Sean Connery

Bastidores: Marnie, Confissões de uma Ladra

Eu gostava sobretudo da ideia de mostrar um amor fetichista. Um homem quer dormir com uma ladra porque ela é uma ladra, como outros têm vontade de dormir com uma chinesa ou com uma negra. Infelizmente esse amor fetichista não foi tão bem transposto para a tela como o de Jimmy Stewart por Kim Novak em Um Corpo que Cai. Para falar cruamente, seria preciso mostrar Sean Connery flagrando a ladra diante do cofre-forte e tendo vontade de pular em cima dela e violentá-la ali mesmo.

Alfred Hitchcock, cineasta, em entrevista a François Truffaut, no livro Hitchcock Truffaut (Companhia das Letras; pg. 303). Abaixo, o diretor e os atores Tippi Hedren e Sean Connery durante as filmagens.

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À época, em 1975, um filme como Tubarão poderia parecer estranho. Mais tarde, seria quase regra. Tornar-se-ia, então, a maior bilheteria de seu ano, o primeiro filme a ultrapassar 100 milhões de dólares em ingressos nos Estados Unidos. Algo mudava.

Spielberg apontou ao retorno das grandes produções, o cinemão de entretenimento. Apenas dois anos depois viria Guerra nas Estrelas. A história seguinte é conhecida. Em 1975, Tubarão dividia espaço com outros grandes filmes, de autores já com carreira consolidada, como John Huston, e outros próximos de grande sucesso, como Milos Forman. Ano de filmes extraordinários, inesquecíveis, como provam os 20 abaixo.

20) O Homem que Queria Ser Rei, de John Huston

Bela aventura de Huston com uma dupla incrível à frente, Michael Caine e Sean Connery, exploradores que desejam se dar bem em terras distantes.

o homem que queria ser rei3

19) Dersu Uzala, de Akira Kurosawa

História de amizade entre um militar e um homem da tribo Goldi. Depois de tentar o suicídio, Kurosawa foi convidado pelos soviéticos para fazer esse belo filme.

dersu uzala

18) A História de Adèle H., de François Truffaut

Amor e sofrimento, com a mulher, Adèle, filha de Victor Hugo, em busca do homem que ama, em meio à guerra, com a extraordinária direção do francês Truffaut.

a história de adele h

17) O Importante é Amar, de Andrzej Zulawski

Começa com uma filmagem, quando a atriz (Romy Schneider) fica paralisada em cena e não consegue dizer “eu te amo”. Zulawski explora a relação entre arte e vida real.

o importante é amar

16) Xala, de Ousmane Sembene

Crítica aos novos poderosos na África independente (ou nem tanto), com um encerramento bizarro e a personagem que crê estar impotente após o terceiro casamento.

xala

15) Pasqualino Sete Belezas, de Lina Wertmüller

A trajetória de um fraco mafioso, Pasqualino, que termina em um campo de concentração, sob as ordens de uma líder alemã gorda e que o trata como um rato.

pasqualino sete belezas

14) Um Lance no Escuro, de Arthur Penn

O cinema com mistério, em seu lado marginal, sobre dublês e estrelas decadentes, enquanto Gene Hackman é o detetive em busca de uma ninfeta desaparecida.

um lance no escuro

13) Picnic na Montanha Misteriosa, de Peter Weir

Outra bela produção cheia de mistério, a comprovar o então bom momento do cinema australiano. Aborda o desaparecimento de algumas garotas em uma montanha.

picnic na montanha misteriosa

12) Tubarão, de Steven Spielberg

Após alguns filmes originais, entre eles o incrível Encurralado, Spielberg entrega esse arrasa-quarteirão. Nenhum filme sobre tubarão, depois, conseguiria o mesmo resultado.

tubarão

11) Um Dia de Cão, de Sidney Lumet

Entre comédia e tragédia, Lumet oferece esse belo retrato da sociedade da época, na qual assaltantes humanizados dão corpo às imagens que a mídia tanto deseja.

um dia de cão

10) A Honra Perdida de Katharina Blum, de Volker Schlöndorff e Margarethe von Trotta

Poderosa crítica à imprensa, que persegue a protagonista, a estranha e distante Katharina Blum. Ela está apaixonada por um suspeito de terrorismo procurado pela polícia.

a honra perdida de katharina blum

9) Lilian M: Relatório Confidencial, de Carlos Reichenbach

Uma história marginal com uma protagonista impensável: em suas andanças, Maria torna-se Lilian, passa do campo à cidade, e revela um país de cabeça para baixo.

lilian m

8) Jeanne Dielman, de Chantal Akerman

A impressão é de que nada ocorre. Por algum tempo, vê-se apenas a mulher em seu espaço: na cozinha, fazendo comida, ou trabalhando, recebendo homens por ali.

jeanne dielman

7) Barry Lyndon, de Stanley Kubrick

Épico frio, extraordinário, que começa com um embate de armas, com o aventureiro a quem tudo dá errado para dar certo. Depois, o oposto: tudo dá certo para dar errado.

barry lyndon

6) Saló ou Os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini

Obra de choque, testamento de seu autor, assassinado por um garoto de programa pouco antes de o filme estrear. Mescla tortura, jovens inocentes e fascistas.

saló ou os 120 dias de sodoma

5) O Espelho, de Andrei Tarkovski

A mulher espera pelo marido, fora de casa, sobre a cerca. Tarkovski consegue uma das mais belas imagens do cinema, com as lembranças de um homem sobre a infância.

o espelho

4) Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

O diretor italiano explora novamente a identidade, com o repórter que vê a oportunidade de mudar de vida ao assumir o nome de um homem morto, em um hotel distante.

profissão repórter

3) Um Estranho no Ninho, de Milos Forman

Texto afiado, com Jack Nicholson explosivo e um ambiente nem sempre fácil de abordar: o hospital psiquiátrico. É mais trágico que engraçado, e pode levar às lágrimas.

um estranho no ninho

2) A Viagem dos Comediantes, de Theodoros Angelopoulos

Obra grande em diferentes sentidos, com Angelopoulos a abordar a história da Grécia. Tem alguns dos planos-sequência mais extraordinários do cinema moderno.

a viagem dos comediantes

1) Nashville, de Robert Altman

O típico filme-coral de Altman, com mais de 20 personagens, com uma cidade em festa, com a política ao fundo e ecos de tempos passados: o assassinato em local público.

nashville

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O Homem Que Queria Ser Rei, de John Huston

O esporte praticado pelos nativos chama a atenção dos britânicos em O Homem que Queria Ser Rei, de John Huston: em uma espécie de “polo afegão”, eles transformam a cabeça humana em bola, para o desprazer dos recém-chegados exploradores.

O desprazer logo dá vez ao comodismo: os dois homens de fora desejam dominar essa região distante. Talvez se tornem reis, enriqueçam.

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Ao escritor Rudyard Kipling, que ganha destaque como uma das personagens, a aventura anunciada pelos dois homens mais parece loucura: atravessar um território difícil, da Índia sob o comando britânico ao território do Afeganistão.

Embrenham-se em tribos, com armas em punho, com o jeito malandro que Sean Connery e Michael Caine conferem aos protagonistas. Para Kipling (Christopher Plummer), eles não mentem: querem se dar bem, dominar os outros.

Até certo ponto, dá certo: suas armas e os ensinamentos do exército permitem que façam promessas, como deuses para salvar os maltrapilhos. Os nativos são enganados com facilidade. Um deles fala inglês, já foi levado pela malícia dos colonizadores.

Logo, a entrada de Daniel Dravot (Connery) e Peachy Carnehan (Caine) torna-se mais fácil: possuem um tradutor e, sobretudo, sorte. Ao contrário de Peachy, Daniel começa a enxergar algo a mais: talvez tudo não passe de obra do destino, e talvez ele – com a barba avantajada, grande e forte – nasceu para governar a região.

A partir da obra de Kipling, Huston faz uma poderosa crítica ao colonialismo. Crentes em sua superioridade, mas malandros sempre, os homens ao centro ensinam seus súditos ignorantes a matar como “homens civilizados”, nas palavras de Daniel.

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Pouco a pouco, começam a conquistar novas tribos, novos castelos. Daniel, salvo da morte graças a um de seus artefatos, ao receber uma flechada, é considerado um deus, o descendente espiritual de Alexandre, o Grande, que antes havia governado o local.

O diretor conduz a aventura com graça. Seus heróis nunca perdem a vontade de viver, mesmo quando encaram os piores momentos. Huston foi um aventureiro bebedor, e seus filmes não escondem a delícia que o risco envolve.

Isso não significa que não leve o material a sério. Ele quase sempre prefere tomar distância dos nativos. O filme é contado pelo ponto de vista de Peachy, que retorna a Kipling para relatar como o poder pode ser – ou quase sempre é – volúvel.

O tesouro reserva-se à aventura, à simples piada bem contada, à história que se degusta talvez sem acreditar em cada detalhe. A história de Peachy é, ironicamente, uma história de destino, não de acaso – como quase toda boa história parece ser. Huston não escapa desse caminho: satisfeitos, seus homens cantam até mesmo à beira da morte.

(The Man Who Would Be King, John Huston, 1975)

Nota: ★★★★☆

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