subtexto gay

Rio Vermelho, de Howard Hawks

O confronto entre as personagens de John Wayne e Montgomery Clift é inevitável. A segunda, já adulta, observa a primeira sabendo de seus problemas, de suas mudanças de humor. Reconhece no velho homem do mundo o carrasco, e ainda assim aguarda a hora para confrontá-lo, para, de filho para pai, levantar-se em revolta.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Brigam na primeira vez em que se encontram. O menino Matt Garth saca uma arma e leva uma bofetada do outro, que acabou de perder sua companheira, morta pelos índios em Rio Vermelho. Sem pressa, o diretor Howard Hawks desenvolve a história a partir da relação desses homens com alguns outros, a partir de suas diferenças.

O filme, um dos maiores faroestes do cinema, apoia-se nesse reino masculino de encaradas e intenções silenciosas – descrito, por Pauline Kael, como uma versão a cavalo de O Grande Motim. Assim, Thomas Dunson (Wayne) passa à posição do Capitão Bligh, o tirano imortalizado por Charles Laughton na versão clássica de 1935.

Segundo Kael, Borden Chase, autor da história e um dos roteiristas, confirmou a relação de proximidade com O Grande Motim. Nesse sentido, ousa dar a Bligh, aqui na pele de Wayne, um passado, ou um motivo para sua insanidade. Faz-se o carrasco sem perder algum princípio, a quem não escapará a missão de guiar a boiada.

No momento da saída, em mar bovino que toma a tela, Hawks move a câmera em panorâmica, revela o tamanho da encrenca, da aventura. Dunson pede que Matt conduza os homens e os animais; o rapaz dá o grito inicial, à medida que se corta para a alegria de todos aqueles seres envolvidos na empreitada, com rostos de felicidade.

Pela transformação de Matt, da criança ao adulto, do menino de frases fortes ao rapaz de dubiedade sexual, corre o tempo de maturação – e de mistério – da loucura do outro, Dunson, cujos cabelos escorridos para trás alimentam seu aspecto intocado, um pouco fantasmagórico. A frieza que Wayne leva à personagem ajuda nesse aspecto.

Rio Vermelho, contudo, é um filme de Hawks. Isso explica por que os socos e o confronto final podem dar vez à graça: diferente de outros cineastas que reservavam ao faroeste o espaço de seres que nunca se curvam, Hawks não descarta a leveza da comédia, a história que se guia sem enredo claro, fincada em personagens.

Os camaradas – pai e filho – podem rir ao fim sem que fique a impressão de que traíram o público. O entendimento entre homens, às gargalhadas, é possível. A culpa resta à mulher, que teria “enfeitiçado” Dunson com seu amor antes de ser morta pelos índios, dama a quem o mesmo deu a pulseira de sua mãe, objeto encontrado no punho do estranho.

Matt é verdadeiro, é diferente de Dunson. Enquanto Clift carrega outro tipo de interpretação, Wayne reserva a aparência petrificada, a certeza do mal, a promessa de que vai encontrar todos que o traíram, caçá-los. Não se duvida – fantasmagórico como é. Clift, o jovem em ascensão, atira como se brincasse, troca de armas com outro rapaz, vivido por John Ireland, em interessante subtexto gay, outra das brincadeiras de Hawks.

O diretor força o gênero, como se o reinventasse pela leveza desses atos, pela impossibilidade (a muitos) de dois homens sentirem-se atraídos naquele meio. Aproxima a aventura da vida comum e, ao colocar a câmera no interior da carroça enquanto atravessa o rio Vermelho, põe todos na mesma jornada real desses homens entre gado.

Importante não se confundir: apesar das concessões, é um clássico faroeste que tem ao centro o maior dos atores do gênero, um galã da geração de Marlon Brando, alguns homens tipicamente caipiras e sujos, uma dama a apimentar a situação, além dos gritos de cada um, como eco, enquanto guiam a boiada à água, para cortar o rio e algum estado.

(Red River, Howard Hawks, 1948)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Dez clássicos com subtexto gay

A relação gay em Ben-Hur

Nos especializamos nos subtextos… sem dizer uma palavra sobre ele. O melhor exemplo disso para mim foi escrever Ben-Hur. Ben-Hur e Messala, um judeu, o outro romano, se conhecem desde a juventude. Brigaram por política e se odiariam pelas próximas três horas. Não é muita coisa para fazer um filme de três horas, mesmo para um épico como Ben-Hur. O diretor, William Wyler, perguntou o que eu ia fazer. “Quero tentar uma coisa. Digamos que eles se conheçam há muito tempo. Foram amantes e agora se reencontraram, e o romano quer reatar o romance. Messala, que é Stephen Boyd, quer começar de novo com Ben-Hur, que é Charlton Heston. Sei lá por quê. É um romano.” Willie ficou me olhando, incrédulo. Falei: “Não vou falar nada. Nem uma palavra. Não será declarado, mas ficará claro que Messala é apaixonado por Ben-Hur.” Willie disse: “Gore, isto é Ben-Hur. O subtítulo é Um Conto de Cristo”. Aí ele disse: “Bem, é melhor do que o que temos. Vamos tentar”.

(…)

[Wyler] Perguntou se eu tinha falado com alguém. Disse que não. Ele disse: “fale com Boyd, o Messala. Não diga nada a Heston. Pois ele desmoronaria. Deixe ele comigo”. Heston achou que fazia um machão, com a cabeça sempre erguida. Stephen Boyd interpretou as duas coisas. Alguns olhares são óbvios.

Gore Vidal, escritor, um dos roteiristas de Ben-Hur, mas não creditado. A declaração está no documentário O Outro Lado de Hollywood (Rob Epstein, Jeffrey Friedman, 1995). Apesar de o roteiro adaptado do livro de Lew Wallace ter sido assinado apenas por Karl Tunberg, ele passou por outras mãos, como as de Christopher Fry e as do próprio Vidal. Abaixo, Boyd e Heston em cena famosa.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Dez clássicos com subtexto gay

Bastidores: Gilda

A Hollywood dos anos 40 era medrosa demais para se permitir qualquer ambiguidade moral, mas alguns fatos dão base à ideia de que pode haver um – como é mesmo a palavra? – “subtexto” maroto em Gilda. O roteiro foi obra de duas mulheres: Jo Eisinger, que fez o rascunho, e Marion Parsonnet, que lhe deu forma final. Foram elas que criaram Gilda como uma grande mulher e, de quebra, podem ter-se divertido inoculando dubiedades nos dois personagens masculinos. Você dirá que o diretor – Charles Vidor – era um homem. Mas, na política dos antigos estúdios, o verdadeiro autor de um filme era quase sempre o produtor executivo, com o diretor não passando de um funcionário subalterno. E o produtor de Gilda era, não por acaso, outra mulher: a poderosa Virginia Van Upp, protegida do patrão Harry Cohn e com carta branca na Columbia. Cohn era famoso pela burrice e, se Virginia quisesse contrabandear qualquer ideologia exótica para dentro do seu filme, ela o faria. A Cohn só interessava que Rita Hayworth, já com 28 anos, tivesse finalmente um papel que deixasse todo mundo salivando por ela.

Ruy Castro, em texto escrito em 1999 e incluído no livro Um Filme é Para Sempre (Companhia das Letras; pg 204. Organização de Heloísa Seixas). O texto foi reproduzido no blog Análise Indiscreta e pode ser lido aqui.

gilda

Veja também:
Dez clássicos com subtexto gay

Dez clássicos com subtexto gay

Está tudo lá, mas nem todo mundo vê. Para desviar da censura, Hollywood encontrou sua forma: buscar no subtexto a mensagem desejada. Àquele que pretende mergulhar nessas obras, é possível ver como homens ignoravam mulheres e preferiam outros homens, ou como mulheres pareciam mais atraídas por outras damas.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Hollywood, no fundo liberal e impossibilitada de mostrar o que desejava após vigorar o Código Hays, de 1934 aos anos 60, sempre encontrou nos subtextos, no não “evidenciado”, o jeito de expor o sexo. Diretores como Billy Wilder e Preston Sturges sabiam fazer isso como ninguém, sobretudo no auge da comédia screwball.

E a homossexualidade não escapava desse meio, com personagens ambíguas, vilões estranhos, maneiras de levar aos objetos o que parecia ser dos corpos. Isso sem contar os homens que apadrinhavam outros homens, como se, na tela, fossem “parceiros” ou “velhos amigos”. Abaixo, uma lista sobre como a homossexualidade aparecia sem aparecer.

Rainha Christina, de Rouben Mamoulian

Lançado pouco antes de o Código Hays ganhar força, o filme traz um beijo de Greta Garbo em outra mulher, como se fosse apenas um cumprimento entre amigas, ou para mostrar como a patroa era bondosa com sua jovem conselheira. Três anos antes, Marlene Dietrich também havia beijado outra mulher no belo Marrocos.

rainha cristina

O Falcão Maltês, de John Huston

Além da personagem efeminada de Peter Lorre, o filme traz uma possível relação entre o bandido Sydney Greenstreet e seu “afilhado”, interpretado por Elisha Cook Jr. É o primeiro filme verdadeiramente noir de Hollywood.

o falcão maltês

Gilda, de Charles Vidor

Outro caso interessante da relação entre patrão e funcionário, na qual o capanga vivido por Glenn Ford teria “algo a mais” com o marido de sua amada, Gilda, interpretado pelo sempre malvado George Macready. Há diálogos que deixam isso quase às claras.

gilda

Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock

O verdadeiro motivo que leva dois amigos a matar um terceiro seria um possível triângulo amoroso mal resolvido. No filme, eles escondem o corpo da vítima em um baú, sobre o qual é celebrado um banquete.

festim diabólico

Rio Vermelho, de Howard Hawks

Trata-se de uma cena sempre lembrada pelos cinéfilos. É o momento em que as personagens de Montgomery Clift e John Ireland expõem suas armas. Diz o homem de Ireland: “Sabe, existem somente duas coisas mais atraentes que uma boa arma. Um relógio suíço ou uma mulher de qualquer lugar. Alguma vez você já teve um relógio suíço?”.

rio vermelho

Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock

O mestre do suspense de novo. E de novo com o ator Farley Granger (que era homossexual). Aqui, dois homens esbarram os pés em uma viagem de trem, trocam conversas e aceitam cometer crimes trocados – e talvez um pouco mais do que isso.

pacto sinistro

Juventude Transviada, de Nicholas Ray

A revolta da personagem de Sal Mineo e seus segredos nem sempre ficam claros, o que reforça sua inclinação gay. Durante o filme, ele vê em James Dean, o “rebelde sem causa”, alguém inspirador e para ter ao lado. Um amigo que nunca teve.

juventude transviada

Casa de Bambu, de Samuel Fuller

Após sugerir uma relação gay entre Jesse James e Robert Ford em Matei Jesse James, seu primeiro filme, Fuller volta mais uma vez à condição do capanga protegido pelo chefe, ambos vividos por Robert Stack e Robert Ryan. O cenário é o Japão dominado por gangues americanas após a Segunda Guerra Mundial.

casa de bambu

Ben-Hur, de William Wyler

O próprio roteirista Gore Vidal assumiria, mais tarde, que escreveu o texto pensando em uma relação gay entre o herói e seu algoz, Messala (Stephen Boyd). Segundo histórias de bastidores, Boyd sabia do caso, mas o astro Charlton Heston – famoso conservador, membro da Associação Nacional do Rifle – nem desconfiava.

Ben-hur

Spartacus, de Stanley Kubrick

No terreno de Spartacus, com o roteiro de Dalton Trumbo, as coisas começam a ficar evidentes: entre outras sequências, há o famoso momento em que o criado, vivido por Tony Curtis, dá um banho em seu mestre, o poderoso Crassus (Laurence Olivier).

spartacus