Sidney Poitier

Raoul Peck revive o medo

O medo de uma nação, em determinada época, dirigia-se aos negros, aos que um dia foram escravos e mais tarde resolveram se levantar contra os opressores. Reivindicação que levou homens à luta, que fez pensadores, que marcou a História. Luta, em Eu Não Sou Seu Negro, pelos olhos de James Baldwin, que viu os problemas de perto.

O documentário relata a convulsão de todo um país. Ali, no espaço em que os “diferentes” tocavam-se, também no qual negros e brancos tinham seus próprios espaços, a necessidade de divisão reproduz o medo: o homem branco é simbolizado, em mais de uma fotografia de época, pelo caipira com o rosto repleto de satisfação ao expor o corpo do negro esfolado, ou enforcado, como se a escravidão precisasse perdurar.

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O corpo negro também retorna no cinema, dos clássicos aos modernos. Ou seja, em outra esfera: a da representação e do espetáculo. Corpo, ou presença, que gera medo, ainda que o ator, um Sidney Poitier ou um Harry Belafonte, seja belo, famoso, forte e, segundo Baldwin, às vezes a serviço da imagem esculpida pela ótica dos brancos, do clichê.

Não tão distantes, os brancos continuavam a caçar índios no gênero faroeste. A história das telas é contada pelos vencedores, pelos donos das diligências e dos rifles, atiradores que terminavam nos braços de alguma donzela perseguida pelos selvagens. Em alguns desses trabalhos, o negro resumia-se ao criado, ser bestial, à deriva.

Ameaçado, o homem branco retorna ao seu lugar. Com sua arma, em sua propriedade, ou em sua igreja, em seu espaço – em qualquer espaço ao qual o negro não podia ter acesso. Nada explica isso melhor que o sentimento de medo, o do diferente.

O cineasta Raoul Peck resolve encará-lo. Não que tivesse receio. Ao contrário, vai além: no documentário, ressuscita o mal-estar, o medo, história ainda em curso, conflito que parece não ter fim – e que culmina nos incidentes recentes, nos quais jovens negros foram mortos pela polícia; em outro filme, uma ficção sobre Karl Marx, resolve expor outro medo comum à parte da civilização ocidental, o do comunismo.

O que une Eu Não Sou Seu Negro e O Jovem Karl Marx é a necessidade de expor as forças de uma revolução em curso, contra as quais surgiram barricadas – físicas ou mentais. A consequência – ou seria a causa? – o espectador conhece: o branco contra o “diferente” e o produtor capitalista contra a igualdade armam-se para enfrentar esses seres que clamam por direitos – além de mudar o mundo.

Lutas diferentes em momentos históricos diferentes. Em filmes diferentes. O primeiro é um documentário moldado por recortes, antigas gravações, além de imagens que entraram para a história – como a da jovem negra levando algumas cusparadas e insultos no dia da integração entre jovens negros e brancos nas escolas americanas.

O recorte da trajetória de Karl Marx (August Diehl) dá-se pelo filtro da ficção. Véu cheio de vícios, paixões, fraquezas ao qual tantos cineastas sucumbem: pela proximidade que as interpretações oferecem, pela possibilidade de se chegar ao íntimo de pessoas (para muita gente) intocáveis, o que se reserva à tela são seres quase irretocáveis.

Há mais verdade em poucas palavras de Baldwin do que nos muitos discursos de Marx e de seu parceiro Friedrich Engels (Stefan Konarske). Nessa ficção sobre fatos verdadeiros, as personagens históricas – somadas às companheiras, também às figuras que circundam – terminam como protagonistas angelicais de uma revolução.

É difícil, ainda que haja esforço, imaginar Marx, Engels e suas mulheres, além de outros homens ou dos garotos pela rua, como são retratados aqui: seres cuja beleza não foi ocultada pela fuligem, ou pela barba saliente, ou pela exposição da miséria. Nem poderiam: estão todos a serviço de um cinema acomodado, preso às formas imaginárias.

Basta, em Eu Não Sou Seu Negro, uma foto de Baldwin entre a multidão, escorando a cabeça no ombro de outro homem, para se ver a verdade. E bastam suas palavras, suas explicações, seu jeito simples de expor as máximas daquela época nefasta. Vale até pensar o quanto os recortes de um documentário – com a dependência dos arquivos de época – podem ultrapassar as representações da ficção abarrotada de boas intenções.

Mas, a despeito das diferenças, das condições de trabalho, nos dois casos Peck investiu em figuras ainda vistas como malditas, estranhas, perdidas ou odiadas. E não se trata, aqui, de concordar com elas (Peck concorda, sem dúvida), mas de expor o cinema – documentário ou ficção – como possível veículo para confrontar medos e mitos da História.

Não se trata, também, de se prender aos fatos históricos. Sobressaem o uso do cinema e, em cada filme, seus diferentes resultados. O Karl Marx de Diehl dá ao público o que ele deseja, um homem sem muitos conflitos, que se deixa explicar com facilidade. Ironicamente, Peck comete um dos pecados apontados por Baldwin ao falar do filme Acorrentados durante Eu Não Sou Seu Negro.

Segundo o pensador, a personagem de Sidney Poitier, no clímax da história, salta do trem para ficar com o branco (Tony Curtis) e assim aliviar a plateia branca. Para Baldwin, os espectadores negros desejavam o oposto: que Poitier continuasse no trem.

Ao dar forma a Marx na tela, em versão jovem, Peck esforça-se para fazê-lo ranzinza, difícil, distante. O que sobra é o homem esperado, que transmite “genialidade” pelo olhar, que se inclina ao espectador comunista como a figura imaginada, não raro justa e bondosa.

Se Baldwin expressa-se pelas próprias palavras, com a independência dos arquivos, Marx expressa-se pela ótica de Peck. É a fatura paga pela ousadia da ficção, pela tentativa de retratar o passado pela lente límpida, pela beleza que finge ser suja, ainda mais quando o ponto de vista não deixa esconder preferências políticas.

(I Am Not Your Negro, Raoul Peck, 2016)
(Le jeune Karl Marx, Raoul Peck, 2017)

Notas:
Eu Não Sou Seu Negro:
★★★★☆
O Jovem Karl Marx: ★★☆☆☆

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O falso documentário de Peter Watkins

Uma Voz nas Sombras, de Ralph Nelson

A junção é irresistível: Sidney Poitier, como o viajante sem raízes, encontra-se ao lado de cinco freiras na aridez do Arizona, em algum ponto perdido no mapa. Pede um pouco de água para seu veículo e não consegue mais sair dali. Ganha uma missão.

Para as freiras, uma missão divina. Para ele, com certa desconfiança, a possibilidade de trabalho. O dinheiro não vem, o que não o faz ir embora. Em Uma Voz nas Sombras, a explicação das freiras é divina: ele é o enviado de Deus para construir uma capela.

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As mulheres excluem o dinheiro das relações. Fugiram da Alemanha dividida. Como diz o dono de um bar à beira da estrada, “pularam o Muro de Berlim”. E, após atravessarem o Atlântico, terminaram naquele ponto perdido, à espera do milagre.

O bom homem de Poitier, Homer Smith, aos poucos aceita a missão e passa a ajudá-las. Não só: ele deseja construir a capela sem o apoio de ninguém, como os mexicanos que se aglomeram por ali. A união entre povos corre ao fundo, como a distância entre o homem negro viajante e as freiras que desejam fincar raízes.

O diretor Ralph Nelson deixa essas possíveis leituras também ao fundo, somente chegando à frente ora ou outra, quando há uma discussão a travar. Não se exclui a oposição entre sexos, mesmo com mulheres cobertas dos pés à cabeça.

Poitier, negro de tronco nu, ou mesmo com uma camiseta branca apertada, capaz de trazer à lembrança o jovem Marlon Brando de dez anos antes, coloca-se contra essas mulheres cheias de reservas à vida mundana, aos ganhos materiais.

Não deixa de ser, assim, um filme que abafa uma geração libertária em nome da missão religiosa, a engrandecer esse homem ao centro: ao fim, quando termina de fincar a cruz sobre a capela, Smith faz questão de assinar seu nome ao mesmo tempo em que a câmera mostra-o de baixo para cima, alguém divino e vitorioso.

Não há um vilão. Há circunstâncias, diferenças, encontros, e também a maneira como Smith sempre vê com reservas a insistência das mulheres em se recolher, ou em proibir qualquer amostra do pecado, como a dança frenético do homem negro e dos mexicanos.

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Smith deve acordar de manhã, comer pouco e, além de ajudar as freiras, terá de abrir a porta do carro para elas. Ele não se importa e o faz sem que peçam. Faz por movimento natural: é um herói que se molda sem esforço, com graça, mesmo quando se rende aos desejos do mundo – quando vai embora e retorna com uma camisa florida.

E basta esse pequeno sinal – a camisa florida, além dos óculos escuros – para entender aonde ele foi. O filme trabalha com sutilezas, com um drama que quase não se vê. Fosse outro caso, certamente a personagem do empreiteiro surgiria aqui como a vilã, a destruir a capela, ou a colocar os mexicanos e o negro para correr daquele local.

Em Uma Voz nas Sombras, o empreiteiro também se recolhe ao observar o “milagre”: as pessoas não precisam de grandes máquinas ou de empresas para erguer uma construção. Por ali, ele mostra-se um pouco abobalhado frente àquela força estranha.

A língua é a forma de Smith invadir o mundo das mulheres, é a troca. Antes, ele teria dificuldades para se adaptar; com a língua, é elas que precisam se ajustar, aprender com o visitante. E os momentos em que o grande ator brinca com seu poder – a língua – colocam o filme em outro patamar. Poitier ganhou um Oscar por sua interpretação.

À palavra recorrem o viajante e a líder das freiras, em certo momento, para digladiarem com passagens da Bíblia, sobre ganhar para o trabalho ou trabalhar para chegar a um ganho maior, e não meramente material. Vencem sempre as boas intenções.

(Lilies of the Field, Ralph Nelson, 1963)

Nota: ★★★★☆

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Seis filmes que tornaram Sidney Poitier o maior ator negro de todos os tempos

A carreira de Sidney Poitier soma mais de 50 filmes. Sacar seis obras para resumir sua carreira, por isso, pode parecer pouco à trajetória do grande ator. Mas elas seriam suficientes para colocar seu nome na História. São filmes que mostram o melhor do ator, que também esteve em O Ódio é Cego, Um Homem tem Três Metros de Altura, O Sol Tornará a Brilhar, Tormentos D’Alma, Quando Só o Coração Vê, entre outros.

Da última geração de mitos do cinema, ainda com os pés no clássico, Poitier vê um tempo de transformações. As questões raciais eram levadas às telas. Nascido em Miami, ele logo sentiu os problemas da população negra nos Estados Unidos. Tentou ingressar no Teatro Americano Negro, ainda nos anos 40, só conseguindo na segunda tentativa.

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A primeira oportunidade no cinema veio com O Ódio é Cego. Depois, com Acorrentados, vem a primeira indicação ao Oscar. A estatueta chegaria pouco depois, pelo seu papel em Uma Voz nas Sombras, de 1963. Marcou época. Um ator à altura de seus grandes filmes.

Sementes de Violência, de Richard Brooks

Poitier interpreta um aluno um pouco problemático. A escola está em ebulição. A sociedade também. O professor de Glenn Ford acaba de chegar ao local para dar aula e precisará confrontar os jovens da instituição. O filme pertence à época em que o moderno batia à porta, na geração de Brando e James Dean, e fez história.

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Acorrentados, de Stanley Kramer

Dois prisioneiros, um branco e um negro, fogem acorrentados e precisam se entender. As complicações dão vez a uma grande história de amizade, com a questão racial ao fundo – temática à qual o diretor Kramer retornaria. Produtor de filmes de sucesso como Matar ou Morrer e A Nave da Revolta, ele voltaria a trabalhar com Poitier.

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Uma Voz nas Sombras, de Ralph Nelson

Com a personagem Homer Smith, Poitier tornou-se o primeiro afro-americano a ganhar o Oscar na categoria principal. Ele está perfeito nos momentos cômicos, quando canta e ensina inglês às freiras, e nos dramáticos. Interpreta um herói sem raízes, com a missão de construir uma capela para cinco freiras no meio do deserto do Arizona.

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Ao Mestre, com Carinho, de James Clavell

Esse sucesso popular volta ao tema do professor em sua luta para ensinar, a exemplo de Sementes de Violência. No entanto, de aluno Poitier passa à função do professor. Em 1974, o astro recebeu o título de “Sir” do Império Britânico e, em 1996, voltaria ao papel em uma continuação feita para a televisão, mas menos lembrada.

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No Calor da Noite, de Norman Jewison

“Eles me chamam de senhor Tibbs” é a frase que marcou época, do policial Virgil Tibbs, confundido com um criminoso ao chegar a uma pequena cidade e depois engajado na caça ao criminoso ao lado de outro policial (Rod Steiger). Oscar de melhor filme e melhor ator para Steiger. Em clara injustiça, Poitier sequer foi indicado.

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Adivinhe Quem Vem Para Jantar, de Stanley Kramer

O beijo entre a menina branca e seu noivo negro é visto pelo retrovisor do veículo, de forma distante. O impacto, na época, foi grande, ainda que hoje o filme pareça comportado demais. Além de Poitier, o elenco conta com o casal Spencer Tracy e Katharine Hepburn, em sua última união na tela. Ela ficou com o Oscar de melhor atriz.

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