Sorgo Vermelho

Mulheres aprisionadas (em três grandes filmes de Zhang Yimou)

A garota inocente, entregue a um casamento que não deseja, logo dá vez à mulher forte e decidida em três filmes de Zhang Yimou, ainda no início de sua carreira: Sorgo Vermelho, Amor e Sedução e Lanternas Vermelhas. Essas mulheres não desejam agradar o espectador e às vezes são difíceis de definir ao longo desses filmes.

As três são interpretadas por Gong Li, que, com êxito e velocidade, consegue se passar pela menina ingênua ou pela mulher madura. Basta-lhe a mudança de expressão, do cabelo, a mudança da roupa para um papel seguinte: o da moça vendida, rendida às forças de um homem rico, ou o da mulher que aceita aderir a uma guerra, a um ato de traição ou ao jogo que inclui outras mulheres casadas com um mesmo homem.

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Sorgo Vermelho é o primeiro filme de Yimou. Marco do cinema chinês, do período da chamada Quinta Geração, de cineastas que começaram a fazer filmes após o fim da Revolução Cultural. Nesse trabalho de estreia, Yimou contrapõe o realismo com tons fortes em vermelho, representação da condenação da moça (levada ao casamento sob o tecido vermelho) e da tragédia que se aproximava com a invasão japonesa.

Ou mais: o vermelho que, a partir da viagem da menina ao casamento arranjado, revela seu rompimento, sua transformação: a descoberta de um amor primitivo justamente por um dos criados que a carregava à nova casa, homem cujos instintos fazem-no tomá-la à força, sem que a mesma possa reclamar. Apenas o ama.

Antes aprisionada, a menina vê-se livre, à frente da produção do vinho do sorgo, com um grupo de criados para executar o trabalho. Nem os bandidos que aparecem por ali são capazes de abalá-la. Essa aparente liberdade perde espaço quando Yimou, sem rodeios, mostra os chineses cortando a vegetação verde a mando dos japoneses cruéis – entre eles a menina, seu marido e o filho pequeno.

Não é difícil prever o desfecho. O vermelho sangue adianta-o. As cenas finais são impactantes, com a câmera à contramão da luz do sol. Pai e do filho caminham sobre os restos do conflito, entre a tragédia inescapável. Em Amor e Sedução não será diferente.

Se em Sorgo Vermelho predomina a cor-título, em Amor e Sedução ganha espaço o amarelo abundante. A primeira cor indica o rompimento, a mudança, a aproximação; a segunda, em seu contexto, aponta ao imobilismo das personagens. A trama ajuda a atender: mulher é comprada pelo dono de uma fábrica de tecidos e, noite após noite, é espancada pelo homem enquanto o sobrinho do mesmo escuta do cômodo ao lado, sem muito a fazer.

Não demora a surgir uma relação de amor entre a mulher (a mesma Gong Li) e o sobrinho, cuja inclinação à violência é semelhante à capacidade de ceder e demonstrar respeito pelo tio violento. A situação complica-se quando nasce um filho desse envolvimento proibido e o dono da fábrica perde o movimento das pernas.

O casal deseja matar o homem, mas talvez falte coragem. O filho cresce e, mais tarde, aprende a chamar o dono da fábrica de pai, enquanto o verdadeiro é sempre legado ao papel de coadjuvante. Ainda que outras cores apareçam por ali, como o vermelho e o azul (principalmente após o início da relação proibida), os tons amarelos predominam.

Mais de uma vez a mulher investe contra o homem que a aprisionava. O espectador é tentado a lhe dar razão, a enxergar essa selvageria – falsamente anulada pelo amarelo e pela aparente distância entre as pessoas – como forma de resolver os problemas.

Continuará – como o amante – presa ao seu papel, aprisionada à imagem da mulher esperada. Ao mesmo tempo, seu filho descobre o amor da mãe pelo outro homem. E, como o dono da fábrica, que desejava ter como pai, adere à violência.

Como em Sorgo Vermelho, há toques de melodrama, voltas conhecidas para uma tragédia de pessoas que não encontram saídas – antes sob a influência da guerra que pedia passagem, da necessidade de resistir, depois com os julgamentos da sociedade ao redor, tradicional, que lança às pessoas o papel que espera delas.

Lanternas Vermelhas, em seguida, talvez seja o mais ousado dos três: mais que toques de melodrama, prefere os do suspense, ou mesmo do terror. Sua atmosfera de medo repousa sob os sinais da calmaria, do aparente silêncio da grande casa na qual uma mulher (a mesma Gong Li) é levada para ser a quarta esposa do líder local.

Tenta, ainda no início, escapar do vermelho estampado em meio de transporte igual ao usado em Sorgo Vermelho: vai para a grande casa caminhando, apenas com a mala na mão. Mas, como manda a regra, logo a recobrem com a mesma cor, no corredor feito de lanternas vermelhas, até encontrar o verdadeiro dono do local, o homem.

E, curiosamente, o homem não tem rosto. O mal não tem forma. E esse mesmo mal não se resume ao líder – é quase certo que não. O problema está ligado à tradição instituída por essa sociedade de portas fechadas, de suposta calmaria, de adornos antigos, de velhas muralhas acinzentadas em oposição ao vermelho das lanternas.

O amor primitivo e o amor louco dos filmes anteriores dão vez à falta de amor, ao jogo entre gestos frios, às relações de poder entre mulheres que lutam para ter mais e, no fundo, participar da vida de uma casa sem vida, ganhando não se sabe o quê.

De Sorgo Vermelho a Amor e Sedução, Yimou seguiu ao controle das personagens – e do drama – em espaços fechados. E ao controle das cores. Lanternas Vermelhas é o passo seguinte, a comprovação de sua conquista. Dispensa palavras a mais, explosões de drama. É o mais sútil e, paradoxalmente, aquele em que crueldade mais penetra.

Os ambientes fechados entram em contraste com os abertos, “em cores vibrantes”, como lembra o crítico de cinema Roger Ebert. “Apesar do uso sensual da cor e da beleza feminina, o filme não tem sexo no sentido convencional. Nada de nudismo, de intimidades, quase ninguém se toca”, também aponta o crítico.

Nesse meio, impera a disputa entre três das quatro esposas do líder da grande casa. Disputa que, ao fim, indica a vencedora com a marcação do vermelho, na frente de determinada casa, pelas lanternas acessas: o momento em que se revela a esposa com a qual o dono do local passará a noite, sua escolhida para a ocasião.

Essa disputa trata menos do desejo de estar com o homem sempre visto a distância: é uma disputa entre mulheres, em um jogo de poder que inclui ciúme e vingança. Por ali, entre as estações do ano, a nova mulher descobre que o vermelho, no fundo, não é nada perene, e que o cinza das paredes, dos telhados e de um cômodo distante, no qual mulheres foram enforcadas, pode tomar conta do espaço com certa facilidade.

(Hong gao liang, Zhang Yimou, 1987)
(Ju Dou, Zhang Yimou, 1990)
(Da hong deng long gao gao gua, Zhang Yimou, 1991)

Notas:
Sorgo Vermelho: ★★★★★⤴
Amor e Sedução: ★★★★☆
Lanternas Vermelhas: ★★★★★

Foto 1: Sorgo Vermelho
Foto 2: Amor e Sedução
Foto 3: Lanternas Vermelhas

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Trilogia dos Bichos, de Dario Argento
Sete grandes filmes nos quais o vermelho tem papel fundamental

Sete grandes filmes nos quais o vermelho tem papel fundamental

A interpretação do vermelho aparece com certa frequência em análises de filmes. No cinema de Scorsese, por exemplo, fala-se do vermelho como aproximação da violência e mesmo da culpa católica. Há uma infinidade de exemplos. A lista abaixo traz apenas sete, a partir de filmes que se servem dessa cor – alguns mais, outros menos – como elemento de linguagem, com papel fundamental na história retratada.

Tudo o que o Céu Permite, de Douglas Sirk

Desde os créditos é possível ver tons avermelhados entre as folhas da árvore, mais tarde pela luz da pequena janela, quando a mãe consola a filha; ou o vermelho do vestido de Cary (Jane Wyman), ainda no início, ou o da roupa xadrez do homem que ela ama (Rock Hudson). E, ao fim, o vermelho que recobre a televisão e emoldura a mulher.

A Orgia da Morte, de Roger Corman

Vincent Price é o príncipe Próspero e talvez o próprio Demônio neste que pode ser o melhor filme de Corman. O vermelho chega primeiro em seu traje, na floresta entre sombras, quando dá uma rosa aos condenados que passam por ali. Também o vermelho do cômodo secreto, do figurino de uma protegida, a cor como aproximação da morte.

Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman

O filme envolve uma família monstruosa e tem direção de fotografia de Sven Nykvist, colaborador habitual de Bergman. O vermelho recobre os cenários. Entre suas possíveis representações, uma frase do cineasta sueco talvez forneça a mais exata: “Acho que o interior da alma humana se parece com uma membrana vermelha”.

Inverno de Sangue em Veneza, de Nicolas Roeg

Em um dos filmes mais assustadores de todos os tempos, o vermelho persegue as personagens a todo o momento: da tinta que cai sobre a foto, na abertura (e que antecipa a morte da filha), à capa vermelha que surge com frequência pelas vielas e espaços de Veneza. O vermelho como sinal do terror, do espírito da filha ou de algum psicopata.

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

Do sangue na faca ao sangue no vidro, com a mulher morta, o vermelho em questão é o escuro, como aponta o título original. Ou seja, o vermelho sangue. Entre os tantos momentos que evocam a cor, nenhum consegue resultado semelhante ao da palestra, na abertura, em um teatro, quando a médium (Macha Méril) entra na mente do assassino.

Sorgo Vermelho, de Zhang Yimou

O vermelho que recobre a heroína (Gong Li), no início, denota seu aprisionamento, seu sacrifício. O vermelho, no encerramento, estará por todos os lados quando os homens do campo decidem confrontar os japoneses que invadiram a China, momento em que a cor ocupa o céu e a terra, ao passo que pai e filho caminham sobre o sangue.

A Fraternidade é Vermelha, de Krzysztof Kieslowski

O projeto de Kieslowski, com três filmes banhados nas cores da bandeira francesa, termina com o vermelho. É o melhor dos três. Em cena, uma modelo (Irène Jacob) sente-se atraída ao mundo de sombras de um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant). Essa aproximação provoca mudanças em sua vida, em um filme sobre unificação.

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