Silvana Mangano

Teorema, de Pier Paolo Pasolini

Entre diferentes passagens, a areia do deserto não resiste ao vento. A erosão é uma representação interessante da família ao centro de Teorema, pai, mãe e filhos que assistem à implosão da forma que representam, da burguesia que materializam, desnudada em sua fragilidades à simples presença do visitante, rapaz enigmático.

Esse rosto pouco faz além de sugerir, de indicar, na figura forte de Terence Stamp. O diretor Pier Paolo Pasolini fica entre o excesso e a sensibilidade, ora para um, ora para outro, como se pode ver no volume da calça do rapaz, no sexo que insinua, ou mesmo na maneira terna como ele aproxima-se ou toca os demais.

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Pode ser um anjo da morte, um messias, ou apenas um humano de carne e osso, alguém de verdade, o suficiente para colocar a família ao contrário, para detoná-la: o pai, um burguês dono de indústria, interpretado por Massimo Girotti; a mãe, que se vê levada pelo sexo, primeiro pelo do rapaz, depois pelo de outros, os garotos de programa que encontra nas ruas, interpretada por Silvana Mangano; além dos filhos, igualmente transformados, vividos por Anne Wiazemsky e Andrés José Cruz Soublette. O visitante envolve-se com todos.

Pasolini implode a família burguesa a partir do desejo, da liberdade que o ato sexual representa, pela maneira como as personagens presas a seus papéis agora são obrigadas a olharem a si próprias. São despidas, o que a ação do pai, ao fim, primeiro na estação de trem e depois no deserto, serve para confirmar. Será levado ao mesmo deserto que pouco a pouco ganha espaço, lugar vazio em que é obrigado a vagar. Perde a identidade.

Talvez seja essa a ideia do filme, e que reveste a crítica de Pasolini: tomada pelo desejo, pela possibilidade de liberdade e transformação, a burguesia não chega a nada senão à sua própria perdição. Confrontar o caos interno leva a um deserto de constante erosão, à impossibilidade de lidar com o que a liberdade oferece.

Antes de seduzir e transformar a família, o rapaz de Stamp envolve-se com a criada da grande casa, Emilia (Laura Betti), que também não entende o motivo de tanto desejo. Ela limpa a calça do rapaz enquanto ele lê e fuma no jardim da casa. Seu gesto embute subserviência de classe, adoração, algo que beira a crueldade e parte dela mesma.

Em seguida, tomada pelo sentimento desconhecido, decidida a se entregar ao visitante para viver a transformação ou se salvar, tenta o suicídio. É justamente o visitante que a salva. De malas prontas, ela parte para casa, para sua terra: é uma proletária que transcende o mundo humano, talvez por ter sido tocada – amada, sobretudo – por um messias.

Torna-se uma espécie de santa. Rodeada por camponeses, a mulher faz milagres, ganha devotos, ganha a obediência de duas crianças que colhem plantas para ela comer, único alimento servido à personagem que não retorna para a grande casa, tampouco para sua pequena casa. Fica para fora, sobre um banco, feita ao olhar fixo.

Tocada pelo visitante, ela será a única capaz de encarar a morte, ou viver sob sua possibilidade: enterrar-se-á viva nos momentos finais, entre os grãos sobre os quais derrama lágrimas, entre as partículas que resistem a invadir sua visão. Ela, ao contrário do pai que se perde no deserto, da filha que se vê paralisada, do filho que não sabe lidar com o confronto proporcionado pela arte abstrata, ou pela mãe que não sabe fazer outra coisa senão buscar sua fuga no sexo de ocasião (viverá para o desejo, ainda que passageiro), encara a câmera com a certeza de que não se sobrevive sob a uma falsa imagem de segurança.

A terra, outras vezes arenosa, desfeita entre o vento, é nesse caso uma morada segura, pode dar vez a uma nova planta, à continuidade. O milagre da mulher que levita não se perpetua em sua figura rochosa, fixa, que espera os outros – os humildes – para aplicar milagres. Sua consciência leva, ao que parece, à terra bruta, ao mundo bruto, à coragem de aceitar a morte e, dela, produzir um renascimento – após ser tocada por um anjo.

Pasolini volta suas armas à burguesia, em um filme político de dentro para fora, do ambiente íntimo ao chão de fábrica, ou à verdade das ruas. Político em sua maneira de expor o desejo e, com ele, confrontar o que sustenta essa sociedade, agora abalada com o fim de uma peça fundamental à sua manutenção: a família.

(Idem, Pier Paolo Pasolini, 1968)

Nota: ★★★★☆

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O Evangelho Segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini

Dez beldades em dez grandes aparições na tela

As aparições abaixo dão ideia do poder feminino na tela. É a capacidade do cinema em mitificar seres – que, como se vê aqui, à primeira vista não vão além do olhar, do pequeno gesto. São mulheres apaixonantes que podem até destruir seus companheiros.

Com exceção de uma, todas têm algo em comum: são para os homens em cena objetos de desejo. Outro dado importante deve ser ressaltado: algumas fisgaram o coração de seus diretores. Por isso, suas primeiras imagens são também imagens de amor. À lista.

Lauren Bacall em Uma Aventura na Martinica

É famosa a história de que o diretor Howard Hawks teria se apaixonado por Bacall, cuja primeira aparição, à porta do quarto do herói, inclui o pedido por fogo.

uma aventura na martinica

Rita Hayworth em Gilda

O marido e vilão apresenta Gilda ao seu capanga. Ela lança o cabelo para trás e responde a ele, em cena que seria homenageada em Um Sonho de Liberdade.

gilda

Silvana Mangano em Arroz Amargo

A beldade dança enquanto troca olhares com o bandido vivido por Vittorio Gassman. Eles voltam a se encontrar em plantações de arroz nesse grande filme italiano.

arroz amargo

Grace Kelly em Janela Indiscreta

Como sonho, Kelly aparece ao protagonista que então dormia e que talvez tenha descoberto um crime. E talvez seja este o close mais belo da história do cinema.

janela indiscreta

Sue Lyon em Lolita

Depois de ver Lolita, o professor interpretado por James Mason não pode fazer mais nada: rende-se à pequena beldade e até aceita casar com sua mãe possessiva para estar perto dela.

lolita

Claudia Cardinale em O Leopardo

Mais de um homem percebe o magnetismo da bela que cruza o salão e que, depois, sorri em excesso entre os convidados do jantar – de acordo com as mudanças que pairam por ali.

o leopardo

Anna Karina em Alphaville

Como Bacall, ela pede por fogo nesse filme de Godard, que retira algo do cinema noir, e talvez por isso próximo de Hawks. Karina era a musa do diretor e sua companheira.

alphaville

Claude Jade em Beijos Proibidos

A bela ainda retornaria em Domicílio Conjugal e Amor em Fuga. É por essa bela comédia romântica, contudo, que ficaria eternizada: a companheira perfeita para Antoine Doinel.

beijos proibidos

Candice Bergen em Ânsia de Amar

Após os créditos, quando os rapazes falam de sexo, surge a personagem de Bergen, entre sombras, na primeira imagem do filme (sob a fotografia do mestre Giuseppe Rotunno).

ânsia de amar

Barbara Hershey em Hannah e Suas Irmãs

“Ela é linda”, diz a personagem de Michael Caine ao se deparar Hershey, à porta, na abertura do filme de Woody Allen. O público não deverá discordar.

hannah e suas irmãs

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Dez beldades em dez grandes filmes italianos

Dez beldades em dez grandes filmes italianos

Em alguns filmes italianos, belas mulheres brotam da miséria. Do período neorrealista à renovação italiana, passando pelos episódios de gente burguesa e vazia em A Doce Vida e A Aventura, ou mesmo pelas deliciosas comédias como Seduzida e Abandonada, essas damas estiveram ao centro das histórias e retiraram alguns homens do sério. Abaixo, uma lista com dez beldades que merecem ser apreciadas.

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Clara Calamai em Obsessão (1942)

obsessão

Silvana Mangano em Arroz Amargo (1949)

arroz amargo

Ingrid Bergman em Stromboli (1950)

stromboli

Alida Valli em Sedução da Carne (1954)

senso

Anita Ekberg em A Doce Vida (1960)

a doce vida

Monica Vitti em A Aventura (1960)

a aventura

Annie Girardot em Rocco e Seus Irmãos (1960)

rocco e seus irmãos

Claudia Cardinale em A Moça com a Valise (1961)

a moça com a valise

Sophia Loren em Duas Mulheres (1961)

MBDTWWO EC004

Stefania Sandrelli em Seduzida e Abandonada (1964)

seduzida e abandonada

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