serial killer

A Casa que Jack Construiu, de Lars von Trier

As mulheres são chatas, irritantes, gananciosas. O responsável por essas caricaturas será rapidamente acusado de misoginia. É Lars von Trier, conhecido por ter criado, antes, uma personagem para si, “indesejada”, “simpatizante nazista”, “torturadora de mulheres” em filmes anteriores, falastrona, dona de declarações odiadas. A consequência de tal fama é A Casa que Jack Construiu, sobre um assassino em série.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

No caso de Lars, difícil separar a vida real do que se vê nos filmes, principalmente quando lança mão da ironia. As mulheres são chatas, irritantes ou gananciosas não porque ele acredita mesmo que sejam; são assim porque precisa rir da fama que lhe foi dada, caminho fácil para mirar os detratores. Seu filme é um ataque aos moralistas.

O que explica a forma escolhida para chocar o público. Nada é mais fácil do que expor, em detalhes, o caminhar de um assassino de mulheres, a quem a morte pode ser equivalente à arte. A certa altura, como imaginado, a ideia por trás desse projeto esbarra no nazismo e seu ideal de beleza, de pureza, o crime como “algo maior”.

A morte – a selvageria – é seguida pela limpeza das menores manchas de sangue, pela organização extrema do matador que sofre de Transtorno Obsessivo-compulsivo (TOC). Suas vítimas são levadas para um freezer e congeladas. Seus corpos, empilhados, representam uma coleção, materiais que servirão à “casa” que deseja construir.

Como outros assassinos em série, Jack (Matt Dillon) está erguendo uma casa imaginária – ou uma catedral, monumento para protegê-lo. Vive em um universo em que mata e sai impune, em que ri das autoridades, em que dissimula às mesmas sem rubor, a ponto de irritá-las. Alguém que crê no crime sem castigo e, por isso, na ausência de uma força superior dona do julgamento ao qual, como todos, seria submetido.

A casa real, a que não consegue construir, simboliza a normalidade à qual não se conecta nunca: a organização das peças, a simetria de ponta a ponta. Catedrais perfeitas protegem seus criadores e usuários das piores tempestades. Em suas histórias contadas a Virgílio (Bruno Ganz), Jack invade o mundo da arquitetura e da arte.

Com Virgílio, o guia da Divina Comédia, desce ao inferno enquanto conta histórias passadas. Provavelmente esteja morto, em busca da organização das peças – mortes – que constituíram sua vida – ou sua “obra de arte”. Tentar justificar os crimes à luz da racionalidade é impossível. Mas Lars outra vez está disposto a provocar o espectador ao questionar as obsessões dos artistas, em busca de suas catedrais.

Todo assassino, diz Lars, almeja a obra máxima, um significado a partir de seu gesto de poder. Todo artista, em algum limite, precisa lidar com a morte, transmiti-la, imaginar os espaços e corredores do inferno justamente para lidar com a ideia do fim. A gratuidade das mortes – do inferno – responde à necessidade de ironia do cineasta: matar é “fácil”, viver para compor uma “obra” com essas “peças” exige mais.

Jack narra algumas passagens de sua infância. Fala do alívio ao ouvir o som das foices e das respirações dos trabalhadores do campo – a mesma sensação que esbarra em um dos cômodos em pedras do inferno, momento em que parece flertar, da janela, com o paraíso. Seu alívio é produto da ação natural, do labor, da vida do homem no campo. Ele chora.

Descobre, ainda na infância, a fotografia. Interessa-se mais pelo seu negativo, pela conversão do claro em escuro, do escuro em claro. Encontra sua própria luz na escuridão, o que outra vez faz pensar na relação do artista com o mundo ao redor: não seria a arte a abertura para inverter a ordem, para propor o impensável?

Claro que existem limites. Precisam existir. Na ficção, Lars traz o mais ignóbil dos seres, dono das maiores atrocidades, seguido por vítimas irritantes. Dessa gratuidade, por sinal, desliza-se não raro à irritação. E não se escapa do clichê máximo aos filmes do tipo: o assassino que dá carona à bela mulher parada na estrada, com o pneu furado. Bela que vem a ser Uma Thurman e o provoca, dizendo que Jack pode ser um assassino.

A matança é uma metáfora da busca por algo maior: o projeto de construção da casa, ou da catedral inabalável, resultado de alguém obsessivo – como um artista. Ou nem tanto, dirão os otimistas. Aos detratores de Lars restam apenas as atrocidades.

(The House That Jack Built, Lars von Trier, 2018)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
20 grandes filmes sobre a (difícil) vida em comunidade

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

O herói desorientado, em busca de respostas, é outra vez a personagem de Dario Argento. Homem que escava paredes, que invade escolas no meio da noite, impedido de parar: à medida que se aproxima da resposta – mesmo enquanto ilude o espectador de que é capaz de fugir –, torna-se a próxima vítima do assassino oculto.

Do mal saltam mãos com luvas de couro em Prelúdio para Matar, outro giallo exemplar de Argento. Mais ainda, o olhar, as frestas nas quais o assassino embrenha-se para observar suas vítimas, a aproximação aos objetos – bonecos enforcados, pequenos diabos, punhais – que compõem o espaço escuro.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Argento, de novo, volta-se à obsessão do olhar, portanto à câmera subjetiva. Primeiro, ao olhar do assassino (escondido) e depois ao olhar do investigador (em cena) para revelar o quanto há de enganador nessa relação. Se por um lado deixa ver todos seus atos de crueldade, o assassino nunca aparece; se por um lado se deixa ver, incluindo suas fraquezas, o herói sempre expõe enigmas em relação ao mundo que observa.

Para Argento, não há saída possível: Prelúdio para Matar é – como sua Trilogia dos Bichos – um filme sobre ironias e esconderijos, sobre pessoas curiosas que cavam buracos para sentir – pelo prazer que não assumem – o cheiro ruim que vem à tona.

Havia, em O Gato de Nove Caudas, uma clara homenagem a Blow-Up, de Antonioni: o crime escondido na fotografia, a do homem lançado em frente ao trem. É necessário que um cego ajude o jornalista e seu fotógrafo a descobrirem esse crime, a observarem essa imagem com mais cuidado. Em Prelúdio para Matar, Argento saca o próprio ator de Blow-Up, David Hemmings, mais humano, menos enérgico.

Interpreta Marcus Daly, pianista solitário, acostumado a templos para ensinar música, cercado por pilares e luzes calculadas, por gente colocada em cena de forma tão artificial que não raras vezes – pela inegável beleza – faz pensar em um filme de Visconti. O luxo contrapõe os crimes, como ocorreria em Suspiria.

Desde os créditos, Argento deixa claro que interrupções são possíveis: entre um crédito e outro dos profissionais envolvidos com o filme, vê-se a cena de um assassinato, da qual uma criança é testemunha. É o sinal da ligação entre a morte e a infância, com a música infantil que retorna em outros momentos da obra.

É, antes, um problema de criança, um trauma, a relação entre pessoas do mesmo sangue. O vermelho da abertura, no interior do teatro, é essa celebração: mistura de paixão e morte, ao mesmo tempo o cenário envelhecido, luxuoso, o mundo limpo e distinto sobre o qual Argento debruça-se para retirar novas interrupções, revelar violência.

O teatro recebe a palestra de uma telepata. Durante a demonstração de seus poderes (ler a mente das pessoas sem prever o futuro), ela vê-se “cortada” pelos pensamentos do assassino, talvez pela interrupção (de novo) de uma lembrança. Interpretada por Macha Méril (uma das musas de Godard), a telepata é a primeira vítima do criminoso, morta ao ter o pescoço cortado pelo vidro da janela, momento presenciado por Marcus.

O vermelho lança o público a outro universo, recobre a personagem central em um labirinto da qual não mais escapa: como James Stewart em Um Corpo que Cai, ele segue à morte sem se explicar, como se o próprio impulso do cinema – a obsessão pelo olhar, por descobrir o que há atrás das paredes – fosse suficiente.

Talvez essa seja a grande lição de Hitchcock a Argento: mesmo que a trama e alguma situação pareçam inverossímeis, o clima delirante sussurra ao público que se trata de sonho, de loucura, algo incontrolável. O que talvez explique as reservas do próprio Hitchcock em relação a alguns momentos de Um Corpo que Cai.

Em Prelúdio para Matar, o pianista é acompanhado por uma jornalista forte e curiosa (Daria Nicolodi) que existe para fazer perguntas, para oferecer caminhos e, sobretudo, para desviar a atenção do espectador. Ela deixa claro, mais de uma vez, seu desejo pelo pianista ocupado demais com a teia de mortes, com a investigação que o levará à identidade do assassino, à infância de canções delicadas e bonecos partidos.

(Profondo rosso, Dario Argento, 1975)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Trilogia dos Bichos, de Dario Argento

Silêncio nas Trevas, de Robert Siodmak

Incontáveis vezes as personagens descem as escadas, dos espaços altos da casa ao porão no qual estão guardadas as bebidas e algumas tralhas. Em Silêncio nas Trevas, as personagens revisitam a espiral, a imagem do delírio, como se viu e como se veria em tantos filmes seguintes, entre eles Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock.

A protagonista também é a vítima, a menina muda interpretada por Dorothy McGuire. Por outro lado, também está ao canto, impotente, alguém cujo olhar – a todos ao redor, por diferentes cômodos – confere forma a esse belo filme noir dos anos 40.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Seu olhar cruza o do assassino ainda no início. Estão em ambientes diferentes, mas próximos. Ela está no cinema, no interior de um hotel; ele, pouco acima, no quarto da próxima vítima, mulher aleijada. Ela assiste ao filme mudo, observa atentamente à ação na tela; ele esconde-se no armário antes de atacar a outra.

Pela montagem paralela, o diretor Robert Siodmak explora a relação dos voyeurs: o prazer contido na tela do cinema e o prazer de observar a próxima vítima. É o que explica, pela montagem, o olhar cruzado, entre a menina condenada a guiar o público em silêncio e o assassino que deixa ver apenas o olho.

Sobre a menina o espectador supõe saber muito, o que a torna ainda mais frágil. O silêncio aproxima-a da criança, ou do animal indefeso, obrigada a se comunicar apenas pela face de susto, de medo, ou de alegria e amor. É a protagonista perfeita ao vilão sem rosto, em busca de vítimas com algum defeito físico.

Pela inclinação das escadas e seu fundo infinito, como se vê no efeito da espiral, o filme conduz o espectador ao labirinto: a mesma menina é obrigada a circular por pontos diferentes da casa, por personagens que escondem segredos, pela indicação constante – ao espectador – de que alguém entre eles é o assassino procurado pela polícia.

Nesse ambiente de clausura – entre cômodos, pequenos segredos, gente estranha –, o único sinal de pureza chega pela inocente Helen (McGuire). A opção faz parte de um jogo que explora extremos, jogo escancarado que remete, segundo Siodmak, à face da mesma Helen enquanto assiste ao filme dentro do filme, na sala de cinema: o diretor manipula o público para retirar dele toda emoção possível, para lhe amedrontar.

No cinema, diz Siodmak, vale esconder o monstro e expor apenas seu olho, ou apenas seu olhar. O espectador será confrontado assim pelo gesto do criminoso, será levado a ver pelo olho do outro e talvez concordar que as “imperfeições” são sedutoras e dignas de atração. Tal gesto seria levado a filmes seguintes, nos quais os criminosos são também voyeurs, como os extraordinários A Tortura do Medo e Psicose.

A abertura, entre a sala de cinema e o ataque do psicopata, parece inesgotável: contra a imagem do filme mudo, em plano conjunto ou médio, Siodmak joga o plano detalhe (o olho ou as mãos cruzadas), o cinema que mobiliza ao revelar apenas as partes. Em paralelo, o cinema primitivo, talvez o melodrama, a imagem que expõe tudo.

Em cena, a evolução de uma arte, o paralelo entre tempos. As duas mulheres – a do filme e a do quarto do hotel – morrem no mesmo momento. Na sala de cinema, Helen emociona-se com o desfecho, conduzida à dor pela manipulação. Sua apresentação dispensa palavras. Fica apenas a expressão. A essa altura, o espectador compreende que ela é a vítima em potencial, fragilizada justamente pelos efeitos do cinema.

(The Spiral Staircase, Robert Siodmak, 1946)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
20 grandes filmes sobre a morte do sonho americano

O Alerta Vermelho da Loucura, de Mario Bava

O protagonista de O Alerta Vermelho da Loucura assume seus problemas desde o início. A personagem é uma assassina, rapaz belo com roupas belas, sob as cores e os exageros da época, no início dos anos 70 – as boates ao som de música eletrônica, o figurino e os gestos das modelos atraentes que desfilam por seu ateliê.

Esse homem atormentado – que mata mulheres vestidas de noiva para retornar ao dia em que sua mãe morreu e talvez descobrir os motivos dessa morte – conversa com o espectador, confessa-se. Como, por sinal, fazia o protagonista de Ensaio de um Crime, de Luis Buñuel. O filme de Mario Bava descende da obra do mestre espanhol.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Antes dos assassinatos há um rapaz atormentado, efeminado, de olhar penetrante, em dúvida. Não esconde a impotência. Curiosamente, a afetação de Stephen Forsyth age a favor do bom resultado final. O assassino, John, adora seu trem de brinquedo, sua caixa de música, as flores sob as quais enterra algumas mulheres, os vestidos de noiva.

Como o Archibaldo de la Cruz de Ensaio de um Crime, ele mantém um incinerador em seu castelo e gosta de se aproximar de suas manequins, sente prazer pelas formas femininas que pode controlar. Talvez as únicas. John sofre com fantasmas femininos, o da mãe e o da mulher, Mildred (Laura Betti), que a certa altura passa a atormentá-lo.

“O tempo desfigura as coisas”, diz a freira que estoura na tela, depois da imagem das pernas da mulher morta, em Ensaio de um Crime. A observação cabe ao John de Mario Bava: o tempo fez com que ocultasse o próprio crime, restando lembranças da criança atormentada, o menino que não suporta ver a mãe casada com outro homem.

Observador, pensativo, ou mesmo preso a seus delírios, como outras tantas personagens. Bava não se importa em repetir, em prestar homenagem. Como Archibaldo ou mesmo Norman Bates, seu assassino volta o olhar aos insetos. John observa uma mosca, sua falta de consciência sobre a morte: reitera assim a banalidade do crime.

E, como o Bates de Alfred Hitchcock, John precisa, a certa altura, ser a própria mãe: coloca o véu branco na cabeça e investe, com faca em punho, contra suas amantes de ocasião. A certa altura, Bava não se contenta apenas com um filme sobre assassinatos. Recai sobre a trama o espírito da mulher, representação da presença feminina que atormenta.

Na verdade, Mildred é espírito desde o início. No primeiro diálogo com John, no café da manhã, enquanto ele cita com ironia a notícia do jornal, sobre a morte de uma mulher em lua de mel, ela adianta o que vem pela frente: ficarão juntos até que a morte os separe. Ou mais: seguirão juntos mesmo após a morte dela.

Em alguns momentos, John é visto do alto, entre suas manequins, seus vestidos de noiva. Bava constrói sequências inesquecíveis com seus adornos datados, um pouco cafonas. O ateliê é o que restou da mãe, o espaço sem vida que contrapõe os ambientes externos e verdes da mansão, nos quais as modelos vivas são fotografadas.

O sentido de impotência do protagonista esbarra na comédia. O diretor italiano tem consciência dessas alterações, do quanto o esmagamento de sua personagem central produz algo um pouco engraçado. Aos poucos, o controlador e assassino perde o controle. Sucumbe. Viverá a eternidade à sombra do espírito feminino.

(Il rosso segno della follia, Mario Bava, 1970)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A Mulher na Lua, de Fritz Lang

Seven: Os Sete Crimes Capitais, de David Fincher

Os detetives interpretados por Morgan Freeman e Brad Pitt, Somerset e Mills, perseguem um assassino em série que crê na purificação da sociedade. Matar os pecadores, aqueles que forjam um mundo podre: os gulosos, os avarentos, os preguiçosos, os irados, assim por diante.

É como se todo o decorrer de Seven: Os Sete Crimes Capitais – talvez à exceção da sequência final – fosse visto pelo olhar do criminoso. O olhar de um deus malvado que castiga os pecadores, que não precisa ter um nome e, pela necessidade de assumir um em tal sociedade corrompida, escolhe o do Zé Ninguém, John Doe.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

É o nome de uma personagem que não existe no clássico Adorável Vagabundo, de Frank Capra, no qual um tal John Doe promete suicídio, em pleno Natal, em protesto contra a corrupção e a pobreza. No filme de David Fincher, com roteiro engenhoso de Andrew Kevin Walker, o Zé Ninguém retorna para pregar o fim.

Como lembra o astuto Somerset – um homem do qual não se vê pecado, apenas retidão –, o assassino é um pregador. Alguém que pretende purificar pela aplicação do mal. E seu olhar voltado à cidade, ou aos policiais, ou, mais ainda, às vítimas, traz também a escuridão, os ambientes degradados, a chuva.

Eis outro efeito desse olhar – e, por consequência, das escolhas certeiras da direção e do roteiro. A chuva é o elemento que leva a pensar na purificação. Como diz a personagem de Robert De Niro em Taxi Driver, “um dia uma chuva de verdade virá e lavará toda essa escória para fora da rua”. Por outro lado, a chuva termina por cegar, por fragilizar os detetives; fica sempre a impressão de fraqueza, de instabilidade.

Para lançar seu jogo, e para ter o fim que deseja, nada melhor ao assassino que dois homens tão diferentes: o já citado astuto, inteligente, que pensa antes de atirar; e o enérgico por quem as mocinhas belas do interior terminam apaixonadas, também honesto mas disposto a puxar o gatilho para “fazer justiça”.

A essa dicotomia o jogo antecipa-se: tão importante quanto a imposição dos crimes é essa relação entre homens, o jogo antes do jogo, as construção de personagens que ao mesmo tempo se aproximam e se repelem: o jovem belo, branco, casado, que acaba de assumir a cadeira do mais velho, negro, solitário, leitor noturno.

É como se o deus malvado percebesse essas diferenças e as usasse a seu favor. Move suas peças para ter à frente da ação o enérgico, enquanto ao fundo, sobre as papeladas, resta o pensativo, pronto a dar as respostas, a fazer avançar a investigação. Chegam à porta do apartamento de John Doe, por sinal, graças a essa cabeça pensante.

Outra peça importante, a esposa perfeita (Gwyneth Paltrow) percebe o mal que recai sobre a cidade: confessa não ao marido, mas ao parceiro dele, que odeia o local. O trem faz sua casa tremer, a chuva amedronta. Não é o melhor dos mundos para ter um filho. E confessa a Somerset que está grávida antes mesmo de dar a surpresa ao marido.

Não se duvida da presença do amor na relação do casal. Mas o homem negro, aqui, servirá de confidente, alguém compreensivo, acima da energia e da ação do outro, alguém capaz de perceber todo aquele mal e, por ver as coisas por outro ângulo, dar a ela o conselho certo. A alma do filme é Somerset.

Quando assume um rosto, o de Kevin Spacey, John Doe não foge ao esperado: parece fraco e sabe usar as palavras como ninguém. Quando começa a falar, não para mais. Explica-se como alguém tomado por uma missão, a personificação de uma necessidade, a essa altura distante da chuva, em um ambiente árido fora da cidade.

É quando o filme demole expectativas: a essa altura, a ausência da chuva e da umidade não reserva conforto. Pelo contrário. O que se vê em seguida é a aproximação final entre John Doe, Somerset e o detentor do último pecado capital, o homem armado e previsível em expressões e gestos, Mills. Puxará o gatilho, ninguém duvida.

(Se7en, David Fincher, 1995)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Os dez melhores filmes de todos os tempos segundo Woody Allen