Roger Corman

Os últimos homens da Terra

Cada homem reage ao isolamento à sua maneira. As similaridades entre Mortos que Matam e A Última Esperança da Terra – ambos do livro de Richard Matheson – passam pela situação, nunca pelas personagens. Em uma cidade devastada, sem vida, elas circulam de carro para tentar encontrar os mortos-vivos que batem à porta, toda noite, como exposição do inevitável.

O primeiro é o doutor Robert Morgan (Vincent Price). Homem pacato, de carro ajustado a seus contornos, de casa agradável não fossem as madeiras pregadas na janela, não fossem os zumbis que chegam à noite, em seu quintal, para gritar por proximidade, e até mesmo gritar seu nome: esses seres estranhos antecipam os mortos de Romero.

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Morgan é o herói provável, verdadeiro, um pouco chato. Price tem seu problema: pode ser perfeito à comédia macabra, como foi, tantas vezes, sob o comando de Roger Corman; por outro lado, falha ao tentar conferir a profundidade dramática que a personagem exige. Fala-se aqui do náufrago à sombra de esqueletos da civilização.

A situação carrega sozinha sua própria tragédia: a ficção científica espelha a realidade da época, seja nos anos 60 (com o medo da guerra nuclear, quando americanos e soviéticos chegaram perto de apertar o botão vermelho), seja no início dos anos 70 (com o acirramento dos conflitos políticos e sociais em uma sociedade dividida).

A personagem de Price, à contramão de Charlton Heston, veste-se como alguém ainda integrado ao passado, o pai de família em busca de seu cotidiano. Suas narrações oferecem conforto ao público pouco exigente e deixam ver a intimidade, para não dizer a fraqueza, do homem que parece ter saído de uma linha de produção.

Em A Última Esperança da Terra, Heston é diferente. Passa-se então ao herói formado. Empunhando uma metralhadora, ele atira em um prédio, depois nos mortos-vivos – mais vivos do que mortos – que saltam sobre seu carro conversível, no portão do quartel general em que vive isolado, a jogar xadrez e falar com sua estátua.

Enquanto os diretores Ubaldo Ragona e Sidney Salkow mantêm a esperança de que o mundo pode se regenerar ao longo de Mortos que Matam, Boris Sagal é direto, desde os primeiros instantes, em A Última Esperança da Terra: estão em cena os exageros da época, dos figurinos aos cabelos altos, e, sobretudo, o sentimento de que a humanidade fracassou.

Por outro lado, o término da versão de Ragona e Salkow é mais sombrio. Resquícios da paranoia da época, que deixa ver, em preto e branco, algo mais corajoso e sombrio: a representação de que os homens da ciência falharam – a começar pelo cientista à frente da história – e, por isso, sobraram os fanáticos religiosos.

Em Mortos que Matam, o encerramento dá-se no interior de uma igreja. Em A Última Esperança da Terra, Neville (Heston) termina de braços abertos, entre sangue, como o novo Cristo que oferece sua vida – seu sangue, literalmente – para salvar os outros (leia-se: a humanidade). São filmes impregnados por sinais religiosos.

O fanatismo dos falsos profetas, cheio de respostas fáceis, ganha espaço no planeta devastado. O sinal ainda segue atual: é a velha guerra entre a razão e o obscurantismo, entre liberais e terroristas, guerra que não exclui armas de ambos os lados, conflito que pede a presença do sacrifício como amostra de algo maior.

Os vilões tentam repovoar o mundo e não confiam nos homens anteriores. Quer dizer, nem Morgan nem Neville são os últimos seres. São, na verdade, os últimos de sua espécie, de sangue “puro”, ou de consciências liberais. Vivem na luz, não na escuridão. Os outros são vampiros que se alimentam do ódio, do medo, das profecias.

As profecias, nesse terreno de ficção científica, foram cumpridas: os homens apertaram o botão, levaram à guerra nuclear, às doenças, aos vírus perigosos e mortais. A razão fracassou. Volta-se ao passado. Séculos de progresso jogados no lixo. O último homem da Terra – sob a caricatura de Price, ou sob o peito forte e peludo de Heston – assiste à retomada dos monstros, entre dias de solidão e noites de confronto.

Quem são esses monstros? Zumbis? Vampiros? Leprosos? Em Mortos que Matam, alguns seres sobreviveram ao vírus mortal à base de uma vacina. São eles que retornam para perseguir o sobrevivente. Há mistério, medo, paranoia em todos os cantos. Price, desesperado, tenta se salvar. Termina na igreja. As sombras venceram a batalha.

(The Last Man on Earth, Ubaldo Ragona e Sidney Salkow, 1964)
(The Omega Man, Boris Sagal, 1971)

Notas:
Mortos que Matam: ★★★☆☆
A Última Esperança da Terra: ★★★☆☆

Foto 1: Mortos que Matam
Foto 2: A Última Esperança da Terra

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Sete grandes filmes nos quais o vermelho tem papel fundamental

A interpretação do vermelho aparece com certa frequência em análises de filmes. No cinema de Scorsese, por exemplo, fala-se do vermelho como aproximação da violência e mesmo da culpa católica. Há uma infinidade de exemplos. A lista abaixo traz apenas sete, a partir de filmes que se servem dessa cor – alguns mais, outros menos – como elemento de linguagem, com papel fundamental na história retratada.

Tudo o que o Céu Permite, de Douglas Sirk

Desde os créditos é possível ver tons avermelhados entre as folhas da árvore, mais tarde pela luz da pequena janela, quando a mãe consola a filha; ou o vermelho do vestido de Cary (Jane Wyman), ainda no início, ou o da roupa xadrez do homem que ela ama (Rock Hudson). E, ao fim, o vermelho que recobre a televisão e emoldura a mulher.

A Orgia da Morte, de Roger Corman

Vincent Price é o príncipe Próspero e talvez o próprio Demônio neste que pode ser o melhor filme de Corman. O vermelho chega primeiro em seu traje, na floresta entre sombras, quando dá uma rosa aos condenados que passam por ali. Também o vermelho do cômodo secreto, do figurino de uma protegida, a cor como aproximação da morte.

Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman

O filme envolve uma família monstruosa e tem direção de fotografia de Sven Nykvist, colaborador habitual de Bergman. O vermelho recobre os cenários. Entre suas possíveis representações, uma frase do cineasta sueco talvez forneça a mais exata: “Acho que o interior da alma humana se parece com uma membrana vermelha”.

Inverno de Sangue em Veneza, de Nicolas Roeg

Em um dos filmes mais assustadores de todos os tempos, o vermelho persegue as personagens a todo o momento: da tinta que cai sobre a foto, na abertura (e que antecipa a morte da filha), à capa vermelha que surge com frequência pelas vielas e espaços de Veneza. O vermelho como sinal do terror, do espírito da filha ou de algum psicopata.

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

Do sangue na faca ao sangue no vidro, com a mulher morta, o vermelho em questão é o escuro, como aponta o título original. Ou seja, o vermelho sangue. Entre os tantos momentos que evocam a cor, nenhum consegue resultado semelhante ao da palestra, na abertura, em um teatro, quando a médium (Macha Méril) entra na mente do assassino.

Sorgo Vermelho, de Zhang Yimou

O vermelho que recobre a heroína (Gong Li), no início, denota seu aprisionamento, seu sacrifício. O vermelho, no encerramento, estará por todos os lados quando os homens do campo decidem confrontar os japoneses que invadiram a China, momento em que a cor ocupa o céu e a terra, ao passo que pai e filho caminham sobre o sangue.

A Fraternidade é Vermelha, de Krzysztof Kieslowski

O projeto de Kieslowski, com três filmes banhados nas cores da bandeira francesa, termina com o vermelho. É o melhor dos três. Em cena, uma modelo (Irène Jacob) sente-se atraída ao mundo de sombras de um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant). Essa aproximação provoca mudanças em sua vida, em um filme sobre unificação.

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Jonathan Demme (1944-2017)

Se existe alguém que lhe parece ter encontrado antes, que você tem certeza de conhecer, que não se assemelha nem um pouco com o padrão megalomaníaco de Hollywood, essa pessoa é Jonathan Demme. É fácil compreender por que tanta gente, desde atores como Michelle Pfeiffer e Tom Hanks a popstars como David Byrne e Peter Gabriel, adora Demme: ele tem em amplo estoque a calma, a paciência, a retidão de caráter que faltam a quase toda a indústria.

Talvez seja porque Demme, em suas próprias palavras, “tropeçou no cinema”, vindo de uma carreira cheia de falsos começos e pequenos atalhos, trabalhando como crítico de cinema, divulgador, assistente de produção e, enfim, fazendo um curso prático e intensivo com um dos maiores descobridores de talento de Hollywood – Roger Corman, o rei dos filmes B.

De Corman, Demme guardou a flexibilidade, a sensatez, a capacidade de colocar o projeto acima, adiante do ego. Nada mau para um vencedor do Oscar, adorado pela crítica, responsável por dois dos maiores sucessos de bilheteria dos últimos anos, O Silêncio dos Inocentes e Filadélfia, mas que, antes disso, já tinha pelo menos uma década de trabalho constante, quase sempre silencioso.

Ana Maria Bahiana, jornalista, em A Luz da Lente – Conversas com 12 Cineastas Contemporâneos (Editora Globo; pg. 81; o livro foi publicado em 1996). As considerações de Ana Maria antecedem sua entrevista.

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Dez grandes filmes com universos delirantes

O universo delirante está ligado aos cenários, à representação dos atores, aos cortes, ao roteiro, aos efeitos especiais – e, às vezes, à junção de tudo isso. A lista abaixo traz dez filmes que mais parecem delírios, ou sonhos, e com atmosferas poderosas.

Vai de Resnais a Roger Corman, de Godard a Raoul Ruiz. Obras que revivem grandes autores (Kafka, Proust) para falar do passado ou mesmo para levar ao futuro difícil e ditatorial – às vezes não muito diferente do tempo das obras, como se vê em Alphaville. A lista poderia ir além, mas se detém a dez grandes filmes.

O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais

O caminhar pelo grande castelo evoca muitas perguntas, enigmas, enquanto o casal discute sobre um possível encontro no mesmo local, no ano anterior.

o ano passado em marienbad

O Processo, de Orson Welles

O próprio diretor interpreta o advogado e, para o papel do suposto culpado, está Anthony Perkins, perseguido pelo sistema e suas regras.

o processo1

A Orgia da Morte, de Roger Corman

Talvez a melhor obra de Corman, sobre moribundos tomados pela peste e o grande castelo do Príncipe Próspero e suas orgias regadas a rituais satânicos e libertinagem.

a orgia da morte

Alphaville, de Jean-Luc Godard

O cineasta francês recorre ao tempo sem tempo, passado e futuro, com traços de filme noir, de ficção científica e o contraste entre Eddie Constantine e Anna Karina.

alphaville

As Margaridas, de Vera Chytilová

Político sem parecer ser, a obra livre de Chytilová é uma das mais importantes da nouvelle vague tcheca e traz duas mulheres em uma jornada psicodélica.

as margaridas

Satyricon, de Federico Fellini

Na Roma de Fellini, o profano surge em todos os cantos. O tom é de libertinagem, com a jornada de dois garotos por um mundo sempre próximo de explodir.

satyricon

Alice, de Claude Chabrol

A adaptação de Chabrol para Alice no País das Maravilhas resultou em uma obra original, com a sempre excitante Sylvia Kristel como a mulher presa a um castelo.

alice

Eraserhead, de David Lynch

Lynch ganhou o status de surrealista devido a obras como Eraserhead, que coloca em cena suas obsessões e monstruosidades, ao mesmo tempo em seu universo de horror.

eraserhead

O Tempo Redescoberto, de Raoul Ruiz

O mergulho nos delírios ou lembranças de um escritor dá vez a uma obra original a partir de Proust. O emaranhado de situações não deixa saber qual é o início e o fim.

o tempo redescoberto

Holy Motors, de Leos Carax

Considerado um agitador, Carax compõe um filme às vezes bizarro, às vezes existencial, sobre um homem que vive muitas vidas em apenas um dia.

holy motors

15 damas da Grande Depressão

Dos dias obscuros da Grande Depressão surgem mulheres diferentes. Por exemplo, a ladra de Faye Dunaway em Bonnie e Clyde. Claro que há casos semelhantes, mas é provável que nenhum outro sintetize tão bem esse momento.

Quando realizou Renegados Até a Última Rajada – cuja história já havia sido levada às telas por Nicholas Ray em Amarga Esperança –, Robert Altman parecia se despregar da obra de Arthur Penn: não desejava necessariamente amantes loucos, entregues à balada agitada, mas amantes jovens, mais em fuga do que em conflito.

Fez algo belo, com a imagem final que resume à perfeição a Depressão Americana: à espera do ônibus, a jovem Keechie (Shelley Duvall) não é mais a mesma, e é levada pela multidão feita de gente simples, que sobe as escadas.

Da Depressão também surge a figura da assassina, da aproveitadora. E ninguém a fez tão bem quanto Lana Turner no poderoso O Destino Bate à Sua Porta – que já havia sido feito na Itália, com Obsessão, e mais tarde na versão de 1981, com Jessica Lange na pele da mesma personagem, Cora, a mulher atraente à beira da estrada.

A lista abaixo ainda contempla pequenos papéis, como a inesquecível Madeline Kahn em Lua de Papel, ou mesmo Zohra Lampert, cujo sorriso desesperador – a esconder a tragédia, a vida que não deu certo – surge apenas no encerramento de Clamor do Sexo, de Elia Kazan. Pouco ou muito em tela, elas resumem o tempo retratado.

Ann Darrow (Fay Wray), em King Kong

king kong

Panama Smith (Gladys George), em Heróis Esquecidos

heróis esquecidos

A garota (Veronica Lake), em Contrastes Humanos

contrastes humanos

Cora Smith (Lana Turner), em O Destino Bate à Sua Porta

o destino bate à sua porta

Angelina (Zohra Lampert), em Clamor do Sexo

clamor do sexo

Bonnie Parker (Faye Dunaway), em Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas

bonnie e clyde

Gloria (Jane Fonda), em A Noite dos Desesperados

a noite dos desesperados

Mona Gibson (Diane Varsi), em Os Cinco de Chicago

os cinco de chicago

Trixie Delight (Madeline Kahn), em Lua de Papel

lua de papel

Loretta (Dimitra Arliss), em Golpe de Mestre

golpe de mestre

Keechie (Shelley Duvall), em Renegados Até a Última Rajada

renegados até a última rajada

Cecilia (Mia Farrow), em A Rosa Púrpura do Cairo

a rosa púrpura do cairo

Clara (Isabella Rossellini), em Os Chefões

os chefões

Grace Margaret Mulligan (Nicole Kidman), em Dogville

dogville

Billie Frechette (Marion Cotillard), em Inimigos Públicos

inimigos públicos