Sam Rockwell

Vice, de Adam McKay

O rei não está completamente nu. Vice, ainda no início, nos textos que antecedem o filme, quase pede desculpas: sua produção diz que fez o melhor que pôde ao tentar se aproximar de Dick Cheney, o todo-poderoso vice-presidente dos anos George W. Bush. É, na nudez possível, sobre como um boçal chegou ao poder e se manteve lá.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O homem ao centro reparte com o espectador alguns problemas. Um deles, o coração, insiste em atrapalhá-lo durante sua vida. Mas com vida longa esse rei estranho, de falas baixas e para dentro, é presenteado: Vice – por outra linha possível – é sobre monstros que sobrevivem às suas deformidades, creem estar certos, fingem ser como todos.

Cheney não combina com os versos de Shakespeare, nem com os reis mandões de antigamente. A roupagem é a do tirano silencioso. Shakespeare, colocado em sua boca e na de sua mulher, na tentativa de cobrir um buraco da mesma produção que não sabe ao certo o que aquelas pessoas disseram, é uma ironia: o poder – o dos cultos ou dos boçais – pode produzir efeitos semelhantes, e quase sempre produz.

A brincadeira de Adam McKay tem fundo sério. A comédia dói. Os chamados “buracos”, na busca pela farsa, são possíveis e aceitáveis: Cheney e sua esposa Lynne (Amy Adams) podem ficar com os versos de Shakespeare sem que o espectador deixe de acreditar nos fins, no que pessoas de aparência comum são capazes de fazer com sua nação.

Vice é uma sátira política que não deixa escapar a realidade, o desgosto, a monstruosidade de reis, rainhas e súditos feitos de carne e osso, sussurros e, por que não?, humanidade. Há algo humano no Cheney que observa um homem com a perna quebrada, após cair de um poste; ou no pai que diz aceitar a homossexualidade da filha.

De Nixon a Bush (pai e filho), passando por Ronald Reagan, Cheney serviu-se da política. Primeiro aos fundos, assessor importante; depois com microfones e palanques. Não é nunca o completo desmiolado, como parecem dizer as imagens iniciais, as de sua bebedeira; tampouco o líder equilibrado, nunca visto ao longo da obra.

O diretor e roteirista McKay retorna à fórmula de A Grande Aposta: faz um filme esperto, acelerado, cheio de liberdades narrativas e brincadeiras com figuras da história americana recente, focado no carreirismo dos idiotas que, é certo, não podem ser apenas idiotas em suas cruzadas para ganhar eleições e mudar o mundo.

Chega-se ao coração do homem, músculo bombeador, massa sem vida e, às tantas, substituído por outro. Coração morto, coração posto. Ao sinalizar ao músculo, à matéria orgânica inservível do rei que insiste em viver, McKay mostra de que material todos são feitos, ponto fraco incapaz de matar o vilão, contra todas as previsões.

Em conversas e planos, Cheney é um hábil negociador. A política é feita de espertos, não de inteligentes, diz o cineasta. Seu protagonista, vivido por Christian Bale, é um parrudo que não cansa de olhar para baixo, cabelos escorridos lançados ao lado, sem qualquer carisma, limitado a um ponto em que nunca se declara vilão.

O caminho todo é intercalado por verdades e mentiras. Não apenas as primeiras causam dor, não apenas as segundas levam ao riso. McKay sabe como colocar tudo no mesmo plano, faz da farsa um gesto de ataque, da verdade um estranho catalisador de emoções que apontam ao homem, à mulher, às suas filhas, essa gente perigosa com a qual é possível esbarrar em um supermercado qualquer, de uma pequena cidade qualquer dos rincões americanos.

Cheney abre meios próprios para fazer o que quer e nunca é punido. Encontra palavras certas, brechas na lei, faz tudo parecer fácil e ainda se diverte – à medida que, à câmera de McKay, as batidas do pé de George W. Bush (Sam Rockwell) dão vez às de um pai iraquiano desesperado, ao som das bombas do lado de fora. Homens como Cheney e Bush sempre sobrevivem. Colocam a cabeça no travesseiro e dormem bem.

(Idem, Adam McKay, 2018)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Quatro filmes sobre a política nos tempos de Nixon e o Watergate

Três Anúncios para um Crime, de Martin McDonagh

Três anúncios em três outdoors à beira da estrada, para quem segue à pequena cidade, indicam um crime impune: uma moça foi estuprada, assassinada e teve o corpo queimado ali mesmo, perto da estrutura de uma das propagandas, como indica a grama escura. Sua mãe ainda aguarda a prisão do dono da atrocidade.

Ao cruzar com os outdoors, ainda no início de Três Anúncios para um Crime, a mãe percebe o visual degradado, a velha propaganda sobre outra, recortes que não dão vida a qualquer imagem. Representam apenas o que esse local se tornou, e ajudam a compreender do que fala esse grande filme de Martin McDonagh: o esfacelamento daquele espaço, o que não pode ser ocultado por uma propaganda qualquer.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

E o que há de mais intrigante pode ser resumido nesses mesmos três outdoors então abandonados: a sociedade em questão renunciou à representação e, ao longo do trabalho de McDonagh, suas personagens serão o que se espera delas. Ao contrário do que pode ansiar o espectador, não se trata de um filme sobre a procura por um assassino.

O que salta é a provocação, estudo da relação entre pessoas, a bola de neve que toma proporções impensáveis quando a protagonista, a mãe que espera por justiça, resolve inverter o jogo nessa sociedade do espetáculo: a propaganda, entende ela, servirá para revelar, não para alimentar o sonho ou alavancar a venda de algum produto.

Ela compra o espaço dos três outdoors esquecidos. As novas publicidades fornecem, em vermelho, alguma vida, alguma atenção, ódio e dor em igual medida: ao indicar o nome do chefe da polícia que ainda não conseguiu prender o responsável por matar sua filha, a mulher evoca a ira daqueles que preferem a sociedade em silêncio.

Fala-se aqui de um país envelhecido, perdido no mapa, de pessoas que gastam seus minutos com a alegria de encostar em algum balcão, ou se acomodar à varanda, para beber sob o crepúsculo. O oculto (o crime não resolvido) mescla-se àquilo que não se esconde (a reação das pessoas, a constatação de que não são suspeitas, mas que se deixam ver).

Os policiais não são previsíveis. São humanos que sangram, e que deixam o sangue vazar, em momento inesperado, no rosto da protagonista. É quando todos, sob o golpe do susto, de partículas vermelhas, transparecem à tela: dobram-se àquele gesto de humanidade inesperado, para a surpresa do espectador imerso em ambiente rústico.

Três Anúncios para um Crime é um filme raro tanto em drama quanto em comédia. Verdade que a segunda é mais rara que o primeiro. Verdade também que não há aqui alguém a se apegar e que qualquer gesto de bondade ou violência sempre produz o inesperado. A começar pelas propagandas, revela-se na tela gente verdadeira.

A protagonista é vivida por Frances McDormand. Difícil imaginar nome mais triste para uma mãe sem a filha: Mildred. Não dá para esquecer a famosa Mildred Pierce, que dá o próprio pescoço para salvar sua menina. Mas a personagem de McDormand escapa ao melodrama, ao esquematismo da ficção que, ao fim, oferece arrebatamento. Seu caso é outro: ela precisa conviver com a incerteza do passo seguinte, na companhia de um homem que poderia odiar, em dúvida se deve matar outro homem, não o assassino da filha.

As personagens ao lado, interpretadas por Sam Rockwell, Woody Harrelson e outros, descobrem que melhor é viver para rir das tragédias. Há algo cômico no inesperado, em um filme cuja protagonista convive com a dor, com o grito preso, a fim de mudar a cidade em que mora – a começar pelos três outdoors que representavam, com estranhas colagens, um passado distante, um local sem forma definida.

(Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, Martin McDonagh, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
20 grandes filmes sobre a (difícil) vida em comunidade

Sete bons filmes recentes sobre solidão e isolamento

Nem todas as personagens abaixo estão isoladas em cena. Em muitos casos ocorre exatamente o oposto. Suas relações passageiras dão a falsa ideia de que há sempre companhia, mas a solidão ainda assim persiste: são personagens que perderam companheiros, em depressão, pessoas à margem, que não conseguem se socializar ou que simplesmente desistiram dos outros e jogaram tudo para o alto.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Na Natureza Selvagem, de Sean Penn

A história de Chris McCandless (Emile Hirsch), rapaz que rasga o RG, abandona a vida social e se muda para um local distante. Apesar do encontro com figuras distintas ao longo de sua jornada, esse road movie não deixa de apresentar seu isolamento, sua dificuldade em se relacionar, e um final melancólico em meio ao nada.

na natureza selvagem

Aquário, de Andrea Arnold

A rotina repetitiva de uma garota (Katie Jarvis) de classe média baixa, na Inglaterra: suas brigas com outras garotas, sua tentativa de libertar um cavalo amarrado, suas danças e, mais tarde, os flertes com o novo namorado da mãe, interpretado por Michael Fassbender. A relação com esse novo homem será de descobertas e decepções.

aquário foto1

Lunar, de Duncan Jones

Sozinho em uma estação lunar, no futuro, o astronauta (Sam Rockwell) relaciona-se apenas com uma máquina (a voz de Kevin Spacey) e, depois, descobre-se parte de uma engrenagem perversa. Não se desconfia de sua humanidade, e é ela que explode contra o ambiente branco e metálico, contra a terra acinzentada, o vazio do lado de fora.

lunar

Shame, de Steve McQueen

A certa altura de Shame, o protagonista (Fassbender) corre pelas ruas de Nova York, à noite, para lugar algum. O exercício físico é sua desculpa. E a câmera acompanha essa corrida por quarteirões, dá ideia de seu vazio. A saber: trata-se de um filme sobre um homem viciado em sexo, com dificuldade para encontrar relacionamentos duradouros.

shame

Um Estranho no Lago, de Alain Guiraudie

Outro caso em que as personagens possuem nada mais que o sexo. E a impressão é de que algo sempre se perde, de que nada persiste – o que a imagem final, a da queda da escuridão, pouco a pouco, só faz ratificar. Homens encontram-se à beira de um lago apenas para sexo casual. Mas um crime muda a rotina desse suposto paraíso.

um estranho no lago1

Oslo, 31 de Agosto, de Joachim Trier

A partir da obra de Pierre Drieu La Rochelle, que também serviu para Trinta Anos Esta Noite, de Malle, o cineasta dinamarquês percorre um dia na vida de um jovem. Em recuperação de seu vício em drogas, Anders (Anders Danielsen Lie) sai para uma entrevista de emprego, reencontra amigos e descobre como é difícil a ressocialização.

Oslo

Ela, de Spike Jonze

Para preencher seu vazio, o protagonista Theodore (Joaquin Phoenix) aceita como companhia uma inteligência artificial que carrega no bolso, em seu celular, com a voz provocante de Scarlett Johansson. Mas Samantha – ao mesmo tempo distante e sempre presente – torna-se mais que uma fuga de ocasião: torna-se alguém para se apaixonar.

ela

Veja também:
Ninfetas (em 15 filmes)
O terror do isolamento