Steven Soderbergh

Albert Finney (1936-2019)

Alguns rostos definem o cinema britânico do fim dos anos 1950 e início dos 1960. Difícil não pensar no Laurence Harvey de Almas em Leilão, na Rita Tushingham de Um Gosto de Mel ou mesmo no inesquecível e inocente Tom Courtenay de O Mundo Fabuloso de Billy Liar. Havia também Albert Finney em Tudo Começou num Sábado.

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Sua personagem, Arthur, reflete um tempo de desilusão, uma juventude sem caminho senão o dos pubs, das fábricas, dos casamentos feitos à medida. O rapaz da paisagem, no fim, não é diferente do rapaz da abertura: com o jeito furioso de Finney, Karel Reisz realizou um grande filme sobre a indiferença, a aventura nula, certos costumes.

Com Finney, o ator perfeito àquele que poderia ser um pequeno papel, de um pequeno ser, viu-se uma geração desfilar. Ou a ideia do que um país podia ser. Ficavam de lado os quadros perfeitos do cinema britânico de estúdio, passava-se à expressão de quem não estava nem aí para tudo, ou apenas desesperado para escapar para o bar.

O mesmo Finney que, não muito depois, serviria ao Tom Jones de Fielding, alguém que, só por Finney, não seria diferente do rapaz de Reisz, inserido no universo dos anos 1960: o falso aventureiro, mulherengo, à estrada, não exatamente em busca de si mesmo. O filme ganhou o Oscar. Finney recebeu a primeira de cinco indicações. Nunca venceu.

Para alguém que fazia o que quisesse, melhor era ser criança. Jones, ou Finney, adota esse estilo descontraído, esse dar de ombros constante a uma história – agora a favor dos segundos, das delícias de se estar na tela, e seguir fazendo nada senão se divertir. Chega-se então à cena da refeição, plano e contraplano que resumem o desejo pela carne.

O mesmo ator poderia ser outro, se banhar em maquiagem, retornar ao teatro e ao ornamento, à aparência de névoa que recobre, por exemplo, Assassinato no Expresso Oriente. Finney, um perfeito Hercule Poirot, servia-se das falsidades de seu tipo escondido sob o bigode, cabelo oleoso, cujos pensamentos alguém poderia pagar caro para saber.

Nada lhe escapa. Finney fica entre o monstro e o sábio, alguém que despeja as cartas pouco a pouco, no jogo ao qual cada um – todos os outros, os criminosos – adere, como se do herói deslocado pudessem se livrar. Não podem. Continua ali até decifrar o que ocorreu e, habilidoso, monta o cenário ideal para reunir o grupo e comunicar a descoberta.

Às damas – não às falsas de Assassinato – seria um perfeito contraponto: no filme de relacionamento Um Caminho para Dois, ao lado de Audrey Hepburn, ou, mais tarde, no extraordinário À Sombra do Vulcão, de John Huston, ao lado de outra musa, Jacqueline Bisset. Nele, faz um cônsul embriagado em um país da América Latina.

Huston conhecia bem os embriagados. Ele próprio, em diferentes filmes e continentes, teve seus momentos de “fuga”, a ver sentido nessa perdição. A jornada de Geoffrey Firmin, do livro de Malcolm Lowry, não deixa prever caminhos, e cada pequena rota fornece um novo achado, outra queda, ataques de alguém que encontra saídas para viver.

Como outros grandes atores de sua geração, Finney ficaria, mais tarde, com coadjuvantes. Para Steven Soderbergh ou Tim Burton. Presenças que não vendiam ingressos, é certo, mas que davam peso e faziam a diferença. Não seria pequeno nem em uma avalanche de ação como 007 – Operação Skyfall. A um ator como tal podia se reservar apenas uma pequena parte, sob forte máscara, e não passaria despercebido.

Foto: Tudo Começou num Sábado

Veja também:
À Sombra do Vulcão, de John Huston
Assassinato no Expresso Oriente, de Sidney Lumet
12 grandes rostos do novo cinema britânico

Os dez melhores indicados ao Oscar que não venceram o prêmio (anos 00)

Ganhadores como GladiadorO Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei e Crash: No Limite revelam que, se tratando do prêmio, uma década até então nunca tinha sido tão desinteressante. Alguns indicados, contudo, compensam, superam – e de longe – os vencedores. É a década do 11 de Setembro, com Michael Moore tão vaiado quanto aplaudido ao ganhar o Oscar por Tiros em Columbine, com Polanski e Scorsese finalmente ganhando suas estatuetas – não por seus melhores trabalhos.

10) Traffic: Ninguém Sai Limpo, de Steven Soderbergh

Três histórias diferentes, com tonalidades diferentes, sobre personagens no mundo das drogas, na fronteira entre Estados Unidos e México.

Vencedor do ano: Gladiador

traffic

9) Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood

Três garotos têm a infância marcada por um crime que continuará a persegui-los. Décadas depois, um deles tem a filha assassinada.

Vencedor do ano: O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei

sobre meninos e lobos

8) O Tigre e o Dragão, de Ang Lee

Com esse filme de artes marciais, o diretor de Razão e Sensibilidade traz grandes cenas de ação e ainda deixa espaço para uma história de amor.

Vencedor do ano: Gladiador

o tigre e o dragão

7) Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino

Uma moça judia que trabalha em um cinema e alguns vingadores decretam o fim dos inimigos nazistas nesse filme original e inventivo.

Vencedor do ano: Guerra ao Terror

bastardos inglórios

6) Capote, de Bennett Miller

A obra desenrola-se após um crime brutal, com o outro lado da vida americana: é o clima que inspira Truman Capote a escrever A Sangue Frio.

Vencedor do ano: Crash: No Limite

hoffman

5) As Horas, de Stephen Daldry

Enquanto a escritora Virginia Woolf sofre com depressão, seu livro Mrs. Dalloway muda a vida de outras pessoas, décadas mais tarde.

Vencedor do ano: Chicago

as horas

4) Boa Noite e Boa Sorte, de George Clooney

O apresentador de televisão Edward R. Murrow compra briga com o senador Joseph McCarthy, contra sua “caça às bruxas”.

Vencedor do ano: Crash: No Limite

boa noite e boa sorte

3) Assassinato em Gosford Park, de Robert Altman

Como em A Regra do Jogo, personagens em uma casa de campo começam a se revelar. E o tal assassinato não é o mais importante.

Vencedor do ano: Uma Mente Brilhante

assassinato em gosford park

2) O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee

O amor entre dois brutos dá espaço à sensibilidade – apesar de tudo. De tempos em tempos, eles reencontram-se e lutam para ficar juntos.

Vencedor do ano: Crash: No Limite

1) Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson

Essa obra-prima tem Daniel Day-Lewis em seu melhor papel, com as mãos molhadas de sangue, tendo de afagar o filho encharcado de petróleo.

Vencedor do ano: Onde os Fracos Não Têm Vez

sangue negro

Veja também:
Os melhores indicados dos anos 30
Os melhores indicados dos anos 40
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Os melhores indicados dos anos 60
Os melhores indicados dos anos 70
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Os melhores indicados dos anos 90

Terapia de Risco, de Steven Soderbergh

Os “efeitos colaterais” indicados pelo título original de Terapia de Risco não estão somente ligados aos medicamentos prescritos por um psiquiatra à sua paciente. O diretor Steven Soderbergh, até certa altura, faz o espectador acreditar que se trata de um filme sobre questões médicas e psicológicas.

Soderbergh, mais uma vez, vem para atacar a vida de luxo que boa parte dos americanos almeja, tal como a falta de escrúpulos para chegar até ela. Aqui, a indústria farmacêutica é apenas um fundo, ainda que não esteja isenta de um pacote de maldades.

Ninguém sai limpo no universo do diretor. Do médico à paciente, da justiça às grandes corporações – todos tem algo de podre e manipulável.

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Na trama, uma garota tenta se suicidar e sofre com uma onda de depressão após seu marido deixar a cadeia, onde cumpriu pena por crimes financeiros. Ela é Emily Taylor (Rooney Mara), moça com uma vida boa e dinheiro. Em determinado momento, toda sua estrutura desmorona – seja a financeira ou a psicológica.

Hospitalizada após o acidente, ela será tratada pelo psiquiatra Jonathan Banks (Jude Law), que, por sua vez, também faz serviços extras para grandes empresas farmacêuticas ao utilizar alguns de seus clientes como cobaias.

O diretor transformará o espectador em espécie de paciente de Jonathan e acompanhante de Emily: uma forma de fazê-lo acreditar que tem acesso a tudo o que está em jogo, a tudo o que aparece no relevo dessa história repleta de reviravoltas.

A apunhalada vem depois: ninguém é o que parece em Terapia de Risco – nem a bela garota atormentada (responsável por um crime enquanto estava supostamente sob o efeito de um novo medicamento), nem seu médico (em busca de inocência).

A imagem de abertura apresenta um rastro de sangue pela casa. O tal rastro leva à miniatura de um barco sobre um sofá. É um belo resumo do filme, sobre como alguns crimes são cometidos para se chegar a uma vida de luxo, sendo o barco sua representação. É nele que Emily, certa vez, sentiu as benesses da vida burguesa.

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Surgem outras peças para complicar a história. A principal delas é a também psiquiatra Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones), uma femme fatale a serviço de um filme frio, uma mulher sem emoções e com dificuldade até de parecer sexualmente desejável – como todas as outras personagens, vale dizer.

O diretor de Sexo, Mentiras e Videoteipe faz uma obra sombria, com um universo de monstros coberto por um véu branco, chique e indolor. Na verdade, boa parte de seu cinema tem se apoiado no desejo de descobrir o que está por trás desse véu, no interior dessa sociedade americana de gente aparentemente comum.

O trabalho anterior de Soderbergh, Magic Mike, tratava de um show adulto e masculino, no qual homens dançam para mulheres que pagam por aquela exposição. Um show que revela e esconde ao mesmo tempo: misto de gratuidade e poder em tempos de crise econômica, enquanto esses mesmos jovens sonham em prosperar.

A crítica por trás de Terapia de Risco é dirigida, sobretudo, àquele belo rostinho de anjo da menina que finge depressão, também ao médico que não quer apenas retomar o controle sobre ela, mas reconstruir a esperada imagem familiar. O fim, por isso, é tão ou mais revelador que a abertura. O jeito americano de ser venceu a batalha.