Steve Jobs

Monólitos da vida real

O monólito de 2018 está acoplado ao corpo humano, quase uma extensão dos membros superiores. Aparelhos celulares e tablets que têm se mostrado fonte de tristeza, solidão e discórdia, muito mais do que de iluminação.

A semelhança do iPhone com o monólito só não é mais assombrosa porque Steve Jobs e seus colegas são fruto da cultura que bebe consciente ou inconscientemente em Kubrick. É uma geração que conheceu 2001 ainda criança e que carrega o filme em seu imaginário.

No enredo do longa, a equipe que avista o misterioso objeto negro na Lua, procurando manter segredo sobre a descoberta, inventa a história de que haveria uma epidemia na base lunar. No episódio inicial do filme, o efeito do monólito nos símios é epidêmico: o primeiro animal transforma o osso em ferramenta/arma, e não tarda para que seja imitado pelos outros.

O paralelo com a atualidade salta aos olhos: adultos, jovens e crianças vivem afundados nesses monólitos portáteis, com consequências que vão de epidemias de obesidade, depressão e suicídio até atentados com armas.

Helen Beltrame-Linné, editora-adjunta da Ilustríssima, no caderno Ilustríssima (Folha de S. Paulo; 01 de abril de 2018). Leia aqui o texto completo (para assinantes). Abaixo, três momentos de 2001: Uma Odisseia no Espaço em que surge o monólito alienígena.

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O Círculo, de James Ponsoldt

À contramão do filme que aponta aos problemas de um mundo cada vez mais desnudado pelas redes sociais, Emma Watson parece ter saído de uma ficção científica adolescente. Em O Círculo, ela não funciona no centro de uma batalha contra homens malvados que traçam planos para colocar a raça humana sob seu poder – ou no interior de sua nuvem.

O título refere-se a uma empresa de tecnologia nunca bem explicada. Até o fim, o espectador não sabe ao certo como opera essa rede social. E esse talvez seja um problema de filmes sobre mundos virtuais: o que resta ao cineasta é sempre o que pode mostrar, e o que realmente interessa, no cinema, é o material humano.

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À exceção de Tom Hanks, tal material é aqui escasso. O problema ora ou outra se volta à heroína com pouco carisma e humanidade, à forma da adolescente deslumbrada com o emprego na empresa dos sonhos, depois a jovem desiludida e levada a comandar, nos momentos infantis que fecham o filme, a legião de “revolucionários” em busca de liberdade.

E o filme fica ainda mais problemático: sob a direção de James Ponsoldt, O Círculo não tem coragem de tocar na ferida, de mostrar uma personagem decidida a romper com o mal que a cerca. Ao contrário, a Mae de Watson ainda continuará a apoiar, em parte, o que a empresa prega: mostrar tudo, com câmeras, para se chegar a um mundo mais transparente.

Hanks é o rosto à frente da companhia, o aparente gênio com traços de Steve Jobs, o homem “legal” que fala “coisas certas” e é idolatrado pelos jovens da plateia. Ele lança pequenas brincadeiras enquanto expõe seus novos brinquedos tecnológicos e faz o mundo virtual parecer a única saída à tão sonhada democracia plena.

O espaço superior da empresa, em seus campos abertos, jardins, prédios futuristas, leva sempre a pensar no paraíso para adultos que não cresceram muito. A certa altura, contudo, Mae será convidada a conhecer o outro lado: os porões metálicos que servem – e continuarão servindo – para armazenar informações sobre pessoas conectadas à rede.

Não demora para que Mae cruze o caminho do líder. Em situação pouco convincente, ela resolve praticar canoagem à noite, sofre um acidente e é resgatada. Sua vida foi salva graças a alguma câmera ligada em algum lugar próximo a ela. Sua vida passa a servir de exemplo.

A empresa em questão prega as vantagens da vigilância absoluta: será possível salvar pessoas e localizar criminosos, em rede, com extrema facilidade, se todos estiverem dispostos a dividir suas vidas pessoais. Propõe o desejo macabro que, no fundo, já é realidade no mundo atual: grandes empresas de tecnologia faturam alto ao penetrar a vida de seus usuários. No círculo, todos conseguem enxergar todos – menos quem os controla.

(The Circle, James Ponsoldt, 2017)

Nota: ★☆☆☆☆

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Sully: O Herói do Rio Hudson, de Clint Eastwood

As melhores atuações de 2016

Não dá para reclamar da safra. Nem de filmes nem de atuações. Foi um ano forte principalmente para as mulheres, para algumas veteranas que retornaram com grande força e foram – e seguem sendo – reconhecidas. Entre os homens há veteranos e rostos menos conhecidos. São figuras que conferem alma e grandeza a essas obras.

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Melhor atriz

A francesa Isabelle Huppert sangra, sofre, atrai homens e brinca com as personagens que desfilam ao seu lado. O sofrimento de Sonia Braga, a Clara de Aquarius, é de outra natureza: tem a ver com seu passado, com seu apartamento. Decidida a quebrar barreiras, mas sofrendo com o marido também livre, está a incrível Trine Dyrholm de A Comunidade – a melhor coisa do filme. Ao contrário dessa mulher experiente está a Rooney Mara de Carol. Para completar, a forte Amy Adams de A Chegada.

Amy Adams em A Chegada

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Isabelle Huppert em Elle

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Rooney Mara em Carol

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Sonia Braga em Aquarius

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Trine Dyrholm em A Comunidade

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Outros destaques: Cate Blanchett em Carol; Catherine Frot em Marguerite; Emmanuelle Bercot em Meu Rei; Kate Beckinsale em Amor & Amizade.

Melhor atriz coadjuvante

Algum tempo sem fazer algo relevante no cinema, Jane Fonda vem em uma pequena participação como a atriz decadente de Juventude. Em busca de um recomeço está a sentimental mas fechada Micaela Ramazzotti. Magaly Solier, em A Passageira, também move sua história, uma história que remete ao passado, aos tempos do militarismo no Peru. Passado, também, que serve a ótima Rinko Kikuchi. No caso de Shirley Henderson, o que se impõe é a imaginação, em uma terra de ogros, bruxas e reis.

Jane Fonda em Juventude

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Magaly Solier em A Passageira

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Micaela Ramazzotti em Loucas de Alegria

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Rinko Kikuchi em Ninguém Deseja a Noite

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Shirley Henderson em O Conto dos Contos

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Outros destaques: Cécile De France em Um Belo Verão; Jennifer Jason Leigh em Os Oito Odiados; Kate Winslet em Steve Jobs; Laura Linney em Animais Noturnos; Maeve Jinkings em Boi Neon.

Melhor ator

O Oscar nem sempre acerta. Michael Fassbender merecia o prêmio de melhor ator. E por que esqueceram o incrível Michael Caine? É um pai, como é também o ótimo Géza Röhrig de O Filho de Saul, no pior ambiente do mundo: um campo de concentração. Outro que se envolve com a mesma questão histórica é o veterano Christopher Plummer. Para completar o time, o protagonista de O Valor de um Homem, alguém simples que resolve enfrentar o sistema.

Christopher Plummer em Memórias Secretas

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Géza Röhrig em O Filho de Saul

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Michael Caine em Juventude

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Michael Fassbender em Steve Jobs

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Vincent Lindon em O Valor de um Homem

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Outros destaques: Alfredo Castro em De Longe Te Observo; Bryan Cranston em Trumbo – Lista Negra; Leonardo DiCaprio em O Regresso; Niels Arestrup em Diplomacia; Tom Hanks em Sully; Viggo Mortensen em Capitão Fantástico.

Melhor ator coadjuvante

Interpretar Deus não é fácil. Alguns atores topam o desafio no campo da comédia: podem ser um Deus emburrado e até malvado. Ao deus mercado, em Wall Street, há dois homens um pouco diferentes, que nunca se encontram. E há também um cineasta, mais sonhador que o amigo com quem divide alguns dias em uma casa de repouso em Juventude. Da Venezuela vem um ator surpreendente, Luis Silva, como o delinquente que vê sua vida mudar ao conhecer um homem mais velho.

Benoît Poelvoorde em O Novíssimo Testamento

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Christian Bale em A Grande Aposta

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Harvey Keitel em Juventude

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Luis Silva em De Longe Te Observo

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Steve Carell em A Grande Aposta

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Outros destaques: Aaron Taylor-Johnson em Animais Noturnos; John Goodman em Rua Cloverfield, 10; Lázaro Ramos em Mundo Cão; Mark Ruffalo em Spotlight – Segredos Revelados; Michael Shannon em Animais Noturnos; Tom Hardy em O Regresso.

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Jobs, de Joshua Michael Stern

O segredo do sucesso de Steve Jobs é logo revelado: ele é um homem do mundo, da natureza, da arte, das mensagens de vida e do olhar além do alcance comum. Não é um homem qualquer: é uma divindade.

Pois esse é o problema de Jobs, de Joshua Michael Stern. Vê-se sempre alguém distante, nunca natural: alguém tão cheio de contornos que mais parece uma miragem. Assim, resulta chato, sem qualquer humanidade mesmo com aquelas palavras que parecem querer mudar o mundo – saídas, talvez, de algum livro de autoajuda.

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Quando retratados assim, os gênios são chatos. Não sobrevivem nem mesmo à piada que soltam ora ou outra. São seres quase sempre explosivos, quase sempre incompreensíveis, quase sempre desligados da normalidade.

Jobs, o filme, tem essas características levadas à sua personagem, o criador da Apple e um dos homens – justiça seja feita – que mudaram a maneira de pensar os computadores, quando pouca gente acreditava no potencial dessas máquinas dentro da casa das pessoas, os consumidores, ao lado de qualquer outro eletrodoméstico.

Jobs, a personagem, ou o homem que um dia existiu, entendeu a máquina como extensão humana. O computador tornar-se-ia, então, indissociável – o que realmente parece ter ocorrido na atualidade, com as máquinas de bolso.

A abertura do filme de Stern mostra, de cara, o homem ali retratado como gênio. Ele caminha em um corredor de poucas luzes, chega a uma escada. À frente, uma foto de Albert Einstein aguarda-o, como se seguisse os passos de outro grande homem.

Figura importante ao tempo presente, Jobs é interpretado por Ashton Kutcher, impossibilitado de dar à personagem o peso que necessita. É como se o espectador visse, em cena, sempre alguém tentando tocar o mito sem o encarnar com profundidade. Não poderia. Kutcher é limitado ao rosto inteligente, como quando levanta as pálpebras para anunciar possíveis descobertas, “iluminações”, ou para soltar uma frase de efeito.

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Não consegue dizer quem, no fundo, é Jobs, e, pior ainda, está sempre distante da figura humana esperada. Cai sempre no vazio, à espera do efeito da câmera, a depender da trilha sonora que vem para socorrer e avisar: chegou o pico dramático.

O filme fracassa do início ao fim, dentro de uma linha de produção voltada às obras baseadas em figuras verdadeiras. O mito é vazio e deseja, com tão pouco, resumir muito. Basta olhá-lo para ver o que representa.

O mesmo poderia ser dito do recente Lincoln, de Spielberg. No entanto, um grande ator, Daniel Day-Lewis, serve o ex-presidente assassinato com detalhes, com pequenos trejeitos, com aquela humanidade que brota facilmente do discurso. Lincoln e Jobs são tratados como mitos. A cada um, construções visuais servirão de formas diferentes.

Por que os gênios, com frequência, são tão chatos? É uma das perguntas que, durante Jobs, não sai da cabeça. Por que o espectador deveria se sentir emocionado em qualquer reunião na qual são apresentadas novas máquinas, como se aquilo fosse um berçário e estivesse a surgir uma nova criança, um novo filho?

Por trás de Jobs está uma mensagem bela e irreal: o novo mundo sonhado pelo gênio só poderá ser construído à base da máquina pensada como arte, à base das pessoas em busca do melhor às outras e da felicidade, sem pensar apenas no lucro ou no custo de um projeto. Seria bom se fosse verdadeiro, tal como o Jobs de Kutcher.

Dez filmes chatos sobre personagens reais

Trata-se de uma lista com filmes recentes, lançados nos últimos dez anos. Uma prova de que personagens às vezes fascinantes na vida real não rendem muito quando levadas às telas.

Alexandre, de Oliver Stone (Alexandre, o Grande)

kinopoisk.ru

Zuzu Angel, de Sergio Rezende (Zuzu Angel)

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W., de Oliver Stone (George W. Bush)

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Coco Antes de Chanel, de Anne Fontaine (Coco Chanel)

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O Garoto de Liverpool, de Sam Taylor-Wood (John Lennon)

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Lula, o Filho do Brasil, de Fábio Barreto (Luiz Inácio Lula da Silva)

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Bruna Surfistinha, de Marcus Baldini (Raquel Pacheco)

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My Way, o Mito Além da Música, de Florent-Emilio Siri (Claude François)

Cloclo

Hitchcock, de Sacha Gervasi (Alfred Hitchcock)

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Jobs, de Joshua Michael Stern (Steve Jobs)

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