Rubem Biáfora

Entrevista: Miguel Barbieri Jr.

Antes da entrevista, o crítico Miguel Barbieri Jr. havia acabado de sair de uma cabine (sessão voltada à imprensa), no cinema Reserva Cultural, na avenida Paulista. Assistiu, uma semana antes da estreia, o último filme de Philippe Garrel, Um Verão Escaldante. Para ele, um filme menor, que não agradou. Na mesma sessão estava Inácio Araújo, que depois elogiaria a produção na Ilustrada. Para Miguel, no entanto, não se tratava de grande coisa: o filme de Garrel, uma semana depois, chegaria às bancas acompanhado por apenas uma estrelinha na cotação da Veja São Paulo.

“Gostei de Amantes Constantes, mas não de A Fronteira da Alvorada”, disse, antes de degustar um croissant e dar uma entrevista para este site. Falador mas ponderado, Miguel ocupa a função de crítico na revista da Editora Abril há mais de 10 anos. Segundo um breve perfil no site da editora, vê mais de 400 filmes por ano e, em suas palavras, livre de preconceitos. Na hora de pregar os olhos na tela grande, um blockbuster do momento merece a mesma dedicação que uma produção premiada em Cannes.

Na profissão, Miguel vê de tudo e, com exceção do período em que está em férias, preenche sozinho as várias páginas da revista dedicadas ao cinema – o que ele chama de roteiro e nas quais diz “ter tudo”. Fala também das estrelinhas utilizadas pela revista para dar nota aos filmes, das incursões por caminhos variados até chegar à posição de crítico de cinema, da Mostra de São Paulo e da abundância de “especialistas” atualmente na internet. “Os veículos, acredito, sabem escolher os melhores profissionais”, afirma. “O leitor não é bobo.”

No livro Os Filmes da Minha Vida – Volume 3, você dá um longo depoimento sobre o que lhe formou enquanto crítico de cinema. Você diz que descobriu os filmes um pouco acidentalmente, com 13, 14 anos, por pura curiosidade. Você se tornou crítico por acidente ou já tinha isso na cabeça?

Quando eu tinha uns 14 anos, eu tinha um caderninho, no qual anotava minhas observações sobre filmes. Não sei se era uma crítica. Eu recortava algumas notícias e colocava ali. Não sei onde foi parar esse caderno. Havia críticas do Rubens (Ewald Filho) que guardava nele, também do Edmar Pereira, do Jornal da Tarde, do Rubem Biáfora, que escrevia no Estadão. Eu escrevia alguma coisa e colava a crítica deles. Já profissionalmente, eu nunca pensei em ser crítico porque nunca pensei em ser jornalista. Para você ter uma ideia, eu fiz Biológicas no colegial. Não sabia se queria ser médico, se queria ser biólogo. No terceiro ano do colegial, dei uma guinada total. Achei que pendia muito mais para artes, para cultura, até mesmo para psicologia. Embora tenha feito Biológicas, fiz, depois, um cursinho para Humanas. Prestei para publicidade, arquitetura… Quando temos 17 anos, não sabemos muito bem o que queremos, não é? E prestei jornalismo na PUC. Mas, na verdade, não queria fazer jornalismo, mas o foi o único lugar em que acabei entrando. No primeiro ano, na PUC, tinha aquilo que eles chamavam de básico, e você fica menos com sua turma de jornalismo – uma ou duas vezes por semana. Não sei se hoje ainda é assim, mas há 30 anos era. E, na época, nas aulas com o básico, comecei a fazer amizades com pessoas que não faziam jornalismo. Enfim, terminei por fazer a faculdade e descobri o fazer cinema também na faculdade, com um curta-metragem que ganhou prêmio, uma brincadeira que fiz com um amigo meu, que era estilista. Consistia em pegar algumas amigas da classe e fazer uma transformação. Era uma viadagem que tínhamos feito (risos) e que acabou dando certo. E acabamos ganhando um prêmio em Campinas. Gostei de fazer cinema e gostava muito de ir ao cinema, mas nunca pensei em casar as duas coisas, ou seja, jornalismo com cinema. O que eu queria mesmo era trabalhar com publicidade e, se tivesse feito isso, hoje estaria bem melhor de vida (risos). Terminando a faculdade, fui morar um ano em Paris, que é uma vitrine cinematográfica que não tem em lugar nenhum do mundo, não é? Nem em Nova York não tem. E, quando não tinha nada para fazer em Paris, onde fui para fazer um curso de vídeo e onde fiz um cursinho de arte e francês, ia muito ao cinema. Vi ciclos do Fassbinder, do Wim Wenders, cineastas que descobri lá, que estavam no auge. Era o início dos anos 1980. Quando voltei de Paris, fui trabalhar com publicidade, não fui ser jornalista logo de cara. Trabalhei dois anos com isso e parei. Não era meu caminho.

No mesmo livro, você fala de uma dificuldade que existia no Brasil, mesmo antes do vídeo, que era encontrar alguns filmes. Antigamente, ou o crítico ia ao cinema ou ele não via nada. Se perdesse a sessão, acabava não vendo mais o filme. Hoje, com a facilidade de encontrar as obras, é mais fácil ser crítico de cinema?

Hoje você tem muito mais acesso. Naquela época você tinha a televisão, onde era possível pegar reprises de alguma coisa, também os cineclubes, mas essa facilidade não existia. Cheguei a pegar o primórdio do vídeo e abri uma locadora (Over Vídeo, uma das primeiras locadoras de vídeo de São Paulo) com uma amiga minha em 1986, que durou até 1998. Foi uma grande experiência. E, ainda antes, comecei a descobrir filmes porque meu cunhado tinha um videocassete. As locadoras estavam surgindo aqui no Brasil. Na época, fiquei sócio da Vídeo Clube do Brasil. Por ali também vi muita coisa, sobretudo filmes dos anos 1980 e mais antigos. A qualidade era péssima, porque era tudo pirata. Via alguns do Coppola, mais antigos, também de Woody Allen.

E nessa experiência, do outro lado do balcão, quando indicava filmes você já fazia crítica de cinema?

(Pensa um pouco.) Não… Era uma relação diferente. O que me trouxe foi uma experiência para saber o que o público gosta. Isso eu trago muito, hoje, ao meu trabalho. Ou seja, sempre procuro escrever para quem está me lendo. E aí que cheguei e disse para mim mesmo que gostaria de ser crítico, já que havia me formado em jornalismo. Na época havia poucos nesse ramo. Hoje em dia, em uma cabine, pode ter até 100, 200 pessoas nas mais badaladas. Nesta semana (a entrevista foi feita no dia 25 de maio) teve a do Homens de Preto (a terceira parte da série) e estava cheia. Agora há blogs, sites, jornais variados. Mas na época em que comecei, você ia nas cabinas e tinha poucas pessoas. Tinha o Merten (Luiz Carlos Merten, crítico do Estadão), o Zanin (Luiz Zanin Oricchio, crítico do Estadão) e outros poucos, como o Inácio (Araújo, da Folha de S. Paulo). Em 1992, uma amiga minha, aquela que era minha sócia, era editora cultura do Diário Popular, hoje o Diário de São Paulo. E ele me disse que estava mandando embora o crítico de vídeo. Ela perguntou se eu queria assumir. Disse que não sabia, que nunca havia escrito crítica. Mas ela argumentou que eu já tinha visto muitos filmes e me deu alguns toques. Para ter uma ideia, eu escrevia, ia na casa dela, mostrava e ela fazia apontamentos. Então eu comecei…

Então, se não fosse a locadora, você não teria se tornado crítico de cinema?

Não só pela locadora, mas se não fosse o meio se abrir. Sempre achei que era uma panela. Havia o Rubens e alguns outros. Não tinha essa coisa mais ampla como é hoje. E não sei se isso é muito bom.

Acha que o excesso de gente escrevendo na internet banalizou o trabalho do crítico?

Acho. Perdeu um pouco o critério. Os veículos, acredito, sabem escolher os melhores profissionais. E o leitor também sabe ler aquele crítico com quem está acostumado. O leitor não é bobo. Para você ter uma ideia, no Diário eu fiquei de 1992 a 2000 e, depois, até 2012, na Vejinha. São dois lugares apenas onde eu trabalhei. Claro que fiz freela para outros lugares. Já fiz uma revista que teve dois ou três números apenas, mas não era um exercício de crítica. Quando entrei na Vejinha, percebi que o público era outro se comparado com o do Diário Popular. Tinha que escrever de uma outra maneira e, não digo indicar, mas saber para qual público eu estava falando. E isso foi a locadora que me deu, como experiência. Em um bate-papo no Cinesesc eu falei isso: não gosto do último filme de Godard, o Film Socialisme. Detesto. E o fato não é nem eu detestar, mas jamais poderia indicar esse filme para um leitor da Vejinha. Não é o perfil desse leitor. Se escrevesse na Cahiers du Cinema até poderia ser, mas não é o caso.

Acha que quem lê a Veja São Paulo busca mais entretenimento, programa com a família, não um filme do Godard?

Pode até ser uma visão errada minha, mas acho que não. Pelas cartas que eu recebo, pelo que eu escuto, é um gosto médio. E meu espaço, hoje, comparado àquele que eu tinha na época do Diário, é muito pequeno. Tem gente que gosta. Um colega, inclusive, disse usar meus textos para demonstrar exemplos de concisão. Nunca tinha percebido isso: em dez ou 15 linhas acabo escrevendo o que eu acho de determinado filme. Por incrível que pareça, hoje eu não sei se teria saco de escrever coisas tão grandes. Não digo capacidade, mas saco.

Sobre seu trabalho na Veja São Paulo, você vê muita coisa.

Vejo praticamente tudo.

Mas você vê porque é seu trabalho, sua obrigação. Se não fosse crítico, você assistiria tantos filmes assim?

Uma coisa que me irrita demais, ao ir ao cinema como espectador comum, é o público. Hoje em dia está infernal. Gente com celular. A luz do celular me irrita, gente conversando. Muita coisa me irrita. Uma vez ou outra, quando perco algum filme, tenho que ir ao circuito. Talvez eu selecionaria mais os filmes se não fosse crítico, mas gosto de ver tudo. Gosto de ver Homens de Preto, gosto de ver Missão Impossível. Também gosto de ver um Hasta La Vista, um Koreeda (Hirokazu Koreeda, cineasta japonês), um Philippe Garrel (cineasta francês).

Não acha seu espaço, na Veja São Paulo, um pouco limitado?

Na verdade, aquilo é um roteiro. E como roteiro e serviço acho o melhor que tem. Se você parar para pensar em qualquer outro veículo, você não tem algo tão bem esmiuçado, pelos menos em cinema. E detalhe: escrito por uma única pessoa. Sem querer falar mal de outros veículos, mas a Folha tem mais críticos e, se ver o roteiro, vai ver que tem quatro estrelas para um filme, três para outro, duas para outro – mas são críticos diferentes que estão escrevendo. Na Vejinha sou eu e minha opinião. Então, quem confia em mim, vai ler o que escrevo. O espaço é um roteiro de cinema e, por ser um roteiro, acho que tem tudo. Falamos de festivais variados, de mostras importantes. Me perguntam se, além das estreias, eu vou a essas mostras. Não dá. Tem várias, muita coisa. A única que tento acompanhar melhor é a Mostra Internacional de Cinema. Não dá para ir em muitos outros, como o É Tudo Verdade, Anima Mundi. É uma questão de tempo mesmo.

Sobre as estrelinhas, na revista, acho que isso sempre geram amor e ódio. Até hoje, se bem me lembro, só vi três filmes com cinco estrelas na Veja SP: O Segredo de Brokeback Mountain, o recente A Separação e Violência e Paixão, do Visconti.

Antes, acho que eu já havia dado cinco estrelas para As Invasões Bárbaras e alguma outra coisa que voltou ao circuito, algum clássico. A coisa das estrelinhas surgiu quando eu estava lá. Estou lá há 12 e isso deve ter surgido há uns 7 ou 8. De uma hora para outra resolveram colocar as estrelinhas. E ficou estabelecido que era de uma a cinco estrelinhas. A bombinha veio depois, com o filme da Eliana, inclusive, que é O Segredo dos Golfinhos. Aquilo era o fundo do poço, não tinha mais onde chegar. Pensei: gente, temos que dar uma coisa ainda menor.

Mais ou menos como ocorreu com o filme da Carla Perez.

Sim, o Cinderela Baiana. Se tivesse a bombinha, naquela época, com certeza. Cinco estrelas, segundo meus editores, devem vir acompanhadas de muito critério. Você não pode comparar um ótimo filme de hoje como um clássico, desses que voltam ao cinema, como Amarcord. Se você reparar em teatro, nunca tinha cinco estrelas. É o que falam: só se for Shakespeare com a Fernanda Montenegro. Ela fazendo Lady Macbeth (risos). De uns tempos para cá, eu estou, aos poucos, tentando. A Separação foi um caso assim. E tem outras coisas: meu editor mudou e a confiança em mim, nesses 12 anos, foi ficando cada vez maior. Quando entrei na Veja SP era mais complicado, não havia tanta confiança. Sou o crítico de cinema que mais tempo ficou na Vejinha. O Orlando Margarido ficou um tempo, a Neusa Barbosa também. Acho que eles gostam de mim. E adoro o que eu faço. Adoro ver filmes e faço com prazer. Acho também que sou uma pessoa sem preconceito, o que considero muito importante. Vou ver um filme do Garrel com o mesmo prazer que vou ver um Missão Impossível e Os Vingadores. A disposição é a mesma.

Quando está em casa e quer ver um filme que te satisfaz, o que você assiste?

Então, ultimamente tenho assistido algumas coisas. Revi Doutor Jivago, Ladrão de Casaca, Bonequinha de Luxo, O Iluminado, Nascido para Matar. Revi com uma vontade muito maior do que uma coisa nova. É muito difícil eu ter tempo para ver uma coisa que eu gosto. Para ter uma ideia, tenho dez filmes baixados no computador, filmes que não saíram no Brasil e provavelmente não vão sair. A única forma de ver esses filmes é baixando. Claro que não baixo filmes de coisas que estão passando, que saíram no Brasil ou vão sair. Nesses casos, vejo nas cabines ou, muitas vezes, recebo o DVD de algumas distribuidoras. Isso também é um problema, pois, como sou obrigado a ver tudo, acabo vendo sete ou oito filmes por semana. E tenho três ou quatro dias na semana, no máximo, para ver filmes. Tenho segunda, terça, geralmente de manhã. Quarta-feira eu não posso, devido ao fechamento da revista. Quinta, se saio tarde da redação na quarta, não dá, e resta a sexta. Se o horário de uma cabine não se encaixa, tenho que me virar, muitas vezes, com o DVD.

Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, são mais 400 filmes em duas semanas. Acompanhar a Mostra não se tornou uma batalha inglória?

No ano passado já deram uma enxugada. O Leon (Cakoff, fundador do evento) já não estava muito bom. De 300 filmes, acho, caiu para 200 e poucos. O que acho que falta na Mostra é critério seletivo. Todo ano, na Veja SP, faço um quadro dando algumas dicas do que vai passar no evento. É claro que é um quadro de cartas marcadas, com os filmes mais esperados, com vencedores de Cannes, Berlim etc.

Que é exatamente aquilo que sairá depois no circuito.

É, de certa forma. Mas gosto também de descobrir algumas coisas. Nunca me esqueço da primeira coletiva da Mostra que cobri para a Vejinha. Levantei o braço e perguntei para o Leon: “Gostaria que você desses uns toques, do que acha legal ser indicado ao leitor”. Ele disse: “Isso é trabalho seu. Nosso trabalho é trazer os filmes, o trabalho de vocês é selecionar e dizer o que é bom e o que não é”. Depois disso, meu amigo… (risos) Mas era uma pessoa maravilhosa. Adoro o Leon. Ele que me convidou para fazer Os Filmes da Minha Vida e tenho grande gratidão por ele. O que eu faço, em tempos de Mostra, é ir ao escritório deles um mês antes, ver uma lista do que deverá vir, dou uma pesquisada e vejo se tem ganhadores de prêmios e filmes importantes. Para mim, a Mostra começa um mês antes. E, quando efetivamente começa, para trabalho tenho apenas uma semana, porque quando uma edição da revista sai o evento já está acabando. E todo ano eu fico muito perdido. Todo ano é a mesma coisa. Não sei se vejo filmes que vão estrear, para me adiantar. Não sei se vejo os clássicos que estão voltando, com cópias restauradas. No ano passado, gostaria muito de ter revisto Taxi Driver. Não vi e me dá raiva. E gosto de fazer um “seguidinho”: pegar um cinema e ficar por lá, em sessões seguidas. Três ou quatro filmes diretos.

Mas, de vez em quando, surge um Mistérios de Lisboa por ai e pode tomar o dia todo, não é?

Às vezes ocorre isso ou tem, no meio, aquele filme bosta e você se pergunta: “O que isso está fazendo aqui?” Portanto, acho que às vezes falta um critério de seleção. Não é só porque é um filme pervertido, underground, que precisa estar passando na Mostra. E, no ano passado, os organizadores fizeram uma coisa que não sei se farão esse ano: eles não trouxeram os filmes que passaram no Festival do Rio, o que acabou gerando certo desconforto. Mas a Mostra é o grande evento. São Paulo tem muita oferta, muita coisa. Não sei se pode ser comparada a Paris, mas talvez seja a segunda ou terceira cidade mais importante em termos de cinema. Veja, por exemplo, um cinema como o Frei Caneca, a diversidade de títulos que tem, que une desde blockbusters a filmes iranianos. O que o Leon e o Adhemar (Oliveira, criador do Espaço Unibanco e que também dá depoimento em Os Filmes da Minha Vida 3) fizeram por São Paulo foi algo sensacional, mas isso é aqui. Você sabe que eu faço Veja Rio e agora estou fazendo Veja Belo Horizonte. Para ter uma ideia, essa semana não havia os dez melhores filmes em Belo Horizonte. Não tinha filmes para completar os dez, todos com três estrelas. No Rio tem. O Rio é até meio chato, pois alguns filmes ficam eternamente em cartaz. Se bobiar, ainda está passando O Artista por lá. Em São Paulo sai mais rápido.

Rafael Amaral (07/08/2012)

Entrevista: Inácio Araújo

Ao ser convidado para relatar os dez filmes que levaria para uma ilha deserta, no livro Filmes, da coleção Ilha Deserta, Inácio Araújo quebrou o protocolo e elegeu 11. Em sua justificativa, ele diz que seria impossível deixar algumas obras memoráveis de fora – filmes da estatura de Rastros de Ódio e A Morte Num Beijo. “Como na Lista de Schindler, me comovem muito mais os milhões que morreram do que os poucos milhares que se salvaram. Façamos por 11”, justifica.

E o último da lista – o décimo primeiro não convidado, o “subversivo” – é justamente Anjos do Arrabalde, de Carlos Reichenbach, morto no último 14 de junho. Com a palavra, o crítico: “Nos filmes de Carlão Reichenbach, o bom e o mau gosto, o homem culto e o cafajeste rematado, o torturado existencial e o vigarista são invariavelmente contíguos, com frequência vivem no mesmo bairro ou rua”.

A entrevista abaixo foi feita via e-mail dias antes da morte de Reichenbach. O crítico da Folha de São Paulo escreveu um texto repleto de emoção sobre o cineasta brasileiro (leia aqui), o que parece raro àqueles que acompanham seu blog e suas críticas em páginas impressas – que, sem dúvida, fazem dele um dos grandes do ofício no Brasil. Alguém duvida?

Antes, entre seus textos famosos, Inácio já havia chorado – em palavras, em tão belas expressões – a dor da perda de um grande cineasta. Falava, naquele caso, de Samuel Fuller, citado na entrevista abaixo. Com exclusividade, aborda também a própria profissão, a situação do cinema brasileiro atual e cita um cineasta que admira – não necessariamente um que ama, como Reichenbach e Fuller.

Houve um tempo em que uma crítica podia mudar o desempenho de um filme na bilheteria. Acha que, hoje, isso ainda é possível?

Não sei se eu concordo com a tua premissa. A função da crítica nunca foi atrair ou repelir espectadores de determinados filmes, mas, na medida das nossas capacidades, refletir sobre cada um deles a partir de nossas reflexões mesmo sobre o cinema e a arte em geral. Por isso, me parece que a queda de influência geral da crítica (não apenas a de cinema) não afeta as bilheterias (na verdade, desde sempre o alcance da crítica nesse particular é restrito a um tipo de filme com pequenos lançamentos e que dependem do prestígio obtido em jornais, festivais etc.), mas me parece que a arte em geral hoje é um assunto mais de mercado, mais de comércio do que outra coisa.

A crítica “crítica” de cinema é uma profissão em extinção?

Ela é menos importante do que já foi, talvez seja menos capaz. Dizer que está em extinção ou não é mero chute. De todo modo, me parece que a internet é um meio que lhe confere certo vigor e capacidade de renovação.

O que forma um bom crítico?

É difícil dizer. Cada um tem uma contribuição a dar: o que já teve contato com a prática, o que não teve, etc. Mas a contribuição dele será necessariamente vinculada à visão de mundo que ele traz. Uma visão muito pobre, mesquinha, acanhada, certamente não favorece essa prática. E, claro, sem um olho não se chega a nada, só se é enganado.

Com o passar dos anos, nesse mundo tão cheio de imagens em que vivemos, seu leitor ficou mais ou menos exigente?

Não sei. Acho que com o tempo o leitor já sabe um pouco o que esperar de cada crítico, já conhece seus gostos, suas opções. Isso é bom, de certo modo, porque mesmo se o espectador não concorda com o meu modo de pensar ele já pode prever o que encontrará no cinema, quando for ver o filme. Por outro lado, o cinema muda sempre, é preciso se atualizar, não imaginar que tudo já foi feito. O modo de exploração do cinema hoje, por exemplo, seria impensável há 20 anos.

Você recebe muita “pedrada” de leitor, seja por carta, seja por e-mail? Lembra de algum caso curioso e que gerou algum debate?

Há pessoas que se identificam mais ao que eu penso, outras menos, outras nada. Isso é normal. Se elas se dão em nível de respeito, isso é bom. Não há nada absoluto, imutável, com toda razão. Cada vez que eu recordo os grandes pensamentos críticos que existiram aqui, que opunham Rubem Biáfora (passou por vários jornais, como Folha da Tarde e O Estado de S. Paulo) a Paulo Emílio (Sales Gomes, crítico e historiador de cinema paulista), eu penso que ambos transmitiram muitos ensinamentos, cada um à sua maneira.

Em texto publicado nos anos 80, você diz que perder Samuel Fuller foi como perder o pai. Qual a importância desse cineasta para sua formação como cinéfilo e crítico de cinema? Alguma lembrança especial?

Ah, foi muito grande. Para a minha geração foi o grande cineasta americano que dizia tudo o que tinha a dizer, que punha a busca da verdade acima de tudo, e essa busca podia ser até meio selvagem, mas era sempre uma luz e também uma contestação, uma demonstração de que se podia fazer cinema fora do cânone, e bem.

No mesmo texto, diz que há diretores que se admira e que se ama. Qual outro diretor que se situa no segundo campo para você?

Digamos que a admiração vem de algo objetivo: o valor, a originalidade, as virtudes de um cineasta. O amor vem de certa identidade com o artista, é algo mais subjetivo. Eu admiro Bergman, mas não o amo. Não quer dizer que ele seja inferior a outros.

Você publicou, em seu blog, um post no qual diz que algumas produções nacionais de sucesso deste novo século reataram a confiança do espectador brasileiro em relação aos filmes feitos aqui. No entanto, acho, essas obras estão próximas da produção televisiva, o que provoca maior identificação com a maioria. Não acha que a televisão, em grande parte, vem pautando nosso cinema?

Eu disse isso, é? De todo modo, concordo inteiramente que quem está pautando o cinema no Brasil é a TV. Ou, podemos expandir: certa política cinematográfica para a qual o importante é a conquista de grandes plateias. Isso só pode ser feito, num país como o Brasil, com uma produção próxima à TV ou às vezes vinda diretamente da TV. Acho que a aposta dessa política, que vem desde o fim do governo Collor, é que através da TV se chegue paulatinamente a criar uma produção cinematográfica que seja ao mesmo tempo popular e de prestígio. Isso me parece um sonho, porque os cineastas, em sua maioria, já não têm formação de cinema. E com esse tipo de política dão menos importância a isso ainda, serão ainda mais irrelevantes do que hoje. Mas espero que eu esteja errado e os governos, certos.

Em outro texto, no blog, você repercute e discute uma crítica de um colega de Folha, o Cássio Starling, sobre o termo “buzz”. É grande mal do cinema atual?

Sim, acho que é o que eu disse acima. Eu não sou contra o marketing, longe disso. Às vezes se associa marketing a mentira, a falsidade. Não é. Marketing é a maneira de identificar o seu público e de chegar a ele. Isso é importante. Agora, o que o Cássio chama de “buzz” não é isso, é essa coisa coordenada, que tem muito a ver com a simpatia de certas pessoas, às vezes, que leva um filme nulo a ser visto como coisa muito importante. Nessa hora é que, me parece, o crítico precisa intervir.

Um filme como Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios não cai na graça do grande público, ao que parece, por motivos óbvios, mas é feito com patrocínio, renúncia fiscal, etc. O papel estatal é importante? Acha possível o financiamento de cinema, no Brasil, sem a presença do Estado?

Não se faz cinema sem que o Estado tenha um papel relevante, de alguma espécie. Pode ser financiamento, como na Europa, pode ser apoio político, como nos EUA. Veja a Argentina, recentemente: um filme que entre com mais de 20 cópias passa a pagar um imposto, que é progressivo: quanto maior o número de cópias, maior o imposto. A justificativa é ótima: para que o público não pense que existe apenas um tipo de cinema! Ora, aqui não se faz nada disso. O público acha que só existe um tipo de cinema. Que o que foge a isso é anomalia. E o governo incentiva filmes que imitam esse “tipo único” e, como não faz nada de consequente, isenta os produtores de todo tipo de risco. Ou seja, está tudo errado.

O que tem te surpreendido no cinema atual? Ainda dá para surpreender um “macaco velho” (palavras do Merten) com tantos anos de estrada?

Bem, quando eu tiver a idade do Merten, o nosso decano, não sei o que vai acontecer. Mas tenho a impressão de que em arte sempre há margem para o inesperado. Hoje ela é menor do que em 1920 ou 1950, claro. Muitas coisas já foram inventadas. E o estado do mundo não é favorável à arte, às artes em geral, a ideia de negócio é que é dominante. Então, existem dois riscos: o de coisas novas acontecerem e você não identificá-las. Ou de tentar ver o novo onde há apenas aparência de novo, mas nada muito profundo. São riscos que sempre corremos, velhos ou novos, e humanos.

Rafael Amaral (04/07/2012)