Stephen Boyd

Ben-Hur, de William Wyler

Os homens tocam os deuses sem que deixem de ser homens. Há planos diferentes: de um lado, em Ben-Hur, a personagem-título é o que se espera: verdadeira, frágil quando necessário, alguém que se redobra na própria dor, de força real. É, em suma, um humano – graças à interpretação de Charlton Heston, nem tão belo nem tão galã.

Do outro lado interessa ver o invisível, ou mesmo imaginá-lo: cabe a cada espectador recriar seu próprio Cristo, pois o messias do filme de William Wyler não tem rosto. Pode ser qualquer um, ao passo que seu esconderijo impõe o mito. De tão grande, não se vê. A oposição entre o homem e o messias, entre o príncipe convertido em escravo e o mito que morre para salvar todos, é o que há de mais interessante nesse épico.

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Pode ser vista no início, na reprodução do afresco A Criação de Adão, de Michelangelo, quando a mão de Deus aproxima-se da mão do homem. Ben-Hur é sobre esse toque possível: Cristo, personagem secundária, leva água ao herói, feito escravo, e salva sua vida.

O filme de Wyler é do tempo em que espetáculos construíam-se com calma, em horas e mais horas, para o deleite da plateia que aceitava o intervalo e retornava ao templo para seu segundo ato. A grandeza é de todos os cantos, monumentos e figurinos luxuosos a rivalizar com o homem, ainda que a briga seja injusta aos primeiros itens.

E Heston, consciente de seu tamanho, não precisa ser mais que humilde. Basta pensar na maneira como agarra o braço dos homens que ama (sim, ama) e como observa a mulher a quem concede a liberdade, com quem deverá se unir. Ou no seu sorriso desajeitado, na sua dor latente, a de quem precisa aceitar o destino: é um judeu, não um romano.

O filme tem início com o retorno do algoz, antes um amigo. Messala (Stephen Boyd) é o oposto em tudo, reflexo distorcido do herói: candidato a galã, a homem distante. Feito ao projeto do general, do grande vilão, sem nunca chegar a tal estatura. A relação homossexual entre ele e Judah Ben-Hur é clara: estão ligados em “todos os sentidos”, como lembra um deles durante o reencontro regado a gestos másculos.

Esse amor mal resolvido é selado às sombras do reinado romano: à frente, eles atiram lanças na madeira cruzada, cuja forma remete à cruz ao contrário. Ben-Hur rende-se ao pecado: vai antes ao amado, ao seu reinado romano, para reencontrá-lo. Talvez Wyler tenha evitado a exposição total desse desejo ao reservar ao reencontro o plano em conjunto (com destaque à profundidade, à distância entre eles) e não o abuso do close, como seria de se esperar.

Judeu e homem como é, o herói é vítima do que parece acaso: sua irmã encosta em uma telha e esta, ao cair sobre o desfile dos soldados romanos, faz um poderoso desmaiar. A essa altura, Messala precisava de uma desculpa para condenar o amante: sua mãe e sua irmã são presas, Ben-Hur é enviado ao trabalho forçado nas galés. Jura vingança, jura voltar.

O protagonista encontra Cristo pelo caminho. Encara-o. O momento é forçado, corrompido pela trilha sonora de Miklós Rózsa, um apelo ao drama. Wyler forja o mito pelo olhar do homem. O filme é religioso em seus piores momentos, é melhor em suas inclinações ao pecado, como na relação dúbia entre Ben-Hur e Messala, ou no “apadrinhamento” do primeiro por outro poderoso romano, vivido por Jack Hawkins.

Sequência exemplar do desejo entre homens é a da aceleração sobre os remos, nas galés, quando o mesmo Hawkins pede mais velocidade: a da guerra, a do choque. Testa ali a ralé e a observa com desejo, com olhar especial, claro, a Ben-Hur. Escolhido dos poderosos, o judeu vira salvador, escravo particular, outra vez homem livre.

Sua vingança ganha corpo na melhor sequência do filme: a corrida de quadrigas. O herói conduz os cavalos brancos, o vilão os negros. Mais de dez minutos, nos quais o espectador perde o fôlego. Vitória da técnica, da grandeza, com Heston virando-se como pode para chegar ileso ao fim, aos olhos de outro efeminado, Pôncio Pilatos (Frank Thring).

O reino é dos homens. Tocam-se com respeito enquanto as mulheres correm aos cantos. Caminham com toalhas e dorsos à mostra, em espaços públicos, piscinas, em momentos de contemplação do nada – à espera de uma guerra ou confronto. São os homens que chicoteiam Cristo em sua Via Crucis, rumo ao calvário, à crucificação.

A homossexualidade velada pode ser entendida como uma afronta dos homens – de olho em seus próprios corpos, em seus iguais, culto que pode ir além da questão sexual – ao verdadeiro Salvador, o rei que paira sobre todos. O Ben-Hur de Wyler, do livro do general Lew Wallace, é sobre um judeu impedido de amar um romano, feito escravo, consciente do poder de Cristo e, depois, da fraqueza da carne: a lepra.

É esse efeito velado que torna o filme excitante décadas depois: o possibilidade de uma história de amor silenciosa, feita de frases curiosas e olhares, transformada em ódio. Nesse caso, em um épico religioso de espadas e sandálias, erguido sobre todos os exageros da Hollywood de tela larga, dos heróis com pouca roupa, dos mitos indispensáveis.

(Idem, William Wyler, 1959)

Nota: ★★★★★

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A relação gay em Ben-Hur

Nos especializamos nos subtextos… sem dizer uma palavra sobre ele. O melhor exemplo disso para mim foi escrever Ben-Hur. Ben-Hur e Messala, um judeu, o outro romano, se conhecem desde a juventude. Brigaram por política e se odiariam pelas próximas três horas. Não é muita coisa para fazer um filme de três horas, mesmo para um épico como Ben-Hur. O diretor, William Wyler, perguntou o que eu ia fazer. “Quero tentar uma coisa. Digamos que eles se conheçam há muito tempo. Foram amantes e agora se reencontraram, e o romano quer reatar o romance. Messala, que é Stephen Boyd, quer começar de novo com Ben-Hur, que é Charlton Heston. Sei lá por quê. É um romano.” Willie ficou me olhando, incrédulo. Falei: “Não vou falar nada. Nem uma palavra. Não será declarado, mas ficará claro que Messala é apaixonado por Ben-Hur.” Willie disse: “Gore, isto é Ben-Hur. O subtítulo é Um Conto de Cristo”. Aí ele disse: “Bem, é melhor do que o que temos. Vamos tentar”.

(…)

[Wyler] Perguntou se eu tinha falado com alguém. Disse que não. Ele disse: “fale com Boyd, o Messala. Não diga nada a Heston. Pois ele desmoronaria. Deixe ele comigo”. Heston achou que fazia um machão, com a cabeça sempre erguida. Stephen Boyd interpretou as duas coisas. Alguns olhares são óbvios.

Gore Vidal, escritor, um dos roteiristas de Ben-Hur, mas não creditado. A declaração está no documentário O Outro Lado de Hollywood (Rob Epstein, Jeffrey Friedman, 1995). Apesar de o roteiro adaptado do livro de Lew Wallace ter sido assinado apenas por Karl Tunberg, ele passou por outras mãos, como as de Christopher Fry e as do próprio Vidal. Abaixo, Boyd e Heston em cena famosa.

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Dez clássicos com subtexto gay

Dez clássicos com subtexto gay

Está tudo lá, mas nem todo mundo vê. Para desviar da censura, Hollywood encontrou sua forma: buscar no subtexto a mensagem desejada. Àquele que pretende mergulhar nessas obras, é possível ver como homens ignoravam mulheres e preferiam outros homens, ou como mulheres pareciam mais atraídas por outras damas.

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Hollywood, no fundo liberal e impossibilitada de mostrar o que desejava após vigorar o Código Hays, de 1934 aos anos 60, sempre encontrou nos subtextos, no não “evidenciado”, o jeito de expor o sexo. Diretores como Billy Wilder e Preston Sturges sabiam fazer isso como ninguém, sobretudo no auge da comédia screwball.

E a homossexualidade não escapava desse meio, com personagens ambíguas, vilões estranhos, maneiras de levar aos objetos o que parecia ser dos corpos. Isso sem contar os homens que apadrinhavam outros homens, como se, na tela, fossem “parceiros” ou “velhos amigos”. Abaixo, uma lista sobre como a homossexualidade aparecia sem aparecer.

Rainha Christina, de Rouben Mamoulian

Lançado pouco antes de o Código Hays ganhar força, o filme traz um beijo de Greta Garbo em outra mulher, como se fosse apenas um cumprimento entre amigas, ou para mostrar como a patroa era bondosa com sua jovem conselheira. Três anos antes, Marlene Dietrich também havia beijado outra mulher no belo Marrocos.

rainha cristina

O Falcão Maltês, de John Huston

Além da personagem efeminada de Peter Lorre, o filme traz uma possível relação entre o bandido Sydney Greenstreet e seu “afilhado”, interpretado por Elisha Cook Jr. É o primeiro filme verdadeiramente noir de Hollywood.

o falcão maltês

Gilda, de Charles Vidor

Outro caso interessante da relação entre patrão e funcionário, na qual o capanga vivido por Glenn Ford teria “algo a mais” com o marido de sua amada, Gilda, interpretado pelo sempre malvado George Macready. Há diálogos que deixam isso quase às claras.

gilda

Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock

O verdadeiro motivo que leva dois amigos a matar um terceiro seria um possível triângulo amoroso mal resolvido. No filme, eles escondem o corpo da vítima em um baú, sobre o qual é celebrado um banquete.

festim diabólico

Rio Vermelho, de Howard Hawks

Trata-se de uma cena sempre lembrada pelos cinéfilos. É o momento em que as personagens de Montgomery Clift e John Ireland expõem suas armas. Diz o homem de Ireland: “Sabe, existem somente duas coisas mais atraentes que uma boa arma. Um relógio suíço ou uma mulher de qualquer lugar. Alguma vez você já teve um relógio suíço?”.

rio vermelho

Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock

O mestre do suspense de novo. E de novo com o ator Farley Granger (que era homossexual). Aqui, dois homens esbarram os pés em uma viagem de trem, trocam conversas e aceitam cometer crimes trocados – e talvez um pouco mais do que isso.

pacto sinistro

Juventude Transviada, de Nicholas Ray

A revolta da personagem de Sal Mineo e seus segredos nem sempre ficam claros, o que reforça sua inclinação gay. Durante o filme, ele vê em James Dean, o “rebelde sem causa”, alguém inspirador e para ter ao lado. Um amigo que nunca teve.

juventude transviada

Casa de Bambu, de Samuel Fuller

Após sugerir uma relação gay entre Jesse James e Robert Ford em Matei Jesse James, seu primeiro filme, Fuller volta mais uma vez à condição do capanga protegido pelo chefe, ambos vividos por Robert Stack e Robert Ryan. O cenário é o Japão dominado por gangues americanas após a Segunda Guerra Mundial.

casa de bambu

Ben-Hur, de William Wyler

O próprio roteirista Gore Vidal assumiria, mais tarde, que escreveu o texto pensando em uma relação gay entre o herói e seu algoz, Messala (Stephen Boyd). Segundo histórias de bastidores, Boyd sabia do caso, mas o astro Charlton Heston – famoso conservador, membro da Associação Nacional do Rifle – nem desconfiava.

Ben-hur

Spartacus, de Stanley Kubrick

No terreno de Spartacus, com o roteiro de Dalton Trumbo, as coisas começam a ficar evidentes: entre outras sequências, há o famoso momento em que o criado, vivido por Tony Curtis, dá um banho em seu mestre, o poderoso Crassus (Laurence Olivier).

spartacus