio diretor lamentou a explosão da bomba. Nessa obra estranha, ele mostra os últimos momentos da vida de uma criança: sua passagem por ruas lotadas e com a bomba no ônibus.

sabotagem

O nome da desaparecida (Froy) no vidro do trem (A Dama Oculta)

A protagonista não entende o nome de uma senhora simpática, devido ao barulho do trem. É quando resolve escrevê-lo no vidro – mais tarde, o sinal para saber que não enlouqueceu.

a dama oculta

O copo de leite (Suspeita)

Estranho ver Cary Grant como vilão, levando um copo de leite para a mulher, talvez para matá-la. É o momento mais famoso do filme, no qual Hitchcock colocou uma luz dentro do copo.

suspeita

O anel de esmeralda (Sombra de uma Dúvida)

A menina ingênua ganha um anel de seu tio assassino. A inscrição no objeto, feita com iniciais, ajuda a heroína a descobrir a verdadeira face do homem estranho, em passagem por sua casa.

sombra de uma dúvida

A chave em poder de Alicia (Interlúdio)

O vilão nazista esconde urânio em sua adega, em sua casa na Argentina. Nesse covil de bandidos, a bela moça tem de pegar a chave da adega e conduzir o herói ao sucesso.

interlúdio

Os sapatos que se esbarram (Pacto Sinistro)

Antes de aceitarem cometer crimes trocados, os homens esbarram seus sapatos no interior de um trem, momento sutil em que a relação deles sugere mais que acordos verbais.

pacto sinistro

O cabelo preso de Madeleine (Um Corpo que Cai)

O protagonista, vivido por James Stewart, compara o cabelo de sua perseguida à imagem de um quadro, em um museu. A imagem também remete à espiral de seus pesadelos, à sua vertigem.

um corpo que cai

A estatueta comprada no leilão (Intriga Internacional)

De novo, o vilão esconde planos secretos no interior de um objeto e, de novo, um homem simples envolve-se com perigosos espiões em tempos de Guerra Fria.

intriga internacional

O jornal com o dinheiro escondido (Psicose)

Antes de o assassino levar o jornal, Hitchcock trabalha o suspense como poucos: ele observa o quarto, limpa cada espaço, dá fim ao cadáver da mulher. E não deixa o jornal por ali.

psicose

As damas usam óculos

Em Fascinado pela Beleza – Alfred Hitchcock e suas Atrizes, Donald Spoto argumenta que Hitchcock colocava óculos em suas atrizes quando desejava apresentar mulheres reprimidas e, em alguns casos, ele pouco a pouco as transformava ao longo das obras. “Os óculos (…) se tornaram a versão moderna de Hitchcock para a máscara veneziana – algo que escondia e revelava ao mesmo tempo”, diz Spoto.

Madeleine Carroll em Os 39 Degraus

39 degraus

Joan Fontaine em Suspeita

suspeita

Ingrid Bergman em Quando Fala o Coração

quando fala o coração

Patricia Hitchcock e Kasey Rogers em Pacto Sinistro

pacto sinistro1

pacto sinistro2

Barbara Bel Geddes em Um Corpo que Cai

vertigo