sala de cinema

Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore

A opção pelo cômico quase não deixa ver a crítica à religião presente em Cinema Paradiso. O espectador fica com o riso ao encarar o padre-censor que, a cada beijo visto nos filmes, levanta o sino para que a cena seja cortada. O olhar abobalhado e o jeito indolor de Leopoldo Trieste contribuem para esse efeito.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A sala de cinema é o contraponto à igreja. A ela a criança não cansa de seguir, passando de espectador assíduo a pequeno ladrão de restos de película, de invasor da sala de projeção a seu funcionário. Na igreja, feito coroinha, o menino dorme. Não tem graça. A igreja oferece salvação e pede obediência; o cinema agarra pelas emoções e em troca não pede nada mais do que um pouco de atenção, de olhar – e devolve o impossível.

Ao padre-censor, o cinema é um negócio: quando o projecionista Alfredo (Philippe Noiret) permite que uma parte do público, do lado de fora, também assista ao filme por meio da projeção na parede de uma casa, o padre manda um de seus funcionários cobrar “apenas” meia-entrada dos que se acotovelam para assistir à obra.

O pacto do cinema é direto, sem firulas ou promessas: o que se tem é a ficção. No fundo, os pagantes sabem que é mentira, mas não cansam de rir ou chorar. Não estranha que, até certa altura, o padre seja o administrador do cinema: condutor de certo “rebanho”, ele sabe o poder que as luzes na tela podem ter sobre os seres humildes da vila.

Em momento esclarecedor, o diretor Giuseppe Tornatore reproduz a imagem de uma santa no interior da sala de cinema. Ao fundo se vê a luz do projetor, como se saísse do corpo da imagem religiosa. A ideia é clara: a estátua pode projetar sua ilusão. Em outro momento, quando o cinema pega fogo, a mesma santa é revelada entre chamas. Outra vez se recorre ao paralelo: o objeto sacro, do qual saíam as luzes, morre com o cinema.

Na mescla entre comédia e drama, o filme fica mais “fácil”. Vence o filtro da memória, da nostalgia: toda a história é vista a partir de um homem que relembra sua infância, depois sua puberdade. O passado volta quando ele, na cidade grande, é avisado da morte de seu melhor amigo, justamente o projecionista da pequena cidade.

Sua memória resgata os pequenos tipos. Alguns sequer têm nome. É difícil não se enxergar no público daquele antigo cinema, naquele passado que fala, sem rodeios, de quem se apaixonou, sofreu, viu o mundo por outros olhos sentado na poltrona da sala escura. O que dá força ao filme de Tornatore é a idealização de certa simplicidade, a que busca as caricaturas para reforçar ora o drama, ora a comédia.

À sua maneira, Cinema Paradiso é um grande filme falso no qual se vive à ideia de que o passado é sempre ingênuo, de que não dói porque, no fundo, há sempre a “magia” do cinema a cercar a realidade, a nutri-la de figuras que exalam só amor e bondade. Não são poucos os homens que soam idiotas em seus papéis, como nas ótimas comédias à italiana.

Em geral, o povo da pequena cidade é compreendido a partir de seu comportamento na sala de cinema: estão ali os meninos que se masturbam enquanto assistem à aparição de Brigitte Bardot, os homens que se arrepiam quando Vittorio Gassman ousa beijar as costas nuas de uma mulher, ou a figura repugnante que cospe nos espectadores do espaço inferior. São reproduzidos segundo o olhar de alguém que viveu entre eles, que “aprendeu” a ver o cinema com eles: ao cineasta que relembra sua juventude, essa história será sempre algo no tom da música de Ennio Morricone: o som do próprio passado.

O filme eleva os sentimentos com a ajuda da música. Os caminhos são sempre os mais fáceis. Dá para resistir à história de uma criança que ama o cinema e que se infiltra na sala de projeção até ficar amiga do velho amável que ali trabalha, homem que talvez não tenha se casado porque estava preso demais àquele ofício e, por consequência, à sétima arte? Ainda no início, será justamente o segundo que despertará o passado no primeiro. Retorna a infância, retornam os amores. O passado é o cinema e tudo o que representa.

(Nuovo Cinema Paradiso, Giuseppe Tornatore, 1988)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Sete refeições exageradas e inesquecíveis do cinema

Em um cinema perto de você

Aconteceu em um cinema não muito distante, no interior de São Paulo, em um shopping. Durante uma sessão de Boa Sorte, de Carolina Jabor, uma mulher falava sem parar, com a amiga, sobre o que se passava na tela.

Após falar muito e perturbar o espectador (a sessão estava relativamente cheia), ela levou um “chiuuuu” de algum canto da sala. No escuro, não se sabe de onde veio. E veio para aliviar.

O filme chegou ao fim. Surgiram os créditos. Quando boa parte do público estava de pé, a mesma mulher começou a dizer, alto, em tom ameaçador: “quem foi que disse ‘chiu’?”, questionava. “Quero saber quem foi.”

cinema

O responsável não apareceu, e ela continuou resmungando. Já na saída da sala, comentou com uma amiga: “se o dono do ‘chiu’ tivesse aparecido, bateria nele, pois com ‘chiu’ se chama cachorro, não gente”.

E como se trata o espectador que paga para ver seu filme em silêncio, sem ser incomodado com uma pessoa sem respeito? Por que algumas pessoas – veja bem: uma fatia já considerável do público que vai aos shoppings ver filmes para “passar o tempo” – acreditam que o valor pago pelo ingresso permite que façam o que querem?

Cinema, desde sempre aprendi, é uma experiência coletiva, que exige respeito. É uma conexão do público com a tela, às vezes em transe, para se receber tudo o que se deseja da arte. Mas quando alguém se põe a falar, ou fala no celular, ou faz qualquer coisa semelhante, mostra gigante desrespeito por quem deseja apenas ver o filme.

Ir ao cinema é desejar ver um filme: simples assim, apenas isso. A mulher do ‘chiu’, com sua arrogância e brutalidade verbal, mostra o pior lado do atual público que vai ao cinema: aquele que acredita que, com o ingresso, adquiriu um simples produto e, com ele, pode fazer o que quiser. Até mesmo partir para o desrespeito.