surgimento do cinema

Lumière! A Aventura Começa, de Louis e Auguste Lumière e Thierry Frémaux

Os filmes dos irmãos Louis e Auguste Lumière, com menos de um minuto cada, colocam à prova o poder de sensibilização do cinema. Aos dois pioneiros é dada, em diferentes fontes, a paternidade do primeiro filme projetado a um público pagante, em 1895, o conhecido A Chegada do Trem à Estação de Ciotat, mas não só.

Outros filmes teriam sido exibidos naquele dia. Algumas pessoas, não mais que 40, teriam acompanhado a sessão. A todos que se assustaram com o trem, ou que se deixaram levar pelas novidades dessa “invenção sem futuro”, como teria dito o próprio Louis, o clima era de emoção, de invenção, de exposição de algo jamais visto.

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A novidade entraria com força no século seguinte e passaria do aspecto documental à ficção, das ruas aos estúdios, do mudo ao sonoro, da trucagem à revolução digital. A sensibilização seria agarrada. A “aventura” citada no título do apanhado de filmes dos Lumière, sob a narração de Thierry Frémaux, é a palavra certa para descrever a relação das pessoas com esses primeiros filmes curtos.

À prova do tempo a situação é outra. Teriam, na atualidade, ainda o poder de comover? A narração e a música que acompanham Lumière! A Aventura Começa são fundamentais ao resultado final, mas é também evidente o quanto havia de força nesses pequenos filmes realizados pelos irmãos franceses – com detalhes à espera da descoberta.

É sobre os detalhes que Frémaux debruça-se, análise com paixão e pingos de humor, exame interessante de uma obra que, para muitos, era (e seria) mera reprodução do dia a dia, o documentário. O argumento de que os irmãos embrenharam-se também na ficção coloca um pouco da história oficial do cinema em inflexão, a ser contestada.

Há mistério em toda essa análise, inclusive quando se pensa no primeiro filme realizado e no primeiro projetado. Passar por livros sobre cinema leva a crer na inexatidão. É comum apontar 28 de dezembro de 1895, no Grand Café, Boulevard des Capucines, em Paris, como o ponto inicial dessa aventura, ainda que não seja.

A Chegada do Trem à Estação de Ciotat pode ser, por muitos motivos, a peça “ideal” para essa abertura: o filme, a exibição, a descoberta de uma invenção que ainda engatinhava. Além de conter a locomotiva, o invento que cortava a tela como o progresso mecânico cortava a vida de todos: era também o anúncio de uma nova era.

Cai bem acreditar que tenha sido o primeiro, ainda que A Saída dos Operários das Usinas Lumière, argumenta Frémaux, seja o inaugural. A imagem ali ganhava movimento, os trabalhadores passavam pelo portão e iam para casa em trajes típicos da época, aglomerado com vida mas sem destaque para uma ou outra pessoa. A primeira personagem do cinema, por isso, pode ser o grupo, o movimento, ou mesmo a fábrica.

Comum, ao longo da história do cinema, creditar os Lumière como pais do documentário, enquanto fica ao mágico Méliès a paternidade da ficção. O trabalho de Frémaux, no entanto, explora o lado ficcional dos irmãos franceses, os vários momentos em que é nítida a interpretação das pessoas à frente da câmera.

O realizador que une esses pequenos filmes e os narra entrega-se à magia por trás dos quadros aparentemente secos e sem vida, do movimento quase sempre exibicionista, além do belo retrato de uma época – em diferentes países, faces, arquiteturas, costumes. A aventura do cinema é, parece dizer Frémaux, o mistério da imagem: os pequenos filmes dos Lumière escondem mais do que se imagina e expõem a inclinação constante do inventor ao artista, dos anônimos às personagens que, à mira da câmera, aceitam interpretar.

(Lumière!, Louis Lumière, Auguste Lumière, Thierry Frémaux, 2016)

Nota: ★★★★☆

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O Meu Século 20, de Ildikó Enyedi

Duas personagens representam bem os rumos do século 20, na era das novidades, com o próprio cinema a reboque (ou a estabelecer um ponto sem volta): uma se torna cortesã, a outra uma anarquista. A primeira, Dóra, é também uma ladra, esperta, entregue aos prazeres mundanos; a outra, Lili, alguém a confrontar a ordem, uma feminista.

Ambas são interpretadas por Dorota Segda em O Meu Século 20, da cineasta húngara Ildikó Enyedi. Gêmeas separadas quando eram crianças, em uma noite sob a neve, elas, como algumas questões históricas, insistem em se esbarrar, ou em se refletir. Não por acaso, esse pequeno grande filme termina com ambas em um labirinto de espelhos.

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As mulheres nasceram no dia em que Thomas Edison apresentou a lâmpada elétrica. Sob uma árvore cheia de luzes, as pessoas reúnem-se para celebrar o invento. É a primeira sequência do filme, momento em que a cineasta inclina-se à forma felliniana, com imagens ao mesmo tempo oníricas e realistas, de figuras falsas mas palpáveis.

O filme não quer retratar questões históricas com verossimilhança e recriação fiel. Em suma, e apesar de algumas passagens, não quer se aproximar do real. É como se a História – verdadeira, possível, mas distante – gritasse ao fundo de um filme com toques de cinema mudo, a homenagear os filmes primitivos dos tempos de Edison.

O cinema é coadjuvante importante. Na sala escura, os homens deixam-se levar pela novidade, hipnotizados, enquanto se projetam imagens em mais de uma tela. Esses quadros simulam janelas de um trem ao mesmo tempo em que a câmera move-se. A sétima arte é o anúncio do mundo moderno que se expõe ali, em diversas passagens.

Também um filme de luz, sobre a luz. As pessoas observam as lâmpadas presas à árvore como algo milagroso, impossível, agora tocado; uma banda feita de homens com capacetes cruza o mesmo bosque. Luzes sobre suas cabeças. As pessoas não acreditam no que veem. “É a coisa mais bela que vi na vida”, diz uma mulher que assiste à apresentação.

Mas Edison, o todo-poderoso inventor, vivido aqui por Péter Andorai, não se empolga com a suposta mágica fruto de sua invenção, pequenos pontos de brilho no meio da noite – abaixo das estrelas, do céu com vida, luzes que ganham voz e passam a falar. São como os deuses de A Felicidade Não Se Compra, de Frank Capra.

“Olhem que triste ele está”, observa uma estrela, às companheiras, enquanto tenta chamar a atenção de Edison. Nessas passagens, comuns desde os primeiros instantes, a ideia de Enyedi é colocar a História à mercê da mágica, em um ponto em que a primeira serve apenas às formas ditas pela segunda, pelo impossível que sempre ganha vez.

A tristeza do inventor talvez se deva à noção da pequenez, ou talvez à ironia de ser ao mesmo tempo protagonista da História e o homem que, abaixo de luzes maiores, não é ninguém, ou uma partícula, pouco ou quase nada no meio do universo: um animador de auditório? Um inventor tratado como artista, em mundo de palcos e espetáculos?

Dóra e Lili nascem nessa mesma noite, ao olhar das mesmas estrelas, para depois trilharem caminhos opostos. Mais tarde, um intelectual, ao realizar uma palestra sobre mulheres e para mulheres, diz que todas as damas – das mais novas às mais velhas – estão inclinadas apenas a dois papéis, sem escapatória: o da mãe e o da puta.

Sua observação (além de remeter ao grande filme de Jean Eustache) opõe-se às duas mulheres em cena. Em seus papéis, em suas fugas e flertes, presas à sala de espelhos do término, elas não se definem facilmente. Alimentam uma comédia sobre um tempo de ruptura e avanços científicos, cortado por animais e estrelas falantes.

(Az én XX. századom, Ildikó Enyedi, 1989)

Nota: ★★★★☆

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