Segunda Guerra

Antifascismo em dois clássicos americanos

Com a distância de décadas, fica difícil aceitar a derrota de Humphrey Bogart na cerimônia do Oscar de março de 1944. O lendário anti-herói Rick Blaine era a síntese de seu tempo: o cínico que se revela herói, que deixa a mulher de sua vida para uma causa maior, íntimo ao espaço em que se misturam ladrões, resistentes e nazistas.

Na ocasião, a cobiçada estatueta dourada terminou nas mãos de Paul Lukas, pelo papel do alemão Kurt Muller no menos lembrado Horas de Tormenta. Interessante observar como as personagens de Bogart e Lukas distanciam-se e, ao mesmo tempo, ajudam a entender o clima da época, em filmes que atacavam diretamente o nazismo.

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Blaine esconde o herói desde o início, reluta a aceitar transformações, a aderir à causa, até se ver dobrado à mesma devido ao amor de mulher (Ingrid Bergman) – beldade que, certa noite, entre tantos bares do mundo, cruza a porta justamente do seu. Eles estão em Casablanca, no Marrocos, entre americanos, franceses, alemães e outros estrangeiros.

O ambiente ao qual segue o herói Muller é outro: está, já no início, na fronteira dos Estados Unidos, terra de sonhos àqueles que, em Casablanca, sonham com um salvo-condutas e a passagem de avião rumo à América. Muller tem em sua companhia a mulher (Bette Davis) e três filhos. É, desde 1933, membro da resistência antifascista.

São diferentes em tudo, exceto nos fins: ambos deverão lutar contra os inimigos, ambos com lados marcados. Blaine, no início, é instável, homem do mundo que tenta se estabelecer, não ligar para ninguém ou para uma bandeira, e apenas desfrutar o poder que lhe resta naquele bar em Casablanca, ponto de encontro aos fujões.

Muller, ao contrário, tem família, refúgio e alguns dólares – 30 mil – que carrega em uma bolsa com cadeado. E, em oposição a Blaine, é o herói esperado, que mais discursa do que fala, e cuja interpretação de Lukas, correta, ainda revela um coração para além da figura montada. Nesse ponto, Blaine é mais feliz: sua tentativa de esconder as emoções cai por terra pouco a pouco; o homem apaixonado bebe sozinho e sofre por amor.

Casablanca coloca o público em ambiente de desconforto, longe da América, entre inúmeras pessoas que não merecem confiança. É como se aquele bar, ou aquela cidade, ou aquele país estivesse próximo de explodir – à medida que Blaine serve-se do momento, transportado do cínico empresário à beira da roleta ao herói.

Na América em que Muller coloca os pés, a aparência é de segurança, a começar pela casa em que vai morar: estão ali os alicerces altos e brancos, pinturas que louvam antepassados brancos, criados negros sem muita voz, a senhora de língua afiada (sua sogra) que não conhece o mundo para fora dessa cidade, ou da mesma casa.

Como em Casablanca, surgem os nazistas, homens maus que se encontram na embaixada alemã para jogar cartas e tramar a divulgação de suas ideias. Muller combate-os sem dizer quase nada. Ao fim, quando atira contra um deles, desarmado, o filme enfim retira o espectador da zona de conforto: da peça de Lillian Hellman, com roteiro de Dashiell Hammett e direção de Herman Shumlin, Horas de Tormenta mostra como é possível se enganar sobre um filme aparentemente pequeno, sem clara ousadia, a afirmar, de novo, os valores americanos.

Quando perguntam a Muller qual a sua profissão, ele não hesita: é antifascista. Vive por uma causa, contra o mal que ataca o mundo naquele momento. Se necessário, deixará a família para lutar contra os inimigos. Será sempre – mesmo ao atirar em um homem desarmado – o herói honesto, ao qual sobram palavras de força.

Ao expor uma transformação, ou a aceitação do que sempre foi e escondeu, Blaine deixa ver outro material: é mais instigante, até mesmo cômico. É mais real, figura por quem as damas que frequentam seu bar se apaixonam – e o espectador entende o motivo. Arrisca tudo ao colocar a arma na direção do francês, depois contra o nazista. Permite que seu grande amor escape-lhe para servir à luta antifascista.

É compreensível que Lukas tenha ficado com o Oscar. Tem o papel correto, o do homem que renuncia à América para voltar ao confronto – contra o homem cujas falas permitem ver um pouco dos incorretos detetives do cinema noir. Bogart era feito de outro material, perfeito ao filme perfeito, não para um Oscar. Casablanca, por sua vez, levou os prêmios de filme e direção (de Michael Curtiz). Como Horas de Tormenta, foi produzido por Jack L. Warner e Hal B. Wallis. Ambos, apesar das diferenças, têm mensagens com endereço certo: a Alemanha à sombra do Führer.

(Idem, Michael Curtiz, 1942)
(Watch on the Rhine, Herman Shumlin, 1943)

Notas:
Casablanca:
★★★★★
Horas de Tormenta: ★★★☆☆

Foto 1: Casablanca
Foto 2: Horas de Tormenta

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Michael Powell vai à guerra

O Filho de Saul, de László Nemes

É natural pensar em descrença. O cenário contribui. Em um campo de concentração mantido pelos nazistas, o homem tem de guiar judeus às câmaras de gás, depois retirar seus corpos, limpar o local. O pior trabalho do mundo, no pior dos ambientes.

A descrença não vem. Tem-se o oposto em O Filho de Saul. Mesmo à beira da morte certa, já que os trabalhadores judeus também seriam exterminados, o protagonista Saul (Géza Röhrig) ainda deseja dar um enterro digno ao filho, com rituais religiosos.

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É o mais importante no extraordinário filme de László Nemes: o humano, mesmo nos piores momentos, não se desprega da ideia de continuidade, seguindo seus próprios e necessários rituais, sem se limitar ao ambiente físico que o rodeia.

Para comprovar a dor – e à oposição à crença de Saul –, o diretor compõe uma obra física, realista, com pouca profundidade de campo, com a câmera colada à personagem. Os outros, por isso, são pessoas de passagem, vozes e corpos ao lado.

Interessa a situação de Saul, seu drama, sua caminhada, com suas costas cortadas pelo vermelho que forma um “x”, como se estivesse sempre marcado: ainda que não morra imediatamente, ser executado, ali, é apenas questão de tempo.

O espectador percebe. Palavras não são necessárias. O roteiro pende ao físico, o que faz de algumas tramas – a possível fuga, a compra de soldados com objetos valiosos – ações secundárias. Não é para encontrar uma história, mas para se deixar levar pela personagem central – que tampouco se explica, sem origem definida.

O único elo com Saul é o filho. No entanto, alguém lhe diz que o garoto encontrado na câmara, à beira da morte, talvez não seja quem o protagonista imagina. O homem ao centro, a andar em círculos, talvez o tenha adotado nesses instantes finais. O filho – de sangue ou não – é a morte da própria humanidade. E não há dor maior do que ela.

A situação agiganta-se sem que se recorra a novos contornos: o que Saul precisa é desviar dos outros, das outras tramas, do trabalho sem fim e talvez até da salvação para entregar o filho a Deus. A vida que resta resume-se quase toda a um corredor escuro, apertado, a ser percorrido. O público, em O Filho de Saul, aperta-se com ela nessa jornada insana, nunca injustificada. O que está em jogo é uma crença.

Mais tarde, enquanto observa a porta da cabana que serve de esconderijo aos judeus, Saul verá outra criança. Verdadeira ou não, corrobora a ideia de Nemes: no Holocausto, qualquer ideia de liberdade é ilusória. A ideia do filme está estampada, faz doer: não há outro caminho senão o da morte, como anunciava a letra vermelha nas costas, ou como era possível observar nos últimos suspiros do filho, no interior da câmara de gás.

(Saul fia, László Nemes, 2015)

Nota: ★★★★★

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Ilha do Medo, de Martin Scorsese

O Bandido, de Alberto Lattuada

Em O Bandido, de Alberto Lattuada, as mulheres surgem para destruir a vida do protagonista: uma como a irmã corrompida, que se torna prostituta após a guerra; a outra como amante inconfiável e sedutora.

Com elas, ou por elas, Ernesto (Amedeo Nazzari) tentará sobreviver em um país ainda em reconstrução e encontrará sua desgraça. Ele retornou da guerra na companhia de um amigo e acreditava encontrar uma Itália melhor e mais justa. Ele engana-se, torna-se bandido.

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Na abertura, o trem é uma esperança em meio à névoa. Lattuada capta o desespero dos viajantes, uns sobre as outros, em busca de um espaço para dormir ou para fugir. Ernesto está entre eles: é o único com o rosto na janela, o mais ansioso para reencontrar sua terra. Ele e amigo Carlo (Carlo Campanini) conseguem deixar o trem e, de carona em um caminhão, chegam à grande cidade.

O protagonista fica no meio urbano. Carlo vai ao meio rural, para perto da filha e de outras pessoas. Um escolhe fugir, o outro lutar. Tais diferenças, à frente, farão todo o sentido, já que a cidade, para Lattuada, é essencial ao movimento de sua história – na qual Ernesto vai do apogeu na vida criminosa à derrocada.

Certa noite, como um vagabundo às beiradas, ele encontra a carteira da mulher de um criminoso. É Lidia (Anna Magnani), com quem logo estará aos beijos, com quem descobrirá seu lado bandido.

É a primeira parte da imersão à tragédia. A segunda ocorre quando, pela rua, ele vê uma bela mulher caminhar pela escuridão – em locais quase sempre escuros, becos, escadas apertadas até quartos com cafetões e mulheres exuberantes. Essa dama seguida passo a passo – e desejada – é a irmã que Ernesto acreditava ter perdido, Maria (Carla Del Poggio), prostituta no pós-guerra.

Uma Itália despedaçada, sem esperança, contra a Itália que os homens desejavam encontrar ao voltar da guerra. Tornar-se bandido – ou prostituta – resulta do encontro com a realidade. A ironia é que Ernesto foi treinado para matar pelo governo, para defender uma bandeira. Antes com permissão para isso, ele torna-se perseguido.

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Sua história impressiona Lidia, mulher de beijos a diferentes homens, descontraída, com o jeito imponente que Magnani confere com facilidade. Não deixa o público respirar. Perto dela, até mesmo Ernesto – com seu bigode fino, seu jeito falso (mais tarde levado a Noites de Cabíria) – fica pequeno.

Bandido, o protagonista vê-se de cabelo impecável, com belo terno, sapatos lustrados. Lattuada ainda deixa ver nele certo idealismo, quando compra brinquedos para enviar à filha de Carlo, ou quando – em uma daquelas coincidências difíceis de digerir – encontra a mesma menina em uma montanha.

Em outro momento, leva o dinheiro roubado de ricaços a um beco escuro. Chama mendigos e faz a festa de todos ao lançar notas ao alto. Há quem grite que ficou, do dia para a noite, milionário em um instante. O bandido talvez não seja assim tão mau.

A Itália encontrada por Ernesto é a das diferenças, também a da intolerância. Nela, o homem ganha diferentes camadas, alguém que deseja e ao mesmo tempo condena a irmã, que não se aceita por completo. Assassino e protetor, justo e bandido. Um novo homem para uma nação em pedaços.

(Il bandito, Alberto Lattuada, 1946)

Nota: ★★★★☆

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Abbas Kiarostami (1940–2016)

Ilha do Medo, de Martin Scorsese

Os espaços da ilha confundem o espectador. Não é possível entender as divisas, os caminhos, as distâncias. No interior dos prédios, corredores e estruturas metálicas cruzam-se por todos os lados. Por ali caminha o protagonista, o policial.

Depois não é mais assim: Ilha do Medo, de Martin Scorsese, muda o tempo todo. O policial, na companhia do parceiro, vai àquela instituição psiquiátrica, na ilha isolada, para encontrar uma mulher desaparecida, uma interna.

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No meio desse jogo, eles trocam os ternos por roupas brancas. Tornam-se internos. A busca pela mulher deixa de ser o mais importante. Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio), o protagonista, passa a procurar por Andrew Laeddis, homem que teria colocado fogo em seu apartamento e matado sua mulher, vivida por Michelle Williams.

Aos poucos, e a cada nova camada, o espectador começa a perceber que se trata de um labirinto: talvez Daniels não seja quem acredite ser, talvez a ilha sequer exista.

As novas camadas colocam o espectador na posição do homem louco ou esclarecido – o que depende sempre do ponto de vista. Como lembra Scorsese, em entrevista, ou se embarca ou não. A trama policial é apenas o refúgio de Daniels.

Ele criou uma personagem para sobreviver, uma trama central. É alguém iluminado, justamente o louco. Pois encontrou a “saída”, o “refúgio”: contra a tragédia de sua vida pessoal, sua vida verdadeira, preferiu a própria ficção.

ilha do medo

O que se tem é o ato maluco de percorrer corredores mentais, com fósforos à mão, com pouca luz, ou com a luz em excesso que parece cegar o investigador Daniels. É sobre loucura, sim, mas, sobretudo, como esta parece real, possível, como parece até mesmo necessária para se viver à sombra daquele estranho mundo de 1954.

A paranoia está por todos os cantos, da chegada à ilha entre a névoa à última tentativa de contato do médico com Daniels, ou Laeddis. Ao invés de se dirigir a ele pelo suposto nome verdadeiro, prefere o fictício. Talvez tenha embarcado na ficção.

O passado de Daniels emerge distorcido, em suas memórias: ele lembra a passagem pelos campos de concentração, rememora as pilhas de gente morta. Em uma sala com quadros de Hitler, assiste à morte de um oficial alemão, que agoniza.

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O Holocausto é a tragédia de quem sobreviveu à guerra. Ilha do Medo, a partir da obra de Dennis Lehane, é sobre lidar com a morte. Daniels, ou Laeddis, transfere a dor da perda familiar à das mortes no campo de concentração – e, depois, transfere as torturas e experiências desses campos ao hospital onde está internado, na suposta ilha.

Durante sua procura, seu mergulho em si mesmo, encontra essa explicação: tudo à sua volta evoca a paranoia. Uma fábrica para produzir loucos, não para curá-los. As vítimas seriam os comunistas. Era o tempo do macarthismo, das perseguições.

Portanto, talvez a loucura de Daniels revele verdade: sua fuga, ao contrário do que se pensa, prende-o ainda mais. O mesmo farol que ilumina também mata. As tentativas de purificar uma raça – sob os ideais nazistas – levam a atitudes impensáveis, assistidas por Daniels quando era um soldado de olhar assustado.

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Seu olhar segue como sempre. Ao longo filme, ele treme, tem dúvidas. Quando parece ter recuperado a “sanidade”, explica ao suposto parceiro que está pronto para tentar escapar de novo, ou apenas para ficar por ali, perambulando por sua ficção.

A tal ilha revela-se um hospital de bairro. O caminhar final, à morte, é tranquilo, pois o pior está na quietude, na aparência banal. Fora da ficção resta quase nada.

O espectador é refém do homem louco, que continua a fazer as mesmas perguntas. Não aceita outro caminho senão o já traçado, com médicos suspeitos, prisões, nazistas, tempestades, cemitérios, desfiladeiros e cavernas perdidas.

Nota: ★★★★☆

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