Ronald Reagan

E a Vida Continua, de Roger Spottiswoode

As lembranças que perturbam o protagonista, o médico Don Francis (Matthew Modine), levam a outro país, a outras pessoas, a outra doença. Ele estava às margens do rio Ebola, no Congo, quando viu a devastação causada pela doença que levaria o nome do afluente. Veria, anos depois, a devastação causada pela aids, ao longo dos anos 80.

Ainda no continente africano, ele é interpelado por um jovem desesperado. Deseja saber por que ele, um médico, não pode salvar as vítimas. Mais ainda, por que não tem as respostas àquela ação do inimigo invisível. Por sinal, o médico não tem respostas. O rapaz tem alguma razão. O filme de Roger Spottiswoode lida o tempo todo com a impotência.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Reconstrói, no início dos anos 90, o surgimento da aids e sua proliferação por alguns países do mundo, especialmente os Estados Unidos. Passa por inúmeras vidas sem perder o mesmo médico de vista. Chega à politicagem e seu silêncio perpetrado, por certo tempo, pelo republicano Ronald Reagan, depois à vaidade do médico americano que queria para si a descoberta do vírus que, antes, havia sido detectado pelos franceses.

Para além de questões políticas e científicas que o filme reconstrói, na luta e no clima da época, há questões humanas que, não raro, proporcionam o drama do qual a obra alimenta-se. Sequências como a caminhada de Francis pela chuva, que o faz retornar àquele fatídico dia no Congo, são postas propositalmente para emocionar.

Verdade que esse filme feito para a televisão, bancado pela HBO, tem inúmeros méritos. O elenco é adequado, a direção é eficiente na medida do possível. Por outro lado, resta a impressão de que houve certo cuidado para “não avançar demais”, “não mostrar muito”, talvez pelo medo da recepção pelos telespectadores da época.

A questão social retratada, como lembra o crítico Heitor Augusto, não pode ser restringida aos anos 80. A época em questão, com a aids, é um momento para soterrar o sentimento de liberdade, a luta e os avanços de décadas anteriores – com seus altos e baixos. A aids tomava o mundo de assalto ao embutir medo, ao frear liberdades sexuais, além de ser chamada de “praga gay”, o que atingia em cheio determinado grupo.

A abertura no Congo tem justificativa: os afetados e esquecidos, antes, eram os negros de um continente pobre; as vítimas de outra doença, em seguida, são os homossexuais de um país rico então governado por um presidente conservador. Era mais fácil, ao que parece, deixar os gays em gueto próprio, a se virar como podiam com seus problemas.

Vilão maior, aos investigadores ou aos doentes, é o medo. O do médico, o medo de não ter as respostas que os outros exigem. A doença, durante bom tempo, está à frente, disseminada, à espera de compreensão. Homens batem cabeças o tempo todo. O filme é recheado de diálogos, de cruzamentos, de pequenas personagens que somem e depois reaparecem, de figuras que sequer têm nome – como a personagem de Richard Gere.

Um dos infectados, comissário de bordo, fala com prazer à médica – ainda pouco consciente do estrago da doença, sem saber que ele próprio está doente – dos vários homens com os quais foi à cama, dos quais, em muitos casos, sequer lembra o nome. O filme, nesse ponto, fornece a imagem do gay que ronda a cabeça dos preconceituosos. É um dos pontos baixos. O gay em cena é promíscuo e despreocupado, caricato.

Tal personagem passageira pode gerar ainda outra interpretação: o relato prazeroso de suas aventuras pelo mundo é o sinal que de as liberdades individuais atingiram – para o bem e contra o medo e a culpa – o máximo. Pode ser vista com dubiedade, até coragem.

Ao que parece, o título original, And the Band Played On, faz referência à peça Os Rapazes da Banda, de Mart Crowley, que virou filme pelas mãos de William Friedkin. Interessante pensar no título, na tal banda que segue tocando, viva, sem que seja necessário se esconder, com medo, após as muitas conquistas de décadas anteriores.

(And the Band Played On, Roger Spottiswoode, 1993)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Mulheres do Século 20, de Mike Mills

Mulheres do Século 20, de Mike Mills

Três diferentes mulheres circundam um garoto. O menino tem de lidar com elas e nem sempre se sai bem. Com a mãe que lhe dá certa liberdade, mas que nem sempre entende seus momentos de ira; com a garota que ama, que invade seu quarto, mas que não quer fazer sexo com ele; e com a inquilina que pretende abrir sua mente.

A mãe (Annette Bening) é a primeira a ser apresentada em Mulheres do Século 20, dona de reações inesperadas, e que deixa claro se tratar de uma comédia. Dá muito ao filho e não sabe como controlá-lo quando o mesmo toma – e pede – mais independência.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

mulheres-do-seculo-20-1

Nesse filme de cores fortes, de forma cômica para suavizar os problemas e de assunto, no fundo, tão sério, o clima de mudança passa pelas mulheres, a começar pela mãe – a certa altura em uma festa típica aos jovens da época, no fim dos anos 70, e ainda obrigada a ser, em outros momentos, a boa e velha mãe de séculos passados.

Por atravessar gerações, o diretor e roteirista Mike Mills elege-a o ponto central da história. Acerta em cheio. E Bening nunca deixa a desejar quando apresenta qualquer dúvida ou fragilidade, menos ainda quando precisa – mais de uma vez, ou várias – ser o ponto de união e de consciência, a convocar as outras mulheres a ajudá-la.

A segunda é a mais jovem (Elle Fanning), adolescente que nunca teve um orgasmo apesar de já ter experimentado sexo com alguns rapazes – poucos ou não. Simboliza a ponta oposta à mulher formada, a mãe: é a menina que, como o jovem adolescente, não sabe aonde correr, não sabe amar, vítima da frieza e das emoções da pele.

Escala os andaimes da casa do menino, em reforma, para chegar ao seu quarto. Entra pela janela para dormir com ele. Apenas dormir. Jamie (Lucas Jade Zumann), como outros de sua idade agiriam, enfurece-se por não tê-la por completo em seus braços.

Pois o filme de Mills fala de amores deslocados, incompletos, de situações que não preenchem os sentimentos de todos, de pessoas que não se compreendem. Alguns estão dispostos a ter muito, outras tentam escapar, fugir, como a menina que passa pela janela.

mulheres do século 20

A terceira, a inquilina (Greta Gerwig), viveu o suficiente para se deparar com alguns tropeços. Teve câncer, venceu a doença, mas por causa dela descobriu que não podia ter filhos. E descobriu, de quebra, que o câncer teria sido causado por um remédio tomado pela sua mãe, antes, justamente para engravidar.

A maternidade percorre o filme todo. A primeira mulher, a mãe, pede que as outras a ajudem na formação do filho. Talvez não cheguem a ser novas e outras mães. Ela tem consciência de que nesse meio complexo apenas uma mulher não dará conta dos questionamentos de alguém que cresceu nos anos 70, sob os efeitos sociais de uma guerra, frente à libertação feminina, à introdução de tantas novidades da ciência.

O menino vive também a era pré-Aids, e pouco antes de Ronald Reagan chegar ao poder. Mesmo com narrações que antecipam o futuro, o filme prefere o passado, retrato estampado por essas mulheres do século 20: a representação de uma sociedade ainda feita de excessos e felicidade, de liberdade e pluralismo.

Mills não apela à nostalgia boba. Suas imagens do passado – as reais, em fotografias, ou mesmo as da ficção – dão a ideia de quanto se perdeu, e o que se perdeu, dos dias em que meninos e meninas ainda fugiam com o aval dos pais, ou com eles ao lado.

(20th Century Women, Mike Mills, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Demônio de Neon, de Nicolas Winding Refn