Ruy Castro

Doris Day (1922–2019)

Entre 1959 e 1962, depois de uma carreira que já tivera grandes momentos, Doris rodara uma série de filmes – Confidências à Meia-Noite, Volta Meu Amor, Carícias de Luxo e outros – que a estabeleceram, para surpresa geral, como a bilheteria número 1 do mundo. Não que os filmes fossem grande coisa. Eram comédias urbanas, contemporâneas, em que, por um desses paradoxos que então floresciam em Hollywood, a graça estava em Doris resistir às investidas do galã (quase sempre Rock Hudson) contra a sua virgindade – a qual só era justiçada no último rolo do filme e, mesmo assim, depois do casamento. Talvez parecesse mais engraçado porque, ao fazer aqueles papéis de virgem, ela já tivesse quase quarenta anos. Os filmes eram banais, divertidos e inofensivos, donde o enorme sucesso, mas os críticos foram soezes. Eles não julgavam os filmes – julgavam Doris Day.

Ruy Castro, jornalista e escritor, em Saudades do Século 20 (Companhia das Letras; pg. 50).

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Marilyn, por Norman Mailer

Stanley Donen (1924-2019)

(…) era um dançarino e um homem de cinema. Dominava tanto as piruetas humanas quanto as da câmera. Foi ele o introdutor de uma técnica que depois seria adotada por todo mundo: dividir a tela em duas, três ou dez partes, o que seria chamado de tela múltipla. E o freeze-frame, a imagem congelada? Era um recurso que já vinha do cinema mudo, mas, modernamente, também foi ele quem voltaria a usá-lo. A prova de que Donen não era apenas um apêndice de Gene Kelly está no fato de que teve uma grande carreira paralela sem o parceiro, inclusive como diretor de ótimos não-musicais, como Indiscreta, Charada, Arabesque e Um Caminho para Dois. O contrário, infelizmente, não aconteceu: longe de Donen (ou de Vincente Minnelli, seu outro mentor), Kelly nunca se deu bem. E suas tentativas de dirigir sozinho foram uma tristeza – vide Hello, Dolly!, filme mais dirigido por Barbra Streisand do que por ele.

Ruy Castro, jornalista e escritor, no jornal O Estado de S. Paulo. (11 de abril de 1998; o artigo está no livro Um Filme é Para Sempre, com organização de Heloisa Seixas; pg. 256). Abaixo, Donen entre Donald O’Connor e Gene Kelly no set de Cantando na Chuva, que dirigiu com o segundo.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Milos Forman (1932-2018)

Bastidores: Moby Dick

Melville foi impelido pela magnitude de seu pensamento. Ahab está em guerra com Deus, não há dúvida acerca disso. Ele vê a máscara de baleia como a máscara usada pela divindade. (…) O livro diz que Deus é o mal ou, pelo menos, Ahab diz que Deus é o mal.

John Huston, cineasta, realizador de Moby Dick. O trecho foi retirado da crítica de Antonio Moniz Vianna publicada no Correio da Manhã e reproduzida no livro Um Filme Por Dia (organização de Ruy Castro; Companhia das Letras; pg. 152).

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
No Coração do Mar, de Ron Howard

Bastidores: Gilda

A Hollywood dos anos 40 era medrosa demais para se permitir qualquer ambiguidade moral, mas alguns fatos dão base à ideia de que pode haver um – como é mesmo a palavra? – “subtexto” maroto em Gilda. O roteiro foi obra de duas mulheres: Jo Eisinger, que fez o rascunho, e Marion Parsonnet, que lhe deu forma final. Foram elas que criaram Gilda como uma grande mulher e, de quebra, podem ter-se divertido inoculando dubiedades nos dois personagens masculinos. Você dirá que o diretor – Charles Vidor – era um homem. Mas, na política dos antigos estúdios, o verdadeiro autor de um filme era quase sempre o produtor executivo, com o diretor não passando de um funcionário subalterno. E o produtor de Gilda era, não por acaso, outra mulher: a poderosa Virginia Van Upp, protegida do patrão Harry Cohn e com carta branca na Columbia. Cohn era famoso pela burrice e, se Virginia quisesse contrabandear qualquer ideologia exótica para dentro do seu filme, ela o faria. A Cohn só interessava que Rita Hayworth, já com 28 anos, tivesse finalmente um papel que deixasse todo mundo salivando por ela.

Ruy Castro, em texto escrito em 1999 e incluído no livro Um Filme é Para Sempre (Companhia das Letras; pg 204. Organização de Heloísa Seixas). O texto foi reproduzido no blog Análise Indiscreta e pode ser lido aqui.

gilda

Veja também:
Dez clássicos com subtexto gay