Stig Bjorkman

Bergman segundo Scorsese

Nos anos 1950, havia certos filmes e cineastas que tinham um impacto dramático nos espectadores, nas possibilidades do cinema, no que podiam fazer e até onde podiam ir. Havia Kurosawa, com Rashomon (1950) e Os Sete Samurais (1954). Havia Fellini, com Noites de Cabíria (1957) e A Estrada da Vida (1954). Havia Satyajit Ray com a trilogia Apu. Havia os filmes russos como Quando Voam as Cegonhas (1957). E havia Bergman. É impossível superestimar o efeito que esses filmes tinham nas pessoas. Não que Bergman tenha sido o primeiro artista a confrontar temas sérios. Mas ele havia trabalhado com uma linguagem simbólica e emocional que era séria e acessível. Ele era jovem, impunha um ritmo incrível, mas tratava de memória, de velhice, da realidade da morte, da realidade da crueldade, e fazia tudo de forma tão vívida, tão dramática. A conexão de Bergman com o público era um pouco como a de Hitchcock – direta, imediata.

Martin Scorsese, cineasta, em entrevista a Stig Björkman (íntegra da entrevista feita em 2010 para o documentário …Mas o cinema é minha amante, publicada no catálogo da mostra Ingmar Bergman, de 2012, do Centro Cultural Banco do Brasil; pg. 197).

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Tarkovski segundo Bergman

Entrevista: Giscard Luccas (Mostra Ingmar Bergman)

O jornalista Giscard Luccas fala dos filmes de Ingmar Bergman com riqueza de detalhes: lembra cenas, passagens e muitos gestos de delicadeza. De delicadeza, por sinal, o mestre sueco sabia como poucos. Seus filmes reproduzem como outros poucos – de outros poucos diretores à sua altura – o estado do homem na corda bamba. O que, para Giscard, é um estado que permanece e que tanto contribui para a afirmação do cineasta como um dos grandes da história do cinema.

Com filmes variados, de tempos e com elencos diferentes, a obra de Ingmar Bergman aterrissa agora no Brasil, na mais completa mostra dedicada ao diretor que se tem notícia. Começou no mês passado, no Rio de Janeiro, e é aberta neste dia 13 de junho, no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), em São Paulo. Giscard, o curador, conta como foi pinçar os filmes, a dificuldade em encontrar agenda às disputadas obras – 52 filmes, além de documentários – e não esconde seu amor pelo legado do diretor.

Produtor executivo da F.J. Cines, Giscard cresceu em um meio em que se respira cinema. Ele é filho de Francisco Luccas, conhecido dono de grandes e luxuosas salas de cinema nos anos 1970 e 1980 – além de distribuidor de filmes. Muitas obras desconhecidas de Bergman no Brasil, por sinal, foram trazidas em um passado não tão remoto por Francisco. Depois chegou ainda a lançar alguns títulos em VHS, ramo que não apenas explorou, mas no qual também mostrou pioneirismo. Atualmente, a F.J. Cines mantém dois cinemas no centro de São Paulo, o Cine Dom José e Windsor.

A mostra no CCBB ainda segue para Brasília. Trata-se de uma oportunidade única aos cinéfilos que querem ver os filmes de Bergman em tela grande, com um número expressivo de cópias em película. Além disso, haverá uma palestra com o jornalista Stig Bjorkman, especialista na obra do diretor, e um curso ministrado pelo crítico Sérgio Rizzo, sobre as fases de Bergman. Outra boa maneira, assim, para se comprovar a grandeza do realizador de Persona e Monika e o Desejo.

Quanto tempo demorou para reunir tantos filmes e tantas cópias? Qual a maior dificuldade?

Tudo começou há mais de dois anos. Trabalhamos com distribuição de filmes e percebemos que nunca havia ocorrido uma grande mostra no Brasil – uma que contemplasse um grande número de filmes do Bergman. O Grupo Estação, no Rio de Janeiro, chegou a fazer uma há alguns anos, mas com este tamanho que chega agora nunca houve. Participamos do edital e fomos selecionados para fazer a mostra. A partir desse momento, fizemos contato com o Instituto Sueco de Cinema e o mais difícil foi coincidir as datas. Afinal, são três meses de mostra, em três cidades (Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília). Só em 35 mm vieram 44 cópias. O instituto, que faz esse controle, está ligado ao governo sueco e é o responsável por ceder os filmes, que viajam pelo mundo. Antes do Brasil, as cópias estavam na Rússia.

Sabemos que o Bergman, como todo grande cineasta, tem as obras mais conhecidas, como O Sétimo Selo e Persona, e aquelas menos vistas. Entre as que estão no segundo grupo, qual você destaca?

Sua pergunta é injusta (risos). Por que desde os anos 1940 já temos o estilo do Bergman sendo formado, mesmo em Crise, talvez o menos bergmaniano de seus filmes, já tem alguns traços dele, já que, naquela época, ele era um homem do teatro. Em Crise, ele está procurando suas formas. Desses primeiros filmes, Monika e o Desejo é um marco. Aqui já temos o grande cineasta, como também em Chove Sobre o Nosso Amor, que é de uma sutileza e que mostra o que o Bergman viria a ser com o seu cinema posterior. Posso citar também Sorrisos de uma Noite de Amor, talvez sua única comédia, ao lado de O Olho do Diabo. Mesmo nelas ela já era feroz com seus personagens, já havia aqueles pequenos demônios a rondar por ali.

Em 2005, o Woody Allen, que é fã confesso de Bergman, disse que não vivemos mais em uma cultura cinematográfica. Diz que o público, na maior parte, não espera pelos novos filmes de grandes diretores como ele e o Truffaut, por exemplo. Um cineasta como o Bergman ainda tem grande apelo ou surge anacrônico à maioria?

Acredito que ainda possui um grande apelo. Seus temas são tão vigentes quanto eram nos anos 50. O homem não superou o medo da morte e o que está relacionado a ela não é tratado de forma passiva. Além disso, há a questão religiosa. Para o homem, a fé ainda está à frente da ciência e Bergman traz as questões relacionadas ao silêncio de Deus. São questões atemporais. Claro que a tecnologia mudou. Muita gente pode ver os filmes dele, hoje, e questionar quesitos técnicos, mas as ideias estão lá.

Os filmes são um reflexo do tempo dele.

Sim, sem dúvida. E vale lembrar que o Bergman se considerava um homem do teatro, ainda mais do que do cinema. O sucesso, no entanto, veio com o cinema. Seu teatro já tinha todo um clima pesado. E tem outra frase interessante do Woody Allen, na qual ele diz que “o que interessa no Bergman são os abismos aos quais ele nos levará”.

Além dos filmes, a mostra traz uma palestra com Stig Bjorkman. Qual a importância dele à continuidade da obra de Bergman?

O Stig, além de ser um jornalista em quem o Bergman confiava, se aproximou do diretor e se tornou um amigo, uma pessoa que esteve próximo ao universo do Bergman. Ele passou a participar do círculo dele e o analisou por dentro.

Muitas vezes Bergman é apontado como o cineasta “da alma humana”. Antonioni, que morreu no mesmo dia que ele, é chamado de “o cineasta da incomunicabilidade”. Você concorda com tais termos?

Acho que reduz muito o que os dois fizeram. Não concordo. Bergman também falava sobre a incomunicabilidade. Persona, por exemplo, é um filme sobre a incomunicabilidade. A Liv Ullmann se comunica através da incomunicabilidade. O mesmo pode ser dito do protagonista de Morangos Silvestres. Seu universo o levou a se fechar, as pessoas estavam refratárias a ele. Curioso que, depois, o Bergman percebeu que o personagem do Victor Sjöström era alguém como ele, apesar de o diretor ser muito mais novo.

O Bergman teve um grande colaborador, entre outros, que é o fotógrafo Sven Nykvist. A obra do Bergman teria o mesmo peso sem ele?

Não sei te responder. Mas acho que mesmo alguns aspectos técnicos, como ângulos de filmagem, já estavam presentes antes de o filme ser feito. Não era só uma luz a mais ou a menos. Em A Hora do Lobo, por exemplo, há o caso do personagem do Max Von Sydow, que conta um caso que, na verdade, ocorreu com o próprio Bergman. Trata-se daquela história de estar trancado no armário. Ele conta isso ascendendo um fósforo. É como se estivesse na escuridão desde a infância e, ao ascender o fósforo, mostra uma tentativa em escapar dela. Pelo menos é uma leitura minha. Há, também, aquela menina que será queimada em O Sétimo Selo, aquela a quem eles dão água. Há uma luz, ali, que é linda. E isso, de alguma forma, contribuiu muito.

Ele fez muito sucesso também pelos grandes desempenhos femininos que arrancou. Alguma cena favorita com alguma grande atriz que trabalhava com o diretor?

(Pensa bastante antes de responder). Acho que qualquer cena da Harriet Andersson em Gritos e Sussurros é muito forte. Ela está doente, na cama, e as irmãs acodem ela.

E ela é a Monika, não é?

Pois é. Monika e o Desejo também tem coisas com muita sensibilidade, mostra uma juventude muito pura. A saída de casa, as descobertas, mas no bom sentido, no sentido de descobrir a vida. Tudo é muito natural.

Rafael Amaral (13/06/2012)