sociedade patriarcal

O’Haru: A Vida de uma Cortesã, de Kenji Mizoguchi

Mais que “a vida de uma cortesã”, O’Haru oferece “a vida de uma mulher”. Castigada, antes, por amar o homem errado: ela, considerada parte do alto clero; ele, alguém próximo de um vassalo, o capanga do líder. O amor impossível é descoberto, certa noite, quando alguns membros do clã recebem a denúncia de prostituição nas redondezas.

Por mais que tentasse se explicar, as palavras dela seriam descartadas. Ainda não era uma prostituta. Apenas amava um homem. Na verdade, acabava de revelar seu amor. A protagonista sofrida do grande filme de Kenji Mizoguchi não consegue expor suas palavras e opiniões. Não consegue se defender, ou ao menos ser alguém livre.

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Essa mulher, Oharu (Kinuyo Tanaka), vê sua vida passar pelos olhos, certo dia, já mais velha, quando termina no interior de um templo. Olha as inúmeras estátuas e, na face de uma entre outras, enxerga o rosto do primeiro amante, aquele que a fez perder o posto no alto clero. O amor custa caro. Não adianta tentar explicar à família, não se quebra a separação de classes.

É apenas o início dessa caminhada repleta de dramas particulares. Quase tudo dá errado. O diretor Mizoguchi compõe, ainda no primeiro quadro, os passos da mulher após outra noite frustrada em meio à prostituição. Ao seu lado, outras – talvez mais novas e, por isso, mais “atrativas” – fazem o que podem, na rua, para agarrar seus clientes.

Oharu passa entre elas, segue à companhia de outras, próximas a uma fogueira. Nega-se a retornar ao passado. Mas este é forçado, um intruso, no rosto exposto pela forma da estátua: quando menos percebe, Oharu mergulha em sua vida, do amor verdadeiro ao corpo vendido ao líder de um clã, do trabalho como cortesã ao trabalho como prostituta, à frente.

Mizoguchi é o mestre dos planos-sequência. Há alguns grandes momentos no uso desse tipo de movimento e composição. Aos poucos, do elemento principal da cena, Oharu salta à pequenez, sendo uma entre tantas partes do quadro. Mizoguchi vai do micro ao macro, da personagem ao ambiente – e todo um país é revelado pela lente.

A caminhada do início, portanto, é significante: tem toda a paciência e a beleza que vem a seguir, com o andar calmo, com a nítida tristeza do ambiente perdido, da mulher à deriva, da decadência que pouco a pouco se desenha. Em jogo, em tantas caminhadas, está a mulher sem escolha: é mera peça aos homens que a compram, que a vendem, que a tornam esposa de ocasião, ou que alugam uma bela roupa para que ela, entre escombros, possa se prostituir.

É, sobretudo, a história da bela mulher que vive para se esconder sob o véu que cobre a face. A mulher, em algum limite, que se esconde de si mesma, que precisa ser outra, ou ninguém. Nessa sociedade patriarcal, mulheres como Oharu estão condenadas a ver o jogo do lado de fora, como se dá em uma sequência forte, quando tenta se aproximar do filho, o novo líder de seu clã, e é afastada pelos seguranças do rapaz.

Em outro momento mágico, Oharu observa o transporte de uma menina, provavelmente vendida a algum líder local. A garota é colocada no interior do transporte quadrado, uma caixa carregada pelos homens. É, segundo Mizoguchi, a conversão ao objeto, o presente embrulhado, pronto, a ser entregue ao comprador.

O diretor explorou como poucos a posição feminina em uma sociedade feudal ou, em outras ocasiões, no mundo pós-guerra. São, a exemplo de O’Haru: A Vida de uma Cortesã, filmes sobre perda, sobre caminhadas que não terminam nunca. Mulheres através de templos, bordéis, escombros, sobreviventes em um mundo de poder masculino e intolerante.

(Saikaku ichidai onna, Kenji Mizoguchi, 1952)

Nota: ★★★★★

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Senhorita Oyu, de Kenji Mizoguchi

Cinco Graças, de Deniz Gamze Ergüven

Cada vez mais fechada, a grande casa de Cinco Graças ainda deixa a luz invadir. A paisagem observada pela janela, ou através da estrada, deixa ver o mar, a grandeza. É a libertação possível – e o desejo, sobretudo – que o filme pretende retratar.

O título original, Mustang, remete a algo selvagem: as meninas ao centro, não por acaso, buscam liberdade. Uma ou outra consegue, mas nem todas escapam ao pior.

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No caso das mulheres, o destino, nessa Turquia, está traçado: serão prometidas a rapazes que não conhecem, submetidas a casamentos de mentira, como em velhas sociedades patriarcais regadas ao homem mais velho, de bigode saliente.

Este pode ser uma caricatura, ainda que seja real e indispensável ao drama do filme. Não é o pai, é o tio. As cinco meninas são criadas pela avó e por esse homem duro, que, ora ou outra, à noite, passa por cômodos em suspeito movimento, o que a direção às vezes discreta de Deniz Gamze Ergüven faz parecer abuso.

O homem enfurece-se com o movimento libertador das jovens: elas conseguem namorados, diversões, e, se necessário, fogem pela janela para viver não mais que uma vida normal, para cruzar a mata, a estrada e talvez chegar a um ponto qualquer.

Ainda que incômodo, o filme é leve. Nunca fácil, ainda que sua fluidez mostre liberdade mesmo atrás das grades da janela. Contra elas, as meninas lançam os pés enquanto a câmera flagra suas roupas curtas, divertimentos, da infância à adolescência.

Mesmo com a câmera tão perto, ainda assim é difícil penetrá-las, ou saber o que desejam além das inevitáveis escapadas. Confidenciam detalhes do sexo a dois, em um pacto ao qual levam a palavra baixa, as conversas em quartos fechados, os planos às vezes frustrados. Um filme sobre a adolescência, que começa com provocação.

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No início, as meninas saem da escola e aceitam nadar com alguns rapazes na praia. Sobem em seus ombros, duelam, divertem-se, o que pode ser considerado afronta aos adultos e seus espaços fechados, suas festas de véu e armas ao alto.

A avó descobre a farra no mar e leva as meninas, uma a uma, ao quarto. Precisa então analisá-las; durante essa breve passagem, enquanto são observadas pela mulher mais velha, as outras se desesperam ao perceber que a brincadeira ganhou outro peso.

Cinco Graças é contado pela irmã mais nova, Lale (Günes Sensoy). Durante o campeonato turco de futebol, ela pede que o tio leve-a ao estádio. Trata-se, diz ele, de um espaço de homens. Quando homens são proibidos de entrar no estádio, mais tarde, em nova partida, ela e as irmãs fogem para assistir ao jogo.

O futebol serve de provocação: no estádio, com a arquibancada cheia de mulheres, a cineasta registra a vibração feminina, a alegria ao fazer parte de outro jogo, de simplesmente romper o limite do “espaço masculino”, como dizia o tio.

O mérito do filme é se voltar mais aos desejos, ao que antecede as ações, menos às consequências e tragédias posteriores. O que importa à cineasta é registrar reações e corpos, movimentos constantes, a materialização da liberdade.

(Mustang, Deniz Gamze Ergüven, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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